quarta-feira, junho 04, 2008

Busca do "sentido da vida" e "ideia nacional" atrai leitores russos de Fernando Pessoa



Texto escrito por mim para a Agência Lusa a propósito do 120º aniversário de Fernando Pessoa

Uma rápida visita à internet russa mostra que o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) está longe de ser desconhecido entre os leitores russos.

Pelo contrário, traduzido por grandes poetas russos como Boris Pasternak, o autor do romance "Doutor Jivago", e Boris Slutski, Pessoa atrai os que andam à procura do "sentido da vida". Outros buscam na sua poesia a "ideia nacional".

"Os leitores russos não procuram a mesma coisa na poesia de Pessoa. Uns estudam na sua obra o fenómeno da heteronimia, que teve nele o expoente máximo e está ligado à tradição de Dostoievski" refere a professora Olga Ovtcharenko, em declarações à Lusa.

"Mas há outros - continua - que concentram as suas atenções na 'Mensagem', porque nela Pessoa estuda e revela a psicologia e ideia nacionais. Actualmente, na Rússia, assistimos a uma crise de identidade, de nacionalidade, daí o interesse pelo poeta português".

Segundo Olga Ovtcharenko, o escritor nacionalista russo Alexandre Prokhanov escreve muito sobre o Quinto Império, "mas as suas ideias sobre esse tema estão na obra de Fernando Pessoa".

Esta estudiosa da Literatura portuguesa reconhece que, primeiro, descobriu Camões e, depois, ao estudar a continuação da tradição camoniana na literatura lusa, chegou ao séc. XX e a Fernando Pessoa.

O seu interesse por Fernando Pessoa já se materializou na publicação de obras como "Fernando Pessoa e a tradição do ocultismo em Portugal", "Prosa oculta", "Concepção de Deus na obra de Fernando Pessoa" e "Problema do destino histórico de Portugal no ciclo poético de Fernando Pessoa".

Andrei Rodossky, professor de Língua e Literatura Portuguesas da Universidade de São Petersburgo, foi um dos que tentaram traduzir Fernando Pessoa para russo, mas desistiu.

"No início da minha actividade de tradutor, debrucei-me sobre 'Mar Português', mas essa tradução não foi publicada por ter um nível baixo e porque foram editadas traduções da obra de Pessoa de muito boa qualidade. Virei-me para Mário de Sá-Carneiro", disse.

Este professor é conhecido entre a comunidade lusófona na Rússia não só pela excelente tradução de obras de Mário de Sá-Carneiro, mas também de outros poetas portugueses modernos.

Rodossky atribui a existência de numerosas traduções da poesia de Fernando Pessoa para russo ao facto de "ele ser um lírico apurado, profundo, e de existirem traduções que dão uma imagem perfeita da sua riqueza poética".

"Obras como a 'Mensagem' são mais populares entre os russos que se interessam pela História de Portugal, enquanto que a maioria dos admiradores de Pessoa se interessa pela sua lírica, de um psicologismo profundo, que reflecte profundamente sentimentos e emoções", sublinha.

"Além disso - continua - a obra de Fernando Pessoa coincide temporariamente com o Século de Prata da poesia russa (primeiro terço do séc. XX). Este período era censurado pelo regime comunista e, quando cai, os russos estudam-no com intensidade, interessam-se pelo que se escrevia na Europa nessa altura e vão dar a Fernando Pessoa, um dos expoentes poéticos da época".

A obra poética de Fernando Pessoa foi numerosas vezes publicada na União Soviética e na Rússia.

Além das traduções de poemas dispersos por conhecidos poetas russos como Boris Pasternak e Boris Slutski (este ocupou-se da poesia do heterónimo Álvaro de Campos), é de salientar a publicação da colectânea "Lírica", com prefácio de Jacinto Prado Coelho, em 1978, "35 sonetos ingleses de Pessoa", traduzido por Valerii Pereleshin, bem como outras colectâneas em 1988 e 1989.

Pereleshin, pseudónimo de Valerii Salatko-Petryshche, foi um poeta que saiu da Rússia em 1917, depois da vitória da revolução comunista. Viveu na China até 1952 e depois no Brasil. É nesse país lusófono que este poeta traduz para russo parte da obra de Fernando Pessoa e alguns sonetos de Luís de Camões.

Mas a maior edição das obras poéticas de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Coelho Pacheco, Álvaro Campos) foi realizada em 1989 e nela participaram conhecidos tradutores russos de poesia portuguesa como E.Vitkovski, A.Guleskul, A.Kosse, B.Dubin, V.Reznitchenko e S. Aleksandrovski.

Em 1977, Olga Ovtcharenko publica a sua tradução da obra "Mensagem" e Boris Dubin edita em russo "Páginas Dispersas".

No ano seguinte, alguns poemas de Fernando Pessoa são publicados na colectânea "Estrofes do século -2", que reúne poemas dos maiores poetas do século XX.

Em 2006, o poeta português chega de novo aos leitores russos noutra colectânea: "Século da Tradução".

O interesse pela obra de Fernando Pessoa na Rússia aumenta consideravelmente nos últimos anos devido à publicação em língua russa dos romances "Os últimos três dias de Fernando Pessoa", de António Tabucchi, e "Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago.

"Foi o primeiro autor que li em português e gostei muito, porque não imaginava que numa língua cheia de "ches" se podia escrever poesia tão lírica e bela", declarou à Lusa Nikita Muraviov, estudante do primeiro ano de língua portuguesa do Instituto de Relações Internacionais de Moscovo.

"É o verdadeiro Pushkin português", qualificou. Alexandre Pushkin é considerado o maior de todos os poetas russos.

A poesia de Fernando Pessoa serve também para vender flores. Várias floristas russas citam o poeta português para promover a sua produção: "E o jardim tinha flores/De que não me sei lembrar... Flores de tantas cores... Penso e fico a chorar...".

Os versos de Pessoa "Se te queres matar, porque não te queres matar?" servem de mote a um estudo do Instituto de Psicoterapia e Psicologia Clínica da Rússia com vista a prevenir o suicídio: "Que dizer a um homem que está no telhado. Texto para impedir suicídios".

8 comentários:

Fomá_Fomitch disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fomá_Fomitch disse...

Os Russos parecem ter o gosto literário apurado. Não há qualquer duvida, ler os poemas de pessoa arrepia. Não me refiro só à "Mensagem" mas também aos heterónimos. Por acaso estou a ler os heterónimos, confesso que quando li a primeira vez a "Mensagem" e mesmo os heterónimos tinha 17 anos. Achei que Fernando Pessoa era um louco/tarado nacionalista, detestei, não era próprio para a idade. Hoje, quando estou a reler arrepio-me com a convicção dos versos, rio-me à gargalhada das criticas mordazes e até me emociono. A referencia a Dostoievski não surpreende pois há uma linha (sentido da vida/ existencialismo)que os liga, e ainda bem que assim é...

Ralf disse...

Caro José,
o Roberto Vecchioni publicou uma homenagem para Fernando Pessoa no YouTube.
Baseado no poema "Todas as cartas de amor são ridiculas".
O Video, os Lyrics em italiano, tradução para portugues e alemão encontra no link (meu nome/homepage).

vai gostar !
Talvez haja uma tradução para russo no seu blog ?
eu adoro este homenagem !
Ralf

Jose Milhazes disse...

Caro Ralf, eu vi esse trabalho. Infelizmente, em russo, só estão publicados poemas, não conseguiu encontrar outros trabalhos, a não ser a "musicação" (não sei este termo existe em português, mas os eleitores entendem) de poemas de Pessoa, mas sobre isso irá ser um texto meu dentro de um ou dois dias sobre esse fenómeno na Rússia e na Estónia.

lourrain disse...

Grande Fernando Pessoa! Creio que Fernando Pessoa e a sua obra é mais conhecido do que Camões e o épico Lusíadas. No Brasil toda a sua obra é alvo de estudo e objecto de todo o tipo de abordagens. No entanto é admirável o interesse dos russos pela obra de pessoa. Não sabia que havia tanto interesse na leitura da sua obra, tendo em conta que pessoa foi, e contínua a ser uma personagem enigmática não só como homem, mas também como escritor e poeta. A obra e o seu autor confundem-se, ou não serão eles a mesma coisa? De facto, é o maior autor da heteronímia e de um trabalho literário ímpar. Admirador de Cesário Verde, Padre António Vieira e Pascoaes, acaba por ser influenciado por estes, sendo o Padre António Vieira a musa inspiradora. Contudo, a meu ver e não tirando a valor da obra de Pessoa, ela é também perturbadora. Não nos esqueçamos que a ideia do Quinto Império do Padre António Vieira e a Mensagem de Pessoa complementam-se. Não sei se os russos estarão a par das várias correntes messianicas, sebastianistas e saudosistas que povoaram, e povoam, o imaginário portugues. Pessoa com ligações ao ocultismo e misticismo (Maçonaria e os Rosa Cruz), provavelmente, e na minha opinião, faz a síntese de todas estas correntes. Mais tarde só Agostinho da Silva retoma estes temas, desnvolvendo ele próprio a ideia do Quinto Império imbuida da Mensagem de Pessoa.
Sr. Milhazes pelo conhecimento que tenho, também alguns escritores russos escreveram e desnvolveram filosofias ligadas ao misticismo, sendo a mais conhecida a Sra Helena Blavatsky com o seu pensamento teosófico, será essa a razão de os russos serem receptivos à obra de Pessoa? Tenho conhecimento que os russos são um povo sentimantalista, tal como os portugueses talvez...saudosistas. Não sei se é verdade, talvez por isso gostem e compreendam a complexidade da escrita de Pessoa.

Fomá_Fomitch disse...

Excelente comentário! Muito pertinente, concordo plenamente consigo lourrain!

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Lourrain, estou de acordo com o seu comentário. A teoria do Quinto Império ter fortes raízes na Rússia, embora sob outro nome: "Terceira Roma", ou seja, Moscovo deve transformar-se no centro do Cristianismo universal depois da queda de Roma e Constantinopla. No entanto, vários pensadores modernos russos, entre eles Alexandre Prokhanov e outros, viraram-se para a mística do Quinto Império, mas ainda não consegui saber se esse pensamento está ligado ou não aos escritos do Padre António Vieira ou de Fernando Pessoa.
O sebastianismo tem, na Rússia, o seu equivalente: "o bom czar" que deverá vir e resolver todos os problemas. E, em geral,os russos são muito sentimentalistas e saudosistas, tais como os portugueses. Só que nós já só temos Portugal na Europa e eles têm ainda meio mundo.
Nós temos o fado, eles têm a romança, canções com temas muito semelhantes, onde se pode trocar a guitarra portuguesa por um piano ou uma viola. Penso que daria bom resultado se algum interprete de fado português, Mariza ou Carlos do Carmo, cantasse, acompanhado à guitarra portuguesa, as romanças "Olhos Negros", "Ia iekhal domoi" (Eu ia para casa) ou outros. Se eu fosse músico ou tivesse jeito para isso, já teria experimentado. Mas não sou. Como dizem os russos, eu sou daquelas cuja orelha foi pisada por um urso, ou seja, não tenho ouvido refinado, nem jeito para a música. Acontece.
Já um bispo ortodoxo russo do séc. XVI dizia que há traços comuns no espírito dos russos e dos portugueses, que a palavra russa "toska" tem tradução em português: "saudade". E até a famosa alma russa não é muito diferente da alma portuguesa, no que tem de bom e de mau. Mas isso seria uma longa conversa.

Mendonca Joao disse...

Caro Jose,

Tem toda a razao. Para alem da universalidade da sua obra, F. Pessoa e popular na Russia por razoes ideologicas. A teoria da terceira Roma nunca esteve tao em voga como agora. A prova e a recente encomenda cinematogarfica pelo Kremlin do filme de propaganda pro russa (aludindo ao imperio bizantino), intitulado Imperii de Otets Tikhon. O filme, para alem de ser uma perfeita ilustracao da dialectica nacionalista da administracao de Putin, multiplica as inepcias historicas, incluindo a peninsula iberica no dito imperio bizantino.
Nao querendo minimizar a qualidade literaria do grande poeta, e o bom gosto dos eximios leitores russos, evidemente.