quarta-feira, abril 28, 2010

Blog do leitor (Internet na Rússia: zona de liberdade e de pouca política)


Textos traduzidos e enviados por Cristina Mestre:

"A Internet na Rússia tem vindo a desenvolver-se com rapidez e praticamente não é censurada, à excepção do Cáucaso do Norte.

Esta liberdade no espaço virtual contrasta com o forte controlo sobre os meios de comunicação social impressos e audiovisuais. No entanto, os cibernautas russos não gozam de todas as vantagens e encantos da liberdade de expressão uma vez que não se interessam pela política.

“O espaço da Internet é o único meio verdadeiramente aberto e livre de comunicação na sociedade russa”, sublinha a politóloga Marie Mandra. Ao mesmo tempo, refere, na Rússia “só um terço da população tem acesso diário à Internet”.

Para além disso, os russos utilizam a rede global essencialmente para fins profissionais ou de entretenimento. Entre os utilizadores, na sua maioria jovens das zonas urbanas, o interesse em relação a sites políticos ou de defesa dos direitos humanos é muito limitado, embora estes sejam numerosos.

Paralelamente, as autoridades russas estão a criar na Internet os seus próprios instrumentos de influência e de propaganda.

Recentemente, o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung referia que os bloguistas russos assumem frequentemente não só as funções da imprensa mas também dos órgãos de protecção da ordem.

Ultimamente, os blogues têm-se tornado cada vez mais para os cidadãos um espaço de crítica em relação às acções ilegítimas das autoridades.

Não é raro resolverem-se problemas importantes, que preocupam a sociedade, graças à sua discussão na Internet.

Por exemplo, os bloguistas russos discutiram intensamente o destino da menina russa Sandra Zarubina, retirada no ano passado aos pais adoptivos portugueses pela mãe biológica alcoólica e trazida para a Rússia.

Grande ressonância na blogosfera teve também a tragédia que aconteceu na Primavera do ano passado no sul da capital, quando um agente da Polícia, Roman Jirov, atropelou uma mulher grávida numa passadeira, tendo-se posto em fuga praticamente sem sofrer quaisquer consequências.

O marido da falecida, Alexei Chum, colocou uma mensagem sobre o acidente no seu blog, graças à qual o caso passou a ter grande ressonância. Só depois disso é que o Ministério Público abriu um processo penal e o polícia foi detido. Mesmo assim, este acabou por ser libertado com termo de identidade e residência.

A utilização da Internet para combater ilegalidades tem ultimamente sido aplicada pelas próprias autoridades. Assim, as Polícias ligadas ao Ministério do Interior viram-se no centro de um escândalo nacional quando o major da Polícia Alexei Dymovsky publicou na Internet um vídeo em que acusava os seus colegas de corrupção, criticando duramente Vladimir Putin. O exemplo foi seguido por outros polícias em várias regiões do país.

Depois do escândalo, o próprio Dymovsky foi acusado de fraude pelas autoridades, tendo sido posteriormente detido. Para além disso, já houve precedentes de pessoas que foram processadas por fazerem certas afirmações na Internet.

Em 2008, em Syktyvkar, o músico Savva Terentiev foi condenado a uma pena de prisão suspensa por “extremismo”. O músico tinha proposto “queimar os bófias incompetentes” na praça central da cidade.

Ainda em Setembro do ano passado, o tribunal de Syktyvkar, condenou Igor Sajin a pagar uma multa de 6.000 rublos pela autoria de um texto num blog em que o defensor dos direitos humanos chamava aos políticos locais “cus manhosos”, acusando-os de irregularidades na implementação do programa nacional “Habitação Acessível”.

A Administração do Presidente está preocupada com a queda de confiança nos órgãos de comunicação oficiais a nível regional. Foi colocada perante os governadores a tarefa de entrar nos blogs e de estimular discussões virtuais, bem como de contribuir para o desenvolvimento dos meios de comunicação electrónicos regionais. O Kremlin receia que, num futuro próximo, a utilização das tecnologias virtuais, bem como dos blogs e das redes sociais, possa não só formar a opinião em relação aos representantes da classe dirigente mas também ter uma influência real nos resultados das eleições.

Após o presidente Dmitry Medvedev ter iniciado o seu videoblog, em Outubro de 2008, muitos políticos acorreram à Internet.

Boris Nemtsov, político de oposição, compara os políticos e funcionários transformados de repente em activos utilizadores da Internet com os papagaios que repetem as palavras do chefe mecanicamente e sem as entender. “Há outros que fazem sky da mesma forma”, diz o político com sarcasmo. “Banalidades misturadas com bajulamento” – é assim que Nemtsov descreve o conteúdo de muitos blogs de personalidades oficiais.

O que é um facto é que a Internet muitas vezes é fonte de problemas para os políticos e funcionários. Não é para melhorar o seu nível de formação política que os cidadãos russos consultam os blogs e sites dos políticos. O que os interessa são os pormenores “picantes” da vida privada dos governantes.

As pessoas discutem as dimensões das suas casas de férias ou dos carros comprados com o dinheiro dos orçamentos regionais ou federais. As pessoas acham que a verdadeira política não é o que se diz nas tribunas.

O que irrita mais os governantes é o facto de na Internet todos poderem dizer o que pensam.

Ofendidos pelos comentários desagradáveis, uns políticos simplesmente apagam-nos, outros ameaçam os críticos com represálias e chamam a Polícia.

Um exemplo elucidativo foi a “guerra” entre Vladimir Kissiliov, presidente do Parlamento regional de Vladimir, e os leitores do site “Opção 33”.

Nos comentários a um texto sobre o parlamentar, um leitor escreveu:

“As palavras consciência e decência não podem ser utilizadas juntamente com o nome de Kissiliov”. O deputado propôs ao anónimo “se ele é homem”, “encontrar-se cara a cara e definir que palavras podem ou não podem ser utilizadas com determinado apelido”.

Kissiliov deixou o telefone do seu secretariado, mas o leitor propôs-lhe encontrarem-se pessoalmente, na praça da cidade e com testemunhas. Depois disso, o deputado recusou e parou de responder aos comentários.

Posteriormente, os autores do site “Opção 33” foram chamados à Polícia, tendo-lhes sido proposto indicar o endereço IP do anónimo.

Um pouco antes, o governador de Vladimir, Nikolai Vinogradov, conseguiu que o tribunal multasse o jornalista local Dmitry Tachlykov em 100.000 rublos por difamação na Internet.

Num dos fóruns, o jornalista chamou ao governador “animal”, “idiota” e “filho da mãe”.

No entanto, na maioria dos casos, os políticos não vão para tribunal, preferindo simplesmente apagar os comentários críticos ou desagradáveis.

Muitos blogs oficiais têm secretários de imprensa que filtram os comentários na fase de moderação, deixando apenas os comentários elogiosos dos subalternos.

Tradução dos artigos originais:

http://www.newsru.com/russia/17mar2010/apolitnet.html

http://www.newsru.com/russia/21jan2010/vipblgrs.html"

10 comentários:

Pippo disse...

Não sei qual será a realidade estatística em Portugal, mas tenho a certeza que por cá a net também é sobretudo usada para o entretenimento.
No nosso caso, os únicos políticos que eu sei que usam a net para veicular informações políticas são o eurodeputado Carlos Coelho, o Pacheco Pereira e o Miguel Portas. Outros mais existirão mas não os conheço.

Quanto à discussão sobre política e afins na net, bem, todos nós já recebemos nos nossos emails "cartas abertas" e demonstrações de indignação contra as alarvidades cometidas pela nossa classe dirigente. A última novidade é o pagamento das viagens da deputada Inês de Medeiros de Paris a Lisboa, algo que eu considero ser um roubo aos bolsos dos contribuintes.
Mas no que dá toda esta discussão? na minha opinião, em nada. O povo pode reclamar, mas como se diz, vozes de burro não chegam ao Céu. E sim, os burros somos nós!

Quer-me parecer que a realidade russa não deve diferir muito da nossa. Mas lá, ao menos, põe um polícia sob TIR, aqui nem isso...

anónimo russo disse...

E porque foi que o meu comentário não foi publicado? Não insultei ninguem.

anónimo russo disse...

Está bem, desde que os meus comentários sejam apagados aqui, quero repetir apenas uma das perguntas que coloquei na minha mensagem anterior


"A Internet na Rússia tem vindo a desenvolver-se com rapidez e praticamente não é censurada, à excepção do Cáucaso do Norte."


O que queria dizer com a frase "à excepção do Cáucaso do Norte"? Seria interessante saber.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor anónimo russo, eu não censuro comentários há bastante tempo. Pode ter sucedido que eu não tenha recebido. Reenvie e publicarei. Obrigado.

Cristina disse...

Caro anónimo russo
Julgo que o autor do artigo, que me limitei a traduzir, queria dizer que não há censura na Internet russa, à excepção da região do Cáucaso do Norte (Chechénia). Mais não é adiantado.

anónimo russo disse...

Está bem, espero que seja apenas algum erro ou alguma falha do browser ou como se escreve isso em ingles.

Mas já nem tenho muita vontade de debater o tema. Apenas queria ouvir a resposta à minha pergunta sobre a internet no Caucaso (e queria perguntar tambem se os autores deste artigo neste blog sabiam que, por exemplo, o site da guerrilha tchetchena começou a funcionar aínda nos meados dos anos 90 do sec., quando aínda poucos tinham acesso à internet na Rússia).

E queria repetir tambem que, na minha opinião, a internet russa é bastante politizada e, como já disse, há lá muita liberdade de espressão, sem escrupulos e o politicamente correcto. Uma liberdade de expressão maior que nalguns blogs.

De resto, não posso dizer nada de bom sobre o nivel analitico do artigo que me relembra a imprensa sovietica descrevendo as dificuldades dos trabalhadores no capitalismo ocidental apodrecido e que há de ruir de um dia para outro.

anónimo russo disse...

Por sinal, aínda há pouco num dos blogues de um analista politico que leio de vez em quando (e que nem sempre dedica os seus artigos à politica) apareceu um nacionalista (e provavelmente extremista) ingusch que gritava de algumas profecias que dizem que a Rússia seria varrida do caucaso etc. Lá lhe explicaram logo que os mais radicais dos nacionalistas da russia central nem queriam ver o caucaso parte da Rússia (e nem ver os caucasianos, que muitas vezes, como todos sabem, preferem viver na Rússia bastante longe do caucaso). Li tambem que há cites de extremistas que funcionam abertamente etc. A Rússia não é a China, qualquer um pode criar o seu site em russo nos servidores de qualquer país, segundo eu entendo. Por isso não compreendi realmente de que se tratava. Mas já vi o original do artigo que cita jornais estrangeiros e parece que já entendi que é a peça de sempre a canção habitual.

Anónimo disse...

É falar em censura à imprensa na Rússia, que o Anônimo russo aparece!!!!



Como vai o patrão Putin?

anónimo russo disse...

P.S.
Tambem, segundo eu saiba, os lideres da guerrilha islamica que se escondem nos bosques e tentam construir "djamaat" ou "imarat" do caucaso, tambem colocam os seus vídeos na internet regularmente. Por isso não entendo de que se trata. (Mas, ao ver as fontes, percebi tudo).

anónimo russo disse...

P.P.S. Eu acho que o quadro deve ser íntegro, e não baseado apenas numa ou duas fontes (neste caso não posso dizer que sejam imparciais). Imagine o que podem pensar as pessoas que não conhecem a Rússia ao ler este artigo. Claro que se o objetivo real é informar as pessoas e tentar ajudar a compreender alguma coisa.