segunda-feira, junho 02, 2008

Quando Portugal tinha grandes diplomatas


Monumento a Eça de Queirós, Póvoa de Varzim

Publico abaixo um pequeno trecho da obra de Eça Queirós "Cartas de Inglaterra". Escrito nos finais de séc. XIX, mas extremamente actual. É natural, pois, nessa altura, Portugal tinha grandes diplomatas como Almeida Garrett e Eça de Queirós.

"Não falemos mais na Europa. Não há, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Há hoje apenas um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um acordo tácito, permitem que cada um por seu turno se adiante – e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto de seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas do direito internacional, alumiadas por Ortolan e outros lumes, rouba-se de carabina alta e rompem a cada momento brados de povos assassinados.
A Europa, como os campos de corridas- em Inglaterra, devia estar coberta destes avisos em letras gordas: Beware of pick-pockets! (Cautela com os salteadores!). A pequena propriedade política tende a acabar. Toda a terra vai em breve reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietários... Ontem, era Tunes – porque a França necessita proteger a fronteira da Argélia. Hoje, é o Egipto, porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da Índia. Amanhã, será a Holanda – porque a Alemanha não pode viver sem colónias. Depois, a Sérvia – por motivos que a seu tempo a Áustria dirá. Mais tarde, a Roménia – porque a Rússia é forte. Depois, a Bélgica – porque sim. Depois... Este assunto é lúgubre.
Voltemos ao vale do Nilo!"

4 comentários:

fernando baião disse...

Foram homens que ainda hoje honram Portugal. Nos tempos que correm, todos, senão quase todos, são embaixadores de pacotilha, são incapazes de tomar posições por si próprios, quanto mais calados, mais tempo ficam no poleiro. No meu país, infelizmente, as coisas não são muito diferentes, mandamos para embaixadores, generais, se calhar, bons na guerra,mas muito maus na diplomacia.

Fomá_Fomitch disse...

Caro José Milhazes, este comentário não é ao seu post mas um pedido para que assine uma petição que depois de ler vai perceber a sua importância para os cinéfilos do Porto: http://www.petitiononline.com/Circuito/petition.html

Muito Obrigado

lourrain disse...

É incrivel como Eça descrevia a Europa no século XIX. Na verdade hoje em dia a Europa não mudou muito. Como não se suportam uns aos outros, criaram mecanismos politicos, tratados e vários compromissos para aliviarem as tenções que possam surgir. O projecto da União Europeia é isso mesmo.Infelizmente nem sempre conseguiram evitar guerras com resultados catastróficos como é o caso da Jugoslávia, cujo desmenbramento se deu perante a passividade europeia. Ou talvez não. Não terá a Europa contribuido e até fumentado essa desintegração devido a interesses politicos desconhecidos da opinião pública? O sarcasmo de Eça é implacável, com uma visão acutilante da realidade dessa altura e que no fundo não difere muito dos dias de hoje. Já não há colónias. Foram substituidas por outros paradigmas, como é a globalização, produtividade, competividade e outras teorias das quais pouco ou nada se sabe. Eça tem razão voltemos ao Nilo....ao inicio da civilização e criar uma outra humanidade.

inácio cristiano disse...

Eça chegou a ser promonitório...
tudo é cíclico, e os grandes estrategas se revelam, por porem na ordem do dia, algumas Oportunidades anteriormente "focadas" pelos grandes Diplomatas Universais.
Veja-se como Helmut Kool ganhou "Espaço Vital" trocando "tiros" por "marcos" de uma forma diplomaticamente incorrigivel, para atingir os mesmos fins!
Mas...em Portugal quem mais VIU embora virtualmente a liderança do Poder, esse foi Camões...e era rei...