segunda-feira, maio 24, 2010

Contributos para a História (Portugal)

Cunhal implorava encontros com Brejnev, mas em vão


    Na foto: Quadro do pintor soviético D. Nalbandian:  Brejnev saúda Fidel Castro. Cunhal na última fila junto do retrato de Lenine


Álvaro Cunhal, secretário geral do Partido Comunista Português, foi várias vezes a Moscovo na esperança de se encontrar com o líder soviético Leonid Brejnev, mas em vão, escreve Anatoli Tchernaiev, antigo funcionário da Secção Internacional do Partido Comunista da União Soviética, nas suas memórias.

No seu diário “Êxodo Conjunto”, recentemente publicado na capital russa, Tchernaiev escreve a 11 de Setembro de 1975: “Quando Cunhal visitou Moscovo, foi recebido de forma desdenhosa. Brejnev não desejou encontrar-se com ele e B.N. Ponomariov (eu presenciei isso) disse tontarias no espírito do seu compêndio de “História do Partido Comunista da União Soviética”.

Boris N. Ponomariov, dirigente da Secção Internacional do PCUS, não perdia nenhuma oportunidade para dar instruções a Cunhal.

“Na sexta feira. B.N. (Ponomariov) convidou-me para a conversa com Cunhal. Presenciei aí como se faz a história. Esse homem, de quem agora muito depende, e não só em Portugal. Embaraçado e apressado, expõe a Ponomariov, tal como durante a confissão, o que acontece, quem é quem, como é que ele tenciona agir e com o que contar”, escreve Tchernaiev a 03 de novembro de 1974.

E acrescenta: “Desta vez, B.N. ensinava-o, numa linguagem muito atabalhoada, como salvar e fazer avançar a revolução: saber o que se passa nas forças armadas, ter a sua espionagem (junto do CC do partido), como organizar a segurança dos dirigentes (podemos dar armas para cinco ou seis pessoas), bem como seguir a CIA”.

Em Julho de 1980, o dirigente comunista português vê recusado mais um pedido de encontro com Leonid Brejnev.

“Cunhal ficou muito abalado. Eu encontrei-me com ele na quinta feira, estive sentado com ele na Plotnikovskaia até à meia-noite: um homem encantador, realmente um grande líder político da nossa época... E ele disse: eu compreendo, mas eu não preciso de uma longa conversa com Brejnev, muito menos uma discussão, tudo o que eu preciso é orientar-me nos assuntos internacionais e nos assuntos do Movimento Comunista Internacional, e disso falar-me-ão você, Ponomariov, Zagladin, outros camaradas. E eu direi tudo o que vos interessa dos nossos assuntos”, recorda Tchernaiev a 19 de julho desse ano.

O dirigente comunista português, segundo Tchernaiev, explica assim a necessidade do encontro: “Precisava que aparecesse a notícia na imprensa: “Brejnev encontrou-se com Cunhal!”Agora, os americanos fazem-me vénias, convidaram-me pela primeira vez para uma receção na embaixada a propósito da festa nacional dos Estados Unidos; os mais fortes ativistas do campo da direita, reacionários, procuram contacto comigo; o cardeal, pela primeira vez, aproximou-se e conversou de forma amigável; os chineses, pela primeira vez depois da revolução, apareceram no edifício do nosso CC, querem “trocar opiniões”; o presidente aconselha-se comigo frequentemente. O país está na véspera de eleições parlamentares, que podem ter importância fulcral para a Revolução de Abril... O partido cresce, o partido é uma força... E pode faltar um pouco, um pouquinho para conseguir um grande êxito nacional. É para isso que preciso de um encontro com Brejnev”.

Tchernaiev comenta a propósito: “Mas para nós o principal é “não incomodar”! E depois disso os anti-soviéticos e anti-comunistas continuam a gritar sobre a “mão de Moscovo”, de que nós inspiramos em toda a parte a revolução, ensinamos a todos como minar as bases, etc.! Se eles soubessem a realidade...”

Segundo Tchernaiev, o próprio Ponomariov reconheceu que se tratou de um erro político.

“Ele declarou-me inesperadamente (a propósito das honras de que foram objeto, durante as suas visitas oficiais à URSS, o grã-duque do Luxembrugo Jean e a elegante Margarida II da Dinamarca): “Recebemos e pomo-nos nas pontas dos pés perante qualquer um, mas em relação a Portugal, que tem importância colossal para toda a nossa causa, ninguém quer prestar a devida atenção!”, recorda Tchernaiev.



5 comentários:

MSantos disse...

Creio que as duas personagens entre Fidel e Brejnev são Gromicko e Ustinov.

Cumpts
Manuel Santos

Jose Milhazes disse...

Exacto. É Gromiko, ministro dos NE da URSS e Ustinov, ministro da Defesa

LA PASIONARIA«!NO PASARÁN!» disse...

Grunhe Porco..Grunhe Porco....Um dia vais deixar de Grunhir...e ser transformado em banha.

Enquanto continuas a grunhir...o meu cão continua a ladrar desalmadamente quando te ouve ....grunhir na rádio ou Tv.

Jose Milhazes disse...

O último comentário é apenas um exemplo da forma como reagem certas pessoas às ideias dos outros. Até parece que fui eu que escrevi as memórias sobre o Dr. Cunhal!
Não é único no género, mas significativo.

MSantos disse...

Não se preocupe José Milhazes!

Os cães da minha rua também me ladram mas eu nem ligo.

:o)

Cumpts
Manuel Santos