terça-feira, junho 03, 2008

Estreia europeia do Presidente Medvedev vai realizar-se na Alemanha


O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, escolheu a Alemanha para dar início à sua política externa na Europa. A visita a Berlim, marcada para 05 de Junho, realiza-se depois da recepção triunfal ao primeiro-ministro Vladimir Putin em Paris.
Não obstante a visita ser de curta duração, o novo Presidente russo, que entrou em funções no passado dia 02 de Maio, vai encontrar-se com a chanceler alemã, Angela Merkel, com o presidente da Alemanha, Horts Kohler, e discursar perante cerca de mil políticos e homens de negócios alemães.
Este acontecimento está criar alguma expectativa, pois espera-se que Medvedev dê sinais que permitam compreender a sua política externa e até que ponto essa política é prerrogativa sua, como reza a Constituição russa, ou do chefe do Governo russo, Vladimir Putin.
“É difícil prever porque ele ainda não esteve na Europa, estará na Alemanha na quinta-feira, irá discursar perante um grande auditório, mil pessoas. Vamos ver o que nos dirá dizer, que sinal desejará transmitir-nos” – considera Alexandre Rar, analista político alemão.
“Será o seu primeiro discurso perante um público tão numeroso. Em toda a sua vida. Por isso esperamos com grande interesse, porque, se ele não disser nada, ficará claro que a parada continua a ser comandada pelo primeiro-ministro, antigo Presidente” – sublinha.
“Mas se ele utilizar esse momento, especialmente na Alemanha, e não num Luxemburgo qualquer, se fizer uma declaração directa sobre o que quer, num discurso semelhante ao que Putin pronunciou no Bundestag em 2001, no início da sua presidência, então irei olhar para ele de outra forma” – conclui Alexandre Rar, um dos mais fortes especialistas em relações russo-alemãs.
Medvedev irá abordar, nas conversações com Angela Merkel, o estado da cooperação económica e comercial entre os dois países. A Alemanha é o maior parceiro comercial da Rússia e, não obstante as divergências políticas face a alguns problemas internacionais, as relações económicas desenvolvem-se a bom ritmo.
“Em 2008, num cenário pessimista, a troca de mercadorias entre a Rússia e a Alemanha poderá aumentar 10-15 por cento e totalizar de 55 a 57 mil milhões de dólares, mas, num cenário optimista, crescerá entre 20 e 25 por cento, chegando aos 60-63 mil milhões de dólares” – lê-se num comunicado do Ministério de Desenvolvimento Económico da Rússia, publicado na véspera da visita de Medvedev à Alemanha.
A balança comercial continua a ser dominada pela importação, por parte da Rússia, de bens de consumo e maquinaria industrial, enquanto que a Alemanha importa, fundamentalmente, gás e petróleo.
Em 2007, a troca de mercadorias entre os dois países chegou aos 52,8 mil milhões de dólares (um crescimento de 23 por cento), tendo as exportações russas constituído 26,3 mil milhões de dólares (um crescimento de 07,3 por cento) e as importações 26,5 mil milhões (um crescimento de 44 por cento).
A Rússia garante à Alemanha 40 por cento do gás natural consumido nesse país, 33 por cento do petróleo, mais de 10 por cento de metais não ferrosos e adubos. A Alemanha exporta para a Rússia mais de 55 por cento da maquinaria industrial importada pelas empresas russas, 10 por cento dos produtos químicos, 07 por cento de produtos da indústria metalúrgica, 2,5 por cento de produtos da indústria de celulose e 01 por cento de texteis.
Alexandre Rar considera que Merkel e Medvedev poderão chegar a acordo sobre novos passos a dar com vista a ciar uma alianã energética russo-germânica.
Os dirigentes da Alemanha e da Rússia irão analisar também as relações entre a União Europeia e a Rússia à luz do início das conversações entre Moscovo e Bruxelas com vista à elaboração de um Acordo de Cooperação Estratégica entre a UE e Rússia.
O alargamento da NATO à Geórgia e à Ucrânia será outro tema da agenda. Moscovo tem em Berlim um aliado no que diz respeito ao adiamento do alargamento da Aliança Atlântica.
Oleg Ribatchuk, dirigente do projecto “Apoio Social à adesão da Ucrânia ao Plano de Acções para a Adesão à NATO”, declarou que, nos encontros que realizou em Berlim a 26 e 27 de Maio, ouviu de políticos alemães, nomeadamente de representantes de Angela Merkel, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Bundestag da Alemanha uma série de avisos.
“Uma série de causas pode dificultar a Ucrânia a obter, em Dezembro, o estatuto de participante do Plano de Acções para a Adesão à NATO: a falta de apoio social, a situação política interna conflituosa e o factor da segurança regional, por detrás do qual se esconde a posição da Rússia” – declarou ele.
Neste e noutros campos da política externa, o Kremlin continua a explorar as contradições existentes no seio da União Europeia, organização que não tem conseguido elaborar uma política única face a Moscovo.
Os dirigentes russo e alemão poderão abordar a questão da independência dos tribunais russos em relação ao poder político e outros direitos humanos, mas sem grandes consequências.
Medvedev pode fazer as mais lindas e prometedoras declarações na Alemanha, mas quem manda na Rússia é Vladimir Putin, e isso é sublinhado a todo o momento.

4 comentários:

Anónimo disse...

Não tenho muita experiência neste tipo de comentários, no entanto sempre tive um fascínio e interesse na história da extinta URSS, agora actual Rússia...
Sendo a Alemanha o parceiro comercial mais estratégico e representativo da Rússia, parece de facto uma escolha oportuna, desta primeira visita.
O presidente Medvedev é a face visível do ex Putine, o verdadeiro..uma linha de sucessão apostada na continuidade autocrática´; até agora muito fechada!
A eventual integração da Geórgia na aliança atlântica poderá desencadear e acentuar o conflito latente com a Rússia.
A independência dos tribunais face ao poder político quer sugerir uma jogada de charme...
Por último, creio que a UE tem de definir uma política externa consistente de cooperação com a Rússia com fim de relançar e criar novas oportunidades...
Rodrigo- viana

Jose Milhazes disse...

Caro Rodrigo, para pessoa que não tem muita experiência neste tipo de comentários, este seu comentário está muito bom. Estou plenamente de acordo com ele e escreva sempre e mais.

rouxinol de Bernardim disse...

A Rússia é um cadinho de sentimentos, um alfobre de culturas, um cocktail de mistérios. Quem sabe se este novo
«czar» não irá desencadear uma ainda maior abertura, uma maior flexibilidade?

A dependência do poder judicial face ao poder político, o controlo dos media, será que irão recrudescer, ou, pelo contrário, irá mudar (para melhor) o status quo?

Espero bem que a «conversão da Rússia» se processe nesse sentido pois a actual «situação» não é de molde a grangear muitas simpatias a quem defende os Direitos Humanos e a plenitude democrática!

Worldinare disse...

É preciso realçar tambéma importância deste encontro para a ecónomia alemã. A crise petrolifera que se arrasta por todo o mundo, faz da Russia um parceiro estratégico para a Alemanha e a maioria dos países de UE.
Quanto a mudanças não sei o que as pessoas esperam. Na teoria a Russia "cresce" dia após dia. Se é apenas uma questão de centralização do poder, então basta olhar para o outro lado do Atlântico e perceber que isso até nem causa muita estranheza.