quinta-feira, novembro 26, 2009

Visão judaica do Holodomor ucraniano


Texto envio pelo leitor Jest:


"O
poeta e tradutor ucraniano de origem judaica, Moses Fishbein é uma voz irrequieta, que clama pelo reconhecimento do Holodomor como genocídio do povo ucraniano, mas também exige o julgamento daqueles que permitiram essa tragédia.

Intervenção do
Moses Fishbein no encontro solene dedicado à memória das vítimas do Holodomor (Ópera Nacional de Kiev, 26.11.2006)

A nação ucraniana é assassinada e não morta, exterminada e inexterminável. Dos ucranianos tiraram a terra, a língua, a cultura, a história, o poder, até a própria vida. Exterminavam pela raiz a intelegentzia ucraniana, a elite ucraniana. Prendiam e fuzilavam. Exterminavam a fina-flor da nação ucraniana – os camponeses ucranianos. Matavam pela fome. Faziam o genocídio. Aqueles, que hoje tentam negar que o Holodomor dos anos 1932 – 1933 foi um genocídio da nação ucraniana, não temem e não conhecem o Deus. Eles conhecem e temem apenas o chefão e os assassinos. São criados. “Escravos, lambe botas, o lixo de Moscovo”. Eles não são ucranianos. Eles são diabritos com a aparência ucraniana. Eles são os descendentes dos assassinos do povo. Com aqueles que negam que o Holodomor era o genocídio devem falar não os publicistas, não os politólogos, não os políticos, mas os investigadores criminais ucranianos (chamo a atenção: os investigadores criminais ucranianos). Recentemente, o Presidente ucraniano da Ucrânia (chamo a atenção Presidente ucraniano da Ucrânia) fez alguns passos em direcção não das pessoas abstractas, mas à nação ucraniana, recentemente ele chamou em voz viva o Holodomor de genocídio, e os diabritos gritaram. “Não é precisa a palavra genocídio, podemos chamar de outra maneira”, gritou um. “Ele abre a ravina entre os povos eslavos!”, gritou outro. A ravina foi aberta no ano de 1933. Uma ravina enorme. Uma enorme campa ucraniana. Nela se deitaram não as dezenas, não as centenas, não os milhares, não as centenas de milhar – milhões de camponeses ucranianos: as crianças, as mulheres, os homens… E não tinham nenhuma ajuda. Não havia junto a eles os
justos entre as nações. Senhores, vocês sabem como morria, como agonizava de fome a aldeia ucraniana no centro da Europa? Primeiro comiam as cascas de batata. Depois as bolotas. Depois as gomas. Depois as raízes e as folhas. Comiam os cães, gatos, pardais, vermes, as peles, as solas de sapatos. Depois a aldeia se transformou em um deserto. As crianças gritavam a noite, pediam às mães o pãozinho. As mães não tinham o pãozinho. Depois as vozes de crianças já não se ouviam. Depois a aldeia começava uivar piedosamente. Depois gemia baixinho. Depois se calou e se transformou no cemitério. Mas o país tinha o pão. Isso era o assassínio do povo. Isso era o genocídio.

Eu conheço o Holodomor não dos historiadores, não dos publicistas, não dos escritores. Eu sei sobre o Holodomor da minha mãe. A minha mãe, Sara Aronivna Matusovska, em 1932 – 1933 era a professora de língua e literatura ucraniana na aldeia de Horozhene, na província de
Mykolaiv. Ela foi sobrecarregada com as aulas extra de canção. As crianças ficavam encharcadas de fome. Adormeciam nas aulas. Acontecia, que nem acordavam. Mas no programa escolar estão as canções. Canções! Na primavera começaram comer o capim. Iam aos cemitérios, nos cemitérios sempre havia um capim farto. Um rapaz vizinho saiu de casa. Com muita dificuldade rastejou até o cemitério. Sem forças, caiu no capim. Mãe espera – não vem. Começou a procurar. Encontrou-o. De repente, viu que alguém é sepultado. Aproxima o rapaz, o puxa pela mão.

— Filhinho, lá sepultam alguém. Já está pronta a campa. Vamos, eu te lá coloco. De qualquer maneira, você não sobreviverá. Eu vou morrer brevemente, quem o sepultará?..

À muito custo as pessoas defenderam o menino. Em alguns dias morreram, a mãe e o rapaz. As pessoas os sepultaram.

Quantas são, estas trágicas campas sem o nome na Ucrânia? Esquecidas. Inesquecíveis. Quando serão julgados os carrascos? Quando? Eu espero.

Glória eterna aos assassinados.

Texto integral da intervenção na página do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia (em ucraniano e inglês):
http://www.mfa.gov.ua/mfa/ua/publication/content/21890.htm?lightWords=%D0%BF%D1%80%D0%B5%D0%BC%D1%96%D1%97Fonte:
http://olena-nekora.livejournal.com/61513.html

Publicado:
http://ucrania-mozambique.blogspot.com/2009/11/visao-judaica-do-holodomor-ucraniano.html"

15 comentários:

Ítalo Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roman disse...

Ó Jest, chegou a Sua hora)). Que todos se abasteçam com lenços, pelos vistos serão necessários.))

Anónimo disse...

O que aqui está exposto não é mais que uma Ode ao mais puro reaccionarismo. Uma veneração à mentira e a tentativa de uma vez mais apunhalar a verdade pelas costas.

Foram apenas os Ucranianos atingidos por esse flagelo?
Porque razão em Julho/Agosto de 1933 a situação se inverteu repentinamente?

Consultem esta noticia____ www.rg.kiev.ua/page5/article12595

Carlos TR

anónimo russo disse...

Com a frase "Texto envio pelo leitor Jest" o sr. Milhazes já disse tudo, mas vou repetir o que já tinha dito uma vez neste blog:


"Segundo dados documentais, durante a fome na União Soviética no início dos anos 30, que os historiadores consideram consequencia da política cruel do poder comunista em relação aos camponeses, no total morreram de 7 até 8 milnhões de pessóas. Entre eles de 3 a 3,5 milhões morreram na Ucrânia, 2 milhões de pessõas morreram no Kazaquistão e Quirguízia atuais e de 2 a 2,5 milhões na Rússia. Resumindo, sofreram as mais importantes áreas rurais.
Mas, por alguma razão misteriosa, só na Ucrânia isso de repente começou a ser chamado de genocídio. Foi uma das principais ideias do atual presidente ucraniano..."

Jose Milhazes disse...

Caro anónimo russo, eu publico os textos que me são enviados e que acho que têm interesse para os leitores. Até agora não recusei nenhum.
Mas isso ñão significa que esteja de acordo com tudo o que lá está escrito. A minha posição sobre o Holodomor já foi várias vezes expressa neste blog: não se trata de um genocídio porque não visava exterminar um povo concreto, mas constitui um crime contra a humanidade do estalinismo.

Jest nas Wielu disse...

2 Roman

A reacção normal de pessoas normais é essa, sim, de comoção, de tristeza, de compaixão. Confesso que eu próprio fiquei comovido e triste, embora já li muita coisa sobre a tragédia do Holodomor.

2 Anónimo Carlos TR

O jornal por si citado é órgão do Partido Comunista da Ucrânia, descendentes ideológicos dos carrascos do nosso povo, são os tais diabritos com a aparência de ucranianos sobre quais tão bem fala o judeu Fishbein (a prova viva do que a nacionalidade não está na sangue, mas é uma escolha).

2 Anónimo russo 7:37

Também vou repetir aquilo que já disse antes: para mim, a morte de até 3,5 milhões de meus compatriotas no período temporal de 2 (!) anos é uma tragédia, é um crime, é um genocídio. Para si, pelos vistos, a morte de 2-2,5 milhões de camponeses russos não merece nenhum reparo, nenhuma reflexão, nenhuma vontade de estudar e compreender. Talvez isso é que nos separa, como bem disse Fishbein, a ravina foi cavada em 1933…

Anónimo disse...

2 Anónimo Carlos TR

O jornal por si citado é órgão do Partido Comunista da Ucrânia,


O Jest e as suas Jestficações.
Não interessa a fonte da noticia. Interessa a sua credibilidade.

Ou são idóneas apenas as informações saídas do nosso leque ideológico? E quando nos agradam?
O senhor tem apenas que provar que aquilo que lá está não corresponde à verdade e que esse tal Professor Gueorgui Tkatchenko o que diz é mentira.
Não faça trocadilhos. O artigo publicado por jornal que o senhor diz que é o órgão do PCU, é apenas o que disse esse Professor numa palestra, que por sinal nem é membro desse partido.

A grande razão destas questões serem trazidas para a actualidade, dando-se-lhe todo esse destaque e dramatismo sensacionalista conhecido, prende-se apenas com a incapacidade dos governantes da Ucrânia em resolverem os problemas do país.
Porque o senhor sabe muito melhor que eu, e se for honesto terá que reconhecer isso, que toda a actividade estrutural da Ucrânia se está a degradar perigosamente (económica, social, politica, tecnológica……).
Portanto nada melhor que iludir a opinião publica com um bode expiatório qualquer. Há sempre um bom pretexto para acicatar os ódios do povo.
Sabe qual o maior problema da Ucrânia? É desejar integrar faustosamente a economia de mercado! Mas o mercado movimenta-se com dinheiro e vocês Ucranianos não têm com que arranja-lo. Por esse facto criam problemas aos vossos vizinhos.
Sobre a fonte dessa noticia desejo acrescentar que por o senhor ser um fervoroso adepto de uma ideologia que está em desuso nos países mais evoluídos é uma coisa.
Outra bem diferente é tentar colocar em duvida tudo quanto esteja fora do seu campo visionário e interesses políticos.
Carlos TR

Wandard disse...

"Caro anónimo russo, eu publico os textos que me são enviados e que acho que têm interesse para os leitores. Até agora não recusei nenhum."

Sr. Milhazes,

Peço perdão, mas tenho de discordar do senhor, pois recusa textos se estes falarem contra os Estados Unidos da América, justificando que não se encaixa no contexto do blog. Acredito que esta justificativa seria válida se não houvesse relacionamento entre a Rússia e esta nação o que ocorre e muito constante, pois é o contexto da geopolítica.

Vox disse...

Jest, obrigado pelo texto.

Abro aqui um parentsis para informar que a "menina russa" que mais nada é que "a refém portuguesa" vai ficar lá, no meio do alcoolismo e da brutalidade ...

Mais um um impressionante depoimento sobre a desumanidade do regime comunista na ex-União Soviética, um regime, que, não esqueçamos, em nome de "um homem novo", não se coibiu de produzir estes dramas.
Onde está, afinal, o tal "homem novo"?
Ora bolas, e o sr. Anónimo Russo, ainda fala de milhões de seres humanos mortos, como se de insectos estivesse falando.
Da última vez que falei com ele, referi que não obstante os milhares de mortos e mutilados em África durante a Guerra, por responsabilidade dos russos (e também checoslovacos, jugoslavos e outros comunas) não alimentava ressentimento em relação ao país e ao povo dele.
Não obstante, não obtive retorno (nenhuma mensagem da parte dele).

Subscrevo inteiramente as palavras do senhor Milhazes, um patife da pior estirpe, esse Estaline!

Anónimo disse...

Vox disse:
««««««referi que não obstante os milhares de mortos e mutilados em África durante a Guerra, por responsabilidade dos russos (e também checoslovacos, jugoslavos»»»»»»»»

Não teria sido a teimosia dum regime fascista ao serviço dos interesses dos grandes “senhores” chefiado por o tirano Salazar que provocou esse drama que refere?
Qual foi a sua nota em história? 0,5 !
Carlos TR

Jest nas Wielu disse...

2 Anónimo Carlos TR 0:29

1. Carlos, me permite ter o meu direito de reserva sobre as palavras daqueles que são os descendentes directos dos carrascos do meu povo.
2. Existem em todo o mundo os “professores” que negam o Holocausto judáico, não há nada a fazer.
3. Não existe nenhuma pontinha do “dramatismo sensacionalista” no facto do que os membros da minha própria família sofreram com o Holodomor. A minha avo que morreu no início dos anos 90 e que me contava sobre o Holodomor (muitíssimo pouco) de certeza que não recebia as ordens “dos governantes ucranianos”.
4. Carlos, por amor a verdade, o que a “actividade estrutural da Ucrânia” de hoje tem a ver com o genocídio do que meu povo foi vítima em 1932-1933?!!
5. Carlos, quanto tiver o tempo & dinheiro, peço para visitar a Ucrânia, para se certificar, que o país já vive a economia de mercado (vive como pode, é claro), como tal, a nossa vontade de recordar a nossa tragédia histórica tem outras razões, fora das do mercado.
6. Não entendi o que queria dizer com as duas últimas frases, mas veja, que daqui a pouco, vai achar que a nossa vontade de recordar a tragédia nuclear do Chornobyl, porventura, também é “reaccionária” e é só para chatear os vizinhos (leia-se os moscovitas).

Vox disse...

Carlos TR disse:

"Não teria sido a teimosia dum regime fascista ao serviço dos interesses dos grandes “senhores” chefiado por o tirano Salazar que provocou esse drama que refere?"

Mais disse o preopinante:

"Qual foi a sua nota em história? 0,5 !"

Aquilo que o sr. qualifica como regime fascista, de fascista nada teve se comparado com o típico fascismo italiano, o nacional-socialismo de Hitler, os falangistas de Franco, etc.

E o "tirano" foi, em votação popular, eleito o maior português de todos os tempos.

Os militares enviados para África, foram em missão de defesa, não em missão ofensiva, os "guerrilheiros" que pegaram em armas nos territórios africanos, eram um número ínfimo da população africana, e Portugal nunca financiou nem armou grupos armados de guerrilheiros para derrubarem os regimes da ex-URSS, Checoslováquia, Jugoslávia e outros satélites.

E o ignorante em história sou eu!

Anónimo disse...

"E o "tirano" foi, em votação popular, eleito o maior português de todos os tempos."

Senhor Vox

Tenha a decência de aceitar esta dita votação popular como não válida dado ter sido voluntária e obviamente quem votou foram os radicalizados, os fanáticos, os saudosistas.

Se fizessem um referendo ao povo português e obrigassem a todos a responder à pergunta:

"Quer Salazar ou alguém como ele novamente no poder ou acha que ele foi o maior português de sempre?"

Seja honesto e diga qual é que acha que seria a resposta.

Ítalo Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vox disse...

anónimo disse:

"Senhor Vox
Tenha a decência de aceitar esta dita votação popular como não válida dado ter sido voluntária e obviamente quem votou foram os radicalizados, os fanáticos, os saudosistas."

Os radicalizados e os fanáticos votaram sim, mas em Alvaro Cunhal, líder do partido comunista, que ficou em segundo lugar :)

Mário Soares (que tal como Gorbachov é mais popular no exterior do que na Pátria dele) ficou para o fundo da tabela :)

Mais disse o anónimo:

"Se fizessem um referendo ao povo português e obrigassem a todos a responder à pergunta:
"Quer Salazar ou alguém como ele novamente no poder ou acha que ele foi o maior português de sempre?"

Obrigassem, ou perguntassem:

Seja como fôr, perante esta corja corrupta que desgoverna o País, não tenho a mínima dúvida que o Povo, sobretudo aqueles que viveram antes e agora, e que podem comparar, elegiam Salazar, quer fosse como o melhor governante de sempre, quer como o governante para governar (se ele fosse eterno, claro).

Tem algumas dúvidas?
Olhe em seu redor, e veja Portugal.