terça-feira, janeiro 19, 2010

Reflexões na Rússia sobre as eleições na Ucrânia


Desculpe-me o leitor por, nos últimos dias, ter dedicado praticamente toda a atenção à Ucrânia, não obstante o meu blogue se chamar "Darussia", mas o facto é que as eleições no segundo maior país da Europa depois da Rússia são de extrema importância para a Ucrânia e todo o continente.

A primeira lição a tirar é que, não obstante a extrema incompetência das elites e o caos político existente no país, os ucranianos deram mais uma prova de maturidade e realizaram um escrutínio legítimo e democrático.

No dia das eleições, conversei por telefone com o deputado português João Soares, que dirigiu uma delegação de observadores da OCSE, e senti na voz dele algum espanto ao constatar que o escrutínio estava a correr de forma muito melhor do que se esperava.

Outra lição é que, diga o que se disser, o Presidente Victor Iuschenko soube perder e acredito que entregará o poder no prazo previsto pela lei.

A terceira lição é que os dirigentes russos, que não se cansam de apontar o dedo aos vizinhos, têm muito a aprender com os ucranianos no que diz respeito à realização de eleições democráticas.

É impossível imaginar na Rússia umas eleições presidenciais com 18 candidatos e com resultado final imprevisível. Neste momento, são poucos os que se arriscam a prognosticar quem irá vencer à segunda volta: Victor Ianukovitch ou Iúlia Timochenko. Também é muito difícil acreditar que a oposição russa tenha as mesmas possibilidades de defender as suas opiniões e ideias na televisão e na rádio, como acontece na Ucrânia.

É verdade que, na Ucrânia, o acesso aos meios de informação depende muito do dinheiro que se tem, mas, na Rússia, nem o dinheiro ajuda se não estiver ligado ao poder.

Não tenho inveja do vencedor da segunda volta, seja ele quem for, porque se realmente quiser fazer da Ucrânia um país independente, europeu e próspero, terá de soar muito. Não simpatizo com nenhum dos dois candidatos, tendo em conta o seu passado e o seu presente, mas gostaria que se mostrasse capaz de ser o Presidente de todos os ucranianos, pondo assim fim aos receios de desintegração do país.

Em prol da verdade, é preciso reconhecer que, desta vez, o Kremlin se está a comportar de uma forma mais inteligente em relação às eleições no país vizinho. Em 2004, o Presidente Putin felicitou duas vezes Ianukovitch pela vitória, mas, desta vez, espera pela decisão do povo ucraniano.

Este cuidado poderá também estar ligado ao facto de Moscovo compreender que vença Ianukovitch ou Timochenko, nenhum deles será um interlocutor obediente. Parece ter passado a época dos candidatos pró-russo e pró-ocidental...

Por isso, a União Europeia deverá também tirar as conclusões deste fenómeno. Tendo apoiado as mais altas expectativas dos ucranianos durante a "revolução laranja" de 2004, abandonou a Ucrânia a si própria. O que não é de estranhar se tivermos em conta que a UE não tem uma política externa estruturada e clara, ou melhor, parece não ter política comum em campo algum.

A União Europeia faz-me lembrar cada vez mais a União Soviética, mas pode ser que esteja enganado.

34 comentários:

anonimo russo disse...

1."É impossível imaginar na Rússia umas eleições presidenciais com 18 candidatos e com resultado final imprevisível."


Se o nivel de vida na Russia tivesse baixado ao nivel do ucraniano (la o salario medio e, mais ou menos, 2,5 vezes mais baixo que aqui e o custo de vida e comparavel), provavelmente teriamos aqui 18 ou ate mais candidatos. Mas deus nos livre.



2."Também é muito difícil acreditar que a oposição russa tenha as mesmas possibilidades de defender as suas opiniões e ideias na televisão e na rádio, como acontece na Ucrânia."


A Russia tem oposiçao? Uma oposiçao digna, e nao Kasparov/Nemtsov com 3% de apoio de populaçao ou comunistas? Khodorkovski nao acho que tinha algumas chances de se tornar presidente aqui, mesmo que fosse apoiado pelo poder, por isso podem esquecer dele tambem.

PortugueseMan disse...

...Por isso, a União Europeia deverá também tirar as conclusões deste fenómeno. Tendo apoiado as mais altas expectativas dos ucranianos durante a "revolução laranja" de 2004, abandonou a Ucrânia a si própria. O que não é de estranhar se tivermos em conta que a UE não tem uma política externa estruturada e clara, ou melhor, parece não ter política comum em campo algum.


Abandonou? Essa agora. Mas a UE é o quê, a Santa Casa? A UE alguma vez disse para prosseguirem a integração da NATO a qualquer custo?

Porque é que a Ucrânia resolveu ir por esse caminho a qualquer custo? Foi a UE que os convenceu avançar no processo até a corda rebentar?

A Ucrânia fez a asneira, vai ter que ser ela a limpar.

Meu caro, a partir de uma certa idade somos todos maiores de idade, somos livres de tomar as nossas opções, mas também arcamos com as consequências. Não estamos a falar de ingénuos, a Ucrânia decidiu ir por um caminho sem estar preparado para o percorrer.

Mas cabe na cabeça que um país dependente energéticamente de outro, vá aliar-se a uma estrutura militar que está exactamente do outro lado da barreira? Mas queria que a UE fizesse o quê? Que exigisse à Rússia que continue a fornecer gás ao preço que a Ucrãnia quer? que enfiasse mais dinheiro europeu para pagar a conta do gás?

Porque é que aquele presidente não se demitiu depois da embrulhada que causou no ano passado? O país no último ano enfiou-se num buraco de tal tamanho que agora vai ser difícil fazer o quer que seja.

A UE só tem que apoiar decisões sensatas e não parvoices que prejudicam todos.

Se a Ucrânia quisesse realmente passar para um bloco militar hostil a PRIMEIRA coisa que teria que fazer era acabar com a sua dependência de gás russo, acabar com a sua dependência da Rússia.

Meter a "carroça à frente dos bois" é o que dá.

Agora a UE não tem tempo nem dinheiro para gastar num país de tão grandes dimensões. A primeira prioridade da UE é a sua segurança energética, portanto onde a UE tem que investir é em novas fontes de energia e novos pipelines, para diminuir o mais depressa possível a importância da Ucrânia para o abastecimento da UE.

Você gosta de criticar a UE, mas o facto é que não existe paralelo. Não existe outra estrutura neste mundo que chegue perto a isto.

É como a democracia, não é um sistema perfeito, mas é o melhor face às alternativas.

PortugueseMan disse...

...A União Europeia faz-me lembrar cada vez mais a União Soviética, mas pode ser que esteja enganado...

Sem comentários. Prefere o quê, a América do Sul? África? talvez Médio Oriente. Ou simpatiza com a China?

Você chama-me de optimista, mas olhe que é preferível ser optimista a ter uma visão tão amargurada como você demonstra ter.

Comparar a União Soviética com a UE? por favor...

Jose Milhazes disse...

Caro PM, não foi a União Europeia que acenou com a possibilidade da adesão da Ucrânia a essa organização em 2004?
Você considera que a UE, com a política que realiza, está no caminho certo?

Jose Milhazes disse...

Leitor russo, a Rússia tem a oposição que o poder deixa ter. Não tem outra porque o poder tem pavor da concorrência aberta.

Vasco Martins disse...

A União Europeia avançou com várias parcerias e fundos que já vinham de 91, os tais ENPI e TACIS. Falou-se em parcerias privilegiadas mas não em adesão completa.

Concordo com o Milhazes quando diz que a UE abandonou a Ucrânia. Talvez não de forma tão linear, mas o certo é que houve ali um impulso liberal que se perdeu sem que a UE tivesse feito grande coisa, qual Rússia nos tempos de Yeltsin.

Se Yanukovych ganhar a presidência, a UE ainda se afastará mais da Ucrânia. Ao que parece os líderes europeus já têm uma opinião formada acerca deste candidato, tal como os líderes russos.

PortugueseMan disse...

Caro PM, não foi a União Europeia que acenou com a possibilidade da adesão da Ucrânia a essa organização em 2004?
Você considera que a UE, com a política que realiza, está no caminho certo?


Meu caro, você não está a dizer coisa nenhuma.

Acenou com a possibilidade? que quer isso dizer? Então a Ucrânia não manifestou vontade de aderir? é a UE que anda a distribuir cartões de visita para ingresso no clube?

Você considera que a UE, com a política que realiza, está no caminho certo?

Considero.

Você não? mas onde reside exactamente a crítica? O que é você não concorda?

anonimo russo disse...

Jose Milhazes disse...
"Leitor russo, a Rússia tem a oposição que o poder deixa ter. Não tem outra porque o poder tem pavor da concorrência aberta."



Francamente, nao parece que tivesse um grande pavor, porque por enquanto nao ha candidatos
que pudessem ficar rivais serios. Mas o mais importante e que se a Ucrania pode dar-se ao luxo de balançar a beira da catastrofe, para a Russia, com o seu territorio e multinacionalidade, isso podia ser fatal. Ja depois de obter um certo nivel da prosperidade economica, o que e possivel com o poder de hoje, a Russia podia se dar ao luxo de experimentar. Se as pessoas quiserem escolher outros dirigentes e houver alternativas dignas. Por enquanto eu daria a Medvedev mais alguns anos porque estou de acordo com aquilo que ele declara e, pelos vistos, tenta fazer.

Gilberto Mucio disse...

A UE não tem "uma" política externa e nem poderia ter. São vários países, vários interesses...

Na hora que a coisa aperta, cada um defende o seu.

Nunca será um Estado de facto.

PortugueseMan disse...

Caro Vasco Martins,

...Concordo com o Milhazes quando diz que a UE abandonou a Ucrânia. Talvez não de forma tão linear, mas o certo é que houve ali um impulso liberal que se perdeu sem que a UE tivesse feito grande coisa, qual Rússia nos tempos de Yeltsin...

Poderia ser um pouco mais específico? Tem alguns pontos chave onde possa identificar esse abandono?

Ou talvez algo que a UE deveria ter feito e que na sua opinião não fez...

Ricardo disse...

A Ucrânia estava esperando que a UE a receberia de braços abertos e até a levaria no colo, mas ter a Ucrânia futuramente na UE tras vantagens, mas também muitas dores de cabeça, por se tratar de um país "problemítico".

MSantos disse...

Talvez o convinte de adesão à UE tenha sido algo que nunca deveria ter sido feito.

A questão é: será a Ucrânia um estado com matriz social e cultural tipicamente europeia?
Na minha opinião não o é. A Ucrânia é um estado eslavo, de cultura muito próxima da Russa assim como os bielorussos. A sua visão das coisas e como encaram o mundo é diferente do que estamos habituados na Europa ocidental dado serem povos que apesar de europeus contam já com milénios de influência asiática e de outras regiões como é o caso do Cáucaso.

Parcerias de amizade, coperação económica, científica e até de segurança devem ser establecidas e prioritárias mas mantendo as duas entidades destintas pois são-no isso mesmo.

A grande perversão de tudo isto é que a UE foi e está a ser usada como elemento de cisão do império ou comunidade eslava ou russa ou o que lhe queiram chamar. Esse é o principal objectivo da eventual adesão deste tipo de países e as melhorias de condições de vida é tudo secundário.

Na minha opinião a Ucrânia, Bielorússia ou Rússia não têm lugar na UE assim como não tem a Turquia por terem matrizes socioculturais diferentes.

O lamentável de tudo é que a própria UE não saiba defender os seus interesses e não se constitua como uma entidade com vontade própria.

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

...e já agora uma entrevista à EURONEWS do presidente do Casaquistão explicando porque não everedam pela democracia total e os efeitos em países que optaram por essa via.

http://pt.euronews.net/2010/01/15/presidente-do-cazaquistao-a-prioridade-e-a-economia-nao-a-democracia/

Cumpts

Manuel Santos

ALONE HUNTER disse...

A Rússia é o líder regional incondicional na Europa Oriental. Mesmo tendo perdido vários parceiros com o fim da URSS, estes mesmos países sabem que o único verdadeiro aliado é a Rússia. Os Estados Unidos se fazem parecer parceiros estratégicos apenas para defender os seus interesses. No primeiro sinal de mudança de foco, dará as costas, como a história nos mostra tantas vezes. E esse vai ser o destino da Polonia, Repúblicat Tcheca, Letonia, Estonia, Lituania, Geórgia e Ucrânia. Vai chegar o dia em que estes países irão se redimir e pedir perdão pelos atos perpetrados contra a Mãe Rússia!!!

Vasco disse...

Bom.... independentemente de quem ganhe o Kremlin ficará satisfeito...

Jorge Almeida disse...

Caro Doutor Milhazes, concordo consigo em relação aos comentários que faz acerca do poder russo e da possibilidade de haver oposição na Rússia. Nunca lá fui, mas, ao ouvir quase todos os dias a Rádio Voz da Rússia (que defende o poder com unhas e dentes), percebo o nível de democracia que lá se pratica (não há uma emissão em que, numa hora, seja em português ou em castelhano, não elogiem a dupla Putin / Medvedev pelo menos 5 vezes). Faz lembrar a Madeira.

No entanto, já concordo com PM na questão do eventual "abandono" da Ucrânia por parte da UE.

Pelo menos, cá em Portugal, ninguém ouviu ninguém da UE dizer aos ucranianos que, se separassem da Rússia, iriam aderir à NATO, e, posteriormente, à UE.

Isso que escreveu nem tem sentido, face ao que Portugal, Espanha e os 10 últimos estados que entraram para a UE tiveram de passar para ter essa adesão, e face ao que a UE exige, actualmente, à Croácia, Sérvia, Turquia, Albânia, etc ... para poderem entrar.

O que podem ter dito é que um pedido de adesão por parte da Ucrânia iria ser considerado, mas isso não quer dizer adesão imediata. Portugal teve 8 anos em negociações para a adesão, e veja lá os anos que os Turcos já levam.

Até concordo com PM quanto às prioridades da UE em termos energéticos. Se a UE não dependesse energicamente do petróleo russo que passa por território ucraniano e bielorusso, estava-se nas tintas para os desentendimentos entre Moscovo, Kiev e Minsk.

Na minha opinião, a UE está no caminho certo. A UE vai tender a ser um estado federal, mas ainda está longe disso. Para já, a única política que é comum é a política monetária (€). Tudo o resto são ainda esboços, mas o que avança 1º é, sempre, o económico. A Europa Social, o dar aos trabalhadores dos países mais pobres os mesmos direitos dos trabalhadores dos países mais ricos, isso nunca saiu do absoluto 0. Vão querer fazer de todos os europeus uns autênticos escravos.

Não queira comparar a actual UE com o estado central que foi a URSS. Ou será que havia estados-membros na URSS? Não havia política externa comum? Não havia política de defesa comum? Pelo menos, o que se conta aqui é que tudo era decidido em Moscovo.

Jorge Almeida disse...

Caro Vasco Martins, para mim é também claro que os líderes ocidentais preferem Timochenko a Ianukovitch, ainda pelo que se passou em 2004.

No entanto, é uma preferência tipo mal menor, pois eles não confiam em Timochenko (pelo que se passou de 2004 para cá).

Também há que considerar (para o bem e para o mal) a fama de corrupta que Timochenko tem no Ocidente.

Antonio M P disse...

Está na cara que PM e anonimo russo são uma e a mesma pessoa mas o José Milhases faz de conta que não percebe e faz muito bem. Também faz bem, para os seus leitores, que traga aqui as suas análises sobre a Ucrânea; afinal os países da ex-URSS constituem uma realidade específica na sua pluralidade. E depois, para o que lhe pagam - como alguém dizia - tudo o que escrever aqui é um favor que faz a quem estiver realmente interessado nas suas opiniões bem informadas.

PortugueseMan disse...

Está na cara que PM e anonimo russo são uma e a mesma pessoa mas o José Milhases faz de conta que não percebe e faz muito bem...

O que está na cara é que você pelos vistos se sente incomodado com qualquer coisa.

É a chatice da democracia, todos nós gostamos de ter a liberdade de expressar a opinião, mas alguns gostariam que essa liberdade fosse apenas aplicada a nós ou a quem partilha as nossas opiniões...

Pensando bem, se calhar você nem é um dos defensores da Democracia, deve ter saudades de tempos mais antigos.

Lembro-me que na altura havia assim uns empregos, pessoas que se dedicavam a acusar outras.

Velhos hábitos custam a morrer eu sei...

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Mais um potencial problema à vista.

Ukraine Election May Fail to Unlock IMF Bailout Loan

Ukraine’s presidential election may fail to create the political stability needed to ensure a resumption of bailout flows until the second half of the year...

...“The International Monetary Fund won’t come back until there is a certainty, probably, until the second half of the year,” said Kaan Nazli, director at New York-based Medley...

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601013&sid=aQovSKFDoK0s

Eu não tinha pensado que estas eleições possam arrastar-se por meses e que se houver instabilidade e incertezas, o IMF pode não avançar.

Se a situação na Ucrânia actualmente é grave, ainda ficará mais grave se as eleições não ficarem rapidamente decididas e definidas.

Se houver confusão, não haverá nem IMF nem renegociação do contrato do gás e este ano está estipulado, que pagam valores de mercado e a tendência dos preços já é de subida.

A Ucrânia está no limite dos limites, as eleições não se podem arrastar, tem que ficar definido o mais rapidamente possível quem é o próximo presidente.

Ítalo Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vasco Martins disse...

Caro PM,

"Poderia ser um pouco mais específico? Tem alguns pontos chave onde possa identificar esse abandono?

Ou talvez algo que a UE deveria ter feito e que na sua opinião não fez..."


Se a União Europeia e os países membros (i.e. alemanha) não sucumbissem às tentativas "divide and rule" da Rússia aquando as guerras do gás (por exemplo) e tivessem apoiado a Ucrânia, talvez a mensagem de força liberal e democrática de que a UE tanto se orgulha passar tivesse tido influência no país em questão. Abandonados pela UE, e desiludidos com Yushchenko,o eleitorado não vai mais longe e manda o senhor Yanukovych para a segunda volta..assim funciona o sistema democrático..

A questão da UE e da Ucrânia é simples analisada do ponto de vista do actual Presidente da Comissão Europeia: A UE é um império. Como qualquer império a UE também quer zonas de influência e também despeja dinheiro por tudo o que lhe faz fronteira. Claro que o que se lê são "cooperações transfronteiriças", "relações privilegiadas" e todo o tipo de defesas de direitos humanos que se traduzem em ingerência política (não que seja mau, muito pelo contrário). Ora tudo isto vai ter sempre um feedback. A Rússia não é 'papão' nennhum.

Considero no entanto, que uma possível adesão à NATO não só esticou demasiado a corda como se aproximou da loucura.

Caro Jorge Almeida,

E política não é isso, escolher entre dois males o menor?

Os melhores cumprimentos

PortugueseMan disse...

Engraçado como ele (PM) se utiliza da defesa da liberdade de expressão quando ela lhe é vantajosa não?

Nunca lhe disse para ter tento na língua pois não? nem a si nem a ninguém.

Você também é dos que gosta de ouvir apenas o que lhe agrada?

Então ainda tem que crescer e aprender o que significa Democracia e liberdade de expressão. Peça umas luzes ao seu encarregado de educação.

Não gosta do que lê meu jovem, ignore, vá ver uns desenhos animados.

PortugueseMan disse...

Caro Vasco Martins,

...Se a União Europeia e os países membros (i.e. alemanha) não sucumbissem às tentativas "divide and rule" da Rússia aquando as guerras do gás (por exemplo) e tivessem apoiado a Ucrânia...

É aqui que queria mais em pormenor para perceber a sua ideia. Como é que a UE poderia ter apoiado a Ucrânia na questão da guerra do gás?

Porque eu não vejo como. Eu não considero isso abandono.

E já agora porque focou ali a Alemanha?

MSantos disse...

"Se a União Europeia e os países membros (i.e. alemanha) não sucumbissem às tentativas "divide and rule" da Rússia aquando as guerras do gás (por exemplo) e tivessem apoiado a Ucrânia,"

A questão que se coloca é: e se a Ucrânia não tiver razão?

Tenho uma vaga ideia de uma comissão europeia ter chegado a essa conclusão embora tenha dado o dito por o não dito.

O que interessará mais? Construir uma Europa baseada nos valores e protecção e melhoria de vida dos seus cidadãos assim como honestidade da sua política externa ou previligiar o mercado e o liberalismo?

E como já referi em outro post, ao incorporar a Ucrânia, país que não representa lá muito a nossa matriz cultural e de pensamento, não estará a própria Europa a constituir-se num império para combater outro império?

Cumpts
Manuel Santos

Vasco Martins disse...

Caro PM,

A União Europeia e os seus estados membros, pouco ou nada poderiam ter feito em relação às guerras do gás a não ser criar comissões de investigação, que foram criadas, e tentar perceber a situação a fundo, junto de ambos os governos da Rússia e da Ucrânia.

O que não abona em nada a favor da UE, e nisto incluo portanto a Alemanha, é o gasoduto Nord Stream, projecto celebrado bilateralmente entre a Rússia e a Alemanha, numa altura em que a UE tenta a todo o custo reduzir a sua dependência de gás com a Rússia. O resto já você sabe.


Caro MSantos,

"O que interessará mais? Construir uma Europa baseada nos valores e protecção e melhoria de vida dos seus cidadãos assim como honestidade da sua política externa ou previligiar o mercado e o liberalismo?"

A construção de qualquer regime baseado nos valores de protecção e melhoria de vida dos cidadãos acente também numa política externa honesta está profundamente e absolutamente relacionado, com o privilégio do mercado e do liberalismo. Estes são os pilares onde assenta a nossa visão do mundo, as nossas doutrinas e aquilo que achamos que os outros devem ter\fazer.

Interessa no entanto, produzir uma política externa honesta, como disse e muito bem. Ora, terá a retórica externa da UE sido honesta para com vários países? Mas falamos de "full membership" ou apenas de "privileged partnership"? Com que intuito gastamos milhões de euros na Ucrânia?

Cá me parece que existem duas opções: ou nos isolamos ou somos missionários.

"A União Europeia faz-me lembrar cada vez mais" os EUA, "mas pode ser que esteja enganado."

Is the pen (UE) mightier than the sword (EUA)?

Cumprimentos

PortugueseMan disse...

A União Europeia e os seus estados membros, pouco ou nada poderiam ter feito em relação às guerras do gás a não ser criar comissões de investigação, que foram criadas, e tentar perceber a situação a fundo, junto de ambos os governos da Rússia e da Ucrânia...

Nesse caso meu caro, volto à minha questão inicial, a questão do abandono da Ucrânia por parte da UE. Não é uma questão de abandono, a UE fez o que poderia fazer e a meu ver até já está a fazer demais.

Porque as opções políticas ucranianas prejudicaram e muito a UE. Não se brinca com energia. É um dos principais factores que dão origem a guerras.

...O que não abona em nada a favor da UE, e nisto incluo portanto a Alemanha, é o gasoduto Nord Stream, projecto celebrado bilateralmente entre a Rússia e a Alemanha, numa altura em que a UE tenta a todo o custo reduzir a sua dependência de gás com a Rússia. O resto já você sabe...

Não. A UE não procura reduzir a sua dependência de gás russo. A UE procura NÂO aumentar ainda mais a sua dependência de gás russo, porque é isso que está previsto.

A UE procura sim, AUMENTAR o número de linhas de acesso ao gás russo, a UE procura reduzir os intermediários. Quanto mais linhas de ligação houver com a Rússia, mas seguro se torna o fornecimento energético para a Europa. A UE não pode estar dependente das guerras políticas que possam aparecer entre a Rússia e os países trânsito.

O acordo bilateral entre a Rússia e a Alemanha para o Nord Stream, foi feito assim porque nunca passaria via UE, vem ai os problemas com os países bálticos e o motor da UE não pode parar por falta de energia.

Os problemas que estamos a assistir na Ucrânia ainda são o princípio. Vem ai mais problemas e desta vez vão ser atingidos países dentra da esfera da UE. Nomeadamente Polónia, Rep. Checa e uns mais pequenos.

MSantos disse...

Caro Vasco Martins

Tenho de concordar consigo quando refere que os valores europeus culminaram todos no mercado e liberalismo (eu acho que até vai ao ultraliberalismo).

No entanto acho que o tal mercado e liberalismo são apenas um modelo económico não desprezando o importantíssimo papel da economia e têm de ter outros valores acima a "regulá-los". Podemos ter implementado o melhor e mais eficiente modelo económico do mundo que nada nos servirá se ao seu leme não estiverem princípios e os verdadeiros valores que previligiem e defendam os cidadãos. A recente crise é a prova viva disso.

Vou-lhe dar um exemplo: até à queda do muro, os Estados Unidos mantinham uma certa "castidade" e legitimidade nas suas acções porque na sua linha de ataque estavam os direitos humanos e dos cidadãos, liberdade individual, de expressão, religiosa, respeitar a constituição etc. Provavelmente cada vez menos nos lembramos destes discursos. As coisas começaram a descambar quando o discurso mudou para a defesa suprema da economia de mercado e com o conceito genérico e vago "democracia" depois.

A Europa aqui podia fazer a diferença e guindar-se para a vanguarda dos verdadeiros valores mas infelizmente temos sido conduzidos por Blairs, Merkls, Barrosos e até aquelas duas eminências pardas sem qualquer carisma que não me recorda agora os nomes.

Não concordo de todo com isto:

"e aquilo que achamos que os outros devem ter\fazer"

Para enveredar por aqui teríamos de ter total garantia que somos donos da verdade absoluta e como já deu para mostrar, eu sou contra os "donos" da verdade absoluta.

Mas obviamente tudo isto não passa da minha opinião.

Cumpts
Manuel Santos

Nuno disse...

Os media gauleses teriam muito a ganhar ao ler o seu post.
Desde considerarem uma surpresa o Ionuckovisch chegar à 2°volta, como até chamarem Iulia a candidata pro-ocidental..

Dizia um junior politologo ucrâniano amigo, que os ucranianos se sentiram enganados com a revolução laranja. Não porque esta não tivesse tornado a Ucrânia numa economia europeia, mas sim porque estavam à espera que o Ioushenko tirasse o dinheiro aos grandes dirigentes para dar ao povo.

Como que, às vezes, o que parece não o é..

Anónimo disse...

Vença quem vencer, o importante é ser patriota. Quem vencer deve lutar com unhas e dentes para unir os ucranianos e buscar o destino deles nas urnas.

A Rússia não pode ser deixada de lado pois é um importante parceiro comercial.

Um precisa do outro, mas eu acho que a Ucrânia precisa mais da Rússia do que o contrário.

Cláudio Zaziki
Curitiba - Paraná - Brasil

Vasco Martins disse...

Caro PM,

UE está em grandes esforços para reduzir a sua dependência de gás da Rússia. O argumento é que a Rússia usa gás para fazer política externa e é uma autocracia, portanto não cai na categoria de parceiro privilegiado. Prova: Trans-sagaran pipeline, e todos os projectos de ir buscar gás às repúblicas do centro asiático em vez de ir buscar à Rússia.

Caro MSantos,

Vasco Martins disse...

Caro PM,

UE está em grandes esforços para reduzir a sua dependência de gás da Rússia. O argumento é que a Rússia usa gás para fazer política externa e é uma autocracia, portanto não cai na categoria de parceiro privilegiado. Prova: gasoduto do trans-sahara que vai buscar gás à nigéria, e todos os projectos de ir buscar gás às repúblicas do centro asiático em vez de ir buscar à Rússia. Não é por nada que a Rússia começou a comprar\aumentar as quotas de gás do turquemenistão.

Caro MSantos,

os EUA tinham uma certa credibilidade antes da queda do muro porque não havia a troca de informação que há hoje. Não nos podemos esquecer das lindas práticas politico-diplomáticas que as gentes do novo mundo andaram a fazer na américa central e do sul..Panamas e Nicaráguas como é óbvio..

"
Para enveredar por aqui teríamos de ter total garantia que somos donos da verdade absoluta e como já deu para mostrar, eu sou contra os "donos" da verdade absoluta."

Eu também sou contra os donos da verdade absoluta, mas é um facto (meu) que os políticos europeus se comportam como detentores únicos da doutrina iluminista, de forma intelectualmente absolutista.

Claro que isto não é nada de novo, segue apenas padrões históricos mais que provados e verificados.

Cumprimentos

PortugueseMan disse...

UE está em grandes esforços para reduzir a sua dependência de gás da Rússia. O argumento é que a Rússia usa gás para fazer política externa e é uma autocracia, portanto não cai na categoria de parceiro privilegiado. Prova: gasoduto do trans-sahara que vai buscar gás à nigéria, e todos os projectos de ir buscar gás às repúblicas do centro asiático em vez de ir buscar à Rússia. Não é por nada que a Rússia começou a comprar\aumentar as quotas de gás do turquemenistão.

Não meu caro.

Os documentos oficiais da UE, mostram exactamente que o crescimento da importação de gás russo é uma realidade. E repare tanto é que a UE também está a meter dinheiro para a realização dos 2 novos pipelines russos estando a haver muita pressão política de modo a ultrapassar as barreiras para que sejam o mais rápidamente concluidos.

A prova que você indica, eu volto a insistir não prova que a UE pretenda diminuir a importação de gás russo, pretende sim que essa importação não aumente, pois tudo aponta que vai aumentar e isso é importante diminuir. A UE não pode ter uma fatia de energia tão grande vinda apenas de um fornecedor.

Relativamente ao Turquemenistão estão vários interesses em jogo. Como a China, o nabucco e a importância estratégica para a Rússia.

Zuruspa disse...

Segundo o "CIA Factbook", o PIB per capita (PPP) da Ucrânia é mais baixo que o de um país há 50 anos bloqueado pelo poderoso vizinho... Cuba!

... é esta a herança de Yuchenko!