segunda-feira, janeiro 26, 2009

Península Ibérica será alternativa à Rússia no fornecimento do gás à Europa?


Caros leitores, antes de publicar um artigo interessante artigo do diário moscovita "Vremia Novostei", escrito pelo seu correspondente em Lisboa, Alexander Zditovetsky, gostaria de esclarecer que o mesmo vinha acompanhado da fotografia acima publicada, como sendo de Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Não sei quem é o político lá representando, mas tenho a certeza de que não se trata do chefe da diplomacia russa.

Estou convencido que o erro aconteceu na redacção em Moscovo, mas vamos ao texto onde há ideias sensatas que esperam uma realização operativa, não obstante as hesitações do ministro Luís Amado, o verdadeiro, e não o da foto.
"O primeiro-ministro português José Socrates jurou no sábado que não poupará esforços para retirar o país da crise económica, utilizando, inclusive, o facto de o seu território servir para o trânsito de gás da África para a Europa. Actualmente, Portugal e Espanha, dois vizinhos na Península Ibérica, preparam projectos de novos gasodutos para França e novos terminais para receber gás natural liquefeito. Estes planos podem acelerados pelo conflito do gás entre a Rússia e a Ucrânia, em Janeiro

Os países europeus buscam uma alternativa ao gás russo.

«Estes planos deverão assegurar o abastecimento de gás proveniente da África ao Sul da Europa, o que reduz a dependência do gás russo transportado através da Ucrânia », - explicou, recentemente José Penedos, chefe da empresa portuguesa de electricidade REN. Segundo ele, «já agora Portugal e Espanha poderiam ajudar a UE a reduzir a pressão da parte da Rússia».
O diário português «Delovaya Gazeta» (Jornal de Negócios) confia que, em breve, Portugal e Espanha encontrarão «uma alternativa ao gás russo». Antes, essa publicação relatou que a Comissão Europeia, liderada pelo português José Manuel Durão Barroso, tenciona «utilizar a situação geoestratégica da Península Ibérica como alternativa à Rússia». O conflito do gás entre Moscovo e Kiev impulsionou Bruxelas, que se mostra agora disposta a apoiar, política e financeiramente, a criação do mercado único de gás no sul da Europa.

A 12 de Janeiro, numa reunião de emergência do Conselho da Europa sobre segurança energética, convocada devido à suspensão do abastecimento de gás pela Rússia, falou disso Manuel Pinho, ministro português da Economia.

A imprensa portuguesa afirma que o comissário europeu da Energia Andris Piebalgs também é um apoiante do «projecto ibérico».

Actualmente, à Península Ibérica o gás chega através do gasoduto Magrebe - Europa, montado no fundo do Mediterrâneo a partir da Argélia, e da Nigéria por mar, que chega a seis terminais para receber gás liquefeito nos portos de Espanha e um terminal no porto português de Sines. Pela sua capacidade, etes terminais superam os existentes na Europa. Mas as necessidades energéticas em gás de Portugal ocupam um lugar modesto (apenas 14%), depois de petróleo (58%) e das energias renováveis (15%).

A 22 Janeiro, na cidade espanhola de Zamora, realizou-se a 24 ª cimeira dos líderes de Portugal e Espanha. A reunião contou com a presença de mais de duas dezenas de ministros de ambos os países. Como resultado, foi anunciado para 15 de Junho deste ano a criação de um mercado único de energia.

O ponto fraco desta alternativa ibérica é a falta de um gasoduto de Espanha para a França, pois estes dois países estão separados pela elevada cadeia dos Pirenéus. Para superar esse obstáculo, Madrid e Paris já projetam a construção do gasoduto «Midkat».

No entanto, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Luís Amado (na foto) afirmou ao "Vremya Novostei" que, por enquanto, Lisboa « não tem nenhuma posição oficial sobre esta questão»: «Por enquanto, isso são apenas considerações avançadas pelas empresas de energia »

«A Comissão Europeia está, obviamente, a acompanhar de perto as questões do abastecimento de gás natural aos países da UE e estuda todas as opções para a solução do problema, porque queremos diversificar as fontes e rotas de aprovisionamento energético », acrescentou.

Segundo o ministro, «o Governo de Portugal não fez nenhuma proposta na Comissão Europeia sobre essa alternativa, embora seja uma perspectiva brilhante para as nossas empresas que trabalham no fornecimento de hidrocarbonetos provenientes de África».
Alexander ZDITOVETSKY, Lisboa"
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35 comentários:

Kremlino disse...

Eu já o disse antes: construir a ligação nos Pirineus é o que falta, porque chegando a França, esta está ligada com o resto da Europa. Só que Portugal não é preciso para isto: o gasoduto entra em Espanha e há portos com armazenamento de gás em Espanha. o que Portugal pode fazer, e acho que é isso que Sócrates pretende, é rentabilizar Sines vomo depósito de gás. Havendo emergências, como houve na Bulgária, abastecem-se navios tanque e mandam-se para lá.
E aí está JM, mais uma razão para os russos tratarem muito bem a península ibérica.
Ah, e a disputa do gás não fica por aqui. O presidente da Ucrania quer rasgar o acordo. Nem faço comentários...

Jose Milhazes disse...

Caro, informe-se melhor. Sabe que em Portugal existe um dos maiores reservatórios de gás na Europa. Ficam perto da Figueira da Foz. Por isso Portugal pode tirar proveito. Mas é preciso mexer as pernas e os braços, bem como activar os cérebros.

Kremlino disse...

Eu sei disso, JM. Mas mantenho o que disse: sem ligação a França para que servem os depósitos portugueses, a não ser por barco? A UE tem de ter como prioridade ligar os Estados membro entre eles , o que não está feito.
Claro que isto justifica que Putin venha a Portugal e a Espanha. Já percebi o que está em jogo. o homem está bem informado, de facto..

Jose Milhazes disse...

Comentário enviado pela leitora Ana Penha por mail:"Boa tarde,O terminal de Sines que o Kremlino refere é bastante importante em termos estratégicos não por causa do armazenamento em si mas porque existe em Sines uma unidade de gasificação (a única do país) que permite descarregar, e tornar a por no estado gasoso, o gás liquefeito que chega de barco. Sines é assim muito relevante por constituir uma entrada de gás no território em alternativa aos "pipelines".Ana Penha"

Jose Milhazes disse...

Leitor Kremlino, claro que será fundamental ligar Espanha a França por um gasoduto. Isso é prioritário na criação de um sistema europeu de distribuição de gás.

Francisco disse...

Estimado José Milhazes

Aproveito para lhe agradecer, mais uma vez, o distante contributo que nos aproxima enquanto Europa.

O senhor da foto é Andris Piebalgs, Comissário Europeu da Energia (http://ec.europa.eu/commission_barroso/piebalgs/index_en.htm).
Reconheci-o, depois de uma pesquisa para um artigo, no âmbito no Mestrado na Faculdade de Economia do Porto.

Já agora ,o problema da transmissão em alta, é um dos desejos do 3rd Energy Package, um pacote de medidas para o justo comércio e aquisição de energia na Europa.
A Comissão propõe a desverticalização das empresas incumbentes e a transmissão em alta através de operadores independentes (tranmission system operators - TSO)que se deveriam estender por toda a Europa dos 27.
Deste forma, pretende-se tornar o fornecimento mais seguro e o consumo mais barato, através da estimulação da concorrência e da diversificação da produção.

A ligação dos Pirinéus é, então, tão importante para Portugal como para toda a Europa (relembra-se que a França produz cerca de 80% do que consome em eléctrica, através da nuclear).


Francisco.

kremlino disse...

Ana Penha e JM:
por isso há muito dinheiro russo em Sines. Pelo andar da carruagem, haverá ainda mais proximamente. Na Líbia já eles têm participação. Falta o quê? Argélia e Nigéria. Se ainda não metram o pé, vão metê-lo certamente.

MSantos disse...

A questão que se coloca é tambem saber se o gasoduto dos Pirinéus será viável face á construção do gasoduto do Báltico.

De relembrar que com o gasoduto no Mar Báltico, a Rússia passa a dispor da capacidade de fornecer a Europa sem ter que atravessar os países que agora lhe são antagónicos, sendo esse o principal factor que originou esta e poderá originar crises futuras.

No entanto a UE deverá ir para a frente com esse gasoduto (Pirinéus), pois não ficará exclusivamente dependente da Rússia e dar-lhe-á concorrentes para fazer o mercado funcionar (em teoria).

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

que burrice!!! O caminho mais seguro pra ue é ser dependente do gás russo

Jose Milhazes disse...

Caro Manuel Santos, o gasoduto do Báltico nada diversifica porque o gás vai continuar a vir todo da Rússia. A questão está não em retirar a Rússia do negócio, mas fazer com que ela não possa ditar.
O leitor Kremlino chama a atenção para um problema importante, que é o da Gazprom estar a tentar entrar noutros países que abastecem a Europa de gás. Ele diz ter bons contactos na Embaixada russa, mas está mal informado. A Gazprom já entrou na Argélia, um dos principais fornecedores de gás de Portugal e da Espanha, e também na Venezuela.
Mas a Gazprom não é uma empresa económica, é sim uma empresa política e geostratégica, por isso consome tanto dinheiro que, em época de crise, não irá muito longe, já está endividada até aos cabelos.
Quanto aos investimentos em Sines, talvez eu possa estar enganado, mas penso que a Gazprom não detém aí posições no transporte e transformação do gás.

kremlino disse...

JM:
parece que você é que está enganado em relação a mim. Não tenho contactos nenhuns na Embaixada de Lisboa. Nunca lhe disse tal coisa.
-------
Sei da Venezuela e desconfiava da Argélia e também sei que os russos estão metidos em Sines, até que ponto, não sei.
Quanto à Gazprom, se ela está mal, como estará o resto do mundo...

Jose Milhazes disse...

Leitor kremlino, peço-lhe desculpe se o confundi com outro leitor, Não leve a mal, pois não considero ser crime ter boas relações com a embaixada da Rússia, pelo contrário.

PortugueseMan disse...

"... Sabe que em Portugal existe um dos maiores reservatórios de gás na Europa..."

Caro José Milhazes, não tenho conhecimento de tal capacidade por parte de Portugal. Tem algum link, onde possa ver essa informação?

Obrigado.

Jose Milhazes disse...

Leitor PortugueseMain, eu soube disso através das declarações do Ministro da Económia português, feitas em Bruxelas depois de uma cimeira sobre o tema da energia.

PortugueseMan disse...

Nesse caso, permita-me questionar se não terá interpertado mal, as afirmações.

Talvez o Ministro da Económia português, estivesse a referir num contexto de panorama nacional?

Portugal tem uma boa capacidade para as necessidades portuguesas e que dentro da Europa não há muitos países com essa capacidade.

Embora existem vários projectos na Europa para aumentar esta capacidade.

Pelo o que eu conheço, Portugal não tem uma capacidade por aí além num contexto europeu. Somos um pequeno país e não temos necessidade de armazenar quantidades massivas de gás para por exemplo alimentar a Europa, como o tem a Ucrânia, esta sim possui um dos maiores reservatórios da Europa e pode de facto fornecer a Europa só com a sua capacidade de armazenamento.

Mas estamos a falar de realidades diferentes, Portugal é um país periférico com pouca importância para o fornecimento de energia para a Europa (embora tenda a aumentar essa importância) e a Ucrânia é um país de trânsito, perto dos paises motores da Europa e também ela própria um grande consumidor de energia.

Jose Milhazes disse...

Energia:Manuel Pinho diz que Portugal pode vir a contribuir para "solução parcial" do problema europeu

Bruxelas, 12 Jan (Lusa) - O ministro da Economia, Manuel Pinho, disse hoje em Bruxelas que Portugal está numa "posição muito protegida" ao nível do abastecimento do gás e poderá mesmo vir a contribuir para uma "solução parcial" do problema europeu.

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Pinho, que falava à entrada para uma reunião dos ministros da Energia da União Europeia, ressalvou no entanto que a hipótese de Portugal e a Península Ibérica se tornarem uma via de fornecimento de gás para outros países europeus, a partir do norte de África, não é para já, devido à falta de interligações.

Pinho defendeu que a melhor solução a médio prazo é a aposta nas energias renováveis.

Numa altura em que se mantém um impasse em torno do conflito entre Moscovo e Kiev que levou ao corte do fornecimento de gás russo à Europa através de território ucraniano, o ministro sublinhou que, "felizmente, Portugal está numa posição muito protegida", uma vez que o abastecimento de gás é assegurado por duas vias, terminal e gás natural liquefeito.

"Portugal tem uma capacidade notável ao nível do armazenamento do gás", não só gás natural - os acordos de longo prazo feitos com Argélia e, mais recentemente, com a Venezuela, dão "grande estabilidade" em termos de fornecimento, disse -, mas também devido às cavernas de sal do Carriço, perto da Figueira da Foz, uma das maiores da Europa, apontou.

Falando da "posição sólida" da Península Ibérica, e Portugal em particular, Manuel Pinho disse que por isso mesmo o país poderá contribuir para "a solução parcial do problema europeu", que reconheceu todavia ter uma dimensão muito maior.

Pinho reconheceu que a falta de interligações entre Espanha e França torna impraticável no imediato uma solução alternativa de abastecimento de gás natural à Europa.

Por isso mesmo, sustentou, "a solução de médio prazo é a política do primeiro-ministro (José Sócrates) de aposta nas energias renováveis", já que "é em momentos como estes que se vê a importância de apostar nas energias renováveis".

"Quanto menos dependermos dos combustíveis fósseis, melhor", declarou.

Os 27 avaliam hoje em Bruxelas as consequências desastrosas dos seis dias de paragem total da distribuição de gás russo que transita pela Ucrânia, devendo reiterar que já não há qualquer razão para a situação se manter, dado que Kiev já assinou um acordo sobre a monitorização internacional do trânsito do gás através do seu território para a Europa.

ACC.

PortugueseMan disse...

"A questão está não em retirar a Rússia do negócio, mas fazer com que ela não possa ditar."

Será muito dificil, para não dizer impossível contornar a Rússia.

É o melhor candidato por qualquer prisma que se olhe para fornecer energia à Europa.

Todas as outras alternativas, oferecem também problemas e nenhuma tem capacidade de oferecer em quantidade como a Rússia.

No entanto já que se fala aqui da Líbia, Argélia e Nigéria, aproveito para dizer que é verdade a Rússia está a posicionar-se em todos os fornecedores existentes ou potenciais da Europa.

Mas também é bom realçar que o contexto não é a Europa mas sim o mundo.

A expansão da Gazprom é a nivel planetário e ao contrário do que pensa, a Gazprom não terá dificuldades em obter dinheiro quando dele necessitar.

Porque como diz, mais do que uma companhia, a Gazprom é um braço político, com movimentações geo-estratégicas.

Jose Milhazes disse...

Leitor PortugueseMan, não sou eu que digo que a Gazprom não tem dinheiro, são os especialistas. Hoje, foi publicada a notícia que a gasífera russa deixou deixar no topo mundial das empresas de energia. Talvez você saiba mais do que os que se encontram na Rússia, mas repito que, neste momento, Moscovo não tem meios para grandes voos.
A União Europeu tem possibilidade de arranjar outras fontes de energia, incluindo o Irão, que tem enormes reservas de gás. E repare também que a UE se decidiu finalmente a participar na modernização da rede de transporte de gás da Ucrânia. Ou seja, se esta ideia for para a frente, a UE pode comprar gás na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, um dos objectivos ucranianos no conflito do gás com Moscovo.
Há sempre formas de resolver os problemas, o que é preciso é pensar. É preciso transformar o negócio de gás tão simples como o do petróleo.

PortugueseMan disse...

Obrigado pelo o texto.

De facto as declarações não deixam margem para dúvidas.

Se assim o é desconheço completamente qual a capacidade de armazenamento que possuimos e tenho muita curiosidade em saber.

Mas confesso que custa-me a acreditar nesta nossa capacidade como afirma o ministro

PortugueseMan disse...

"Moscovo não tem meios para grandes voos."

Mas quem os tem neste momento?

Moscovo está muito bem posicionado.

"E repare também que a UE se decidiu finalmente a participar na modernização da rede de transporte de gás da Ucrânia. Ou seja, se esta ideia for para a frente, a UE pode comprar gás na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, um dos objectivos ucranianos no conflito do gás com Moscovo. "

Não percebo o que está a querer dizer. A UE pode comprar gás na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia? como assim?

Jose Milhazes disse...

Até agora, a Rússia tinha como pretexto a Ucrânia para fechar a torneira. Se esse cenário se concretizar, o negócio é feito directamente. Por um lado, está a Rússia a vender. Por outro, está a UE e a Ucrânia a comprar. Segundo um político russo conhecido, isso "equivale à adesão da Ucrânia à UE e NATO".

PortugueseMan disse...

Confesso que não estou a perceber bem.

A UE compra à Rússia e a Ucrânia também.

Que negócio é que pode ser feito directamente?

Se tiver paciência detalhe a situação actual como a vê e a que pensa que pode ficar de modo a ficarmos sintonizados.

Obrigado.

Jose Milhazes disse...

Explico, se a UE e a Ucrânia se juntarem no nosso do gás, a UE passa a controlar com Kiev o sistema de transporte de gás logo à saída da Rússia. Até agora, os acordos sobre fornecimento de gás eram assinados entre a Rússia e a UE, participando a Ucrânia apenas na qualidade de transportador. Quando começou a crise do gás, a Ucrânia anunciou que não podia transportar gás, porque a Rússia suspendeu os fornecimentos. Caso avance o cenário descrito anteriormente, a Ucrânia passa a ser com a UE um sujeito dos acordos e Bruxelas passa a controlar o transporte do hidrocarboneto azul.
Isto é apenas uma das formas de tornar mais seguro o fornecimento de gás à Europa. ADas outras, já falámos.

PortugueseMan disse...

Obrigado pelo esclarecimento. Assim que puder respondo.

Anónimo disse...

Sobre armzenamento de gás nas cavernas de sal do Carriço, perto da Figueira da Foz

Galp Energia inaugura Armazenagem Subterrânea de Gás Natural
(http://press.galpenergia.com/galpmedia/vpt/comunicados/gas/galp_energia_inaugura_armazenagem_subterranea_de_gas_natural/galp_energia_inaugura_armazenagem_subterranea_de_gas_natural.htm)

MSantos disse...

A questão que se coloca é: tendo estado o José Milhazes há pouco tempo na Ucrânia e ter presenciado o sarilho e o antagonismo que existe entre estes dois países, acha que será sensato a UE tomar partido de uma das partes, de cariz tão duvidoso para utilizar um eufemismo? e qual será a postura russa face a esse eventual cenário? Provavelmente sentirá a tomada de partido por parte da Europa e irá alimentar ainda mais a sua paranóia contribuindo para fazer crescer o lado militar e alimentar tensões. Obviamente tudo isto irá de encontro aos desejos de uma determinada facção política apostada em dividir a Europa novamente, mas será isso que nós europeus desejamos para o nosso continente?

Creio que devemos ser firmes e rigorosos com a Rússia, assim como também devemos abrir portas e estender pontes de entendimento.

Relativamente aos países antagónicos (Bálticos, Polónia Ucrânia, Rep. Checa, Georgia, não sei se me estou a esquecer de algum) obviamente que os devemos acolher na Europa mas também não compactuarmos com atitudes provocadoras, desonestas, fruto dum revanchismo que já devia estar ultrapassado.

Portanto em tudo que envolvesse as relações UE-Rússia, para já e até prova em contrário, estes países deveriam ser mantidos á parte.

Toda a gente sabe, inclusivé os que são anti-Rússia embora o não admitam, que no dia em que esta poder fornecer o gáz ou o que quer que seja directamente á Europa sem meter estes países, os problemas acabam.

Cumpts
Manuel Santos

Jose Milhazes disse...

Caro Manuel Santos, eu sou dos que consideram que quanto maior for a aproximação desses Estados do Leste da Europa à UE (não falo da NATO, isso é outra estória), melhor serão as relações entre eles e a Rússia. Bruxelas fez numerosas declarações, em várias alturas, de que estava aberta à aproximação com esses países e deve cumprir as promessas. Não deve fazer com a Ucrânia o que faz com a Turquia.
É verdade que a situação política interna na Ucrânia é uma balbúrdia, mas se a UE tivesse olhado a sério para esse país em 2005, quando da revolução laranja, talvez as coisas não estivessem assim.
A Bulgária e a Roménia também têm sérios problemas, mas quem não os tem?

PortugueseMan disse...

Caro José Milhazes,

Peço desculpa pela demora em responder.

Em relação ao que diz, eu tenho sérias dúvidas que a Ucrânia permita o controlo dos seus pipelines.

E mesmo que a UE controlasse esses pipelines, isso não resolve o problema principal da Ucrânia, que é ter capacidade de pagar preços de mercado.

A única coisa que a UE pode fazer é subsidiar o gás ucraniano, de modo a garantir um fornecimento estável e sem sobressaltos, isto enquanto não for arranjado alternativa para o transporte de gás russo.

PortugueseMan disse...

Caro José Milhazes,

Você não consegue tirar a NATO da equação dado ser esse a origem do problema.

Jose Milhazes disse...

Leitor PortugueseMain, no próximo trimestre, o preço de mercado do gás rondará os 200-250 dólares por mil metros cúbicos. Porque é que a Ucrânia não poderá pagar? Os preços do gás vão deixar em flecha!
Quanto à NATO, ela não é origem do problema, porque se não fosse essa a explicação para as irritações de Moscovo, o Kremlin encontra outro motivo. O problema reside em que a Rússia quer continuar a mandar, a controlar os países vizinhos.
Se a NATO abandonar o alargamento à Ucrânia e à Geórgia, julga que os problemas ficarão resolvidos? Engana-se profundamente. A actual direcção russa continua a considerar que tem direitos especiais no antigo espaço soviético, e é isso que preocupa os vizinhos.
Moscovo até quer impor aos vizinhos a sua história. Você imagina Madrid a tentar impor aos portugueses uma história onde se escreve que, em 1580, Portugal aderiu voluntariamente à Espanha? Aqui, isso acontece todos os dias. Moscovo tenta definir quem são os heróis e traidores da história da Ucrânia, estónia, etc., etc.

PortugueseMan disse...

"...no próximo trimestre, o preço de mercado do gás rondará os 200-250 dólares por mil metros cúbicos. Porque é que a Ucrânia não poderá pagar? Os preços do gás vão deixar em flecha!..."

Não vão.

Primeiro, a Ucrânia já está a viver com empréstimos do FMI.

Segundo, mesmo com preços do gás iguais ao ano passado, este ano já haveria aumentos. Já reparou no valor da moeda ucraniana em relação ao dólar? Os 200 dólares já será um valor alto e rezem para que fique por aqui.

"Moscovo até quer impor aos vizinhos a sua história"

E vizinhos querem abrir bases da NATO e instalar sistemas antí-mísseis que pôem em causa a doutrina MAD actual.

ISTO É BRINCAR COM O FOGO.

"Quanto à NATO, ela não é origem do problema, porque se não fosse essa a explicação para as irritações de Moscovo, o Kremlin encontra outro motivo. O problema reside em que a Rússia quer continuar a mandar, a controlar os países vizinhos."

É a sua opinião. Você pode dar a volta ao texto como quiser, mas em todos eles a presença da NATO é uma realidade. E a NATO continua a ameaçar a Rússia. e é a NATO que se está a expandir.´

E já há tantos problemas internos na NATO devido a esta política de expansão, que já não se estão a entender.

"Se a NATO abandonar o alargamento à Ucrânia e à Geórgia, julga que os problemas ficarão resolvidos? Engana-se profundamente."

Eu nunca disse que os problemas ficariam resolvidos. Na Geórgia haverá sempre tensão, ou não tivesse lá um pipeline americano a aceder ao Cáspio. A presença americana na Geórgia e ligação ao Azerbeijão, colide com os interesses/segurança russos e iranianos e de um modo mais indirecto com os chineses e indianos.

Jose Milhazes disse...

Leitor PortugueseMain, até onde se estendem os "legítimos interesses" da Rússia. Eu sou dos que criticam a existência da NATO tal como existe, mas reconheço o direito de qualquer povo aderir ou não a essa organização. Nem a Rússia, nem ninguém tem o direito de limitar a soberania dos outros países, tanto mais quando os seus dirigentes defendem a crise de um mundo multipolar, sem o ditado sozinho e absoluto dos norte-americanos.
Explique-me uma coisa: acredita que a NATO vai atacar a Rússia ou vice-versa?
Quanto aos preços do gás, é mais preciso dizer que eles já estão a cair em flecha, no segundo trimestre, o seu preço será cerca de 50% mais baixo do que no primeiro. Isto não é uma descida em flecha? Só significa que a Gazprom vai receber metade do que o que recebia.
É verdade que a Ucrânia recorreu ao FMI, mas quem é que está livre disso em época de crise? A Islândia por lá passou e vamos ver se a Rússia também não vai ter de estender a mão. Na última semana, as reservas monetárias da Rússia sofreram um rombo de 10 mil milhões de dólares.
Sejamos realistas, a crise vai doer a todos.

PortugueseMan disse...

Caro José Milhazes,

E até onde se estendem os "legitimos interesses" dos EUA?

Eu também sou crítico da NATO tal como ela existe.

"...reconheço o direito de qualquer povo aderir ou não a essa organização..."

Eu também. E a Rússia faz o mesmo. A Rússia não tem poder de veto, sobre quem entra ou não na NATO. Se a NATO assim o quiser é avançar.

"...acredita que a NATO vai atacar a Rússia ou vice-versa..."

Os investimentos AMERICANOS dos últimos anos, apontam para o retomar do projecto de construir um sistema anti-míssil. Eles estão a seguir várias vertentes, inclusive a colocação de armas no espaço, armas anti-satélite e raios laser.

Com a colocação de interceptores perto da Rússia e as próximas reduções dos arsenais nucleares de acordo com os tratados ainda em VIGOR, (os EUA quebraram alguns abrindo aqui uma caixa de pandora), diminui a capacidade de resposta por parte da Rússia em caso de conflito nuclear.

O que os EUA querem ou não fazer não sei, mas que lhes dá novas perspectivas militares e diminui a capacidade da Rússia e quase anula o sistema nuclear chinês é um facto.

Como tal, temos brutais investimentos tanto na Rússia, China e India e onde infelizmente temos agora a China a fazer testes de armas anti-satélite, coisa que não se poderia fazer.

"o seu preço será cerca de 50% mais baixo do que no primeiro. Isto não é uma descida em flecha? Só significa que a Gazprom vai receber metade do que o que recebia."

olhe, pode insistir que os preços estão a cair e estão. mas isso não tira o facto que a Ucrânia ficou quase a pagar o preço de mercado, seja ele qual fôr e se para o ano o gás voltar subir, a Ucrãnia simplesmente rebenta.

A Ucrânia está a viver de empréstimos, tem a moeda a desvalorizar, como tal precisa de pagar mais para a mesma quantidade de gás e ainda por cima agora vai pagar mais caro, eu não vejo pior situação que esta é o pior que poderia acontecer.

A Gazprom não vai receber metade do que recebia, a Gazprom vai ter uma diminuição dos lucros, da mesma maneira que teve um aumento brutal de lucros no passado.

A Gazprom vai ter sempre lucros, como qualquer produtora de energia.

Pode é os lucros não chegarem para os investimentos a serem feitos. Simples, andam mais devagar, como TODOS os produtores.

A Rússia é um país produtor de energia com um grande pé de meia, e se teve um rombo de 10 mil milhões, é porque precisou e tem para gastar, sem PEDIR a ninguém.

A crise vai afectar a todos, incluindo a Rússia, mas esta está muito mais bem preparada para o embate que muitos países.

E se a Rússia gastar toda a sua reserva, eu nem quero pensar onde já estão muitos países, nem quero pensar.

Jose Milhazes disse...

Leitor PortugueseMain, vamos ver. Mas não respondeu à pergunta com um sim ou não: A Nato vai declarar guerra à Rússia ou vice-versa? O resto são jogos políticos.
Acho que você tem demasiada confiança a propósito da situação económica na Rússia, talvez saiba mais do que eu, que a sinto na pele todos os dias, directa e indirectamente.

PortugueseMan disse...

Claro que não. A guerra entre ambos só tem uma via a nuclear e toda a gente sabe disso.

O resto são exactamente jogos politicos, como o caso da Ucrânia e Geórgia, por exemplo.

Mas atenção, a escassez de fontes de energia por parte de grandes consumidores, irá sempre gerar tensões. Quem necessita de energia, tem que se mexer e tem que garantir o fornecimento.

Neste lado da barricada, temos os EUA, a China e Europa.

Do outro lado da barricada temos os produtores, que não precisam de escarafunchar para obter energia, mas precisam de se proteger de consumidores demasiado àvidos.

"Acho que você tem demasiada confiança a propósito da situação económica na Rússia, talvez saiba mais do que eu, que a sinto na pele todos os dias, directa e indirectamente."

Eu acho que você por sentir todos os dias na pele directa e indirectamente, tem uma opinião demasiado negativa sobre a situação económica da Rússia.

Eu não digo que estejam bem porque ninguém está. Mas estão numa situação mais robusta que muitos países.

Você não me consegue apontar muitos países que tenham saneado as suas dívidas em tão pouco tempo, nesta altura ainda era suposto a Rússia estar a pagar a dívida ao FMI de 98.