segunda-feira, junho 09, 2008

Poemas de Pessoa musicados na Rússia e Estónia


Fernando Pessoa é um dos raros poetas portugueses com poemas transpostos para obras musicais por compositores do Leste da Europa. Por exemplo, Konstantin Nikolski, um dos “monstros do rock russo” dos anos 80 do século XX, musicou e interpretou alguns poemas pessoanos. No ano passado, depois de um intervalo de mais de 15 anos, editou o álbum “Ilusões”(na foto), cujo título foi buscar ao poema de Fernando Pessoa “O sono - Oh, ilusão! - o sono? Quem”.
Musicou ainda dois outros poemas do autor de "Mensagem": “Entre o sono e o sonho” e “Vida minha, de onde vens e para onde vais”. “Nos anos 90, pouco antes da edição do álbum “Vagueio sem caminho”, a minha mulher ofereceu-me, no dia de adversário, uma colectânea com a dedicatória: “Lê, penso que isto é para ti”. As canções surgiram logo que comecei a ler esses poemas surpreendentes”, recorda Konstantin Nikolski. "Eu penso que não é preciso compor música para os poemas, porque ela já está neles contida. O principal é adivinhar”, observa. Para o conhecimento da obra de Fernando Pessoa na Rússia contribui também a popularidade do grupo musical português Moonspell, principalmente pela sua composição “Opiário”, sobre versos do poeta.
O cantor russo Boris Vitrov interpreta “Canção antiga na taberna vizinha”, com letra de Fernando Pessoa e música de Robert Michaels. Também em língua russa canta-se o poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, do heterónimo Ricardo Reis. O poema “Ó sino da minha aldeia”, traduzido para estónio por Ain Kaalep, foi musicado em 1978 por Vejlo Tormis, um dos mais conhecidos compositores estónios contemporâneos. Em 2005, actrizes e cantoras estónias interpretaram essa canção para o disco “Laulud” (Canções). A poesia de Fernando Pessoa cativou também Veljo Tormis, um dos mais conhecidos compositores estónios. No início de 2008, foi editado um CD com obras do autor, entre elas o “Concerto para Coro Misto, Declamação e Sino", baseado no poema de Fernando Pessoa “Ó sino da minha aldeia””. É de assinalar que essas obras são interpretadas pelo coro de música religiosa ortodoxa “Cantores Ortodoxos”, sob a direcção do maestro Valeri Petrov. Versos de Fernando Pessoa servem de mote ao filme estónio “Sugisball” (Baile de Outono), do realizador Veiko Õunpuu, obra galardoada com o prémio Venice Horizon Award do Festival de Veneza de 2007. O filme começa com os versos do poema “Tabacaria” - “Fiz de mim o que não soube /E o que podia fazer de mim não o fiz” - ditos repetidas vezes pela personagem principal.

3 comentários:

lourrain disse...

È surpreendente a maneira como os poemas de Pessoa são adoptados para canções. Não sei se as traduções de portugues para russo e para estónio serão as mais correctas, mas alguma coisa terá de mudar da versão original e imagino que a música seja melancólica.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor, posso confirmar que as traduções são de muito boa qualidade. Não se trata de traduções à letra, mas literárias, poéticas, daí serem também facilmente musicáveis.

Flávio Gonçalves disse...

Pessoa, ponte de ligação nacional à Eurásia?