quarta-feira, setembro 17, 2008

Afinal, o que pretende o Kremlin?



Os resultados do conflito entre a Geórgia e a Rússia no território da Ossétia do Sul fizeram crer ao Kremlin que Moscovo passou a ser um dos pólos da política mundial. Porém, os dirigentes russos não conseguem encontrar formas de tornar esse pólo atraente no campo internacional, arriscando-se uma vez mais a isolar o seu país.
As acções das tropas russas na Ossétia do Sul foram justificadas com o facto de a Rússia pretender defender os seus cidadãos aí residentes, mas, olhando para os últimos acontecimentos, constata-se que o principal objectivo da política de Moscovo é simplesmente anexar a Ossétia do Sul e a Abkházia.
“Tudo o que se passa no interior da Ossétia do Sul e da Abkházia já não tem a ver com actividades de manutenção da paz. Depois do reconhecimento dessas repúblicas pela Rússia, serão criadas aí bases militares, serão aquartelados contingentes militares da Federação da Rússia como resposta ao pedido dos poderes legalmente eleitos desses dois Estados soberanos”, declarou hoje Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, numa intervenção perante membros do Comité para Assuntos Internacionais do Conselho da Federação (câmara alta) do Parlamento russo.
Lavrov tenta convencer os parceiros da Comunidade dos Estados Independentes de que esses casos não são precedente para outros conflitos, nomeadamente na Transdniestria e Nagorno-Karabakh, mas o facto é que ainda nenhum deles reconheceu a independência das duas regiões separatistas da Geórgia.
Apenas a longínqua Nicarágua foi ao encontro do apelo do Kremlin, decisão que poderá ser seguida por Hugo Chavez durante a visita a Moscovo na próxima semana.
Serguei Lavrov declarou, no mesmo encontro, que “não caíremos de forma alguma no anti-americanismo, nem iremos responder segundo o princípio 'olho por olho' e, claro está, não permitiremos que nos façam zangar com a Europa”, mas os factos mostram precisamente o contrário. O que significam, por exemplo, os voos demonstrativos de bombardeiros estratégicos russos no Mar das Caraíbas? Será isso uma forma de o novo pólo ganhar adeptos entre a comunidade mundial?
Até agora, Moscovo tem recebido o apoio de forças de esquerda ligadas ao antigo regime comunista da URSS, cegas por um anti-americano primário. A cegueira é de tal forma ou a hipocrisia é tanta que essa esquerda não dá conta da política económica e social dos dirigentes russos, onde manda o capitalismo mais selvagem, a desigualdade social, a corrupção, etc.
Se Moscovo pretende realmente ser um pólo positivo da política mundial, deverá arranjar outras formas de actuar, que não a cópia fiel dos erros cometidos pelos Estados Unidos. Ao responder com a independência da Ossétia do Sul e Abkházia à independência do Kosovo, o Kremlin não tapou a “caixa de Pandora”, mas escancarou-a ainda mais.
A Rússia atravessa agora uma grave crise financeira. O dinheiro ganho com o petróleo e o gás poderá permitir que o país a supere com poucos prejuízos, mas não chegará para a remilitarização do país ou para outras aventuras no campo internacional.
Mais um sinal aos dirigentes russos que será mais sensato virar-se para a modernização do país, mesmo que isso implique um menor protagonismo seu na arena internacional.

25 comentários:

Anónimo disse...

Sr Milhazes: gostei muito deste post, sobretudo os seus últimos paragrafos. A "vitória" q obtiveram contra a Georgia sempre considerei q era uma vitoria pirrica e q no futuro tal desfecho dos acontecimentos acabaria por afectar mais a Russia do q a outro pais no mundo. Ao meu ver, desde o tempo dos Czares, a politica da russia para o Caucaso era e é "suicida" e q de todas as escolhas possiveis acabavam por fazer quase sempre as mais erradas ( as guerras da Chechenia).
Como já parece habitual na historia da russia, a sua grande inimiga é sempre ela própria. Enfim, parece q a história se está a repetir duas vezes... Agora nos resta assistir a farsa.
assina Brites de Almeida

Gilberto Mucio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gilberto Mucio disse...

Perfeita análise, caro Milhazes.

Não entendo o pensamento dessa gente de esquerda, ao apoiar a Rússia nessas sandices ultrapassadas. Certamente isso é motivado por um anti-americanismo infantil e primário, e também por profundo desconhecimento do que se passa neste país(Rússia)-- como você bem falou-- capitalismo selvágem amoral, meta-capitalismo, corrupção endêmica e crônica, desigualdades aumentando a cada dia...

Com o perdão da palavra -- são uns idiotas(a esquerda apoiadora do Kremlin)!

Gosto muito da Rússia, país que vivo, e por isso mesmo sou tão crítico.

Wandard disse...

NOVA YORK, EUA (AFP) — As bolsas em todo o mundo registraram fortes perdas nesta quarta-feira, apesar do socorro sem precedentes do Tesouro americano ao grupo de seguros AIG.

Sacudidos na segunda-feira pela quebra do banco americano de investimentos Lehman Brothers, os mercados voltaram a balançar com a ameaça de falência da American International Group (AIG), que recebeu uma injeção de 85 bilhões de dólares do Banco Central americano (Fed).

Após cair 504 pontos na segunda-feira, no pior recuo desde os atentados de 11 de setembro de 2001: o índice Dow Jones de Wall Street voltou a mergulhar hoje, cedendo 4,06%, seguido pelo Nasdaq, 4,94%.

As Bolsas latino-americanas foram arrastadas por Wall Street, com São Paulo perdendo 6,74%, México, 4,7%, Buenos Aires, 5,07% e Santiago, 2,57%.

Na Europa não foi diferente: Londres caiu 2,25%, Paris, 2,14%, Frankfurt, 1,75%, Amsterdam, 3,83%, Estocolmo, 3,65%, Bruxelas, 3,13%, Madri, 2,29%, Zurique, 1,17%, Milão, 2,52%, e Lisboa, 1,87%.

O índice europeu Eurostoxx 50 perdeu 2,49%. O Latibex, índice que reúne 38 valores latino-americanos cotados em euros na Bolsa de Madri, perdeu 63,3 pontos (2,34%).

Os mercados asiáticos receberam favoravelmente o socorro à AIG, mas logo em seguida a atenção se voltou para o banco britânico HBOS, o maior provedor de hipotecas da Grã-Bretanha, cujas ações caíram 52% antes do anúncio do interesse do Lloyds TSB.

Tóquio escapou e fechou em alta de 1,21%, mas Hong Kong perdeu 3,6% e Xangai, 2,9%.

"Vamos ver mais vítimas no setor financeiro. Se as condições do mercado são tão ruins que um gigante como a AIG precisa de ajuda do governo, o que ainda vai acontecer com os atores pequenos e médios?" - perguntou o analista Julian Jessop, da Capital Economics.

"A idéia do governo assumindo mais passivos não é reconfortante", explicou Patrick O'Hare, da Briefing.com.

"O mercado é muito volátil. Há muitas informações e rumores circulando", disse Mace Blicksilver, da Marblehead Asset Management.

A operação de salvamento da seguradora AIG trouxe ainda mais temores para o mercado, que ao invés de se tranqüilizar, voltou a se perguntar sobre a real gravidade da crise.

Como reflexo do nervosismo que envolve o mercado, os preços do ouro dispararam.

No London Bullion Market, o preço da onça de ouro passou de 779,50 na terça-feira para 834,02 dólares nesta quarta.

Outros mercados de países emergentes, a exemplo da Rússia, seguiram caindo após a terça-feira negra, quando Moscou registrou seu pior recuo em um dia desde a crise financeira de 1998.

A situação crítica obrigou o Banco Central russo a intervir, reduzindo drasticamente os requisitos para empréstimos ao setor privado.

O ministério russo das Finanças anunciou a injeção de 350 bilhões de rublos (10 bilhões de euros) no setor bancário.

A Rússia deve injetar 130 bilhões para segurar a crise, mas conforme os índices informados pela AFP e pela Reuters podemos ver que a crise atinge todos os países, sendo o epicentro os Estados Unidos que começam a demonstrar as consequências de sua política nos últimos oito anos. As 13:30hs horário de Lisboa o petróleo registrou alta de 4 dólares na bolsa de New York, ultrapassando os Us 100,00. É evidente que os Estados Unidos queimarão suas reservas e aumentarão sua produção no sentido de aumentar a oferta do produto internanmente e derrubar o preço internacional, afetando os comodities Russos, mas isso não representa que o crescimento Russo e suas reservas financeiras sejam afetadas drásticamente, senão países como o Brasil que também apresentam recordes de produção petrolífera, descobertas de novos lençois e lucros crescentes que contribuem fortemente para suas reservas também teriam um futuro obscuro. Nenhuma atitude do Kremlim pode ser criticada em relação à sua política, enquanto os países da União Européia que possuem tropas ocupando outros países, a exemplo do Afeganistão e do Iraque, retirarem suas tropas e passarem a respeitar a soberania destas nações, se a Rússia não tem direito, estes também não o tem, e o primeiro passo não tem que ser dado pela Rússia, ou será que a prepotência Americana e Européia ultrapassa seus constantes discursos de Direitos Internacionais, é como sempre digo, quando se trata da Rússia ela sempre está errada é incrível, parece que os Europeus são cegos ou só querem enxergar da maneira que lhes é de seu interesse.

Anónimo disse...

A pergunta esta mal feita sr josé milhazes, deveria antes perguntar o que pretende wachington..
farei 2 perguntas se quiser responder agradeço.
1-A georgia atacou as 2 provincias
acha mesmo sinceramente que a russia não deveria reagir e que esse ataque foi feito sem apoios internacionais?( e não me venha dizer que isso não está provado, porque essa atitude seria sim digna de um puro-soviético)
2-Acha mesmo que os EUA e alguns paises ocidentais têm legitimidade para acusar a russia de ir de encontro a lei internacional por reconheçer as 2 republicas?

Fico estupectacto com afirmações e opiniões feitas por pessoas a residir na russia.O que se está a passar a nivel internacional é a tentativa final de isolar a russia e impedir o ressurgimento de um poder que possa competir com a NATO, isso não tem nada a ver com o facto do governo russo ser muito ou pouco democratico.
Os euro-deputados portugueses têm tido uma posição exemplar nestas matérias e sugeria que ouvissem a opinião
São euro-deputados da extrema esquerda, esquerda, centro-esquerda, centro-direita e direita, mas todos eles têm a mesma visão do conflito do caucaso.
É um reflexo de uma politica agressiva de wachington em relação á russia, do abandono do tratado ABM, interesses economicos(a ideial fundamental é controlar o cazaquistão) e muitas outros factores.
Nestes ultimos meses do mandato de bush vai haver supresas, estejam atentos as manobras de israel e consequentemente dos EUA.

links dos videos;

http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?tvprog=15373&idpod=17129&formato=wmv

http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?tvprog=15373&idpod=17332&formato=wmv

v.

Gilberto Mucio disse...

Há pessoas que vivem de falsos dilemas..

Jose Milhazes disse...

Caro autor anónimo V., leia com mais atenção os textos. Talvez você fique espantado por não residir na Rússia, país pelo qual tenho muito respeito, Considero que há outras formas de responder às tontarias ou crimes dos outros que não imitá-los. Quer um exemplo disso, a China. Embora não simpatize nada com a direcção desse país, não se pode negar que, no campo internacional, ela tem feito um trabalho inteligente. E não anda todos os dias a badalar que é uma superpotência.

MSantos disse...

O que prentende o Kremlin? muito simples: o ressurgimento da União Soviética e o seu restablecimento como superpotência. Talvez não se venha a chamar União Soviética, talvez sim, mas sem as repúblicas "socialistas", seja o que for, o grande espaço continental russo e a sua afirmação no panorama mundial. Do ponto de vista russo, o seu governo é criminoso, mafioso e outros adjectivos que não vou referir, para além da forma bruta de fazer as coisas. No entanto não podemos também ver o mundo a preto e branco, e a realidade é que a Rússia foi cercada sem motivo, e quem comanda todos estes paíseszecos que a defrotam, não tenham a menor dúvida: são os EUA com a administração mais incompetente e belicista que o mundo conheceu, para impedir quem lhes possa retirar a mínima vantagem económica (sim, é só isso que se trata). Para os senhores quem vêm anti em tudo, devo advertir que venero os EUA como nação e povo, um exemplo é um dos mais nobres e belos documentos da história da humanidade: a primeira constituição americana ( e por paradoxo, a mais próxima do socialismo). Quem apoia a política americana hoje em dia, só pode sofrer de facciosismo e seguidismo ao defender o indefensável, porque mesmo os líderes (dignos desse nome) republicanos de outrora, nunca se reveriam nesta barbaridade actual.
Manuel Santos

Anónimo disse...

sr josé milhazes eu leio os seus textos com muita atenção, a impressão que tenho como leitor é que o sr gosta da russia, mas não do regime.Eu compreendo a sua perspectiva, no entanto, eu acho que nesta situação(caucaso) a russia foi obrigada a reagir e não tinha muita mais margem de manobra para fazer as coisas de outra forma.
O governo russo pode ser acusado de muitas coisas e estou de acordo consigo, mas neste caso, de nada ou muito pouco pode ser a russia acusada.

v.

xico ribeiro disse...

Caro Sr Milhazes, como eu estou de acordo com o seu ponto de vista. É um retrato fiel do actual comportamente da russia, dirigida por um poder, autocratico/ oligarquico/capitalista.
Pouco lhe interessa quem são os seus companheiros de jornada, alias já são habitos antigos (aliança com os NAZIS),e que dificilmente perderam esses habitos.

Anónimo disse...

A Rússia tem concedido passaportes russos para habitantes da Criméia faz um bom tempo. E li algo que em apenas 4 anos mais de 90% da população já tem. Prontos para lutar contra a Ucrânia...bem, não esqueçam que a Ucrânia não é a Geórgia, seu poder bélico é muito maior.


zé carlos

Anónimo disse...

Gilberto Mucio

Não fiques admirado com isso, a URSS foi aliada da Alemanha Nazista no início da Guerra. O anti-americanismo dessa gente é tão imbecil que chegam a defender um país onde reina um capitalismo mais selvagem e excludente da Europa como a Rússia!!! Um país governado por uma classe capitalista (a oligarquia) manipuladora e concentradora de renda como nenhum país do mundo. Ou vão achar normal que um país com um PIB menor que da Espanha tenha quase tantos bilionários quanto a Alemanha ou Japão.
Consiste na maciça acumulação de riquezas em poucas mãos, adquiridas não tanto por aquisições no campo produtivo como também pela constante redistribuição da riqueza nacional da base para o topo por meio da redução de impostos dos ricos e favorecimento de novos privilégios aos grandes negócios e, simultaneamente, destruindo mecanismos e estruturas sociais criados no pós-Segunda Guerra Mundial.

De que forma a oligarquia russa amontoou tanto dinheiro? Principalmente através da pilhagem dos recursos naturais, e como resultado da expansão do mercado financeiro. Quase todos os bilionários russos controlam a exportação de matérias primas—petróleo, gás e metais básicos. As elevadas cotações mundiais das matérias primas propiciaram a esses exportadores receitas recordes. Noutras palavras, a incrementada riqueza dos russos abastados não é reflexo do crescimento real da economia e da elevação do padrão de vida, mas na verdade evidencia a permanência da situação geral do pais como exportador de matérias-primas e também de apêndice do mercado capitalista mundial, além de manter-se sua condição de miserabilidade da maioria absoluta da população.
A realidade é que a os oligarcas russos continuam a determinar integralmente as decisões parlamentares e governamentais e mesmo que eles estejam dispostos a desistir do domínio dos mais lucrativos setores da economia russa, ainda assim receberão enormes compensações. Todos os problemas restantes são deixados por conta do orçamento e serão pagos pelos contribuintes comuns.
A despeito dos esforços dos ideólogos do Kremlin e de todos aqueles a insistirem que as políticas do governo de Putin constituem a restauração parcial da justiça social e a prática de alguma oposição às condições vigentes sob Boris Yeltsin na década de 1990, seu conteúdo real representa a garantia ainda maior dos ilimitados privilégios estabelecidos de uma minoria insignificante ao próprio enriquecimento às expensas da maioria da sociedade. O chamado nacionalismo é exatamente uma outra forma assumida pela crescente desigualdade social.
Mas pode ser que um dia o povo russo acorde de fato...

zé carlos

Fernanda Valente disse...

«…olhando para os últimos acontecimentos, constata-se que o principal objectivo da política de Moscovo é simplesmente anexar a Ossétia do Sul e a Abkházia»

Não concordo.
Penso que a criação e instalação de contingentes militares russos nestas duas regiões terá mais a ver com uma política defensiva de antecipação por parte dos dirigentes russos, em relação à posição da comunidade internacional reservada para depois das eleições americanas. A Geórgia irá integrar a Nato – essa é a opinião dos dois candidatos à presidência dos EU – e, uma Geórgia protegida, militarmente falando, terá toda a legitimidade, do seu ponto de vista, para reclamar os territórios que lhe foram subtraídos com a bênção da Rússia. A opinião da população não interessa para nada. O conflito permanece, só foi adiado por causa da crise dos mercados financeiros e será retomado a médio prazo.
Na mente dos dirigentes russos, eles já estão em guerra com os EU; pretendem conhecer bem os amigos, testando-os e obrigando-os a definirem-se sobre de que lado é que eles estão (UE).
A Rússia já não volta atrás e eu não estou a ver a comunidade internacional a reconhecer a independência das duas regiões separatistas. Como este impasse irá ser resolvido, a ver vamos. No entanto, penso que o próximo presidente dos EU usará de toda a diplomacia ou pedagogia para empurrar o assunto para a esfera do direito internacional, com o arbítrio das instâncias jurídicas competentes, e aí, necessariamente, entrará o Kosovo no jogo.
Estou bastante surpreendida com a política seguida por Medvelev, coerente e rectilínea; inclusive no que diz respeito à sua intenção de delimitar oficialmente as zonas do Ártico que têm vindo a ser reclamadas pela Rússia e países limítrofes.

Gilberto Mucio disse...

Falastes (quase)tudo, caro Zé Carlos.

Só discordo do "aliada da Alemanha Nazista no início da Guerra". Apesar da omissão, quase criminosa, de Stalin, a URSS não chegou a ser "aliada" dos nazistas não.

osátiro disse...

As declarações de Lavrov são espantosas e só não merecem escãndalo porque os media internacionais andam obcecados com mariquices de anti-americanismo paranóico com Mrs Palin.
Então Moscovo, uma potência nuclear,com um super exército, precisa de plantar bases militares na Ossétia do S e Abkásia para se defender da Geórgia? Então as bases que eles têm ali a escassos Kms não chegam?
1- os erros crassos deste Kremlin ultrapassam os da URSS que-creio eu, o José saberá melhor- nunca foi tão aventureirista (à excepçãao de Krustchev e a crise de Cuba);
2-A esquerda portuguesa e alguma europeia tem revelado nesta crise o que realmente é: defendem o capitalismo selvagem da Rússia (como da China) só para serem anti americanos;
3- A UE tem sido tão inoperante que foi preciso os USA irem à Geórgia, Azerbaijão e Ucrânia garantir a independência e soberania destes Estados;
4-Se a NATO tem apoiado a iniciativa Bush de integrar a Geórgia e a Ucrânia, Moscovo não teria coragem de invadir a Geórgia e preparar-se para fazer o mesmo na Crimeia: foi a fraqueza da UE que deu alento ao Kremlin;
5- A nova militarização levada a cabo por Moscovo será suicida a médio prazo: as receitas energéticas não dão para tudo, e é natural que a população exija melhores níveis de vida;
6- É hilariante ver alguns "comentadores" admirados com as críticas das pessoas que residem na Rússia: os que lá vivem é que conhecem a situação;as histórias da carochinha e cassetes estalinistas são produtos de marketing para enganar pacóvios.

Pippo disse...

Já vi aqui escrito por mais que uma vez que a Rússia deveria deixar de competir militarmente com o Ocidente e investir em outras formas de aumentar o seu poderio, nomeadamente copiando a China.
Ora, o paralelismo com a China é falacioso, por vários motivos:

Logo para começar, porque a China nunca foi uma superpotência, não tem esse historial e não nutre sentimentos de perda de poder e território, ao contrário da Rússia;

Por outro lado, o potencial militar chinês ainda é bem mais fraco que o russo. O melhor que os chineses têm é material, precisamente, comprado a Moscovo, como os Su-30MKK, os destroyers da classe Sovremeny ou os submarinos da classe Kilo, ou material com forte influência russa como os caças JF-17 ou os tanques Type 98 e 99.
A China, no entanto, está a ser vista pelos seus vizinhos como uma ameaça, não só devido aos números mas também devido ao seu forte investimento militar, mormente no sector aero-naval e de projecção de forças. As pretenções chinesas nas Spratley e nas Paracel, para além de Taiwan, são vistas com bastante apreensão por todos os países da zona. A alteração que se verificou no Japão quanto ao emprego de forças militares, e o rearmamento da JDF, deriva das atitudes belicistas da China.

Portanto, sob o ponto de vista militar, a China é de facto uma ameaça dentro da sua zona. À medida que for crescento sê-lo-á a uma escala mais vasta. E quando isso acontecer (e digo "quando", não "se"), nessa altura falaremos.

Sob o ponto de vista internacional, o poderia económico da China baseia-se na completa falta de direitos dos trabalhadores e na produção a baixo preço (e baixa qualidade), no comércio baseado nas redes familiares (sobretudo no SE Asiático) e nos apoios estatais ao comércio e investimento, nomeadamente nos grandes projectos de obras públicas (como em África). É fácil dizer que a Rússia deveria seguir o caminho da China, mas porque não o seguem também os países do Ocidente? Todos, neste momento, estão a perder concorrência faca à China, que é quem mais investe em África (ao contrário do Ocidente, a China não faz caridade e está-se nas tintas para critérios de democracia e boa governação, pois a ela só interessam o dinheiro e os recursos naturais).
Deveria a Rússia (e o Ocidente) seguir este exemplo?

A China sofre gravíssimos problemas ambientais ("China Says More Milk Products Show Signs of Being Tainted", noticia hoje o NYTimes) e sociais, com a incapacidae do país em alimentar 20% da população mundial com apenas 8% dos solos atáveis, ou com a incapacidade em crescer a ponto de elevar mais do que 300 mi de habitantes a um nível de classe média. As assimetrias sociais crescem a um ritmo alucinante, e há revoltas constantes de camponeses as quais raramente são noticiadas (as autoridades chinesas exercem um verdadeiro controlo sobre a internet, ao contrário das russas).

Em suma, não só devido às suas características específicas como devido aos graves problemas internos, o que a poderá levar a seguir uma atitude bem mais belicista, a China não é um bom exemplo a seguir.

Pippo disse...

Quanto ao assunto em apreço, a questão do isolamento da Rússia parece-me um falso argumento, e isto porque nun ca foi intenção do Ocidente integra-la enquanto parceiro igual ´mas tão somente como parceiro-vassalo, ou mesmo fantoche. As constantes humilhações na arena internacional a que Moscovo foi submetida ao longo de quase 20 anos são prova bastante disso.

Quanto ao Cáucaso, o mais sensato para o Kremlin será manter as duas Repúblicas como entidades independentes, talvez como Estados Associados, por exemplo. A manutenção de bases militares neste territórios reduzirá substancialmente o tempo de resposta das unidades russas em caso de novas aventuras belicistas georgianas, mesmo que sob os auspícios da NATO, pelo que tal se afigura como uma acertada medida preventiva face aos apetites norte-americanos.
Por outro lado, sob o ponto de vista estratégico, tais bases permitirão, após um longo interregno, a presença legal e efectiva de milhares de tropas russas no sul do Cáucaso, em lugar de uma meras centenas de "capacetes azuis" sem verdadeiro potencial militar e de projecção de forças.

Assim, ao fim ao cabo, aumentará o poderio moscovita na zona, em deterimento dos seus rivais. Nada que outros paises não tenham feito ou não o estejam a fazer neste momento.

MSantos disse...

Caro Pippo, esta sua análise é das mais acertadas e correctas do que tenho visto aqui. Efectivamente a China não necessita fazer o "barulho" internacional da Rússia, devido a ter "estados" hostis dentro das suas fronteiras e dessa forma, sendo o regime repressivo que é, podê-los silenciar mais facilmente, sem quase nenhuma fuga de informação. Esta gente está-se a esquecer (ou não querem admitir) o que são o tradicional belicismo e conflituosidade dos povos do Cáucaso, Cáucaso que a Rússuia teve a infelicidade de ter nas suas fronteiras (como alguém disse, não podemos escolher os vizinhos) e os EUA estão a explorar muito bem (tavez ainda "engulam" mais um Bin Laden"). Seria muito engraçado ver os EUA ou outra potência ao cimo da terra, ter tido o azar de ficar com vizinhos destes. E além destes, temos de adicionar os vizinhos do leste europeu, que embora tenham sofrido muito com a URSS, preservam um ódio, para lá do doentio e do aceitável, á Rússia. Rússia com todos os defeitos gravíssimos que tem, mas só quer "segurar" as suas fronteiras e controlo energético num plano puramente regional.

Anónimo disse...

Nossa msantos...a Rússia é tão boazinha, só quer segurar as fronteiras.
Que análise superficial do problema!


sui generis

Anónimo disse...

msantos, a situação do Cáucaso historicamente sempre foi um caos mas se complicou muito por causa do imperialismo russo na região. É uma região única, com quase tantas etnias quanto a Europa Ocidental. E os russos imperialistas trabalharam e trabalham muito bem com isso: dividindo-os para conquistar. À exemplo dos americanos que armavam certas tribos indígenas estratégicas para lutarem contra outras e ao final da guerra conquistavam o todo.

Dizer que o problema da situação é o belicismo dos povos cáucasos é quase o mesmo discurso preconceituoso típico dos americanos, por exemplo, em relação aos latinos: aquele povo do sul incivilizado (que não aceitam nosso dominação completa) à quem os americanos tem a infelicidade de serem vizinhos.

zé carlos

Anónimo disse...

Para que alguns leitores possam refutar a argumentação de leitores cultos e inteligentes, como aparenta ser o sr.pippo, têm de, em primeiro lugar ter algum dominio dos temas que falam. Notoriamente este leitor SABE do que fala, ao contrário dos outros, que coitados, bem tentam dizer alguma coisa de jeito mas não conseguem.Eu aconcelho o sr pippo a seguir este ditado; mais vale estar calado do que falar para burros.

Luis.

Wandard disse...

Pippo e Fernanda sempre fazem comentários bastante coerentes e o que é difícil de ver tanto neste blog quanto em outros foruns da Net "Imparciais". Só corrigindo algumas informações que foram escritas aqui, a Rússia não foi aliada da Alemanha. O acordo que foi assinado em 23 de agosto de 1939 por Molotov e Ribbentropp foi o Pacto de não agressão Germano/Soviético. Dois motivos podem ser considerados como os principais para a decisão de Stalin, um deles foi exatamente a política de isolacionismo imposta pelas potências Européias, que se recusaram como o fazem hoje a dar à União Soviética um papel compatível com a sua importância geopolítica, isso ficou claro um ano antes no acordo de Munique quando a Inglaterra e a França decidiram ceder parte da Tchecoslováquia para a Alemanha, quando a posição da União Soviética que era aliada da Tchecoslováquia foi ignorada. O outro motivo foi de natureza doméstica, pois Stalin para se consolidar no poder nos anos anteriores liquidou praticamente todo o alto comando das forças armadas, restando apenas uma dezena de Generais dos mais de cem que existiam. O acordo foi constrangedor para todas as frentes comunistas que combatiam o nazifacismo e o custo deste erro foi elevadíssimo para a União Soviética.

Pippo disse...

Obrigado pelo seu apoio, Luis, mas não vou seguir o seu conselho por uma simples razão: é que, mesmo no meio de massas menos cultas, há sempre alguém que quer saber um pouco mais, e é meu (e nosso) dever escrever para quem sabe ou quer saber.
Um abraço,

Anónimo disse...

Você só esqueceu uma parte bem importante que o pacto Molotov/ Ribbentropp dividiu parte do Leste Europeu entre os nazis e soviéticos como um prêmio pelo pacto. Sacrficando e marcando para sempre a história desses países. Não me admira que os povos dessas nações não confiem muito nos russos.

zé carlos

Wandard disse...

Caro Zé Carlos, você tem razão sendo que foi a parte oriental da Polônia e os Países Bálticos.Mas como a História já mostrou, primeiramente foi a inércia e depois as trapalhadas da França e da Inglaterra, Hitler tocou a música e as grandes potências dançaram.