segunda-feira, setembro 20, 2010

Mais de vinte soldados mortos em ataque a coluna militar no Tadjiquistão

Vinte e três soldados morreram e dez ficaram feridos quando uma coluna militar foi alvo de um ataque empreendido, no Domingo, por guerrilheiros islamistas no leste da capital do Tadjiquistão, informa o Ministério da Defesa desse país da Ásia Central, num, comunicado publicado hoje.
Nesse comunicado afirma-se que a coluna seguia para a vila de Garm e foi atacada por “membros do bando do mullah Abdullo”, um dos líderes da oposição islamista na região que não depôs as armas aoós a guerra civil de 1992-1997.
Porém, a agência noticiosa Ásia-plus informa que nos combates morreram 43 militares, dos quais cinco oficiais, e dez feridos.
Segundo uma fonte da agência Interfax, a coluna militar dirigia-se para a região onde é possível que tenham encontrado refúgio cerca de trinta presos que conseguiram fugir de um estabelecimento prisional que se encontra no centro da capital tadjique.
Entre os fugitivos estavam  seis russos, quatro afegãos, bem como tadjiques e uzbeques, todos eles condenados, em meados de Agosto, a penas entre os 10 e 30 anos de prisão por vários crimes, entre os quais a “participação em tentativa de golpe de Estado”.
Os fugitivos pertenciam a um grupo que foi detido nos dias 08-11 de Julho de 2009 durante uma operação especial do Ministério do Interior e do Comité de Segurança Nacional do Tadjiquistão.
Durante a operação, a polícia matou cinco russos que, segundo os serviços secretos, eram “membros de um grupo terorista organizado”, com ligações ao Movimento Islâmico do Uzbequistão.
A Ásia Central transforma-se cada vez mais rapidamente num "barril de pólvora". Se as forças da NATO saírem do Afeganistão e não conseguirem impor aí um regime moderado, o extremismo islâmico irá aumentar as suas actividades no Tadjiquistão, Quirguistão, Uzbequistão e, depois, Cazaquistão e Rússia.
Por isso, Moscovo tem de apoiar com maior afinco as operações da NATO e sem fazer de conta que está a fazer um "grande frete" à Aliança Atlântica ao deixar passar tropas e mantimentos pelo seu território.
Há muito que a Rússia e a NATO deviam cooperar mais estreitamente na Ásia Central. O alastramento do conflito no Afeganistão será um grande problema para ambos.
Não quero ser pessimista, nem alarmistas, mas,  se a crise se alargar à Ásia Central, a Rússia vai ter de ser o tampão, o escudo entre a Europa e os radicais islâmicos. Como historiador, isto faz-me lembrar o papel da Rússia na travagem do avanço das tropas tártaro-mongóis na Idade Média. Chegaram às portas de Viena, mas estavam esgotados e voltaram para trás.
Claro que o mundo mudou muito, mas...

16 comentários:

MSantos disse...

Concordo plenamente quando afirma que a NATO e a Rússia deveriam ser mais cooperantes no combate ao extremismo islâmico nesta parte do globo.

No entanto acho muito simplista para não dizer ingénuo entender como único interesse da NATO, leia-se Estados Unidos, a guerra ao terrorismo.

Para muita gente, os EUA também combatem para estender a sua zona de influência a toda a Ásia central no intuito de controlar os corredores de energia e matérias primas além dessa mesma zona negar o acesso à Rússia que a enquadra na sua legítima área de influência para não ser redundante, além de passar uma espécie de cintura de cerco para conter aquilo que entendem como espansionismo russo. Outro objectivo importante tem a ver com a crescente desconfiança face ao seu “pareceiro económico” que lhe poderá desviar as fontes de hidrocarbonetos: a China..

Provavelmente se a Aliança Atlântica tivesse uma posição mais clara e mais centrada na guerra ao terrorismo, talvez a postura da Rússia fosse bem mais cooperante face às últimas atitudes de grande rasonabilidade que tem tomado na arena da diplomacia e das relações internacionais.

Sobre a questão de a Rússia servir de tampão entre o fundamentalismo islâmico da Ásia central e a Europa, não será preciso esperar pelo futuro pois já é uma realidade.

Infelizmente esse mesmo fundamentalismo já está a corroer e a destruir a Europa por dentro.

Cumpts
Manuel Santos

Pippo disse...

E ainda dizem que os guerrilheiros islâmicos lutam por causa das más condições de vida e da corrupção...

Caro JM, ou muito me engano ou estamos numa situação sem solução.

Por um lado, os guerrilheiros/terroristas combatem sem restrições em nome de uma ideologia absoluta e maniqueísta, onde se joga o tudo ou nada (isto é, islamização da sociedade ou morte) e onde há bons e maus, sem ninguém de permeio;

por outro, temos as forças governamentais, que têm de se controlar sob risco de alienar a população, que são interna e internacionalmente responsabilizáveis, e que tentam encontrar soluções de compromisso.

Como os islamistas não precisam de grandes bases de apoio e fazem parte de um movimento transnacional, é no mínimo difícil acabar com eles. Basta que uma célula se mantenha activa para os islamitas não serem derrotados.

Quanto às relações Rússia/NATO, lamento dizer-lhe mas a NATO, neste momento, tem a guerra perdida. O governo "moderado" afegão não tem qq credibilidade, controla uma zona ínfima em redor de Cabul, e a rebelião taliban conseguiu passar da região pashtune, no Sul, para zonas do Norte, e há enormes promiscuidades entre os elementos do Governo, os taliban e movimentos islamistas internacionais.

Vamos dar um exemplo:
Há cerca de duas semanas atrás foi capturado, na província de Takhar (norte do país), um líder regional taliban. Esse indivíduo veio substituir Mohammed Amin, um líder do Movimento Islâmico do Uzebequistão que também servia como "Governador-sombra" daquela província (isto é, actuava por conta do movimento taliban).

Ora, este Mohammed foi morto num ataque aéreo a uma coluna de veículos pertencente à campanha para deputado nacional de Abdul Wahid Khurasani, o qual não só estava numa das viaturas como até ficou ferido no ataque...

Nestes termos, em que é que adianta termos a NATO no Afeganistão, com a Rússia a dar apoio? No Afeganistão andam todos misturados e mal as forças estrangeiras saiam, quem tem mai vontade de vencer vencerá. O não me parece que a vontade esteja do lado dos muçulmanos "moderados"...

MSantos disse...

Expancionismo

MSantos disse...

Embora fora do contexto, um post muito interessante e muito crítico da habitual posição de defesa e vitimização de Khodorkovsky no blog "Central and Eastern Europe Watch".

Tal como já referi, o articulista chega à conclusão que o único problema foi Khodosrkovski ter sido o único oligarca a ir preso.

http://easterneuropewatch.blogspot.com/2010/09/we-mustnt-let-lure-of-trade-blind-us-to.html

A voz do Kremlin, dirão alguns...

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

...e afinal talvez a China não seja o modelo económico tão desejado pelo pensamento vigente

http://www.economist.com/node/17046627

Cumpts
Manuel Santos

Pippo disse...

Tajikistan launches manhunt for Islamist militants
By Akbar Borisov (AFP) – 13 hours ago

DUSHANBE — Tajikistan launched a manhunt on Monday for Islamist militants blamed for the deaths of at least 25 soldiers in the latest in a string of attacks to hit the volatile Central Asian state.

The country's deadliest attack this year occurred Sunday when insurgents ambushed a military convoy in the mountainous Rasht Valley region some 250 kilometres (150 miles) east of the capital Dushanbe.

"According to information from the troops, the number of dead as of this morning is 25 soldiers, with up to 20 injured, some of them critically," a senior Tajik military officer told AFP under condition of anonymity.

The ministry blamed the attack on an international "terrorist" group led by a charismatic former Tajik civil war commander called Mullo Abdullo, who is believed to have entered the country from his safe haven in Afghanistan.

"In addition to Tajik citizens, the terrorist group also contained militants and mercenaries including citizens of Pakistan, Afghanistan and Chechnya in Russia," defence ministry spokesman Faridun Makhmadaliyev said.

"These fighters, using the ideas of the Islamic faith as cover, wanted to turn Tajikistan into an arena for their internecine war by gathering radical underground groups around them," he added.

The defence ministry said it had launched a sweeping military operation in response to the attack, sending in special forces and helicopter gunships to the remote mountainous region east of the capital long thought to serve as a haven for Islamist militants.

"We've begun a sweep of this vast mountainous area to detect the militants and either detain or destroy them," Makhmadaliyev said.

Tajikistan, a majority-Muslim country and the poorest state to emerge from the collapse of the Soviet Union nearly two decades ago, has suffered a string of recent attacks that the government blames on Islamist militants.

In August, 25 Al-Qaeda-linked militants escaped from a prison in a brazen nighttime getaway that killed six guards. They were believed to have been headed towards the Rasht Valley region where the latest attack occurred.

Since then, two more attacks have been carried out: a suicide bombing against a police station in Khujand that killed two people and wounded 25, and a bomb explosion in a Dushanbe disco that wounded seven.

A shadowy group calling itself Jamaat Ansarullah said it had carried out the bombing in the northern city of Khujand to avenge attacks against Muslims, raising fears of a campaign of violence by international militant groups.

Neighbouring Kyrgyzstan, meanwhile, said Monday it had sealed its border with Tajikistan and dispatched special forces to guard the frontier region over fears the violence could spread.

"Kyrgyzstan has completely closed its border with Tajikistan," Cholponbek Turusbekov, deputy head of Kyrgyzstan's border guard service, told Kyrgyzstan's Radio Azattyk.

Tajikistan has blamed the recent attacks on the Islamic Movement of Uzbekistan (IMU), a militant group affiliated with Al-Qaeda that is branded a "terrorist" organisation by the United States.

The IMU was founded in the late-1990s in Tajikistan with the goal of overthrowing Uzbek President Islam Karimov and creating an Islamic Sharia law state in the ex-Soviet republic.

The group later moved to northern Afghanistan under the Taliban regime and was thought to have been depleted during NATO's fierce bombing campaign at the opening of the US-led invasion of that country in 2001.

Central Asia watchers have long warned about the possibility of spill-over from the conflict raging in Afghanistan, with which Tajikistan shares a porous 1,300-kilometre (800-mile) border.

Copyright © 2010 AFP. All rights reserved

PortugueseMan disse...

...Por isso, Moscovo tem de apoiar com maior afinco as operações da NATO e sem fazer de conta que está a fazer um "grande frete" à Aliança Atlântica ao deixar passar tropas e mantimentos pelo seu território...

Não tem não meu caro. O MSantos disse praticamente tudo.

A NATO e a Rússia continuam a ser dois oponentes, e que se olham com desconfiança.

A Rússia tem muitos motivos para não querer facilitar a vida à NATO e tem vários motivos para não querer a sua presença na zona.

Anónimo disse...

"se a crise se alargar à Ásia Central, a Rússia vai ter de ser o tampão, o escudo entre a Europa e os radicais islâmicos"

Está tudo dito aqui.
só um novo paradigma e uma abertura de mente pode levar a isso.

O povo eslavo como europeu tem que se unir ao restantes povos europeus e vice versa.

Jose Milhazes disse...

Caro MSantos, estou de acordo com a sua observação e do PM e do Pippo. O problema é que a luta por zonas de influência não permite a tomada de medidas reais e eficazes para resolver os problemas nas regiões problemáticas.
Já se tornou evidente que os EUA não conseguem ser o único pólo da política mundial, mesmo com a NATO a ajudar. A luta por zonas de influência, e a Ásia Central é uma prova disso, apenas contribui para o aumento do terrorismo e para o alargamento da influência de guerrilhas radicais.
Ou a Rússia, os EUA e a China congregam esforços nessa região, ou as coisas irão complicar-se seriamente.

PortugueseMan disse...

...Já se tornou evidente que os EUA não conseguem ser o único pólo da política mundial, mesmo com a NATO a ajudar...

Meu caro, mas evidente para quem? Podemos todos andar a dizer isso, excepto os americanos.

Os EUA ainda são o país com mais influência a nível mundial e age de acordo com isso.

...A luta por zonas de influência, e a Ásia Central é uma prova disso, apenas contribui para o aumento do terrorismo e para o alargamento da influência de guerrilhas radicais.

Mude este parágrafo para "A luta por energia..." e o mesmo se aplica já reparou?

Os EUA e China nunca se irão juntar para resolver um problema destes. Eles competem pelo o mesmo. A diferença é que a China não está (ainda) activamente (por meios militares)a resolver os seus problemas. Mas podemos falar em contagem decrescente...

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Dê uma olhadela:

Chinese, Russian troops in central Asia exercises

Thousands of Russian, Chinese and Kazakh soldiers began two weeks of war games in Kazakhstan on Monday, preparing to counter regional threats ranging from drug traffickers to Islamist militants.

More than 3,000 troops will take part in the exercises. Almost a third of them are Chinese, underlining Beijing's growing clout in the former Soviet republics of central Asia, a region Moscow still sees as within its sphere of influence.

The "Peace Mission 2010" exercises are the largest in three years involving the Shanghai Cooperation Organisation...

...The SCO, whose member states have a population of over 1.5 billion, or a quarter of the world's population, has focussed in recent months on fighting terrorism and radicalism in the region, as well as drug trafficking from Afghanistan...

...China's growing clout in central Asia is underpinned by billions of dollars in investment in the region's oil, natural gas and metals reserves. Beijing has also issued loans to several different countries in the region...


http://af.reuters.com/article/worldNews/idAFTRE68C1VL20100913?pageNumber=2&virtualBrandChannel=0

A Rússia e a China, estão realmente a preparar-se para entrar nesta região. Só que o os interesses destas nações são completamente opostos aos dos EUA.

Podemos dizer que ninguém quer extremismo, mas a coisa acaba por aí. Para os países da àrea, o extremismo é perigoso porque ameaça as suas fronteiras e a presença americana é igualmente perigoso, porque prejudica os interesses das potências regionais.

E a principal razão de tanto interesse na zona não é o extremismo, o principal problema é exactamente a energia e a sua direcção. Se os EUA querem acesso a esta energia, precisam de estar lá fisicamente e precisam de manter aberto o corredor que atravessa a Geórgia.

Eu não estou a ver estes 3 jogadores a ajudarem-se mutuamente, na minha opinião a Rússia e a China assistem aos atritos causados aos EUA. O oponente desgasta-se numa guerra lenta com custos crescentes, os EUA está a lutar por eles, e vai perdendo força, motivação e recursos para se manterem numa àrea onde tanto a Rússia como a China são contra a presença deles.

Quando os EUA desistirem da zona, a minha opinião é que a China vai entrar, com a autorização da Rússia. E iremos assistir a um novo tipo de guerra, pois os chineses não sendo uma democracia e sendo um dos membros com veto na ONU, poderão entrar com mão pesada e recursos é coisa que não lhes falta.

Nos próximos anos, veremos como a coisa evolui.

Jose Milhazes disse...

Caro PM, tudo lógico no seu texto, mas apenas um senão: quando a China começar a actuar na região, poderá ser tarde. E repetirá o destino da URSS, EUA no Afeganistão.
Como dizem os russos: a avareza é a perdição do ladrão.

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Enviei um outro post (maior) sobre este assunto, mas isto deu um erro e fiquei na dúvida se recebeu. Não tem mais nada meu para aprovar?

Jose Milhazes disse...

Caro PM, eu publiquei tudo o que enviou.

PortugueseMan disse...

Caro PM, tudo lógico no seu texto, mas apenas um senão: quando a China começar a actuar na região, poderá ser tarde.

Poderá? é como diz, não sabemos.

Mas uma coisa sabemos, tanto a China como a Rússia estão a aumentar a sua capacidade militar e é nítido o foco chinês nos exercícios dos últimos anos.

E podemos pensar de outra forma. Se os planos americanos corressem como eles queriam, alguma vez eles queriam a presença russa ou chinesa na zona? é claro que não. Se tudo tivesse corrido bem, os EUA teriam mais que uma base ali e já estariam a colocar entraves ao fluxo energético.

Na minha opinião a Rússia e China precisam de lidar com os problemas um de cada vez. E a meu ver a prioridade nesta situação não é o radicalismo, mas sim a presença duma potência àvida por energia.

Primeiro tirar da equação de quem está a mais na zona e depois lidar com os restantes problemas.

E repare meu caro, temos casos a agravar-se entre a Rússia e os EUA, repare no Àrtico, a situação tende a piorar e a tensão vai subir nos próximos anos.

E se em 2012, tivermos novamente um presidente republicano, não tenha dúvidas que a coisa vai piorar e bastante.

Pippo disse...

O problema no Afeganistão é que quem intervêm lá não quer lá ficar, e nos dias que correm é muito difícil a uma Potência permanecer indefinidamente num espaço longínquo onde não é desejada.

Tudo se resume, por um lado, à vontade, e por outro à capacidade (logística/económica) de manter uma força no estrangeiro.

Como já vimos, os EUA estão a esgotar-se para se manterem no Afeganistão. Os recursos exigidos são imensos (os soldados não comem pão ázimo e carne de bode; requerem cuidados de saúde; lazer; equipamento diverso), o seu transporte atravessa meio-Mundo, em suma, são gastas quantidades enormes de dinheiro e a logística é forçada ao máximo.

Mas o problema principal é a vontade de parmanecer. Para o americano normal, qual é a razão para permanecer no Afeganistão, numa guerra a qual não pode ganhar? Os norte-americanos querem colonizar aquele país? Não. Querem ir lá para fazer uma Cruzada? Não. Eles querem colocar lá um governo anti-Al Quaida, mas já viram que não o conseguem. Portanto, a vontade de permanecer diminuirá à medida qus o "stalemate" se agravar. O sacrifício seria suportável se o Afeganistão fosse no México, mas não é, é no outro lado do Mundo.

Portanto, nem os interesses geo-estratégicos bastarão para manter uma presença na região. Como tal, os EUA terão de retirar, e seguramente que alguém entrará em cena. A China e a Rússia, que não têm pruridos quanto aos DH mas que serão directamente afectadas, terão de intervir, como já o faziam ao lado do A. S. Massud.