sexta-feira, junho 29, 2012

O que leva o Kremlin a recear mudança de regime na Síria?



O secretariado da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) confirmou o envio pelo Uzbequistão de uma nota sobre a suspensão da sua participação nas actividades da organização.
“Os peritos da Organização avaliam os documentos que chegaram ao Secretário, procedem à sua peritagem jurídica e preparam um relatório”, declarou Vladimir Zainetdinov, porta-voz da organização.
O Uzbequistão já abandonou a OTSC em 1999, tendo-se recusado a prorrogar o tratado, mas reintegrou a organização em 2006.
 Criada em 2002, a OTSC, considerada por alguns analistas a “NATO russa”, é uma organização com vocação político-militar que agrupa actualmente a Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia e Tadjiquistão.
Os analistas apresentam diferentes razões para essa decisão de Tachkent.
“Não estamos satisfeitos com os planos estratégicos da OTSC face ao Afeganistão, pois no Uzbequistão dão maior prioridade à cooperação bilateral com esse país. Além disso, Tachkent não concorda com os planos a respeito do reforço da cooperação militar dos países da OTSC”, declarou uma fonte diplomática uzbeque ao diário Kommersant.
Nesta decisão poderão ter pesado as relações tensas entre o Uzbequistão e os países vizinhos que fazem parte dessa organização: Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão.
A construção de centrais hidroelétricas no Quirguistão e Tadjiquistão, com o apoio técnico e financeiro da Rússia, provoca protestos do Uzbequistão, pois diminui os caudais dos rios que atravessam o seu território.
O Uzbequistão e o Quirguistão têm sérios problemas fronteiriços, pois a linha da fronteira entre esses dois países é posta em causa pelas partes em 58 lugares.
Alguns analistas russos consideram que este gesto de Tachkent possa significar uma aproximação do regime do Presidente Islam Karimov em relação à NATO e o aparecimento de uma base militar norte-americana nesse país que vizinha com o Afeganistão.
As chefias militares russas desvalorizaram a decisão do Uzbequistão.
“Iremos continuar, juntamente com os nossos aliados e parceiros, a tomar todas as medidas necessárias para reforçar a componente militar da OTSC e garantir a segurança no seu espaço”, declarou o general Nikolai Makarov, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da Rússia.
À primeira vista, este problema pode parecer nada ter a ver com a posição rígida da Rússia face à situação na Síria, mas não é assim. Bem pelo contrário.
A posição russa no Médio Oriente não pode ser explicada apenas pela “política anti-ocidental de Vladimir Putin” ou pelo desejo de “não perder o último aliado no Médio Oriente”.
Os receios de Moscovo são bem maiores. A queda do regime de Bashar Assad poderá ter graves consequências não só para todo o Médio Oriente, mas também para regiões mais distantes: o Cáucaso e a Ásia Central.
Segundo a lógica predominante na Rússia, depois da Síria vem o Irão e este país já tem fronteiras marítimas (no Cáspio) com a Rússia e vários países da Ásia Central.
Aqui é necessário fazer um parêntesis para assinalar que este complicado novelo de problemas tem outra faceta. A desestabilização da situação poderá pôr em causa a construção de gasodutos entre a Ásia Central e a Europa através do Mar Cáspio.
Não nos podemos esquecer os problemas que a Rússia tem com a guerrilha de cariz islâmico no Norte do Cáucaso, principalmente no Daguestão, nem do conflito latente entre a Arménia e o Azerbaijão em torno de Nagorno-Karabakh. No caso da disputa territorial entre arménios e azeris, nos últimos tempos temos assistido a um agravamento sério da situação na fronteira entre os dois países.
E na Ásia Central não faltam focos potenciais de tensão que afectam directamente os interesses russos: narcotráfico com origem no Afeganistão, instabilidade de alguns regimes políticos da região rica em hidrocarbonetos, presença norte-americana, etc., etc.
Resta saber se a diplomacia russa terá capacidade para responder a tão grandes desafios. Aqui tenho algumas dúvidas. Uma das fraquezas de Moscovo reside no facto de defender regimes sobre os quais não tem grande capacidade de influência.
O Kremlin tenta intermediar os conflitos em torno do Irão e da Síria, mas não tem capacidade, nem meios de obrigar os regimes desses países a cumprirem os compromissos assumidos.
Além do mais, Moscovo ficou fortemente abalada pelo "síndroma líbio". Convencida de que os países da NATO não iriam além do encerramento do espaço aéreo líbio, aprovou no Conselho de Segurança da ONU uma resolução que abriu portas a tudo o que aconteceu depois e de que fomos testemunhas.

14 comentários:

Gilberto Mucio disse...

Muito interessante artigo!

PortugueseMan disse...

...A desestabilização da situação poderá pôr em causa a construção de gasodutos entre a Ásia Central e a Europa através do Mar Cáspio..

Isso é mais preocupante para países importadores de energia do que para países exportadores.

Factores de instabilidade de fornecimento de energia, só fazem preocupar que tem que pagar por ela.

Os exportadores, tanto vendem a 50 como a 200...

PortugueseMan disse...

...Os receios de Moscovo são bem maiores. A queda do regime de Bashar Assad poderá ter graves consequências não só para todo o Médio Oriente, mas também para regiões mais distantes: o Cáucaso e a Ásia Central...

O Cáucaso e a Ásia Central não são o centro do mundo, as coisas não giram em torno destes.

Algo vai acontecer à Síria, Para Moscovo o mau é perder um aliado, um cliente.

O Cáucaso está controlado. O problema está limitado àquela zona.

O problema aqui está mesmo na confusão que se pode tornar o Médio Oriente, já de si confusa e violenta...

PortugueseMan disse...

...Uma das fraquezas de Moscovo reside no facto de defender regimes sobre os quais não tem grande capacidade de influência.

O Kremlin tenta intermediar os conflitos em torno do Irão e da Síria, mas não tem capacidade, nem meios de obrigar os regimes desses países a cumprirem os compromissos assumidos...


De que compromissos estamos nós a falar?

Jose Milhazes disse...

Caro PM, para vender gás, é preciso transportá-lo. Por isso,a preocupação é não só dos compradores, como também dos vendedores.
O Cáucaso está aparentemente controlado. Diariamente são assassinados polícias, militares e funcionários públicos no Daguestão, etc. Além disso, a desestabilização total no Médio Oriente vai acabar por afectar essa região.
Resumir à perda de um aliado ou cliente é uma visão muito redutiva.
Quanto a compromissos, no caso do Irão, a Rússia propôs o enriquecimento do urânio no seu território e Teerão aceitou a proposta?

PortugueseMan disse...

...para vender gás, é preciso transportá-lo. Por isso,a preocupação é não só dos compradores, como também dos vendedores...

Meu caro, o que preocupa um fornecedor é a quebra de procura.

Ora não é disso que estamos a falar. O que estamos a falar é o problema do transporte, o problema do escoamento.

Em casa de falha no transporte, qual a consequência? menos energia disponível o que implica um disparo do preço da matéria prima.

Portanto a Rússia ou vende 2 barris por 50 dólares, ou vende 1 por 100.

Quem não vai ficar feliz é quem vai agora comprar apenas 1 pelo o dobro do preço...

PortugueseMan disse...

...O Cáucaso está aparentemente controlado. Diariamente são assassinados polícias, militares e funcionários públicos no Daguestão, etc. Além disso, a desestabilização total no Médio Oriente vai acabar por afectar essa região...

Meu caro,

O México está com uma violência vários graus acima do que se passa no Cáucaso, e até devem estar a morrer mais pessoas do que na Síria.

Temos algum país preocupado em salvar lá os inocentes?

Temos alguém a dizer que o país está descontrolado, apesar de estarem a ser afectadas cada vez mais cidades?

Ou estas "coisas"(matanças) já são aceitáveis nos países democráticos?

Para a violência que existe espalhada por este mundo, o Cáucaso está controlado. Mas isso não quer dizer que está pacificado. Nem o vai estar por muito tempo.

PortugueseMan disse...

...Além disso, a desestabilização total no Médio Oriente vai acabar por afectar essa região...

Meu caro, se tivermos a desestabilização total no Médio Oriente, essa vai ser uma preocupação menor.

Quanto a compromissos, no caso do Irão, a Rússia propôs o enriquecimento do urânio no seu território e Teerão aceitou a proposta?

Você referiu compromissos assumidos e agora está a falar em propostas. Não é a mesma coisa.

Pippo disse...

JM, Moscovo ficou fortemente abalada, quer pelo "síndroma líbio", quer pelo "síndroma kosovar". Moscovo já se convenceu que a NATO não é de fiar e viola sistematicamente o Direito Internacional.

Jose Milhazes disse...

Caro PM, continue a fazer malabarismo com as palavras, talvez aí esteja o compromisso.

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, ainda antes do "síndroma kosovar" formou-se o "síndroma de Gorbatchov", quando o dirigente soviético acreditou na promessa verbal de que a NATO não se alargaria para leste.

Marshall Zhukov disse...

Esse artigo é conspiracionista... Este blog é uma propaganda anti-rússia explícida!!!

O autor é estrangeiro e trabalha contra o país que o acolheu...Merece ser deportado e seu passaporte confiscado, expulso da Rússia!!!!

Traidor, volta pra sua terra, vai falar de seu país de origem que é um fracasso e perdeu todas as suas coloônias e foi ultrapassado em todas as esferas da sociedade pelo Brasil!!!

Ninguém está nem aí para estes seus livros, pobres em informação, não acrescenta nada á história!!! Vai escrever revistas em quadrinhos!!!

PERDEDOR!!!

Jose Milhazes disse...

Marshall Zhukov, mais um anónimo "corajoso"!

Pippo disse...

É verdade, JM, o totó do Gorbas acreditou na palavra dos democratas porreiros aqui do bairro e depois... bem, depois foi o que se viu!