domingo, maio 10, 2009

Contributo para a História (Moçambique)


Durante o fim de semana, li na imprensa, mais concretamente na Agência Lusa, que em Lisboa se realizou um seminário sobre o tema "África Austral na Era da Guerra Fria", iniciativa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.
A julgar pelos materiais a que tive acesso (repito, a julgar pelos materiais a que tive acesso), a Guerra Fria volta a ser escrita "sem a parte soviética", o que é de lamentar, porque sem documentação soviética, o puzzle ficará sempre incompleto.
Alguns exemplos, uns dos participantes da conferência citada, José Duarte de Jesus, embaixador e Professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), declarou à Lusa a propósito do assassonato de Eduardo Mondlane: ""quem mais lucrou [com a sua morte] foi a União Soviética e os elementos mais radicais da Frelimo", que "não gostavam dele", uma vez que "não era um marxista, não alinhava com as ideias mais radicais" e até "era casado com uma americana branca", que conheceu enquanto leccionou nos Estados Unidos, na Universidade de Siracusa".
Quanto aos "elementos mais radicais da Frelimo", estou plenamente de acordo, não podendo dizer o mesmo em relação à afirmação de que a URSS foi quem mais lucrou com a morte de Mondlaine.
Segundo testemunhos de embaixadores soviéticos que assistiram a esse processo, Mondlane era altamente considerado em Moscovo. Claro que para os dirigentes comunistas da URSS, era importante que um dirigente de um movimento de libertação nacional fosse "marxista-leninista", mas bastava que ele se declarasse "anti-imperialista", para que recebesse todo o apoio da URSS. Daí os soviéticos terem apoiado dirigentes do Continente Africano como Nasser no Egipto ou Bocassa na África Central.
A União Soviética também não ganhou com a substituição de Mondlaie por Samora Machel, visto que este dirigente moçambicano se tornou uma verdadeira "dor de cabeça" para os soviéticos, principalmente depois da independência de Moçambique. Já publiquei neste blog um texto a propósito do radicalismo de S. Machel aos olhos dos diplomatas soviéticos, mas posso citar outros testemunhos, nomeadamente em relação ao receio de Moscovo face à aproximação de Machel em relação a Pequim.
Podemos encontrar numerosos testemunhos de que os soviéticos se sentiam melhor no diálogo com Joaquim Chissano do que com Samora Machel.
O Professor José Duarte Jesus afirma ainda: "Nesse aspecto (Mondlane) é uma figura singular. Foi talvez o mais independente dos líderes (...) A grande ideia dele foi sempre receber armas da China, da União Soviética e outros países de Leste, mas mandar a maior parte dos bolseiros para a Suíça e Estados Unidos. Receber o 'hard power' de um lado e o 'soft power' de outro".
Sem tecer comentários, cito aqui apenas um episódio relatado por A. Glukhov, conselheiro da Embaixada da URSS na Tanzânia entre 1968 e 1973 e primeiro Encarregado de Negócios da URSS em Moçambique: "Infelizmente, eu não trabalhei durante muito tempo com E. Mondlane. No início de 1969, ele foi assassinado na sua residência em Dar-es-Salam num acto terrorista organizado pelos serviços secretos portugueses (PIDE)".
"Recordo claramente", continua o diplomata soviético, "o último encontro com ele nessa mesma villa dois dias antes da sua morte. Discutia-se então a questão da preparação de um grande grupo de juventude moçambicana para ser enviada para estudar na União Soviética. Ao acompanhar-me até ao carro e despedir-se, ele disse que sonhava que os seus filhos estudassem na União Soviética e que ele tencionava enviar um pedido oficial sobre isso à direcção soviética. (Mais tarde, o filho e a filha dele foram enviados para estudar na URSS)".


7 comentários:

Jest nas Wielu disse...

No livro autobiográfico sobre Janeth Mondlane “Meu coração na mão de um negro”, se fala sobre as vivências do filho do Mondlane no orfanato na URSS, que era tratado muito mal por soviéticos, pois eles não sabiam quem ele era, julgavam que o miúdo era o filho de uma soviética, abandonado pelo pai...

Anónimo disse...

Há, neste país, uns quantos experts que julgam tudo saber e tudo avaliam com os oculos que não tiraram desde os tempos da guerra fria...
FM

Jose Milhazes disse...

Caro Jest, obrigado pela referência, irei estar atento ao tema.
Caro FM, é preciso mudar de lentes periodicamente, a idade a isso obriga.

O Recuperado disse...

Deve estar a brincar concerteza.
A União Soviética adorava essa personagem. O único medo da União Soviética era o de o deixar fugir... pois havia sempre a possibilidade daquela "Americana branca" que estava casada com ele não fosse mais que uma espia Americana.
Na realidade, era uma Marxista Americana.
A União Soviética também nunca apreciou fantoches um pouco menos que cegamente obedientes, mas gostava e contava com esta personagem.

Pinto de Sá disse...

A tese de que a morte de Mondlane só interessava à URSS é similar á de que a de Humberto Salazar só interessava ao PCP.
São ambas teses patrocinadas pela PIDE, como ainda recentemente a série televisiva de Joaquim Furtado documentou.
No entanto, nessa mesma série televisiva pudemos ver o filho de Casimiro Monteiro a testemunhar como o pai lhe contara que tinham enviado as bombas - inicialmente seriam 4, mas depois reduziram-na á de Mondlane.
Obviamente, Samora Machel era muito mais pró-chinês que pró-russo. Aliás, à época a influência maoísta na região era grande, como o caminho de ferro construído pela China na Tanzânia o mostra.

Jose Milhazes disse...

Leitor Pinto de Sá, creio que, nesta e noutras situações análogas, o melhor é tentar apoiar-se em documentos e testemunhos credíveis, evitando muita especulação. Daí eu defender a imoportância de reunir opiniões e documentos de todas as partes que participaram nos conflitos ligados à Guerra Fria.

Emanuel Lopes disse...

Só agora vi o seu comentário. Parece claro para quem se interessa por estes temas que Mondlane foi assassinado pela PIDE/DGS. Penso que existem provas e declarações dos próprios agentes que prepararam a bomba. Insinuar que outras forças tiveram qualquer papel no assunto é, parece-me, pura ficção. Participei no seminário que refere, não conheço o Embaixador e não me cabe defendê-lo. Não me pareceu que o Embaixador Duarte de Jesus tenha feito a afirmação com a intenção que lhe atribui. Creio que ele apenas queria dizer que no final, a morte do Doutor Mondlane não beneficiou Portugal, e a médio prazo beneficiou a URSS, porque depois da sua morte a Frelimo se aproximou mais desse país.

Apesar de, como diz, Samora Machel se ter tornado "uma dor de cabeça" para os sóviéticos, a aproximação a este país foi testemunhada ainda recentemente pelas declarações de vários dirigentes da Frelimo, no programa sobre a Guerra Colonial que a RTP1 passa semanalmente, de autoria de Joaquim Furtado.

Terei todo o gosto em lhe fazer chegar o texto completo do Embaixador (ou os outros).
Mas numa coisa também tem razão, continuamos a fazer História sem conhecer um dos lados.

Cumprimentos
Emanuel Lopes
(uabalumuka@ymail.com)