quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O peso do passado



Como historiador, considero que se deve abordar com maior cuidado e profundidade a figura de Stepan Bandera (1909-1959), herói para uns, traidor para outros. É necessário analisar a acção desta figura histórica à luz do seu tempo, trágico e complicado, quando pais e filhos, irmãos e amigos lutavam em lados diferentes das barricadas.
Não falo em barricada, mas em barricadas, pois a Segunda Guerra Mundial, na Ucrânia não foi só uma luta entre soviéticos e alemães, mas também entre ucranianos, entre estes com os alemães contra os soviéticos, entre ucranianos com os soviéticos contra os alemães...
Considero que, para se chegar a uma conclusão mais objectiva, é preciso abrir arquivos, estudar novos documentos, etc.
Mas eu, neste post, queria falar de outra coisa. Acho que, não obstante Stepan Bandera ter sido um declarado anti-comunista, esta sua estátua em Lvov, no Ocidente da Ucrânia, foi desenhada e fundida à semelhança de monumentos semelhantes a Lénine. Fico com impressão que as estátuas são criadas nos mesmos ateliers, pelos mesmos escultores, que apenas se preocuparam (e nem sempre) em alterar um pouco os traços do rosto. Quanto ao resto, as mesmas poses, os mesmos sobretudos...
Que diria Freud de uma coisa destas?  

13 comentários:

Gilberto Mucio disse...

""(...)foi desenhada e fundida à semelhança de monumentos semelhantes a Lénine.""

Eu pensei a mesma coisa assim que vi a foto, antes mesmo de ler o título, pensei se tratar de algum figurão siviético.
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Stepan Bandera era financiado por Inglaterra e França.

Gilberto Mucio disse...

Aliás, se essa cidade hoje encontra-se na Ucrânia, agradeçam aos Soviéticos que a deu de presente.

Ítalo Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ítalo Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MSantos disse...

"Quanto ao resto, as mesmas poses, os mesmos sobretudos...
Que diria Freud de uma coisa destas?"

Só lhe falta estar a apontar o caminho para qualquer coisa.

Já por inúmeras vezes referi o facto dos velhos hábitos "soviéticos" mesmo nos países da antiga URSS mais pró ocidentais.

Ultimamente tenho tido informações sobre a situação de antigos países do bloco de leste em que mesmo na NATO e na UE conservam os piores hábitos, a maior criminalidade, corrupção, etc.

Ainda ontem no noticiário da SIC passou uma chocante reportagem sobre o tráfico de mulheres na Roménia.

Pena é que os nossos "valores ocidentais" fechem os olhos a tudo isto desde que a economia de mercado funcione e os mercados financeiros sigam intocáveis.

Mas estranhamente já nos chocamos muito, mesmo muito, quando é na Rússia.

Voltando à estátua, para mim a cereja no cimo do bolo é o tridente no pedestal que mais faz lembrar uma águia nazi.

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

...e se algum leitor ou o JM poder esclarecer a razão do brasão de armas da Ucrânia ser um tridente agradecia.

Sempre achei estranho dado não terem grandes tradições marítímas.

Cumpts
Manuel Santos

Pippo disse...

Será que a estátua original era do Lénine, à qual puseram uma nova cabeça?
Trocarem cabeças a estátuas não seria uma novidade.

Inácio Cristiano disse...

Quanto ao simbolo referenciado como um tridente, a mim me parece um ferro de almirantado (Ancora de navio).
Mas vendo com mais atenção, poderá ser a letra U estilizada, tipo gótico ou similar para a tornar classicista.
Se for esta a ideia, então haverá lógica no simbolo ucraniano especificamente.
Quanto aos "sobretudos" desde os de Lenine até aos de Kim Il-Sung, reparem no pormenor de todos eles, onde é evidente o efeito da brisa que nunca que deixou de molestar.
Na verdade, "não há machado que corte a raiz ao pensamento, porque é livre como o vento...porque é livre! " J.A.

Jest nas Wielu disse...

Apenas não consigo perceber como se consegue “catalogar” Stepan Bandera como “traidor”. O homem nasceu na Austro – Hungria, toda a sua vida lutou contra a ocupação polaca, nunca estava presente na Ucrânia em 1939 – 1941 (período de presença soviética na Galiza), nem tão pouco vivia na Ucrânia entre 1944 e até o seu assassinato em Munique pelo agente do KGB.

Então, expliquem, como ele pode ser traidor? Ele nunca jurou a fidelidade a URSS, muito pelo contrário, sempre se declarava como um inimigo público do comunismo soviético.

Sejam coerentes e chamem Stepan Bandera de inimigo, vosso inimigo, inimigo da URSS, da Rússia, etc. Mas não chamem ele daquilo que ele não era.

p.s.
O significado do tryzub tem várias leituras, esta imagem já existia nas moedas do Santo Volodymyr, rei que cristianizou a Rus’ de Kyiv (Ucrânia). Provavelmente representa uma falcão (existem vários outras teorias).

MSantos disse...

Obrigado Jest!

Fiz alguma pesquisa sobre a palavra "tryzub" e efectivamente surgem várias teorias nomeadamente que possa ser um falcão ou até um cisne.

No entanto acho que a mais plausível de todas é o facto das antigas colónias gregas no Mar Negro usarem o símbolo de Poseidon (tridente).

Tal e qual a águia bicéfala russa ainda é um remanente do império romano (já dividido em 2).

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

"Então, expliquem, como ele pode ser traidor? Ele nunca jurou a fidelidade a URSS, muito pelo contrário, sempre se declarava como um inimigo público do comunismo soviético"

neste ponto o Jest tem razão.

nota: Eu tambem nunca fiz um juramento de fidelidade ao actual regime Português, por conseguinte tenho legitimidade de o tentar destruir.

eleutério disse...

Tambem gostava de conhecer mais sobre Bandera. Liderou a guerrilha anti-sovietica nos carpatos, finda em meados dos anos 50.
Mas mais se pode dizer sobre a nacionalidade ucraniana. De facto e na realidade a ucrânia, de alma, tradição e coração, restringe-se às zonas onde Timoshenko ganhou, em especial na histórica zona de Lvov, e um pouco mais a norte, na Galiza-Volinia.
Não se pode dizer que as zonas de leste, completamente russificadas, ou mesmo nunca antes pertencendo à ucrânia, se entusiasmem com um discurso do tipo de Timoshneko.
Convem tambem recordar que Lvov foi fundada só em 1256 por Danilo Galitski, nobre polaco de origem, e que o movimento dos cossacos, com o qual os ucranianos se identificam como elemento da sua nacionalidade, se desenvolveu no século XVII. Porventura é nesta altura que se encontram os contornos de algo que pode ser assemelhado a uma nacionalidade ucraniana.
Não sei quando a lingua ucraniana se difenriciou o suficiente do russo. Por força da distância e da imensidão de território de que falamos, se calhar é também no sec. XVII que é já diferente. Os poetas e escritores ucranianos s
ao mais tardios.
Mas a história não pode esconder o que é a ucrânia actual: um estado pobre, com políticos fracos, corruptos, que não deixam outra alternativa à sua população que não emigrar. E nisto são parecidos conosco... E para quem estiver mais atento, verá que a grande maioria dos emigrantes da ucrânia são precisamente oriundos da Galiza-Volinia, apoiantes de Timoshenko...
Neste contexto não pode ser de estranhar que figuras com o impacto de Bandera sejam recordadas, pelas ideias claras e eventual firmeza de caracter, pois é precisamente isso que faz falta à ucrânia.
José Milhazes, como historiador, seria o trabalho sobre Bandera muito interessante. E já agora, em que zona de Lvov se situam as estátuas?

Jest nas Wielu disse...

2 MSantos

Tudo é possível e a do tridente do Poseidon não é de dizer “impossível”. A águia bicéfala: também é bem possível que seja assim, pois a Rússia sempre se psicionava como “a terceira Roma”, afirmando que a quarta nunca existirá.

2 Anónimo 3:14
Sendo cidadão de Portugal por consequente significa que aceita a soberania portuguesa. Para contrariar, ao meu ver, deveria recusar a cidadania portuguesa (como primeiro passo).

2 Eleutério
1. Quem liderou a guerilha UPA foi o general Roman Shukhevych (morreu em uma emboscada do NKVD), veja o filme “Undefeated” (Neskorenij), que retracta bastante fielmente a sua vida e a luta.

2. Não é bem a verdade que a Galiza é uma zona de apoio a Timoshenko, não devemos esquecer que neste caso a situação era de polarização clara, dai que a Galiza votou nela. Nas legislativas ela não terá este apoio.

3. A estátua de Stepan Bandera fica nas proximidades da estação de caminhos de ferro de Lviv.