domingo, junho 08, 2008

Sinais do tempo: Iate de Abramovitch faz concorrência a cruzeiro Aurora


O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, anunciou hoje que pretende transformar a capital russa num centro financeiro mundial e o rublo numa das mais importantes divisas regionais de reserva.
“A transformação de Moscovo num poderoso centro financeiro mundial e do rublo numa das mais importantes divisas regionais de reserva são duas componentes fulcrais que visam garantir o poder de concorrência do nosso sistema financeiro. O respectivo plano de acção irá ser aprovado brevemente” - anunciou ele, ao abrir o Fórum Económico Internacional de São Petersburgo.
Medvedev declarou que a Rússia forma consequentemente mercados financeiros suficientes para manter um crescimento económico estável e criar condições iguais para a auto-realização dos cidadãos.
Segundo o Presidente russo, outra das prioridades da sua política económica é a integração mais activa da Rússia no mercado mundial de capitais, indispensável para garantir condições de concorrência iguais e um sério salto tecnológico.
“Já conseguimos êxitos significativos na atracção de capitais e, agora, começamos a estimular os investimentos das companhias russas no estrangeiro” - frisou.
Dmitri Medvedev acrescentou que os investimentos russos não têm natureza especulativa ou agressiva.
“Os últimos exemplos mostram claramente que as nossas companhias não só conservam os postos de trabalho quando chegam a novos mercados, mas também criam novos. Sublinho que as empresas russas falam de considerações pragmáticas, são movidas por considerações pragmáticas. As suas acções serão transparentes, baseadas na consideração dos interesses dos parceiros e no respeito do Direito Internacional e das legislações nacionais” - disse.
O dirigente russo defendeu também que o papel exageradamente grande dos Estados Unidos na economia mundial foi uma das causas da presente crise económica.
“O desfasamento entre o papel formal dos Estados Unidos no sistema económico mundial e as suas possibilidades reais foi uma das causas centrais da presente crise. Por muito grande que seja o mercado americano, por muito seguro que seja o sistema financeiro americano, eles não estão em condições de substituir os mercados globais de mercadorias e finanças” - considerou Medvedev.
O novo senhor do Kremlin anunciou que a Rússia está pronta a participar na formação de novas regras de jogo, sublinhando que isso não se deve a “ambições imperiais”.
“Compreendendo toda a responsabilidade pelo destino do mundo, queremos participar também na formação de novas regras de jogo, não devido às famigeradas “ambições imperiais”, mas porque possuímos neste campo possibilidades evidentes e os respectivos recursos” - frisou.
O presidente russo defendeu também que os esforços feitos pelo seu país com vista ao desenvolvimento do seu complexo de combustíveis e energia são um contributo para a estabilização dos mercados energéticos globais.
Medvedev recordou que a Rússia atrai investimentos privados para o seu sector da energia eléctrica, aumenta as capacidades de transporte de recursos energéticos, bem como decidiu liberalizar o mercado do gás e diminuir a carga fiscal no sector petrolífero.
Semelhantes passos não só reforçam o complexo energético russo, mas constituem um contributo de peso para a estabilização dos mercados energéticos globais” - frisou.
O dirigente do Kremlin lembrou que foi precisamente o seu país que propôs, na Cimeira de São Petersburgo do G-8, a concepção da segurança energética, cujo lema é a responsabilidade dos produtores e consumidores de recursos energéticos, bem como dos países por onde passam esses recursos.
O dirigente russo apelou à continuação do diálogo intensivo com vista à criação de uma arquitectura eficaz da política alimentar mundial.
“Há 100 anos atrás, a Rússia era um dos maiores fornecedores de trigo no mundo e o aumento da produção na Rússia é vantajoso não só para nós, mas também para o mercado alimentar global. É vantajoso também o emprego de fontes de energia como os recursos hídricos e a energia nuclear, conseguida com base em tecnologias seguras” - acrescentou.
Medvedev frisou que os institutos especializados das Nações Unidas poderão ser centros dessas discussões.
O Fórum Económico de São Petersburgo reúne, na segunda maior cidade da Rússia, parte significativa da elite económica e mundial.
Tiago Monteiro, condutor de automóveis, é o único português a participar em reunião tão importante, devendo intervir numa das numerosas mesas redondas que se realizam no âmbito do fórum.
Mas esta assembleia é também mais um desfile de vaidades para a elite empresarial russa. O magnata russo Roman Abramovitch fez-se transportar para São Petersburgo num dos seus enormes iates.

As medidas do barco do dono do Chelsea são de tal forma grandes que não foi possível atracá-lo em nenhuma das marinas locais e teve de encostar ao cais onde se encontra o cruzeiro "Aurora", cujos canhões, a 07 de Novembro de 1917, deram o sinal de partida para a revolução comunista.

8 comentários:

dvfer disse...

Acredito que Moscovo tem tudo para se tornar um grande centro financeiro do mundo nos próximos tempos. Quanto ao rublo como importante moeda de reserva, já não tenho tanta certeza....

Fomá_Fomitch disse...

Tarefa difícil... Os investidores não são loucos! Um país onde os donos dos bancos (Instituições Monetárias e Financeiras) usam os depósitos e outros investimentos financeiros para financiar negócios próprios, não haverá um mercado financeiro atractivo para grandes investimentos internacionais e é com esses grandes investimentos que se cria o grande "centro financeiro" como nova York e Frankfurt onde os mercados são transparentes... Muito a fazer quando a corrupção e os negócios pouco transparentes ainda persistem!

Jose Milhazes disse...

Caro Fomá, o seu raciocínio tem toda a lógica, mas não nos devemos esquecer que os investimentos na Rússia dão dividendos muito significativos, daí serem muitos a arriscar. Concordo consigo que só com uma luta real à corrupção e alguma transparência nos negócios se possa alcançar alguma coisa.
A Rússia, nos últimos anos, deu um grande salto, mas devido ao petróleo e gás. Em comparação com as economias de outros estados da antiga URSS, os dirigentes russos não fizeram nenhum milagre e continua a não estar provado que sejam os actuais senhores capazes de fazer com que o país dê o salto da modernização. Aqui é que tenho sérias dúvidas.
Tanto mais que alguns dirigentes russos, como, por exemplo, Iúri Lujkov, Presidente da Câmara de Moscovo e, ao mesmo tempo, esposo da mulher mais rica da Rússia (Que coincidência!) já está a propor vender a água dos rios siberianos para a Ásia Central, ou seja, não será preciso modernização para continuar a chuva dos petro-euros e -dólares, mas apenas construir canais para transportar água. Segundo os cálculos dele, isso poderá trazer anualmente ao país mais de 20 mil milhões de dólares. DEpois da água, pode ser que encontrem mais alguma coisa...

Fomá_Fomitch disse...

Caro José, o discurso do novo presidente até parece aberto ao investimento estrangeiro, mas ele tem de deixar que esse investimento se realize sem entraves na industria e não nos serviços. A Rússia tem um potencial enorme na industria mas ele só despertará quando houver investimento estrangeiro que traga concorrência, a industria nacional sujeita ao mercado torna-se mais competitiva mesmo que tenha custos socais no inicio mas os petro-dólares ou euros podem pagar esse custo. O proteccionismo não é caminho. Os entraves são os que o Sr. conhece como ninguém (apenas conheço por algum estudo do país): corrupção em toda a escala de poder, débil sistema financeiro e maus políticos. É bom que estes dirigentes acordem pois mais 20 anos e tornam-se numa "Arábia Saudita" no leste Europeu.
Cumprimentos

Jose Milhazes disse...

Caro Fomá, estou plenamente de acordo. Apenas acrescento que a Rússia não deve repetir o erro da União Soviética de tentar fazer tudo sozinha com os resultados conhecidos, mas se saiba integrar na ciência, indústria mundiais.
Quanto ao transformar-se numa Arábia Saudita da Europa de Leste, não acho boa ideia, porque esse país nada mais faz do que vender petróleo e de ser um dos centros mundiais do wahabismo. Em que contribuiu esse país para a civilização mundial. Além de ter muito dinheiro do petróleo e de ter Meca, nada mais se conhece de extraordinário que tenha sido feito por cidadãos desse país. A não ser que esteja enganado. Seria melhor que a Rússia continuasse a ser Rússia e investisse os grandes lucros do petróleo e gás no desenvolvimento do que tem de bom: literatura, música, cultura em geral, ciências fundamentais,etc.

Fomá_Fomitch disse...

Caro José, quando me referia a à Rússia se transformar numa "Arabia Saudita" estava a ser sarcástico. Não quero que isso aconteça de forma alguma porque concordo planamente consigo na descrição que fez desse país.
Dos ramos que referiu apenas conheço bem a literatura (Dostoievski, Tolstoi, Gogol, Pushkin), é sem duvida uma area em que tem um enorme potencial...

Cumprimentos

JTS disse...

Caro Jose' Milhazes,
apenas por curiosidade, gostava de lhe dizer que por acaso vi "in loco" o iate de Abramovich aqui em Piter e realmente e' de dimensoes impressionantes. Vi-o nao propriamente no local do "Aurora" mas na margem sul do Neva, aqui mais chegado 'a Teatralnaya.
O que e' curioso e' que estava junto a um paquete enorme mas era o "pequeno" iate que atraia todas as atencoes. Apesar de ser ja 1am, a rua estava entupida de carros de curiosos que quiseram ir ver/fotografar o barco! Apenas me ocorre dizer que realmente o sr. nao se trata nada mal....!
Abraco de SPb

Jose Milhazes disse...

Caro maestro JTS, deve ser uma visão impressionante, tanto mais nas noites brancas. Um abraço.