domingo, setembro 07, 2008

Rússia distribui passaportes entre habitantes da Crimeia


O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Vladimir Ogrizko, acusou hoje as autoridades russas de estarem a distribuir secretamente passaportes da Rússia entre os habitantes da Crimeia, república autónoma da Ucrânia.
“O Consulado Geral da Rússia em Simferopol (capital da Crimeia) distribui passaportes da Federação da Rússia entre os cidadãos ucranianos. Pedimos à parte russa informações sobre a sua quantidade, mas não recebemos resposta”, declarou Ogrizko, numa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine.
“Vamos tomar medidas para impedir isso. A nossa Constituição proíbe a cidadania dupla”, acrescentou.
Nos anos 90 do séc. XX, Moscovo distribuiu passaportes russos entre a população da Ossétia do Sul e da Abkházia, regiões separatistas da Geórgia, e, no início de Agosto, quando enviou tropas para esses territórios, alegou a defesa dos cidadãos da Rússia.
A Crimeia é uma república autónoma, nas costas do Mar Negro, que fez parte da Rússia até 1954. Nesse ano, o dirigente soviético Nikita Khrutchov entregou-a à Ucrânia.
Segundo o recenseamento de 1989, o último realizado na região, dos mais de dois milhões e trezentos mil habitantes, 1 630 mil (69,2 por cento) eram de origem russa, 620 mil ucranianos e cerca de 100 mil tártaros da Crimeia.
O ministro ucraniano considerou um “verdadeiro problema” as recentes declarações de dirigentes russos sobre a intenção de defender os seus cidadãos no estrangeiro.
Alguns dirigentes russos, nomeadamente Iúri Lujkov, Presidente da Câmara de Moscovo, defendem que a Crimeia é território russo e deve ser devolvida pela Ucrânia.
Em meados da semana, o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, enumerou os cinco princípios da sua política.
O quarto princípio reza que: “a defesa da vida e da dignidade da Rússia, independentemente do lugar onde se encontrem” e o quinto prevê que Moscovo irá “trabalhar com muita atenção” em algumas “regiões privilegiadas”, principalmente nas regiões fronteiriças.
“Declaro com sinceridade: estamos preocupados com o conceito, recentemente avançado pelo Presidente da Rússia, das regiões de interesses privilegiados da Rússia”, comentou Victor Iuschenko, Presidente da Ucrânia.

12 comentários:

José disse...

Boas!
Onde é que nós já vimos este filme?! Mais uma vez a grande Federação Russa - seus interesses e cidadãos - voltarão a ser as vitimas de uma qualquer agressão bárbara... Com direito a resposta consentânea(?!).
E mais uma vez esse demónio americano será o principal causador de toda e qualquer instabilidade da região!!

Anónimo disse...

Boa noite!

"" “Vamos tomar medidas para impedir isso. A nossa Constituição proíbe a cidadania dupla”, acrescentou.""

Já há bastante tempo que ouço alguns amigos Ucranianos lamentarem-de de que não podem pedir a nacionalidade portuguesa, e terem assim dupla nacionalidade (com todas as vantagens daí decorrentes), citando eles próprios o contraste flagrante com os Russos, que a podem pedir. Nunca entendi o porquê das leis Ucranianas proibirem a dupla nacionalidade.
Após ler esta notícia, fico com a ideia de que esta proibição terá alguma razão de existir: será que ela se destina precisamente a evitar a proliferação de dupla nacionalidade, Ucraniana e Russa, no território Ucraniano, com o risco inerente de "descaracterizar" de certa forma a noção de nação e pátria Ucranianas?

Caro José Milhazes, qual a sua opinião?

Cumprimentos,

Jorge Ramalheira

Anónimo disse...

Esses census que mostram as percentagens de povos na Ex-URSS fazem-me rir.
houve tanta mistura de povos na URSS, sobretudo entre eslavos que não tem sentido separar povos por etnias na Ex-URSS.
Se fizesses estudos de origens ancestrais gostava de saber quantos ucranianos têm antepassados russos. Tenho impressão que seria a maioria absoluta.

Carlos

Jose Milhazes disse...

Caro Jorge, a lei russa também proíbe dupla nacionalidade, mas as autoridades russas fecham os olhos. No caso da Ucrânia, a explicação para a proibição é precisamente evitar que uma parte significativa da população do Leste e do Sul da Ucrânia recebam passaportes russos.
Eu, enquanto, português, não estou contra a dupla nacionalidade, mas tenho só uma. Penso que cada país deve resolver esse problema da forma mais útil para ele, desde que de forma democrática e transparente.
Caro leitor Carlos, mas os recenseamentos dão o que dão. Na era soviética, os habitantes do país, nos recenseamentos, podiam optar pela sua verdadeira nacionalidade ou pela russa. Muitos optavam por ser "russos" para não terem problemas, como era o caso dos judeus. No passaporte interno soviético (uma espécie de BI) tinha o quinto parágrafo onde se devia escrever a nacionalidade. Havia escolas superiores e empregos onde alguns povos não eram bem recebidos.
Isto era uma das numerosas pérolas da "democracia socialista" e da "igualdade".

Anónimo disse...

A dimensão da russia só tem paralelo aos seus problemas.
E a verdadeira dor de cabeça ainda não começou..
Como sabemos os russos não gostam dos povos "escuros" que habitam a rússia.
Penso que, para os russos, o seu país deveria ser povoado por rússos com uma matrix ortodoxa e serem considerados uma grande potência mundial.
Enquanto os russos forem 80% da população como agora, a situação está controlada, porém, quando os russos forem a minoria, aí sim, a situação vai ser mesmo negra.
O problema da rússia é sobretudo demografico e o desafio dos rússos será o de conseguirem manter o país unido.
E gosto da rússia, espero que, para bem da europa a rússia não seja desfragmentada.
Neste momento é a unica grande potência europeia que resta.

Carlos.

Pippo disse...

Ora, neste caso as autoridades ucranianas estão a recusar o encontro da nacionalidade "de iure" à nacionalidade étnica de parte da sua população.
Segundo sei, as autoridades ucranianas, independentistas e anti-russas, estão dominadas pelos elementos provenientes do Oeste do país, não-russos e em muitos casos Uniatas.
Neste caso, ao impedir a dupla cidadania a um russo que viva na Ucrânia (e que lá nasceu, etc.), as autoridades ucranianas estão, efectivamente, a fazer discriminação étnica. Isso é condenável.
Penso que neste caso a Rússia irá continuar a actuar como até agora, impedindo a Ucrânia de tomar medidas mais radicais que hostilizem os 17% de russos que vivem no Leste do país. O facto é que já existem cidadãos ucranianos que têm passaporte russo, é um facto consumado, e Kiev terá de ter isso em atenção nas acções futuras.

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, está mal informado. O Presidente Iuschenko, bem como a primeira-ministra Timochenko são ovelhas do rebanho da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo. Cuidado com esquemas simples.
Para sua informação, na Ucrânia há, além da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo, há as Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala, Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev, Igreja Greco-Católica (Uniata), ortodoxa quanto ao rito, mas reconhece primazia do Papa de Roma, e Igreja Católica.
Pela via religiosa, não vai muito longe, pois não é um traço tão determinante na vida da Ucrânia, embora seja importante.
Considero que a Ucrânia tem todas as possibilidades de ser um Estado uno, independente e própspero se não existirem ingerências externas, independentemente do lado que venham.

Pippo disse...

Reconheço a minha desinformação. Mas então, de onde derivam as clivagens étnicas, que parecem agudizar-se? Parece-me que as sementes da discórdia semeadas por mão alheias só podem crecer quando existe campo fértil.

A questão da dupla cidadania constitui um pau de dois bicos: recusando-a, Kiev fomenta um justificado conflito étnico e a natural ingerência de Moscovo; aceitando-a, Kiev reconhece que tem cidadãos que também são russos, permitindo assim a natural ingerência de Moscovo...

Já agora, se tiver tempo e paciência, seria interessante se nos fizesse uma resenha histórica, política e étnica da Ucrânia pós-1920.

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, uma das causas do problema de a Ucrânia ter estado dividida entre vários países durante séculos. A parte oriental, fazia parte do Império russoà a parte ocidental esteve divida entre a Polónia e o império austro-húngaro. As partes oriental e ocidental foram juntas em 1939, depois da assinatura do pacto Molov-Ribbentrop. Quanto à parte Sul, a Península da Crimeia, ela pertenceu à Turquia até meados do séc. XVIII. Entre os que combateram na Crimeia do lado das tropas russas estiveram portugueses ilustres como Gomes Freire de Andrade, general Pamplona.
A Crimeia, passou a fazer parte da Ucrânia em 1954.

Anónimo disse...

Mas que demagogia sr josé milhazes!
A nação ucraniana esteve dividida em 3 bolocos??
1-A ucrania não é uma nação, é uma região( verifique o nome do país)
2-A parte ocidental da ucrania que nunca esteve sob dominio russo é de pouca importância populacional e territorial (+- 15% do território), de modo algum essa divisão foi proporcional, o peso da parte ucraniana russa era imensamente superior á componete ocidental.
A realidade é que a ucrania NUNCA foi um estado independente, se discorda apresente esses factos rigorosos( ainda não o fez).
A esmagadora maioria da população da ucrania sempre fez parte da russia, ha centenas de anos, o problema aqui é que muita gente analisa a historia por premissas falsas., para falar destes temas é necessário analisar objectivamente os factos e ter uma atitude cientifica.
Apresentar fabulas da historia da europa só vem trazer mais confusão para a cabeça das pessoas.

Luis.

Pippo disse...

Boas!
Não precisam de se chatear por causa da História.
JM, essa parte que referiu eu já sabia, inclusive da brilhante participação do GF Andrade que, sob as ordens do Suvurov, adquriu a patente de Coronel. O que eu pretendia saber era a História e as relações entre as "etnias" (poderemos referi-lo assim?) e a política na Ucrânia depois da perca da independência nos anos 20 (sim, Luís, a Ucrânia foi independente durante a GC Russa, e não me refiro ao Makhno e seus seguidores).
Por exemplo, muitas das vítimas da perseguição aos kulaks viviam na Ucrânia. Em 1941 os ucranianos, culpabilizando os cumunistas por essa hecatombe, receberam os alemães como libertadores. Será que hoje em dia os ucranianos vêm a perseguição contra os kulaks, não como algo perpetrado por comunistas, mas como uma barbaridade cometida pelos russos?

Até que ponto é o nacionalismo, nomeadamente o nacionalismo anti-russo, forte ou fraco na Ucrânia, e onde é que ele mais se manifesta? E até que ponto é que as autoridades ucranianas tentam criar uma identidade nacional, nomeadamente negando a dupla cidadania a quem a possa ter (da mesma maneira que o Turkenbashi tentou criar uma identidade nacional turcomena impondo a cultura da maioria às minorias nacionais, mesmo a russa)?

Enfim, questões que proporcionarão longas respostas. Se tiver tempo e paciência, é claro :o)

Anónimo disse...

Interessante, eu tenho vários amigos Ucrânianos que têm dupla nacionalidade, tenho que os ir já avisar que estão ilegais.