sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Banhos russos: que o vapor seja leve!



Não há dúvida que António Ribeiro Sanches, ilustre médico português que trabalhou na corte russa do séc. XVIII, tinha razão quando, no seu livro Memória sobre os banhos de vapor russos, deu preferência a estes últimos em comparação com os finlandeses ou turcos. Mas para se apreciar um verdadeiro banho russo é preciso deixar-se levar pelos mestres da arte.
Recentemente, fui convidado uma vez mais a fazer banho russo na casa de um amigo nos arredores de Moscovo. Eduard era o “banchik”, ou seja, o homem que guarda as tradições de todo o ritual, sim porque o banho russo é um verdadeiro rito, com até alguma religiosidade.
“Estão prontos? Vamos começar o banho com essência de absinto para limpar o corpo e a alma de todas as impurezas”, disse Eduard quando atirava para cima dos nossos corpos uma essência feita à base dessa planta e entravamos para um pequeno compartimento onde se encontrava um forno que fazia a temperatura chegar um pouco acima dos 90 graus. Só a cabeça ia protegida por um barrete especial de feltro.
“Durante dois ou três minutos não falem, meditem para que toda a sujidade abandone o vosso corpo”, continuava ele a dar instruções.
Não sei quantos minutos passei dentro daquela fornalha, mas pareceu-me uma eternidade. O odor exalado pelo absinto era forte e fazia comichão na garganta e no nariz, o corpo transpirava de uma forma cada vez mais intensa que se ficava com a sensação de se estar a perder rapidamente peso.
Saí disparado como uma flecha para me ir pôr debaixo de um chuveiro que jorrava água gélida, criando uma sensação de alívio.
O “tratamento” com absinto repetiu-se e, depois, Eduard preparou um banho com essência de lúpulo e sal marinho, enquanto alguns dos convidados conversavam à volta de umas canecas de cerveja. A preparação foi rápida e o segundo acto do banho russo valeu a pena, pois a segunda essência parecia tornar-me ainda mais leve, tanto física como espiritualmente.
Mas já não aguentei o terceiro banho, preparado com ramos de um pinheiro siberiano de que desconheço o nome e “mais uma essência secreta” de Eduard. Os meus amigos continuaram a cumprir o “programa completo”, que incluía o vergastar das costas com ramos de várias plantas. Eu adoptei por colocar os pés em água quente misturada com mais uma essência do nosso mágico “banchik”.
A sessão termina com mais um banho de contraste. Podíamos ter corrido para a rua esfregarmo-nos com neve, mas a temperatura do ar não convidava, o termómetro mostrava cinco graus positivos e a tradição pede temperaturas negativas.
Aqueles que nunca fizeram banhos russos não podem imaginar com que vontade de comer e de beber se fica depois de tudo isso, mas Eduard previne: “se comerem e beberem muito, o efeito purificador do banho desaparece. Por isso, sejam moderados, principalmente no álcool”.
Só que nos esperava a saudação russa da dona de casa: “que o vapor seja leve!” e uma verdadeira mesa russa: peixes fumados, pepinos e repolho salgados, bolos de carne, arroz e repolho, e tudo isto só para as entradas. Depois, ainda veio cabrito e coelho.
Tudo estava muito saboroso e o tempo ia passando à medida que se realizavam os brindes: “À saúde dos hóspedes!”, “à saúde dos hospitaleiros donos da casa!”, “à saúde das mulheres que prepararam o jantar!”, misturados com conversas sobre os resultados dos Jogos Olímpicos de Sochi e a situação na Ucrânia.

Foi uma noite inesquecível, pois o banho russo é ainda mais agradável e curativo quando feito com pessoas de que tu gostas. E não esqueci o último conselho de Eduard sobre o efeito purificador dos banhos russos.

6 comentários:

Helena maria marques disse...

Deve ser agradável, mas para quem tem a tensão baixa 3 minutos de calor a 90º não será desaconselhável?
A comidinha fez crescer água na boca, menos o coelho que não como.

Pippo disse...

Estes pequenos momentos são os que são inesquecíveis!

Obrigado por partilha-los connosco, JM.

mikaelrc ribeirocardoso disse...

Jose milharss voce e umar farça como nao deixa as pessoas comentaren livremente neste blog so sisto pena de você a sei voce nao e digno de minha pena;)

Europeísta disse...

O banho russo sofre alguma influência do banho turco?

José Milhazes disse...

Eur., são duas coisas diferentes.

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Bom artigo.

Gostei de ler.