domingo, janeiro 30, 2011

A Não Perder no CCB: Homenagem a Sofia Gubaidulina




No início de Fevereiro, Sofia Gubaidulina vai ser alvo de uma homenagem. Deixo aqui um artigo meu escrito para a Agência Lusa a propósito desse acontecimento: 

"Sofia Gubaidulina é, talvez, a mulher que mais longe foi como compositora de música clássica, estando entre os maiores vultos nesse campo do séc. XX e início do séc. XXI. Mas a sua carreira não foi fácil pois a sua música não estava conforme os cânones do “realismo socialista”.
Sofia Gubaidulina, a quem o Centro Cultural de Belém dedica um ciclo de 05 a 12 de fevereiro, nasceu em 1931 na Tartária, na União Soviética, numa família tártaro-russa. O avô tártaro, Masgud Gubaidulin, era um líder religioso islâmico, mas ela escolheu a religião cristã ortodoxa da mãe, uma pedagoga russa.
Tinha apenas quatro anos quando ingressou numa escola de música, continuando depois os estudos no Liceu Musical de Kazan, capital da Tartária.
Em 1954, começou a estudar composição e piano no Conservatório de Moscovo, tendo recebido a Bolsa de Estudo Estalinista, concedida a estudantes particularmente dotados. Entre os seus mestres estiveram pedagogos soviéticos como Albett Leman, Grigori Kogan e Iúri Chaporin.
Foi nessa altura que Gubaidulina ouviu da boca do grande compositor soviético, Dmitri Schostakovitch, as seguintes palavras: “Desejo-lhe que avance pelo seu caminho ‘incorreto’”.
Em 1969 e 1970, trabalhou no Estúdio Experimental de Música Eletrónica do Museu Skriabin de Moscovo e compôs a peça “Vivente – non vivente”. Nessa altura, dedicou-se também à composição de música para o cinema, tendo composto obras para 25 filmes soviéticos, entre os quais se distingue o “Espantalho” (1983).
A partir de 1975, Gubaidulina dedicou-se à composição de improvisações no conjunto “Astreia”, com outros conhecidos compositores soviéticos como Victor Suslin e Viatcheslav Artiomov.
Porém, o regime comunista não tolerava inovações no campo da música clássica, nem admitia que as obras dos vanguardistas fossem interpretadas no estrangeiro sem autorização.
No VI Congresso da União dos Compositores Soviéticos, Sofia Gubaidulina e mais seis compositores foram “crucificados” pelos “comissários do realismo socialista”.
“Obras compostas só em prol de combinações sonoras estranhas e de efeitos excêntricos, onde a ideia musical, se existir, se afoga irremediavelmente na corrente de ruídos insuportáveis, de gritos bruscos ou murmúrios incompreensíveis”, declarou Tikhon Khrenikov, dirigente dessa união.
“Será que eles têm direito a representar o nosso país, a nossa música?”, perguntou Khrenikov.
Repetia-se a história. Em 1948, no I Congresso da União dos Compositores da URSS, músicos como Serguei Prokofiev e Dmitri Chostakovitch tinham sido acusados de “cacofonia sonora”.
As obras de Gubaidulina e dos outros seis compositores proscritos não podiam ser transmitidas pela rádio e televisão, não podiam ser interpretadas em concertos.
Por isso, quatro dos sete compositores “malditos”, entre os quais se encontrava Gubaidulina, emigraram da União Soviética em 1991.
Maestros como Simon Rattle, Guennadi Rojdestvenski, Kurt Masur ou Valery Gerguiev e solistas como Mstislav Rostropovich, Anne-Sophie Mutter ou Guidon Kremer estão entre os que solicitaram a Sofia Gubaidulina composições, prova de que realmente estamos perante um génio musical com reconhecimento mundial.
Misturando influências eslavas, tártaras, judaicas e ortodoxas russas, o universo da música de Sofia Gubaidulina é caracterizado por uma variedade de sons, ritmos selvagens, descrições musicais apocalípticas e paradisíacas".

1 comentário:

Nuno B. disse...

Boa dica!

O jornal Público editou um livro muito interessante sobre a história da musica russa aquando da Festa da Música no CCB. Salvo erro, Gubaidulina tinha um capítulo inteiramente dedicado a ela.

Se gosta de clássica não pode perder este blog:
http://musicantiga.blogspot.com/

Infelizmente, Viseu fica a 3h30 do CCB.. :)