sábado, junho 12, 2010

Que fazer com o Quirguistão?


O Governo Provisório do Quirguistão, criado no mês de Abril depois de um levantamento popular ter derrubado o presidente Kurmambek Bakiev, reconheceu ser incapaz de travar os confrontos entre quirguizes e uzbeques no sul do país.
Os confrontos, que começaram na quinta-feira com uma rixa entre um quirguize e um uzbeque, provocaram mais de 70 mortos e mil feridos e o número de vítimas continua a subir. 
O sul do Quirguistão, que faz fronteira com o Uzbequistão, é, há muito tempo, uma zona explosiva. Em 1990, confrontos entre as duas etnias fizeram mais de 300 mortos, segundo dados oficiais, e mais de mil, segundo dados das organizações não governamentais.  Os quirguizes vêem nos uzbeques uma espécie de invasores, que têm mais direitos do que eles.
As autoridades quirguizes pediram ajuda militar à Rússia, mas Moscovo respondeu que, por enquanto, não há condições para isso. Porém, se as desordens continuarem, Moscovo terá mesmo de intervir, embora em conjunto com outros membros da Organização do Tratado de Segurança Colectiva, que, além da Rússia, reúne a Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. 
Tendo em conta a situação geográfica do Quirguistão, não deverá ser difícil a Moscovo conseguir também, se não o apoio, pelo menos o consentimento, dos Estados Unidos, União Europeia e China para essa intervenção.
No Quirguistão encontra-se uma base aérea norte-americana, importante para o apoio à operação militar da NATO no Afeganistão. Esse país centro-asiático faz fronteira com as regiões muçulmanas da China e visto que o fundamentalismo islâmico ganha força no Quirguistão, o alargamento do confronto constitui uma série ameaça.
Para a Rússia, isto poderá significar a desestabilização em toda a Ásia Central e nas suas fronteiras do sudeste. Para a União Europeia, será não só a base militar de apoio norte-americana que ficará em risco, mas também passará a existir uma ameaça aos fornecimentos de gás natural da Ásia Central. Este último será uma  dor de cabeça também para a Rússia por os gasodutos passam pelo seu território.
Resta apenas pôr de lado interesses mesquinhos e tomar medidas rápidas, não só no campo militar, mas também económico, pois a miséria e a corrupção são duas das causas dos conflitos. Ainda há tempo para evitar que o Quirguistão se transforme num novo Afeganistão, mas resta cada vez menos.

22 comentários:

PortugueseMan disse...

Caro JM,

...mas Moscovo respondeu que, por enquanto, não há condições para isso. Porém, se as desordens continuarem, Moscovo terá mesmo de intervir, embora em conjunto com outros membros da Organização do Tratado de Segurança Colectiva, que, além da Rússia, reúne a Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão...

Na minha opinião nem pensar em intervenção por parte de Moscovo e muito menos com a Organização do Tratado de Segurança Colectiva.

Estamos a falar de um governo provisório, é necessário legitimar o governo.

...Tendo em conta a situação geográfica do Quirguistão, não deverá ser difícil a Moscovo conseguir também, se não o apoio, pelo menos o consentimento, dos Estados Unidos, União Europeia e China para essa intervenção...

Está fora de questão em falar dos Estados Unidos aqui, que curiosamente estão bem silenciosos com esta situação. Aqui os EUA e UE não têm palavra a dizer. E no caso específico dos EUA só iria agravar a situação.

...Para a União Europeia, será não só a base militar de apoio norte-americana que ficará em risco, mas também passará a existir uma ameaça aos fornecimentos de gás natural da Ásia Central. Este último será uma dor de cabeça também para a Rússia por os gasodutos passam pelo seu território...

Não misture a UE com isto. Estamos a falar de uma batalha entre interesses russos, americanos e chineses.

Os pipelines nesta zona, são para servir a China, têm o aval russo, e o que tanto a China como a Rússia querem é os EUA fora da Àsia Central.

...Resta apenas pôr de lado interesses mesquinhos e tomar medidas rápidas, não só no campo militar, mas também económico, pois a miséria e a corrupção são duas das causas dos conflitos. Ainda há tempo para evitar que o Quirguistão se transforme num novo Afeganistão, mas resta cada vez menos...

Não são interesses mesquinhos e não há medidas rápidas. Isto é ainda mais perigoso que o braço de ferro na Geórgia. A Rússia cortou o acesso americano pelo mar negro e agora os EUA estão com um enorme problema em manter esta base.

O grave é que este país faz fronteira com a China e estes podem fazer a sua estreia na entrada deste país de modo a "ajudar" na situação. MAS a acontecer isto, teremos uma situação ainda mais perigosa. Teremos a presença no mesmo país, as 3 maiores potênciais nucleares e RIVAIS onde duas delas têm andado a lutar pelo mundo fora para obter energia.

Meu caro, a QUANTIDADE de mortos que isto pode gerar, fará tudo o resto parecer uma brincadeira de crianças.

Jose Milhazes disse...

Caro PM, o seu raciocino é lógico demais para uma situação de crise. Ou seja, irá toda a gente ficar a ver o alastramento de mais um grave conflito numa zona estratégica.
De onde vem parte significativa do gás para a Europa se não da Ásia Central através dos gasodutos russos? E o que acontecerá à Corrente do Sul se a situação se agravar?
Aproveito a oportunidade para recordar também que o Quirguistão é um dos corredores da droga do Afeganistão para a Europa.
Caro PM, vamos ver o desenvolvimento da situação. Claro que seria bom que não fosse necessária uma intervenção militar, mas o desenrolar dos acontecimentos aponta para o contrário.

PortugueseMan disse...

...irá toda a gente ficar a ver o alastramento de mais um grave conflito numa zona estratégica...

Meu caro,

Olhe para o mundo, quantas pessoas estão a morrer devido a conflitos por semana?

Até estão a morrer no México com guerras de drogas!

Quantas pessoas andam a morrer de fome?

Aquele governo não é legitimo, se a Rússia entra lá, vão dizer que apoiaram o derrube do governo legítmo.

E vai ser com a presença dos russos lá, que vão começar a insistir novamente para o fecho da base americana?

E numa perspectiva americana, quais serão as hipóteses de manter a base lá? quem recuou com o fecho da base, não foi o governo legítimo, qua agora foi derrubado?

De onde vem parte significativa do gás para a Europa se não da Ásia Central através dos gasodutos russos? E o que acontecerá à Corrente do Sul se a situação se agravar?

De onde vem? ainda recentemente abriram pipelines que fazem o bypass da Rússia e vão directamente para a China! No entanto a Rússia está a abrir 2 pipelines para a Europa e um para o mercado asiático, não terá a Rússia capacidade de fornecimento?

Se a situação se agravar o problema não está no South Stream mas sim no Nabucco.

Só vejo uma maneira de haver uma intervenção militar ali, através da Organização de Xangai e até me arrepio só de pensar em ver os chineses a entrar em acção.

E repare, quais têm sido os últimos exercícios desta organização? onde os russos e chineses têm actuado em conjunto? já reparou?

E onde e quando foi a última reunião deles? reparou nisso?

Anónimo disse...

sr. jornalista, tudo o que o sr. escreve são mentiras propositadas, mentiras de má fé ou então apenas incompetencia.

tenha calma que tal como a rússia não faliu com a crise nem começou a 3ºguerra mmundial quando a russia invadiu a geórgia, tambem desta vez a asia central não ficará em ruinas.

mais uma vez você verá como está enganado e se comprovará que o sr. é patético.

lucas,

Jose Milhazes disse...

Caro PM, então admite uma intervenção militar sino-russa?
Quanto ao gás, a Corrente de Sul é construída para transportar gás da Ásia Central para a Europa. Eu não falei do Nabucco, porque, em caso de aumento da tensão na região, terá também poucas perspectivas.

PortugueseMan disse...

Caro PM, então admite uma intervenção militar sino-russa?

Considero haver mais hipóteses de uma intervenção conjunta com russos e chineses ao abrigo da Organização de Xangai.

Só que as implicações de ver a China a mexer-se são enormes, mas estes mais cedo ou mais tarde terão que intervir de modo a proteger as suas linhas de abastecimento energético, tal como os EUA o fazem.

Para os russos(nem para os EUA), tal situação não é desejável, os russos não querem nem os americanos nem os chineses lá.

Seria preferível os russos entrarem lá, mas dada a situação política, eles não podem entrar.

A entrar só vejo com o consentimento e aval da ONU, ou seja com o consentimento de todos os membros permanentes e isto...

Qualquer das situações vai demorar tempo e tempo é coisa que quem está a viver lá não tem.

O governo provisório tem que mostrar que manda no país, até serem feitas eleições. E quem não está interessado nas eleições que possam legitimar este governo provisório, terá que fazer tudo para destabilizar o pais, tal como está a acontecer.

Na minha opinião, neste momento estão entregues a eles próprios.

PortugueseMan disse...

Relativamente a tensões em redor da energia, meu caro isso é o que está a acontecer em todo o lado.

Ou você acha que os conflitos na Geórgia, Afeganistão, Iraque, kuwait, Nigéria, etc, nada têm a ver com energia?

A factura que pagamos qd metemos gasolina no carro, uma parte serve para os gastos em guerras.

Todos nós ao consumirmos cada vez mais, estamos a contribuir para os aumentos das tensões.

Jose Milhazes disse...

Caro PM, eu dei prioridade à OTSC, porque esta organização tem destacamentos militares de reacção rápida, enquanto que a OCX não tem vertente militar.
Quanto aos combustíveis, estou plenamente de acordo consigo, mas não se pode fomentar cada vez mais conflitos...

PortugueseMan disse...

Meu caro,

O que é a OTSC, sem a Rússia? nada.

Portanto se esta organização intervir que estará a intervir realmente? Sabe o que dirá a imprensa? sabe o que diria você? eu sei...

É isso que a Rússia não quer, não sem lá estar um governo oficial a pedir ajuda.

Agora em relação ao facto da Organização de Xangai não ter vertente militar...

Eles têm andado a fazer exercicios conjuntos e cada vez maiores, portanto a organização tem um braço armado onde participam dois membros da ONU.

Mais dia menos dia, vamos ter algo de concreto a mexer, quando? não sei.

MSantos disse...

Não estou a ver como esta crise poderá interferir com o Southstream. Ou até mesmo com o Nabucco.

O que está em jogo essencialmente do ponto de vista geoestratégico é as linhas de abastecimento para a China, os corredores de droga e claro, a presença norte-americana na base de Manas.

Cumpts
Manuel Santos

Jose Milhazes disse...

Caro PM, não fale por mim. Eu não tenho nada contra o envio de tropas de manutenção da paz da OTCS ou da OCX, desde que tenha o apoio internacional. Ou de capacetes azuis de outros países, se isso contribuir para a normalização da situação.
Caro MSantos, se a crise alastrar a outros países da Ásia Central, isso poderá pôr em perigo parte dos fornecimentos de gás à Europa. Nomeadamente, no caso da corrente sul e do Nabucco, pois o gás, em parte, vem de lá.

PortugueseMan disse...

Desde que tenha o apoio internacional OFICIAL.

E isso ainda não existe meu caro e interrogo-me se irá existir.

E a crise não vai alastrar-se de modo a que afecte os abastecimentos.

Wandard disse...

A Rússia inteligentemente tem jogado com a paciência, utilizado os meios diplomáticos na resolução de contendas e corroborado com as decisões da Onu. Nesta onda conseguiu o andamento dos pipelines Southstream e Nordstream, recuperou o relacionamento com a Ucrania, assinou o acordo Start 2 mantendo sua superioridade nuclear, cumpre as resoluções em relação ao Irã mas continua com a construção em Bushehr (este nome é uma ironia),tem hoje sobre seu controle as repúblicas da Abkházia e Ossétia do Sul e a Geórgia como membro da Otan virou piada, estrangularam o acesso ao Mar Negro para os americanos, As forças da Otan que hoje ocupam o Afeganistão são abastecidas por comboios que necessitam de autorização da OTSC. A Rússia tinha um acordo de empréstimo com o governo deposto do Quirguistão que melou em virtude da jogada do ex-presidente com a base de Manas, que queria comer dos dois lados, acabou enfiando os pés pelas mãos e os americanos compraram gato por lebre, ficaram com a base mas sem poder transportar armamentos. A Rússia não vai permitir que os Estados Unidos e aliados intervenham sem falar que estes não possuem condição militar para isso na região e muito menos a China, porém os russos só entrarão com uma decisão de consenso internacional.

Jose Milhazes disse...

Caro PM, espero que a sua última previsão se concretize.

ALONE HUNTER disse...

Não adianta nada ficar discutindo a questão! Tem que agir, mandar tropas, reprimir!!!

Essa é a solução! Extreeemo!!!

Jest nas Wielu disse...

Os russos apoiaram o golpe do estado no Quirgizstao, enquanto na Ucrania / Georgia nao morreu nenhuma pessoa, la so de inicio morreram 75 e foram feridos 1500….

manuel bastos disse...

O Putin fino como é vai deixar a coisa descambar, quando lá meter tropas vai ser para lá ficarem de vez.

A russia a recuperar o que já foi seu, todos estes territóriaos faziam parte di império russo antes da formação da união sovietica.

Anónimo disse...

PM, parece que o Milhazes nao sabe o que lhe dizer.. Esta no impasse!
Parabens, PM

Marcelo Łukaczewski disse...

Esses quirguizes, esses azeris, esses usbeques, esses cazaques, esses ucraínos, esses geórgicos, etc. etc. não têm identidade nacional. A cidadania e a nacionalidade soviética lhes foi extirpada por conta da NATO. Hoje só lhes resta a Rússia como fator de unidade e identidade nacional.
Marcelo Łukaczewski

Cristina disse...

Marcelo Łukaczewski
Não diga enormidades dessas. Claro que têm identidade nacional. O problema vem precisamente daí, por a terem, e estarem na zona de influência de uma grande potência (ou de duas).

Pippo disse...

Enquanto que aos americanos foi necessário uma "revolução" para mudar a seu favor o poder na Ucrânia, aos russos bastou-lhes uma eleição democrática. E ninguém morreu.

Quanto à "revolução" na Geórgia o resultado foi uma guerra, comprovadamente iniciada pelo governo georgiano, onde morreram várias centenas de pessoas.

Quanto ao Quirguistão, o que é que os russos têm a ver com estes confrontos? Nada! Para quê então dar a entender, de forma tão parola, que eles são responsáveis?

Adiante.

O que não parece oferecer dúvidas é que os russos terão de intervir para restabelecer a ordem. Dado os factores em jogo, a intervenção russa deverá pautar-se no âmbito, isto é, sob mandado de uma organização internacional, ou pelo menos sob consenso, nomeadamente com a China e demais Estados da ACentral, uma vez que o unilateralismo pode dar uma má mensagem para os stake holders regionais.

O que é indesejável, sob a óptica russa, é:
- uma intervenção norte-americana, a qual se afigura ser altamente improvável e, a ocorrer, totalmente contra-producente para Washington que, isolada na Ásia Central, estará a dar um tiro no pé;
- uma intervenção chinesa, o que significará um recuo estratégico por parte da Rússia pois abrirá um espaço de intervenção, desta vez mais do que meramente económico, à potência asiática.

Por este motivo, dado o historial na área, a sua capacidade de intervenção e o convite por parte do governo interino, será provável a intervenção russa no país a fim de salvaguardar a ordem e salvar vidas.
Diplomaticamente falando, será de todo o interesse que tal intervenção não seja feita de forma unilateral mas dentro de um quadro de consenso entre os actores relevantes na região, nomeadamente no âmbito da OCX.

Pippo disse...

Marcelo, lamento dizer-lhe mas está enganado. A identidade nacional de boa parte desses povos é forte, sobretudo nos mais antigos (georgianos, uzebeques, etc.).