sábado, julho 04, 2009

Recordando Anna Akhmatova


Anna AKHMÁTOVA (1889-1966)

Nascida perto de Odessa, passou grande parte da sua vida em Leninegrado. Casada com um oficial branco, fuzilado durante a guerra civil, não aceitou imediatamente a revolução, embora se recusasse a abandonar a Rússia. Se bem que pertencesse à União dos Escritores Soviéticos, os seus livros editavam-se pouco. Praticamente, só a partir dos anos 60 granjeou fama como poeta lírico. Em 1965 foi-lhe atribuído o prémio internacional Etna Taormina, da Academia Italiana, e o título de doutor “honoris causa” pela universidade inglesa de Oxford.
Poeta de um lirismo trágico, tanto pelo modo de sentir como pelas circunstâncias da sua vida, Akhmátova é uma das mais representativas continuadoras da tradição da poesia clássica russa, cujas infinitas possibilidades soube explorar.
A tradução do poema abaixo publicado é do meu saudoso amigo José Sampaio Marinho.

A MULHER DE LOTH

E a mulher de Loth olhou para trás
e transformou-se em estátua de sal.

E ia o justo atrás do enviado divino,
Enorme e claro, pela montanha de pez.
Mas algo à mulher disse num tom cristalino:
Ainda não é tarde, olha mais uma vez

As torres ígneas da tua natal Sodoma,
A praça onde cantaste, o pátio onde fiaste,
As vazias janelas da casa sem dona,
Onde o marido amado com filhos brindaste.

Olhou. Paralisados pela dor mortal,
Seus olhos mais não viram do que a noite escura,
E o seu corpo ficou de transparente sal
E os pés ágeis cravaram-se na terra dura.

Quem entre os homens tal mulher lamentará?
Não será ela a perda menor a chorar?
Só o meu coração jamais esquecerá
A que perdeu a vida por um só olhar.

7 comentários:

Anónimo disse...

Excelente poema. A fazer jus ao ditado: "A curiosidade matou o rato".
Pessoalmente prefiro a história da Medusa: essa transformava ela os outros em estátuas, sobretudo homens, como é sabido. Digamos que é o oposto da mulher de Lot, um tipo de poder feminino esmagador.
Enfim, mitologias...

Anónimo disse...

Só uma duvida...Se o poema é traduzido de russo para portugues como é que pode rimar na mesma?

Jose Milhazes disse...

Leitor Anónimo, nisso reside a arte de tradução de poesia de uma língua para outra. É muito difícil, mas alguns conseguem. José Sampaio Marinho era um dessses.

Anónimo disse...

Não deixa de ser uma arte confesso.Mas não deixa de ser verdade que deturpa um bocado o poema,pois muda palavras.E a palavra no poema é tudo,é ela que caracteriza o poeta e o seu sentimento na altura.

Jest nas Wielu disse...

Seria justo dizer que o nome verdadeiro da poetisa é Anna Gorenko, de origem ucraniana, portanto.

Jose Milhazes disse...

Caro Jest, isso não é importante, pois escrevia em russo, trata-se de uma poetisa russa. Nasceu em Odessa. Por acaso, não tem raízes judias?
Para mim, o importante é que se trata de uma grande poetisa.

Jest nas Wielu disse...

Pois, mas se ela nasceu sendo ucraniana, é justo e correcto mencionar este facto histórico.

Ex.: a imprensa portuguesa menciona os raizes portugueses do Sam Mendes (Beleza Americana), J-Key (cantor), etc.