terça-feira, abril 20, 2010

Blog dos leitores (A Questão Quirguize)


Texto enviado pelo leitor João Gil Freitas:

"A Ásia Central permanece um território altamente desconhecido e até enigmático para os europeus, e ainda mais para os portugueses, cujos interesses externos encontram-se preferencialmente voltados para outras latitudes geográficas. No entanto, esta região tem sido palco de arreigadas tensões políticas e sociais cujos protagonistas se cingem invariavelmente a uma classe dirigente frágil e pouco reconhecida aos olhos dos cidadãos, e a oposições políticas débeis e na prática pouco diferentes dos detentores do poder. Todas as cinco repúblicas da Ásia Central, mau grado apresentarem distintos indicadores económicos, enfrentam problemas estruturais semelhantes: corrupção generalizada, dependência externa, falta de transparência dos processos administrativos, predominância do aparelho executivo sobre o legislativo e judicial, enfim, uma alargada panóplia de fragilidades que atestam a insipiência do estado de direito e a sua má governança generalizada.

Os recentes acontecimentos políticos no Quirguistão, país que em 2005 passou por um curto mas intenso período de abertura política que ficou conhecido por “Revolução das Túlipas”, podem ser vistos como a principal consequência de um avolumar sucessivo de contradições internas e de tensões sociais particularmente acentuadas desde o supracitado fenómeno político de 2005.

Três causas essenciais podem ser apontadas para o fim do poder de Kurmanbek Bakiyev, presidente deposto, e para a consequente tomada do poder por parte da oposição. Em primeiro lugar, Bakiyev passou os cinco anos da sua presidência a nomear para postos chave administrativos e governamentais nada menos do que familiares seus, fosse de forma legal ou ilegal, com recurso não raras vezes a métodos criminosos para tal. Os irmãos do Presidente ocupavam posições de topo na Casa Branca quirguize, e a outros parentes directos eram-lhes atribuídos um sem-número de privilégios, incluindo o controlo de vastas regiões por todo o país. Ora fora exactamente por isso que o anterior presidente, Askar Akayev, líder quiguize desde a independência do país em 1991, fora forçado a abandonar o poder em 2005 na sequência da “Revolução das Túlipas”.

Em segundo lugar, é preciso estar-se ciente de que o Quirguistão mantém uma estrutura social marcadamente tribal, em que as relações de clãs desempenham um papel fundamental para o equilíbrio interno de poderes e para a paz social. Uma qualquer alteração neste frágil equilíbrio representa um perigo imediato para a estabilidade do país. O maior foco de tensão reside na divisão entre as tribos do Norte, originárias das províncias de Chui, Talas, Issyk-kul e Naryn; e as do Sul, provenientes das províncias de Osh, Jalal-Abad e Batken. Bakiyev, nativo de Jalal- Abad, tem desde a chegada ao poder nomeado elementos das províncias do Sul para importantes posições a Norte, o que tem vindo a provocar um profundo descontentamento nas províncias setentrionais, onde está situada a capital, Bishkek.

Em terceiro lugar, Bakiyev tem prosseguido uma política externa tida como irracional por sectores importantes da vida política do país. O Quirguistão tem relações importantes tanto com os EUA como com a Rússia, país que não esconde a sua relutância em aceitar a permanência da base militar norte-americana de Manas. Como é sabido, esta base representa um importante apoio estratégico para as forças em actuação no vizinho Afeganistão. Bakiyev prometera a Putin terminar o licenciamento de utilização da base pelos EUA, mas tal não se verificou. O ex-presidente é acusado de desnorte na sua política externa, fazendo concessões a ambos os lados, dos quais vem recebendo sucessivos incentivos financeiros, todavia sem qualquer estratégia de fundo que lhe esteja associada. É ainda acusado de ocultar o destino do dinheiro que o país vem recebendo, muito do qual não deixou, pura e simplesmente, rasto. Alguns rumores internos apontam ainda para uma alegada “retirada do tapete” por parte da Rússia que, insatisfeita com a actuação de Bakiyev, pode estar na origem do recente levantamento oposicionista, a quem aliás de imediato reconheceu legitimidade.

Existem contudo outras razões, de fundo, que podem também elas ajudar a explicar os tumultos de Bishkek e a queda do governo quirguize. Aparte as questões tribais e de política externa, a verdade é que o governo de Bakiyev é tido como corrupto, desviando ostensivamente recursos públicos, algo que tem afectado as poucas empresas lucrativas do país. Os últimos anos têm assistido a um aumento dos fluxos migratórios, tanto internos como para o exterior, de camponeses das províncias mais distantes do território, com escassíssimos meios de subsistência. A isto acresce a própria mentalidade do povo quirguize, detentor de características muito próprias dentre os restantes povos da Ásia Central: os quirguizes, povo historicamente nómada, possui uma cultura relativamente livre e democrática. A própria cultura popular quirguize patenteia bem a ideia de luta contra os tipos de poder autocrático e injusto, sendo disso exemplos cimeiros a música e a literatura tradicionais. Gengis Khan escolhia quirguizes para a sua guarda pessoal, sabendo que eles nunca o trairiam. Os quirguizes são ainda hoje (re)conhecidos pela sua lealdade, paciência e temperamento fácil, que os leva a encetarem revoltas em larga escala quando as situações se tornam incomportáveis e assim o exijam. Foi o exemplo da “Revolução das Túlipas” em 2005 e dos acontecimentos de Abril de 2010, ambos assumindo contornos particularmente violentos.

É bastante difícil, porventura até pouco recomendável, procurar deslindar qual será o futuro a curto prazo desta paupérrima e longínqua república da Ásia Central. Permanece incerto se o país conseguirá ou não aproveitar esta nova oportunidade para encontrar o caminho da democracia e do desenvolvimento económico, embora o perfil pessoal da nova chefe do governo provisório, Roza Otunbayeva, ela própria um dos líderes da “Revolução das Túlipas” de 2005, ofereça alguma esperança. Por enquanto, o exílio de Bakiyev parece dissipar o perigo eminente de guerra civil, naquela que foi a primeira grande boa notícia da nova era em que o país agora entrou."

10 comentários:

Cristina disse...

Muito bom artigo, bastante objectivo e esclarecedor.
É bom podermos conhecer outras realidades que não os países imediatamente próximos dos nossos.
Julgo, no entanto, que a história e a mentalidade dos povos da Ásia Central não são muito propícias à instauração de regimes democráticos, aliás, tal como este artigo mostra.

ALONE HUNTER disse...

Os quirquizes são para a Ásia e Europa o que os bolivianos são aqui para nós, brasileiros!!!

É a mesma coisa, me espanta a semelhança entre o Quirguistão e a Bolivia!!! Bom mesmo é se eles não existissem ( assim como os paraguaios) , mais fazer o que?

O problema é que a desestabilização de um país pobre trás riscos á segurança nacional do vizinho poderoso.

No caso do Quirguistão,trás problemas diretos á Rússia e a China. Embora não faça fronteiras com a Rússia, os interesses russos neste país estão ameaçados, lembrando que há várias bases militares russas neste país.

Estes tipos de rebeliões só acontecem em países pobres mesmo!!! Esse é o problema... É a pobreza extrema.

Aqui, no meu continente, tem uma figura chamada Evo Morales, que está destruindo um país que já não tem nada, que é a Bolivia. O maior parceiro economico da Bolivia é o Brasil, mesmo assim , decidiram privatizar a PETROBRAS que possuia uma base naquele país andino. E recentemente teve uma grande rebelião em La Paz, pra depor aquele índio.

Agora, me impressiona a semelhança entre o Quirguistão e a Bolivia! É quase o mesmo país, em termos de problemas sociais. Até o GDP é quase o mesmo!!!

Estão aí excelentes civilizações para serem enviadas para Marte para iniciar a colonização do país vermelho!

Jest nas Wielu disse...

A multidão já começou gritar os slogans anti - russos:
http://www.gazeta.ru/news/lastnews/
2010/04/19/n_1484911.shtml

será que a Rússia vai defender a população étnica russa?...

Jest nas Wielu disse...

off top:

A capital russa na imaginação do ilustrador conhecido pelo nick mvn78:
http://postomania.ru/post124742421

MSantos disse...

Li este artigo e apeteceu-me fazer um comentário mas a Cristina adiantou tudo o que eu pretendia dizer.

Ficamos à espera de mais.

Cumpts
Manuel Santos

Jorge Almeida disse...

O autor do artigo só esqueceu-se de mais alguns problemas que este país tem:

- Dominado por máfias;
- Imenso crescimento do extremismo islâmico wahabita;
- Situa-se na rota dos narcóticos que vão do Afeganistão para a Europa (via Rússia). O nº de drogados lá tem aumentado exponencialmente;
- Os casos de SIDA estão a aumentar a um ritmo muito preocupante.

Jorge Almeida disse...

Alone,

olhe que o Evo Morales foi eleito pelos bolivianos muito pelo seu discurso anti-EUA, imitando o seu grande amigo (e grande amigo da Rússia e do Irão) Hugo Chavez.

A propósito, já não ouço falar dessa pessoa há alguns meses? O que será feito dele? Ainda estará vivo?

Nuno B. disse...

Bom artigo.

Faltou uma analise à situação económica do país. O Quirquistão ainda se debate com problemas graves de transição para uma economia de mercado.

Não concordo com o que disse sobre a politica externa. Afinal, o país mantinha uma boa relação com os EUA (de quem chegou a receber ajudas e a Madame Rice!), e com Moscovo. As razões da instabilidade são outras, a serem encontradas noutros domínios.

João Gil disse...

Obrigado a todos sem excepção pelo feedback até agora aqui deixado. É com agrado e atenção que leio todos os comentários.
Caros Jorge Almeida e Nuno B., agradeço as vossas palavras. Permitam-me apenas um esclarecimento: o artigo não tem nem teve nunca a pretensão de ser exautivo. Ficaram naturalmente por dissecar outros factores, por certo de índole económica. O artigo está claramente voltado para os aspectos políticos e sociais, que julgo serem os mais relevantes para esta situação em concreto.
Caro Nuno B., a palavra "irracional" não foi empregue ao acaso. Conheço pessoalmente alguns quirguizes que corroboram esta visão. A política externa não foi, de facto, a causa cimeira da queda do governo de Bakiyev, mas ajudou ao sentimento de mobilização daquele segmento da população mais esclarecido e atento, funcionando por isso como um factor explicativo adicional.

Nuno B. disse...

Cara João Gil,

tem razão quando diz que os quirguizes são um povo aberto. De facto, também eu tive a oportunidade de privar com alguns deles. E ha quem defenda que o maior problema é a (falta de) estabilidade das instituições, mais do que a questão externa.

Cumprimentos.