sábado, abril 23, 2011

Recordações pascais do passado soviético


As autoridades comunistas soviéticas nunca se cansaram de afirmar que na URSS havia liberdade de pensamento e de religião, o que era completamente falso. E os festejos da Páscoa na era soviética eram uma prova clara disso.
Recordo-me de quão difícil era chegar a um templo religioso na noite de Sábado para Domingo para assistir às cerimónias religiosas pascais. Cordões de polícia (naquela altura chamava-se milícia), controlo de documentos e tomada de notas pelas autoridades miliciais. Caso um estudante soviético ousasse ir assistir a um serviço religioso e fosse detectado pela polícia, seria garantidamente expulso da universidade ou escola que frequentava.
Quanto aos estrangeiros, podíamos passar livremente, pois todo o espectáculo era para nos convencer. Os realizadores, verdade seja dita, eram maus, mas parece que conseguiam convencer alguns...
No entanto, as medidas repressivas falhavam frequentemente e as autoridades soviéticas recorriam a outras artimanhas para afastar as pessoas das cerimónias religiosas. Pouco antes da meia noite, ou seja, a poucos minutos do início das cerimónias pascais, o primeiro canal da televisão soviética começava a transmitir o programa "Melodias de Países Estrangeiros", onde apresentados cantores ou grupos musicais quase proibidos pela ideologia comunista. Por exemplo, o grupo ABBA!
Nesses espectáculos não podiam faltar actuações do Bailado Moderno de Berlim, mas da República Democrática Alemã. Programas bastante primitivos, mas que até permitiam organizar discotecas.
Por isso, tenho dificuldade em assistir a cerimónias religiosas onde antigos e actuais dirigentes comunistas, antigos e actuais agentes do KGB, de vela na mão (os russos chamam-lhes os "candelabros ortodoxos")  parecem ouvir atentamente as palavras dos sacerdotes, mas os lábios ficam imóveis porque não sabem as orações. 
Mas, no mínimo, já aprenderam a benzer-se! O primeiro passo é o mais difícil...

16 comentários:

anónimo russo disse...

Не судите, да не судимы будете. :)

Jose Milhazes disse...

Anónimo russo, eu não julgo ninguém, até porque não sou juiz, mas posso ter uma opinião.

anónimo russo disse...

Foi apenas uma citação. Como consta daquela mesma citação (ao meu ver, pelo menos), nem sempre é preciso ser juiz para julgar:)

Pedro disse...

Este artigo é deveras intrigante.
Então se os dirigentes Soviéticos não quisessem que as pessoas não assistissem a cerimónias religiosas porque não prendiam (ou intimidavam) antes os padres?
Para quê a milícia andar a tirar os nomes das pessoas?

Parece uma história sem nexo. Mas aguardo por outras opiniões que conheçam melhor este assunto.

Anónimo disse...

Eu também tenho dificuldade em ler alguns dos seus posts, principalmente porque mamando da ex-União Soviética não se cansava de dizer que ali se manteria enquanto a "coisa desse". Um voltar de costas, um regresso ás Caxinas teria sido bem mais consequente.

Uma boa Páscoa com ou sem vela na mão.

russo em portugal disse...

ваш текст рвота

Jose Milhazes disse...

"russo em Portugal". Primeiro, podia ser mais simpático para com leitores e escrever o seu comentário em português. Eu vivo na Rússia e aprendi a falar russo, isso é uma norma de elementar boa educação. Segundo, não gosta, pode deixar de ler. Caso contrário, pode ter vómitos frequentemente. Terceiro, tem medo de assinar com o seu nome? Mas porquê? Eu não faço mal a ninguém.

Jose Milhazes disse...

Leitor Pedro, o seu comentário só pode vir de uma pessoa que desconhece as perseguições a que foram sujeitos clérigos de todas as confissões religiosas na URSS. Informe-se melhor.

Jose Milhazes disse...

A partir de agora, publicarei comentários anónimos, mas não comentarei. Quem quiser conversar, que se apresente. A cobardia é uma coisa feia.

anónimo russo disse...

"Pedro disse...

Este artigo é deveras intrigante.
Então se os dirigentes Soviéticos não quisessem que as pessoas não assistissem a cerimónias religiosas porque não prendiam (ou intimidavam) antes os padres?
Para quê a milícia andar a tirar os nomes das pessoas?

Parece uma história sem nexo. Mas aguardo por outras opiniões que conheçam melhor este assunto."


Houve repressoes contra clerigos ortodoxos na URSS, sim. Mas por alguma razão não foram fizicamente aniquilados todos. E nos anos da Grande Guerra Patria houve um alívio para a igreja ortodoxa russa nesse sentido. O meu bisavo era padre ortodoxo. Não sofreu fizicamente, mas o mundo da igreja, dos padres e dos crentes foi de certo modo um mundo fechado. A minha avo, como filha de um sacerdote, teve de mudar o sobrenome e foi formalmente adoptada por um outro casal para poder trabalhar, fazer carreira tranquilamente. O filho dele tève certos obstaculos na vida por causa do seu pai e até dizem que passou a guerra no "schtrafbat" sómente devido a sua descendència. Por outro lado, houve entre os padres quem colaborava com o KGB, denunciava etc. È um tema muito complexo e digno de investigações cientificas.

Pedro disse...

"Leitor Pedro, o seu comentário só pode vir de uma pessoa que desconhece as perseguições a que foram sujeitos clérigos de todas as confissões religiosas na URSS. Informe-se melhor."

Sr Milhazes, eu conheço algumas histórias que remontam aos primórdios do comunismo. Sei que foram destruídas igrejas.
Mas foram todas destruídas?
E se não foram todas qual o motivo ideológico para destruírem apenas algumas e deixarem muitas outras?


A sério eu não pretendo insinuar nada apenas obter opiniões se por acaso conhecerem mais dados sobre isto.
As minhas dúvidas são de mera lógica.Ou seja:
Como é que todas as cidades grandes e pequenas e vilas da Rússia de hoje todas tem igrejas e bem lustrosas?Foram TODAS construídas no pós URSS?
De onde apareceram os padres após 70 anos de repressão?Andavam escondidos nas florestas?
Que é bizarro é!.

Jose Milhazes disse...

Caro Pedro, grande parte dos templos ortodoxos foram destruídos ou transformados em pocilgas, armazéns e, no melhor dos casos, museus.
O poder comunista deixava o número de templos e sacerdotes suficiente para mostrar aos estrangeiros que na URSS existia liberdade religiosa, ou seja, para inglês ver.
Houve um período, durante a Segunda Guerra Mundial,em que Estaline se viu em maus lençóis e desapertou um pouco a mordaça à Igreja quando viu que podia perder a guerra e precisava do apoio de todos.
Leia o comentário aqui colocado pelo leitor russo que é muito elucidativo.

Zuruspa disse...

O que me espanta näo é os dirigentes äo saberem recitar o cantochäo, mas antes a miséria que se vê pelas ruas russas contrastada com a opulência das igrejas (e seus dirigentes) que supostamente difundem os ideias de Cristo de humildade e tal...

anónimo russo disse...

Anónimo Zuruspa disse...

"O que me espanta näo é os dirigentes äo saberem recitar o cantochäo, mas antes a miséria que se vê pelas ruas russas contrastada com a opulência das igrejas (e seus dirigentes) que supostamente difundem os ideias de Cristo de humildade e tal..."


Em que cidade da Rússia o sr. encontrou a tal miséria chocante nas ruas? Por vezes as estradas são más, mas "miséria" eu não diria, em especial nas cidades grandes.

Zuruspa disse...

AR, o que lhe pergunto é em que cidade é que *näo* se encontra a miséria chocante. Infelizmente é assim.
Até nas grandes cidades. Piterburg näo é só a Av. Nevsky, por exemplo.

Jest nas Wielu disse...

2 Pedro 23:39

1) /... se os dirigentes Soviéticos não quisessem que as pessoas não assistissem a cerimónias religiosas porque não prendiam (ou intimidavam) antes os padres?/
Pois oficialmente a religião não era proibida na URSS e oficialmente os cidadãos eram livres de ir às igrejas (estamos falando sobre a realidade soviética dos anos 1960-1990)
2) /Para quê a milícia andar a tirar os nomes das pessoas?/
Para os intimidar, desencorajando assisitir os serviços religiosos