terça-feira, dezembro 09, 2008

Mais uma perda para a cultura portuguesa na Rússia

Qualquer português que tenha estudado em Moscovo, conheceu certamente o tradutor Alexandre Bazin. Para eles e para os que conhecem as traduções de obras de escritores russos para português, tenho uma má notícia: o Sacha faleceu.
Não posso dizer que era meu amigo chegado, mas traduzi juntamente com ele filmes soviéticos e até algumas obras literárias.
O meu caro amigo João Mendonça João privou com ele nos últimos anos e deixa-nos aqui o seu testemunho, que subscrevo plenamente:
"É com grande pesar que os informo do falecimento prematuro, nos Estados Unidos, de um grande lusitanista, Alexandre Bazin. Para além de ilustre tradutor, intérprete, e professor de Português, foi um notável divulgador da língua e cultura portuguesas, e simultaneamente da cultura russa em Portugal. Deu a conhecer aos leitores portugueses inumeras pérolas da literatura russa, traduzindo-as para português em editoras portuguesas. Nos ultimos anos dedicou-se também ao jornalismo, na condição de correspondente da Europa Contacto.Tive o privilégio de o conhecer, para além do mais, como amigo. Era aquilo a que chamamos em Português, pura e simplesmente uma joia de pessoa, com todas as letras. Fica a recordação de uma pessoa invulgar, talentosa, de uma generosidade sem limites.Vai deixar saudades a toda a nossa comunidade lusofona, e a todos os que conviveram com ele. E uma perda inestimável".
Aqui fica uma pequena lista do que Bazin traduziu para português:


"Como os homens descobriram a forma da Terra [ Material cartográfico / Anatoli Tomiliné ; trad. de Alexandre Bazine ; il. de In. Smolnikov. Moscovo : Edições Ráduga, 1985".

"As auroras nascem tranquilas... / Boris Vassiliev ; trad. de Alexandre Bazine e Andrei Melnikov ; colab. de José Augusto Pereira da Silva. Moscovo : Ráduga, 1986."

"Agosto 44 : romance / Vladimir Bogomolov ; trad. Alexandre Bazine ; colab. Hermínio Fernandes e José Augusto. Moscovo : Raduga, 1989."

"Jogos lógicos / E. Guik ; trad. Aleksandre Bazine. Moscovo : Mir, 1989."

"10 jóias do conto russo / Aleksandre Kuprine... [et al.] ; selec. e trad. Aleksandre Bazine. 1a ed. Porto : Campo das Letras, 2004."

"O hotel : a queda do alpinista / Arkadi e Boris Strugatski ; trad. Alexandre Bazine, José Augusto. 1a ed. Porto : Campo das Letras, 2005."



8 comentários:

Afonso Henriques disse...

Já agora, o que é um "grande lusitanista"?

Jose Milhazes disse...

É um grande amigo e estudioso da cultura lusa.

Anónimo disse...

Só tenho pena que, em Portugal, o enfoque da imprensa especializada, ou seja, dedicada ao mundo da literatura e das artes, recaia sobre o mundo lusófono quando se trata de homenagear "grandes lusitanistas".
Perdoem-me se estiver a cometer alguma injustiça, mas é a impressão que tenho...
Filipe Caldeira

Mendonca Joao disse...

Caro senhor Caldeira,nao estou a pereceber a logica do seu comentario. Quem e que a impressa ha-de homenagear quando se trata do mundo lusofono? Germanistas??

Mendonca Joao disse...

O Sacha era como disse o Jose Milhazes, um grande amigo e estudioso da cultura lusa, e tambem uma das personalidades mais versateis da relacao cultural luso-russa. Numa dos ultimos encontros que tive com ele, ambicionava traduzir para russo as Historias do Fim da Rua de Mario Zambujal. Nao sei se ainda chegou a tempo de o fazer. Foi mais um voo prematuramente interrompido

Afonso Henriques disse...

Ah obrigado, nunca tinha ouvido o termo "lusitanista".

Skywatcher disse...

Há poucos anos atrás, por sugestão (imposição?) de uma amiga cinéfila, acabei por adquirir alguns DVDs de clássicos da cinematografia soviética. Fiquei duplamente surpreendido quando verifiquei que, primeiro, não se trataria das típicas traduções indirectas via versão inglesa, como é vulgar nas legendagens de línguas menos comuns por cá, e segundo, que o tradutor não era um português, mas sim um russo cujo trabalho estava a um nível bastante superior ao da vasta maioria das traduções que apanhamos em DVDs, já para não falar dos assassinatos linguísticos que vamos presenciando regularmente na TV. O que mais "confusão" me causava era a aplicação tão natural de frases idiomáticas portuguesas e uma naturalidade de discurso que revelava uma imersão total na nossa cultura e que faria com que nunca suspeitasse que não fosse um português a escrever tal tradução.
Mas o facto é que o nome que surgia como tradutor não era português e era invariavelmente o mesmo.
Foi o primeiro contacto que tive com o nome de Alexandre Bazin.

A partir desse momento passou a ser a referência que usei (e uso) sempre que quero envergonhar o trabalho de algum tradutor (e vá lá, que os que conheço pessoalmente nem acho que sejam maus), dando sempre o trabalho do senhor Bazin como exemplo de como um estrangeiro faz ver muitos portugueses no que seria a sua vantagem (língua materna).

A minha relação com ele era a de mero "cliente anónimo satisfeito" com o seu trabalho, pois nunca tive qualquer contacto, mas seguramente partilho de parte desta tristeza pelo desaparecimento de alguém que considerava um símbolo de qualidade. Os meus sentidos pêsames aos seus amigos.

Jose Milhazes disse...

Para os amigos e conhecidos de Bazine que se encontram em Moscovo, comunico que o seu funeral irá realizar-se amanhã. Encontramo-nos junto do cine-teatro Zvesndni (metro Vernadskogo) às 11.15. Depois, seguiremos de autocarro para o Cemitério de Khovanskoe.