quarta-feira, abril 20, 2011

Chernobyl: Viagem para além da vida




Peço desculpa aos leitores do blog pelo silêncio de alguns dias, mas estive muito ocupado na escritura de textos para a Lusa e para a RDP. Porém, agora que surgiu uma oportunidade, gostaria de compartilhar convosco algumas impressões. 
Para mim, a visita à "zona restritiva" de Chernobyl foi uma experiência única na vida, ficou muito, mas mesmo muito além de todas as expectativas. Nunca imaginei que poderia, na Terra, passar para outra dimensão, mas foi precisamente isso que aconteceu.
Quando se chega ao check-point de Ditiatkin, que faz lembrar uma verdadeira fronteira entre dois países, fica-se com a impressão de pouco ou nada vai mudar, mas ao vermos carros blindados, camiões, igrejas, parques e casas abandonadas... É uma impressão chocante: os pássaros cantam em florestas bonitas e, aparentemente, limpas; os escaravelhos, aos milhares, passeiam por toda a parte, mas não há pessoas, onde estão as crianças, os velhos.
Em alguns lugares, fica-se com a impressão de que os habitantes saíram por pouco tempo e vão regressar, mas sabemos que não será assim, que só poderão regressar talvez no séc. XXII.  
A visita à cidade de Pripiati, onde viviam os trabalhadores da Central Nuclear e seus familiares (cerca de 25 mil pessoas), é impressionante. Hotel, restaurante, casa da cultura, carrocéis, tudo vazio, abandonado, pilhado. Não obstante a segurança da zona em torno de Chernobyl, com um diâmetro de 30 km, as pessoas entram para roubar tudo o que possa ser vendido, não obstante os níveis de radiação serem altíssimos: móveis, aparelhos de aquecimento de edifícios, portas, janelas, etc., etc.
O quarto reator da Central, onde ocorreu a explosão na noite de 25 para 26 de Abril de 1986, ou melhor, o que resta dele, está coberto por um sarcófago e, ao lado, começaram os trabalhos para a construção de um novo, mais seguro.
Ao sair da zona, fomos sujeitos a controlo radioactivo, numa máquinas que fazem lembrar as máquinas de controlo dos aeroportos.
Aconselho aos meus leitores que vejam o filme de Andrei Tarkovski "Stalker", pois parece-me ter sentido aquilo que sentiram aqueles que entraram na zona. A propósito, a palavra "zona" foi retirada desse filme e passou a ser empregue em relação a Chernobyl.
Veio-me várias vezes à cabeça um trecho do Apocalipse do Apóstolo S.João: “O terceiro anjo tocou a trombeta, e caiu do céu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas uma grande estrela, ardendo como uma tocha. O nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas se tornou em absinto, e muitos dos homens morreram por causa dessas águas, porque se tornaram amargas” (8:10-11).
Chernobyl traduz-se como absinto para português. Talvez apenas coincidência ou aviso à negligência humana? 

Durante estes vias, irei publicar vários textos sobre esta viagem e algumas fotos. Infelizmente, não poderei publicar as cerca de 800 fotos que tirei em Chernobyl, mas os leitores poderão ver parte significativa na minha página do facebok.

7 comentários:

Jest nas Wielu disse...

Chornobyl significa absinto sim, mas não em ucraniano corrente, apenas em uma das falas regionais. Em ucraniano literário absinto é polyn’.

p.s.

Em Maio de 2011 será comemorado o 58º aniversário da revolta de Norilsk, a revolta dos prisioneiros políticos no GULAG soviético que durou 69 dias:
http://historychern.ucoz.ru/news/
norilskij_virus_nepokori/2011-04-20-213

anónimo russo disse...

Blogger Jest nas Wielu disse...

"Chornobyl significa absinto sim, mas não em ucraniano corrente, apenas em uma das falas regionais. Em ucraniano literário absinto é polyn’.

p.s.

Em Maio de 2011 será comemorado o 58º aniversário da revolta de Norilsk, a revolta dos prisioneiros políticos no GULAG soviético que durou 69 dias:
http://historychern.ucoz.ru/news/
norilskij_virus_nepokori/2011-04-20-213"


Não desvie a atenção das pessoas do tema do artigo, ó sr. "taxa por taxa".

anónimo russo disse...

Por sinal, eu até conhecia um dos liquidadores da avaria de Chernobyl. Claro que não era nenhum nacionalista ucraniano, nem ucraniano de nacionalidade, mas um dos ex-militares sovieticos, de nacionalidade russa, já aposentado. Até recebia uma pensão especial do estado russo, muitos anos depois da catástrofe. Nunca lhe perguntei os pormenores, mas pelo menos ele estava vivo, e sem sinais de alguma doença provocada pela radiação.

Djan Krystlonc disse...

Como te encontrar no Facebook?

Jose Milhazes disse...

Djon, pede para ser amigo do José Milhazes, eu aceito o convite e você terá acesso a todas as fotos.

Jose Milhazes disse...

Djon, pede para ser amigo do José Milhazes, eu aceito o convite e você terá acesso a todas as fotos.

Jest nas Wielu disse...

2 anónimo russo 21:02
/Não desvie a atenção das pessoas do tema do artigo/

Não se distraem com facilidade, pois “inimigo não dorme”!