terça-feira, janeiro 12, 2010

Blog dos leitores

Texto enviado por António Campos
"Mau tempo para os democratas russos

Especialmente desde o final da segunda guerra mundial, o espaço geopolítico a que costumamos chamar “civilização ocidental” tem vindo a evoluir no sentido do reforço dos valores democráticos e da defesa dos direitos humanos. Os líderes ocidentais vangloriam-se, com alguma justeza, de fazerem parte de um espaço onde, melhor ou pior, os sistemas políticos usufruem de um mandato popular legítimo e existe alternância democrática, respeito pelos direitos humanos e protecção social dos desfavorecidos. Parte da sua missão tem também vindo a ser a criação de instituições transnacionais que promovem estes valores universais junto de outras sociedades, tais como o Conselho da Europa ou a OSCE. A União Europeia, enquanto sistema político, tem tido também um papel activo neste aspecto, o mesmo se podendo afirmar de um sem-número de organizações não governamentais tais como a Amnesty International.

A universalidade destes valores é testemunhada pelo número de países antigos satélites soviéticos que, após o colapso da URSS, se movimentaram no sentido de aderir ao clube ocidental, não só pelas perspectivas de prosperidade económica, como também pela identificação popular com os valores tradicionais europeus.

Mas a elite europeia parece actualmente inclinar-se mais para a realpolitik e a resultante acomodação com regimes totalitários, do que para a promoção dos valores que, incidentalmente, os conduziram aos seus próprios cargos. Lilia Shevtsova, conhecida comentadora e estudiosa da realidade política russa actual, num artigo na Foreign Policy, sugestivamente intitulado “A Vénia ao Kremlin”, lamenta tal atitude: “num encontro recente com liberais russos em Moscovo, um conhecido intelectual começou a tentar convencê-los de que, tal como afirmou, “actualmente, a Rússia não é uma ditadura. Medvedev está a tentar liberalizar o sistema e com o tempo a Rússia tornar-se-á numa democracia. Vocês não devem tentar apressar as coisas”. Obviamente, este conselho provocou consternação na audiência, que esperava pelo menos algum encorajamento por parte dos liberais continentais.”

Mais adiante, diz: “quando levantei a questão dos padrões democráticos nas relações Rússia-Ocidente, fui interrompida por outro participante ocidental: “Você irrita-nos! As relações internacionais não têm que ver com valores. Têm que ver com poder!”. Se ele tiver razão, os liberais russos terão que reconsiderar as suas expectativas sobre os líderes de opinião ocidentais com os quais têm vindo a contar para apoio moral e encorajamento.

Shevtsova é da opinião de que “parece estar a surgir um consenso entre os políticos ocidentais de que a Rússia não está pronta para o liberalismo e que existem mesmo algumas vantagens em lidar com a ordem política iliberal promovida por Putin.[…] Os resultados podem ser catastróficos, tanto para os activistas que trabalham para transformar a Rússia num país livre, como para a autoridade moral ocidental, que propagandeia a liberdade e pratica algo diferente.”

Na opinião da comentadora, o “relançar” das relações entre a Rússia e os Estados Unidos é um exemplo que ilustra bem este paradoxo: fazendo com que um pacto sobre armas nucleares se torne no centro da agenda só revela quão relutantes as partes estão em discutir os verdadeiros temas em jogo: as diferenças políticas fundamentais entre as duas sociedades. Em vez disso, os líderes de ambos os países revivem os fantasmas da guerra fria e tentam com isso imitar cooperação. Ao final do dia, o diálogo sobre segurança pouco ou nada ajudará Obama a domar um Irão agressivo, acabar com a guerra no Afeganistão e promover um regime de não-proliferação. Em vez disso, beneficiará o Kremlin, alimentará a ideia da Rússia como uma grande potência e facilitará a continuidade do actual regime autoritário.

Na Europa, as coisas não são muito diferentes. A aquisição de matérias-primas russas e o financiamento dos oligarcas vassalos do Kremlin, através do mercado de capitais ocidental, servem apenas para reforçar a posição da elite governativa. Além disso, aceitando sem reservas a Rússia nas instituições europeias (em particular, o Conselho da Europa), “os líderes europeus parecem esquecer-se de que o sistema russo pura e simplesmente não obedece aos princípios de que essas organizações pretendem promover”.

Muitos conhecidos políticos europeus parecem ter embarcado alegremente no comboio do Kremlin, sacrificando os valores democráticos em troca de uma abordagem mais “kissingeriana”. Exemplos famosos são os de Gerhard Schroeder, agora administrador da empresa gestora do Nord Stream, e Berlusconi. Schroeder, que se transformou num entusiástico promotor dos interesses do Kremlin no ocidente, deu até azo a uma anedota na Alemanha: “o papagaio sentado no seu ombro fala com sotaque russo”. Chirac, além de ter condecorado Putin em segredo (para evitar o ultraje da população) com a Grande Cruz da Legião de Honra, ficou famoso por ter afirmado numa cimeira que não permitia que os “pequenos” países europeus criticassem o então presidente russo. Sarkozy deu os parabéns ao Kremlin pela “vitória” nas recentes eleições, tendo fingido não reparar que a Rússia não violou em diversos pontos o plano por ele mediado para resolver ao conflito com a Geórgia. Tal deu à elite russa razões para achar que podia pura e simplesmente ignorar a União Europeia enquanto entidade política a ter em conta.

A participação de altos responsáveis europeus, tais como José Luís Zapatero e François Fillon, e líderes de opinião mundiais tais como Alvin Toffler e Fareed Zakaria, em fóruns organizados pelo Kremlin, onde se discutem as abordagens “alternativas” para a “democracia” na Rússia, além de prestigiarem os eventos e credibilizarem a propaganda kremliniana de preocupação com os valores democráticos, nada acrescentam ao problema, uma vez que ninguém se atreve a levantar os temas das tendências autoritárias do regime, da farsa da democracia e das violações dos direitos humanos.

Assim, Shevtsova conclui o óbvio: a ocorrer, a transformação da Rússia terá que vir de dentro, não de fora. Face à realidade actual, os democratas russos não deverão contar com nenhum apoio do Ocidente. Contudo, deverão pelo menos ter a expectativa de que os líderes ocidentais não destroem os seus esforços ao apoiarem, moral e financeiramente, os poderes autoritários que resistem à mudança por todos os meios, que não levam a sério os contos de fadas da “modernização” e não propagam ingenuamente as ideias do Kremlin, sem terem sequer uma ideia da realidade do sistema russo. Sistema esse que mostra sinais de grave degradação e instabilidade e que poderá brevemente constituir um problema para o próprio Ocidente.

http://www.foreignpolicy.com/articles/2010/01/05/the_kremlin_kowtow?page=0,2"

21 comentários:

Jorge Almeida disse...

António Campos, se os russos estão à espera do apoio estrangeiro para poderem ter uma sociedade que aprecie mais os valores democráticos e dos direitos humanos, ou seja, se estão à espera do apoio estrangeiro para evoluírem, podem esperar sentados.

E isso passa-se em todo o lado, e sempre assim foi.

Quando nós, os Portugueses, quisemos livrar de Salazar, Caetano e seus acólitos, fomos nós que os pusemos fora, e não estivemos à espera do apoio estrangeiro.

O mesmo se passou com os brasileiros, quando mandaram a tropa regressar aos quartéis.

As grandes mudanças em qualquer sociedade, têm de vir de dentro da mesma sociedade, senão esta nem as compreende, correndo o risco de tudo voltar ao mesmo.

É assim a ordem natural das coisas. Se, e quando, os russos quiserem (mesmo) mudar, não será um ditadorzeco de meia tigela que os vai impedir! E, aí, não vão estar a precisar de palavras de incentivo. Simplesmente, fazem!

O pessoal que, na Russia, quer uma sociedade mais democrática e mais aberta, o que tem que fazer é trabalhar isso por dentro, ou seja, doutrinar, criar uma consciência (na população) que é possível mudar para melhor.

Felipe Pinheiro disse...

É impressionante a cegueira dos que defendem o modelo de democracia ocidental, chamado de "civilização ocidental" pelo autor deste artigo. A democracia ocidental é uma farsa, e em nada difere do atual modelo russo, sendo que a farsa deste é apenas mais visível. O referido modelo de democracia ocidental não representa o povo, e sim o grande capital, formado pela elite de banqueiros e mega-empresários mundiais (principalmente dos EUA). O poder está de fato nas mãos do grande capital, que é quem financia a mídia e os políticos. Controlando-se a imprensa, controla-se a opinião pública. Financiado os políticos controla-se os governos. Ou seja, o grande capital (que não é eleito por ninguém), além de ser detentor do poder econômico, ainda controla a opinião pública e os governos. Como chamar isso de democracia?

No epicentro, e maior propagandeador deste modelo, os EUA, isso está claro. Vemos o presidente Barack Obama completamente refém dos conservadores, que dominam a mídia e máquina pública (principalmente o Pentágono). Caso ele resolva enfrentar essa máfia, seu destino, fatalmente, será o mesmo do ex-presidente assassinado J.F. Kennedy. Essa lógica se estende também a qualquer país. Basta eleger um governante que se oponha ao imperialismo estadunidense (e consequentemente ao grande capital) que ele é imediatamente demonizado pela mídia internacional, sofre golpes de estado, sanções econômicas, etc, até ser invadido, sob qualquer pretexto.

Qual a diferença (sob o aspecto político) entre esta tal "democracia ocidental" e a ditadura soviética? Qual a diferença entre o grande capital e a Nomenklatura soviética? A única diferença é que a população soviética sabia que vivia em uma ditadura, enquanto que o mundo ocidental pensa que vive em uma "maravilhosa democracia".

António Campos disse...

Caro Jorge Almeida, concordo consigo. No entanto, o ponto de vista (e o apelo) de Shevtsova é que, se os ocidentais não quiserem ajudar, pelo menos não durmam com o inimigo: não tomem atitudes que confiram legitimidade ao estado das coisas e, com isso, dificultem a tal consciencialização que refere. Ter “apoio” da elite ocidental é exactamente o que os poderes vigentes precisam para reforçar, junto da população, a fantasia de que estão a servir os seus interesses.

Dada a situação e o controlo dos media, será extremamente difícil mostrar à população em geral que existem alternativas. Neste momento, na minha opinião, a necessária mudança radical do estado das coisas só será levada a cabo na sequência de um colapso generalizado da economia, o que será improvável no curto a médio prazo, visto que os preços dos hidrocarbonetos estão de novo a entrar em níveis “confortáveis” para distribuir as habituais migalhas à população.

Mudanças liberais por vontade popular nunca tiveram sucesso na Rússia. Para além da revolta dezembrista, levada a cabo por uma elite militar idealista inspirada pelos ideais constitucionais britânicos e pela revolução francesa, e rapidamente esmagada, a revolução de Fevereiro de 1917 foi a única que surgiu por ímpeto popular espontâneo e foi poucos meses depois arrasada pelo golpe de estado bolchevique de Outubro.

António Campos

Ítalo Tavares disse...

O problema é que a Rússia jamais foi uma democracia.


Como um povo que não entende e não sabe (de um modo geral) o que é isso pode implantar algo que nunca viveu?

Cristina disse...

Sr. Filipe Pinheiro

A si fazia-lhe falta passar uns tempos da actual Rússia (ou na China, ou no Turcomenistão) para dar valor à democracia ocidental.Só quem conheceu a fome aprecia a abundância.
Os que nunca conheceram a fome não dão valor à forma privilegiada como felizmente vivem.
A civilização ocidental não é uma farsa, é a matriz de todos os europeus, continente para onde muitos povos do mundo desejam emigrar.
Cristina Mestre

Pedro disse...

Concordo em absoluto com o que o Sr Felipe Pinheiro diz.
Vivemos numa Farsa total e o problema é que as pessoas continuam com estes lugares comuns do costume dos valores das democracia ocidentais.
Nós aqui em Portugal por exemplo estamos constantemente a dizer mal do governos, do pais das instituições e da sociedade em geral, mas quando fazemos comparações com paises com a Rússia pensamos (eu não) sempre que somo melhores, mais civilizados e mais democráticos.
Vejam o Zeitgueist (Partes II e III) e outros documentários do genero para perceberem o que facto conta nas relações internacionais e no poder. Não conheço a Rússia, e imagino que tenha problemas como todos os paises tem, mas não acredito na demonização permanente que se assiste neste blog.
Acham que os lideres Europeus e Americanos são um farol de valores democráticos? comparem o numero de intervenções Militares dos EUA e aliados desde o fim da 2ª Guerra, com as intervênções militares Russo/Sovieticas no mesmo periodo.

Felipe Pinheiro disse...

Cara Cristina, veja só: eu me referi exclusivamente ao aspecto político entre a semelhança dos agentes do grande capital e a Nomenklatura soviética.

Entretanto, já que você mencionou a questão sócio-econômica, não há qualquer dúvida que os indicadores sociais soviéticos eram enormemente melhores que os da Rússia atual, sejam em relação à miséria, desemprego, violência, saúde, educação, etc. Agora, de modo algum estou defendendo a ditadura soviética. Saibamos separar e analisar a questão política e a sócio-econômica distintamente.

Mais um coisa, sou do nordeste brasileiro, a região mais miserável do Brasil, com indicadores sócio-econômicos equivalentes aos dos países africanos. Apesar de ser de classe média, ao transitar pela minha cidade - que possui mais de 2 milhões de habitantes - vejo o quão miserável ainda é o meu país. Essa miséria você certamente não presencia na Europa e também não presenciava na URSS.

António Campos disse...

Mais uma vez, a Cristina faz um comentário cheio de lucidez, com pleno conhecimento de causa. Apoiado!... como se costumava dizer nos tempos da velha senhora :)

A democracia pode ter ainda muito que andar, tal como disse Churchill uma vez num discurso na câmara dos comuns: “A democracia é o pior de todos os sistemas, à excepção de todos os outros que se vão tentando de tempos a tempos”.

Mas pelo menos onde as eleições não são falsificadas, os eleitores só são manipulados se quiserem. A informação necessária existe e está bem disseminada e acessível a todos. Quem pretender dar um voto informado e responsável, tem a responsabilidade de se informar. Ver o telejornal do canal 1 não chega.

António Campos

Anónimo disse...

"A civilização ocidental não é uma farsa, é a matriz de todos os europeus"

Correção: já foi, em tempos.

"continente para onde muitos povos do mundo desejam emigrar."

Só para ignorantes ou esfomeados que não têm nada a perder. Pergunte pra magrebinos e outros

Anónimo disse...

A democracia é um sistema que pode e deve ser abolido quando se torna claro que o colectivo está a caminhar para o abismo e se revela incapaz de se governar.

Pelo facto de uma decisão ser maioritária não significa que seja a mais acertada.

estupidamente, com sorrisos e muita satisfação de muitos que aqui escrevem caminhamos todos(europeus) para uma extinção colectiva.

Mas como a maioria decide assim, os restantes que são uma minoria que não concordam com ou sem razão vão ter o mesmo destido.

há quem diga que a democracia é a ditadura da maioria sob a minoria

é mais um sistema estupido como os outros..

António Campos disse...

Ai sim? Então e quem é que tem a legitimidade de decidir o que é melhor para o colectivo, tirando a toda a gente a liberdade de escolher o seu próprio destino? Como é que se tira o tipo de lá se afinal ele não era tão bem-intencionado como se pensava?

Nem levando na cara com o tristemente interminável rol de desastres crimes e misérias causadas por iluminados que decidiram que o povo não tem liberdade de escolher os seus destinos esta gente aprende. Hitler, Estaline, Mugabe, Putin, Lukashenka, Pol Pot, Mao, Bokassa, Samora Machel, Mussolini, Idi Amin, Omar Bongo, Ceausescu, Chávez, Salazar, Metaxas, Castro, Kim-Il-Sung, Kim-Jong-IL, Niyazov, Bashar-Al-Assad, Than Shwe, José Eduardo dos Santos, Ahmed Touré, Modibo Keita, Milton Obote, João Bernardo Vieira, Charles Taylor, Somoza, Pinochet, Fulgencio Batista, Khomeini, Saddam Hussein, Islam Karimov, Askar Akayev.

É preciso continuar?

António Campos

Pedro disse...

Como dise anteriormente, não conheço a Rússia embora costume ver noticias sobre a Rússia.
Pelo maioria dos comentários que vislumbro aqui parece que a Rússia é uma especie de Inferno na Terra, e que a Europa em geral é o paraiso. Então se é assim como é que me explicam que a Rússia tenha mais Imigração que Emigração(mais pessoas a ir para a Rússia trabalhar que russos a ir para o estrangeiro)?

Anónimo disse...

"Ai sim? Então e quem é que tem a legitimidade de decidir o que é melhor para o colectivo, tirando a toda a gente a liberdade de escolher o seu próprio destino? Como é que se tira o tipo de lá se afinal ele não era tão bem-intencionado como se pensava?
"

Gostei do argumento, mas posso fazer a pergunta ao contrário, qual é a legitimidade que a maioria tem de decidir pela minoria?

Que tal fazer uma lista de "ditadores" que contribuiram para o progresso europeu e mundial..

posso mencionar Alexandre o grande, oliver Cromwell, Marquês de Pombal, Julio César etc.

Na minha humilde opinião, os actuais lideres europeus são muito piores do que qualquer homem da sua lista, tony blair, durão barroso são criminosos de guerra e traidores que mais tarde ou mais cedo terão de pagar pelo mal que fizeram.

Moisés o grande lider dos judeus foi um genocida e exterminou inumeras povos na conquista pela terra santa e que eu saiba não é considerado um homem "mau"

Napoleão foi muito pior que hitler e é venerado pelos franceses..

Definir quem é bom ou mau é relativo,

Como não é justo comparar Salazar a Estaline ou Hitler.

Como podemos tirar pessoas mal intencionadas do poder? não lhe sei responder, mas a democracia nem sempre resolve, basta para isso tomar como exemplo o "Inginheiro" José Socrates.

cump.

MSantos disse...

Cada vez mais pessoas estão a ficar cientes que o Ocidente já teve valores democráticos mais sérios e verdadeiros, sendo cada vez mais presente o "abraço" do poder económico aliado de determinadas facções políticas que até já controlam os media e influenciam a nível das redações aquilo que devemos pensar seguindo a moda.

A insatisafação aliada à pobreza crescente, perda de poder de compra da classe média são a prova viva de que a actual "moda" não poderá continuar por muito mais tempo.

Os actuais panoramas políticos ocidentais estão a degenerar num imenso impasse resultando numa "putinização" apenas mais suave, encoberta e claro, muito mais inteligente.

Muita gente está contente com isto e quer à viva força fazer crer que vivemos no melhor dos mundos possiveis.

Felizmente há cada vez mais insatisfeitos a clamar por mudança e foi exactamente este factor que guindou o pensamento político ocidental para a vangurda proporcionando os sistemas mais justos no planeta.

Cumpts
Manuel Santos

Pippo disse...

O que me surpreende é que a Lilia Shevtsova se tenha surpreendido com a afirmação "As relações internacionais não têm que ver com valores. Têm que ver com poder!".

E alguma vez foi de forma diferente??? Acabei de ler uma passagem da “Guerra do Peloponeso” (Tucídides) onde já os generais atenienses diziam aos líderes de Melos que quem tinha poder dele tirava partido, e os mais fracos só podiam vergar-se. Hoje é exactamente o mesmo, só mudaram algumas das forma de poder.

Os Estados, as empresas, e às vezes até mesmo as pessoas singulares, relacionam-se com base no poder, não por causa da cor dos olhos dos outros. Será que a UE deveria cortar relações com a Rússia por achar que esta não é uma democracia? E depois, onde é que iria buscar a sua energia?
E um país com governo de direita, deveria cortar relações com um de esquerda, e vice-versa, só por causa da cor política do vizinho? Isso não faz sentido nenhum. As ideologias e os sistemas de governo, desde que não ameacem a estabilidade internacional, não podem servir de entrave às RI, e os governos e os Estados não devem ser paladinos de modelos civilizacionais ou de sistemas políticos e de governo. Cada qual deve governar-se à sua maneira.

Por essa razão, os "verdadeiros temas em jogo" no diálogo Rússia-EUA, ou Rússia-UE não podem nunca ser "as diferenças políticas fundamentais entre as duas sociedades", pois isso não afeta a essência das relações entre os Estados. Pouco importa se é uma democracia, uma ditadura ou uma teocracia: desde que não surja dali qualquer ameaça à estabilidade e segurança internacionais, ninguém tem nada que se meter.

Quem somos nós para dizer “tenham este sistema de governo e não aquele”? Os liberais russos ficarão sem apoios se a EU se entender bem com o Medvedev? Azar o deles. Lutem por dar a volta por cima, e se não conseguirem, aguentem-se. Como um participante disse mais acima, nós não precisamos de ajuda para correr com o Marcelo Caetano. Não me parece que os russos sejam mais incompetentes que nós.

Talvez o grande problema nas apreciações que deram origem a este artigo do A. Campos resida na constante tentativa de imposição, por parte do "Ocidente", do seu modelo civilizacional face aos outros. De facto, temos a mania de ter uma "autoridade moral ocidental, que propagandeia a liberdade", o que nos leva a cometer erros tremendos como os de tentar impor a democracia liberal no Iraque e no Afeganistão.
Também a URSS tentou impor o seu modelo naquele último país...

Hoje em dia, o TGEN Ruslan Aushev, com vasta experiência no Afeganistão, simplesmente afirma que o imperialismo ideológico "ocidental" é inaplicável, devendo o poder ser exercido da forma a que os afegãos estão habituados, nem que isso implique a aplicação da Sharia (a mesma que é aplicada na Arábia Saudita e com a qual ninguém se chateia). O BRIG Ed Butler (RU), outro veterano do Afeganistão, não se opõe a esta visão da coisa. Deve ser a tal "universalidade dos valores Ocidentais"...


Cristina, as pessoas de todo o Mundo não vêm para a Europa por causa da nossa democracia e da nossa liberdade, vêm por causa do nosso nível de vida e pelas "borlas" que damos ao imigrantes (vide a fantástica história do Imã Bouziane, que viveu à conta do Estado francês). Por alguma razão muitos querem vir para a Europa ou para os países do Golfo Pérsico (onde são tratados abaixo de cão mas ganham algum), mas poucos querem ir para a Índia, a maior democracia do Mundo.

António Campos disse...

É extremamente lamentável que alguns comentadores deste blogue se esqueçam que os “valores ocidentais” se baseiam na declaração universal dos direitos do homem, documento que estipula os direitos básicos de todos os seres humanos, tais como a liberdade, o direito à educação e à protecção social, à liberdade de expressão e de assembleia e muitos outros, votado a favor por praticamente todas as nacionalidades do planeta em 1948 (curiosamente, o bloco soviético e a arábia saudita abstiveram-se na votação). Na comissão que elaborou a declaração encontravam-se países de culturas e sistemas políticos tão diversos como a Austrália, a URSS, o Panamá, as Filipinas, o Egipto, o Chile, a Bielorrússia, a China, a Índia, o Irão, a França e os Estados Unidos. É revoltante então que quem beneficie de uma sociedade onde estes valores são levados muito mais a sério do que nos regimes que defendem sirva de papagaio e continue a prestar o lip service aos regimes totalitários com a patranha dos males da “imposição dos valores ocidentais”. Estes valores têm tanto de ocidentais como de árabes, chineses ou indianos. É por isso que se chamam “universais” e é assim que toda a gente que os leva a sério os deveria chamar. Claro que quem não os leva a sério lhes pode chamar o que quiser.

Já agora, o ocidente, para além do nível de vida e das “borlas” aos imigrantes, serve também de asilo a intelectuais que gostam de dizer o que lhes apetece sem terem medo de represálias, tais como o meu saudoso realizador Andrei Nekrasov e à elite russa que, sabe-se lá porquê, enquanto vocifera cobras e lagartos contra a agressividade e decadência ocidentais, continua a mandar os seus filhos para as escolas nos Estados Unidos e na Europa, e a passar férias em Espanha e no sul de França, usa os seus mercados de capitais e paraísos fiscais para sifonar os milhões que vão desviando e compram propriedades ao desbarato até aqui em Portugal.

Para finalizar, há que ter em conta que a revolução dos cravos foi essencialmente um golpe militar, cuja origem última foi um descontentamento salarial com as comissões dos oficiais nas colónias que evoluiu para um movimento político. Sem MFA, não teria havido revolução nenhuma e o povo teria continuado a levar o que o regime entenderia por bem, sem poder fazer grande coisa. Assim, achar que os portugueses se “livraram” do Marcelo Caetano sem mais nem menos é, no mínimo, ingénuo.

António Campos

Pippo disse...

O que se esquece, A Campos, é que a declaração, de "universal", só tem as assinaturas, e as pessoas crescidas, que sabem como são as coisas do Mundo, sabem bem o que vale uma assinatura. A História assim nos ensinou. A DHDH é um documento de teor político mas, na prática não passa de um simples pedaço de papel, e como tal é encarada por praticamente todos os países do mundo, nomeadamente aqueles que a assinaram.

Os valores "universais" (liberdade, direito à propriedade, educação, protecção social, liberdade de expressão e de reunião, direito à religiãoetc.), são respeitados por uma minoria de países. E cada vez mais a universalidade desses valores é posta em causa pelos países não Ocidentais. Creio até que o primeiro a dizê-lo alto e bom som foi o PM de Singapura, mas posso estar equivocado. Presumo que na sua mente este cavalheiro fosse um "papagaio que presta o lip service aos regimes totalitários com a patranha dos males da “imposição dos valores ocidentais”"...

Diversos povos e culturas (e eu não digo Estados mas sim povos!) encaram de forma diversa a existência dos direitos individuais, inclusive do direito à vida, à liberdade e à liberdade religiosa. Tem dúvidas? Vá ao Norte de África ou ao Médio Oriente (os tais árabes, que pelos vistos partilham desses valores universais) e dedique-se a ver como, por exemplo, o "direito à liberdade de pensamento, consciência e religião, incluindo a de mudar de religião e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular" é encarada, quer pelo Estado, quer pela sociedade. É a plena "universalidade" dos valores a ser posta em prática.
O que é lamentável no meio disto tudo é eu ter de estar a perder tempo a dizer isto a uma pessoa que aparenta ter idade para saber destas coisas.

Quanto aos intelectuais e afins, é muito bonito o que disse, mas não desmente em nada o que afirmei. Por cada "intelectual" ou refugiado político eu apresento-lhe 10, 20 ou 100 que vêm para cá pelo dinheiro. Se tem dúvidas consulte os dados do ACIME.

Concordo consigo (ao menos nisto) que o 25 de Abril foi um golpe militar motivado pelo descontentamento dos oficiais saídos da AM. Contudo, é ingenuidade da sua parte ignorar que desde imediato os conjurados desenvolveram um programa político, bem além das questões profissionais, e que foram os SOLDADOS que fizeram a Revolução. E não pense que se limitaram a seguir ordens: os soldados, nomeadamente os de Cavalaria 1, desobedeceram aos seus oficiais, evitaram o banho de sangue e fizeram triunfar o movimento. Esses soldados não eram militares de carreira nem tinham problemas salariais, eram pessoas saidas do povo, e sem eles não teria havido golpe. Portanto, a vonade saiu do povo. Sem os militares de carreira a intentona não teria tido início, mas sem os soldados e sem o povo, o golpe teria acabado ali mesmo, na EPC.

Portanto, se os portugueses quiseram e fizeram-no, os russos também o podem. Fizeram-no em '91, poderão fazê-lo novamente. Mas pelos vistos não estão para ai virados, provavelmente com grande pena sua. É assim a vida.

Anónimo disse...

"as pessoas de todo o Mundo não vêm para a Europa por causa da nossa democracia e da nossa liberdade, vêm por causa do nosso nível de vida e pelas "borlas" que damos ao imigrantes "

Pippo, já fui leitor deste blogue e os seus textos revelam que realmente o sr. tem uma inteligência superior, mas(há sempre um mas) se está a espera que neste blogue alguem compreenda o que está a dizer ui, desista amigo.


Sr. Campos, deixe-se de conversa fiada, já ninguem acredita nesse discurso fraquinho, a democracia só existe na sua cabeça.

frederico.

Pippo disse...

Frederico, obrigado pelas simpáticas palavras.

Há gente que não vê a realidade, nem que ela fosse uma montanha diante dos seus olhos. Mas isso não me preocupa, não é problema meu.

O que interessa é que o meu esforço possa ser útil, e por isso é que é importante que eu NUNCA desista.

Anónimo disse...

Frederico
Desculpe, mas o António Campos é dos comentadores aqui que mais aprecio. Penso que ele tem uma grande clareza de ideias e que as defende de forma bastante inteligente. Ele é capaz de escrever precisamente aquilo que eu tenho pensado ao longo dos tempos, analisando os problemas com grande lucidez. Quem se considera de esquerda ou ache que a "Rússia é que vai salvar o mundo" naturalmente que não se revê nas suas posições.
Eu pessoalmente, acho-o um grande comentador.
José L.

the.guide disse...

"Como um povo que não entende e não sabe (de um modo geral) o que é isso pode implantar algo que nunca viveu?"

Italo, como é que um tão senhor defensor da democracia é capaz de usar os dedinhos para escrever estas palermices?
Já ouviu falar em evolução, não já?
Então sabe com toda a certeza que há sempre aqueles que dão o primeiro passo em direcção ao novo, ao desconhecido. Qualquer povo pode implementar aquilo que bem entender, desde que reúna as condições necessárias (materiais e psicológicas)para atingir o fim.
É pegar em qualquer analise histórica, em qualquer livro de 5ºano, para perceber isto.

PS: vejo com bons olhos que ainda há gente a discutir, e bem, por estes lados. E com capacidade para não seguir o rebanho. :)