segunda-feira, setembro 08, 2008

“Coxas de Bush” e falta de originalidade da política externa russa


Comentário escrito para o sítio electrónico da SIC


Andrei Nesterenko, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, anunciou que navios de guerra da Armada da Rússia irão realizar, este ano, uma visita a um dos portos da Venezuela e aviões de combate a submarinos serão temporariamente instalados em aeródromos desse país da América Latina.
“Até ao fim do ano corrente, no quadro de uma viagem de longo curso, está planeada a entrada de um grupo de navios da Armada da Rússia num porto da Venezuela, nomeadamente, trata-se do cruzador nuclear pesado “Pedro, o Grande”, do navio de combate a submarinos “Almirante Tchabanenko”, declarou o diplomata numa conferência de imprensa em Moscovo.
Nesterenko sublinhou que essas decisões dos militares russos “não estão ligadas aos acontecimentos no Cáucaso” e “não estão viradas contra terceiros países”, mas semelhante explicação a poucos convence.
No sábado, ao discursar na abertura do Conselho de Estado da Rússia, o Presidente Medvedev mostrou-se irritado com a presença de tropas da NATO no Mar Negro.
“Como é que (os EUA) se sentiriam se a Rússia enviasse ajuda humanitária em navios de guerra para a bacía das Caraíbas, lugar atingido recentemente por um furacão?”, perguntou o dirigente russo.
Medvedev respondeu a essa pergunta com uma resposta tirada do baú da guerra fria e parece que o Kremlin está disposto a repetir a “Crise das Caraíbas” de 1962-1963. Tanto mais que as manobras russo-venezuelanas se irão realizar no Mar das Caraíbas, restando apenas saber se os aviões ou navios russos irão transportar armas nucleares.
Tratando-se de uma resposta a passos também clássicos da NATO, Moscovo poderia inovar nas formas de resposta, mas não o faz porque tem uma política externa reactiva, não consegue encontrar novas soluções para os problemas internacionais.
O mesmo parece ser aplicável à política da Aliança Atlântica.
O Kremlin não inova também ao justificar, perante a opinião pública russa, sanções como a restrição das exportações de carne de frango norte-americana para a Rússia.
Segundo as autoridades de Moscovo, a redução da compra de “coxas de Bush” (como são conhecidas as coxas de frango norte-americanas importadas desde 1994), não se deve à crise no Cáucaso ou ao resfriamento das relações entre a Rússia e os EUA, mas porque contêm substâncias nocivas como cloro, arsénio, salmonelas, etc.
Pergunta-se: porque é que as autoridades russas permitiram que os aviários norte-americanos envenenassem o povo durante 14 anos?
Como as “coxas de Bush” são, na Rússia, quase duas vezes mais baratas do que as análogas russas (que arriscam-se a entrar na história como “coxas de Putin”), é difícil avaliar os estragos feitos pela produção dos aviários norte-americanos.

8 comentários:

Nuno Bento disse...

Quando a situação é tensa, não há espaço para improvisação. E quanto à questão das "coxas", queria apenas relembrar que as justificações de ordem fito-sanitárias são comuns mesmo dentro do grupo de países que pertence à OMC.

Não precisamos de ir buscar muito longe a "inovação" diplomática russa: diversificação das exportações de hidrocarbonetos para o Japão, Coreia e China; demarches para a constituição de um cartel internacional para o gás à semelhança da OPEC; entrada dos homens russos nos capitais de sociedades financeiras e industriais na Europa e nos Estados-Unidos.

E já agora, será que a Rússia quererá mesmo aceder a uma organização que vive a crise mais grave da sua historia (OMC)? O Caro JM pensa mesmo que isso traria vantagens para os "kosaques"?

Jose Milhazes disse...

Caro Nuno, são precisos 14 anos de envenenamento para chegar a essa conclusão. Os russos afirmam que os americanos nunca alteraram a tecnologia de fabrico.
Quanto à adesão à OMC, não fui eu, mas o Kremlin que defendeu sempre a necessidade de adesão a essa organização, mas só agora compreendeu que estava a bater na porta errada. Será que o Kremlin é como aquele cidadão que confunde a tasca com o templo só porque nos dois lugares há vinho?

antonio everardo disse...

O ilustre JM fez uma pergunta com qualidade igual às “coxas de bush”, como, “por que” 14 anos se passaram despercebidos das autoridades sanitárias russas(?). Teria a Rússia seus motivos; não precisarei enumerá-los, pois. Ora, não é sabido que as doenças se proliferam com a “democracia” dos negócios e com a intensidade do livre-comércio e assim por diante? Não venha cá nos dizer que os USA ainda mantêm velhas condições (de há, pelo menos, 14 anos) de inspeção sanitária. Eu recusaria a acreditar, não é verdade? Não tem nada a ver com originalidade da política externa russa, mas sim, com a qualidade e segurança alimentares, assim eu creio.

Jose Milhazes disse...

Caro António, recomendo-o a ler com atenção o que escrevi. Não fui eu, mas as autoridades russas que afirmam que os norte-americanos não modernizaram as tecnologias dos aviários.
Posso-lhe dizer por experiência própria, pois comi as "coxas de Bush", que elas são realmente intragáveis, mas não precisei de 14 anos para compreender isso.
Quanto a acreditar ou não, é consigo, pois a fé é uma coisa muito pessoal

MSantos disse...

Eis uma excelente oportunidade de exportar para o mercado russo, com todo o seu gigantismo, o nosso bom e velhinho franguinho da Guia

Pippo disse...

Como disse o Nuno Bento, estas práticas de retaliação e boicotes económicos são usados amiúde pela UE, EUA e demais países e blocos económicos. Basta que o país visado não obedeça a uma determinada e obscura norma sanitária à qual antes, por razões políticas, se fechavam os olhos. Nada tem de especial, portanto, pois é prática corrente. Hipócrita, mas corrente.
Quanto à falta de originalidade, como o JM bem o salientou, ela é comum aos russos é à NATO. Com a diferença que esta última me parece ser bem mais agressiva sem necessidade de o ser. Os únicos que neste momento estão a ser originais são os indianos e os chineses, pois estão apostar na imagem e no desenvolvimento económico e científico, e nas exportações que a falta de regulamentação da sua economia interna lhes permite ter. Infelizmente o Brasil poderia estar nessa mesma posição, não tivesse os gravíssimos problemas económico-sociais que tem.

Maquiavel disse...

Caro JM, sempre foi assim: quando se é pobre qualquer sapato é iguaria... que o diga o Charlot.

O mercado está cheio de comida intragável, que o povo compra apenas e só porque é barato. Agora como parece que a Rússia está rica (!!!) podem-se aburguesar e consumir a "pura franga russa", que é melhor, mais cara, mas pelo menos defende a indústria nacional.

Olhe aqui na Frioländia, eles a comprarem tomate de estufa inodoro e insípido a 7€/kg, quando ao lado têm estrangeiro a 3€/kg...

Pois entäo, se a "coxa do Valdemiro" até é melhor, é de comprar!

Anónimo disse...

Bom,
Acho natural a atitude russan nada tendo a acrescentar de diferente do que outros países da UE e os EUA fazem...
Ademais, quem acompanha sabe, que pelo menos aqui no Brasil é uma novela o caso dos frigoríficos de carne suína e sua exportação para a Rússia... ora Moscou inspeciona e libera a importação, ora proíbe... então, pelo menos pra mim, é natural!!!