terça-feira, agosto 11, 2009

Grozni, a cidade que renasceu das cinzas

Mesquita Akhmad Kadirov

Retratos de pai e filho Kadirov

Sala de Concertos de Grozni


As ruas da capital da Tchetchénia, cidade de Grozni, já não fazem lembrar as imagens televisivas que chegavam desta urbe nos anos noventa do século passado ou nos primeiros anos do actual.
A capital tchetchena sarou muitas das feridas materiais provocadas pela guerra, mas os cidadãos daquela república da Federação da Rússia no Cáucaso do Norte ainda sentem o peso da perda de milhares dos seus entes queridos na guerra entre separatistas islâmicos e Moscovo.
“Conta-se que um jornalista ocidental prometeu cem euros a quem lhe mostrasse um edifício atingido por bombas ou balas, mas não encontrou ninguém capaz de fazer isso”, declara à Lusa Adam, advogado de Grozni, com uma ponta de orgulho.
Adam chama a atenção para o Parque construído em memória dos jornalistas que norreram nas duas guerras da Tchetchénia (1994-1996 e 1999-2001).
“Esté é o primeiro lugar na cidade onde as pessoas puderam estar até altas horas da noite à mesa das esplanadas de cafés e restaurantes sem receio de tiros ou bombas”, sublinha ele, apontando para um longo jardim ladeado de árvores novas e com uma fonte ao meio.
Alguns metros à frente, torna-se visível a grandiosa mesquita que tem o nome de Akhmad Kadirov, Presidente pró-russo da Tchetchénia que foi assassinado pelos guerrilheiros islâmicos em 2004, pai do actual dirigente, Ramzan.
Pelo traço e pela imponência, este templo muçulmano tenta não só copiar, mas até competir com a Catedral de Santa Sofia em Istambul, na Turquia, templo cristão transformado em mesquita pelos turcos.
Perto da mesquita, que Adam recorda ser “a maior da Europa”, foi recentemente inaugurada uma moderna sala de concertos, que já foi palco de um atentado terrorista. Há pouco mais de dez dias atrás, uma suicida fez-se explodir à porta do edifício, tendo o atentado, que visava liquidar Ramzan Kadirov, morto seis pessoas e ferido dezenas.
“Trata-se de um acto cada vez mais raro em Grozni e na Tchetchénia. Os terroristas querem mostrar que ainda combatem, mas têm cada vez menos apoio. As pessoas estão cansadas”, afirma à Lusa Akhmad, estudante de uma das escolas superiores da capital tchetchena.
O taxista Aslambek desvia a nossa atenção para o nome da principal artéria da cidade: a Avenidade Lénine ostenta agora o nome do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin.
“Trata-se de uma iniciativa de Ramzan Kadirov, que considera que Vladimir Putin está na origem na estabilidade que hoje temos”, frisa Mukhamad, outro estudante.
O culto da personalidade, ou mais exactamente, de várias personalidades, é evidente desde que se aterra no Aeroporto de Grozni.
“A minha arma é a verdade e qualquer exército é impotente perante essa arma”, reza umas das citações de Akhmad Kadirov escrita à entrada do aeroporto. A poucos metros da porta aérea da capital tchetchena, numa das paredes de um hotel pode-se ver um gigantesco retrato de Ramzan Kadirov com a palavra de ordem: “A felcidade consiste em servir o povo”.
Além dos retratos de Akhmad e Kadirov, pode-se ver em numerosas praças e ruas da cidade os rostos de Dmitri Medvedev e Vladimir Putin, Presidente e primeiro-ministro da Rússia.
“Eu não aprovo que se colem por todo o lado o meu retrato, a iniciativa não é minha. Pode retirá-los todos amanhã, mas aparecerão novos. Se ninguém os arranca ou estraga com tinta, é porque o povo me apoia”, declarou à Lusa Ramzan Kadirov, quando confrontado com essa questão.
“É um gesto do povo para com o Presidente, que trouxe estabilidade, calma à Tchetchénia”, concorda o advogado Adam.
Durante o dia, Grozni é uma cidade como outra qualquer, mas quando cai a noite é notório o aumento de patrulhas militares e policiais nos acessos à capital tchetchena.

8 comentários:

Anónimo disse...

Isto de pais e filhos, pequeno lider e grande lider, queridos lideres, enfim, que coisa tão demodé, mas tão oriental...

Anónimo disse...

Na Chechénia a língua e os costumes têm sido preservados ao longo de milénios.
Independentemente da posição que se tenha àcerca da actual Groznyi e Chechénia convém reparar em alguns sinais lá presentes.
É lamentável que o texto na fachada da sala de concertos entre outros só esteja em russo. É um atentado contra a cultura chechena.

anónimo russo disse...

Anónimo disse...
Na Chechénia a língua e os costumes têm sido preservados ao longo de milénios.
Independentemente da posição que se tenha àcerca da actual Groznyi e Chechénia convém reparar em alguns sinais lá presentes.
É lamentável que o texto na fachada da sala de concertos entre outros só esteja em russo. É um atentado contra a cultura chechena.



Não se preocupe com a cultura tchetchena, ninguem a oprime.

MSantos disse...

Caro José Milhazes

Poderia só fazer o favor de informar se a mesquita que é cópia da Haguia Sofia é de construção relativamente recente ou já vem da antiguidade.

Obrigado e cumpts
Manuel Santos

Jose Milhazes disse...

Caro MSantos, a mesquita é uma cópia muito recente, não se trata de restauro de um edifício antigo.

Anónimo disse...

Aquela mesquita tem obviamente estilo "neo-otomano". Arquitectos como Sinan houve poucos!
Pelo menos quase podia passar pela mesquita azul em Istanbul. Nada mau!

Hagia Sofia (ou Santa Sofia) influenciou é certo a arquitectura otomana, mas as cúpulas são obviamente diferente no estilo e construção.

Esperemos que tal como diz "anónimo russo" não haja opressão da cultura chechena. É que quer se queira quer não esses povos do Cáucaso têm um património cultural único. É bom que o cidadão comum russo também o reconheça e respeite. Oxalá!

MSantos disse...

"É bom que o cidadão comum russo também o reconheça e respeite. Oxalá!"

...e também aprenda.

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

O cidadão comum russo não conhece nem respeita as culturas da Federação que não sejam a russa. Para isso, o Governo tem muita culpa, pois não existe um mínimo esforço de dar a conhecer as outras culturas. Na televisão (canais federais), por exemplo, não há notícias que não sejam as de Moscovo e arredores; os programas das televisões regionais (que sempre mostram alguma coisa da vida das repúblicas e regiões federadas) não são passados nas televisões centrais. Um habitante de Moscovo não faz a mínima ideia do que se passa nas outras regiões ou repúblicas do país. O russo médio não sabe nenhuma outra língua dos povos da federação, a não ser o russo (porque nas escolas não se ensinam), não conhece outros escritores que não sejam os russos. Considera-se que para viver em qualquer canto da federação, basta saber russo e, mesmo quando as famílias russas vivem nas repúblicas federadas, p.e, Tatarestão, Inguchétia, etc, não se preocupam absolutamente nada em saber as línguas locais. Há, digamos, um auto-isolamento linguístico dos russos quando vivem em repúblicas da federação. Aliás, isso acontecia também na União Soviética e gerou os problemas que temos hoje nos países bálticos, onde uma grande percentagem dos russos se recusa a aprender a língua local e insiste em que os seus filhos sejam educados somente em escolas russas. Por exemplo, são poucos os russos (da Rússia) que sabem ucraniano. Para eles, saber outras línguas nacionais é um desperdício de tempo.
Este auto-isolamento cultural também tem características positivas que é preservar a cultura e língua russas quando estas vivem em diáspora mas, na actual Federação, é origem de desconhecimento e conflitualidade entre os povos. Houve alguém que me disse que este fenómeno de "etno-centrismo cultural" é uma característica das grandes nações imperiais que têm consciência do seu tamanho geográfico e do seu domínio linguístico: caso também dos americanos (que só sabem falar inglês) e dos chineses.
É, de facto, um tema para reflexão.

João Mestre