quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Crimeia pode transformar-se na segunda crise das Caraíbas


Quantos povos não passaram pela Península da Crimeia ao longo da sua longa história? Cimerianos, Citas, Gregos, Romanos, Godos, Hunos, Cazares, Bizantinos, Kiptchakes, Genoveses, Venezianos, Turcos, Russos, Ucranianos, Juseus, etc., etc.
As datas mais importantes para a história desta atual república autónoma da Ucrânia são:
1478-1783 – anos em que a Crimeia era habitada principalmente por Tártaros e dependia do Império Otomano.
Em 1777, o generalíssimo russo Suvorov derrota os turcos e, em 1783, a Crimeia passa a fazer parte do Império Russo.
(É de salientar que entre os combates do lado russo estiveram nomes importantes da história portuguesa como Gomes Freire de Andrade e outros militares).
Existiram outras grandes peripécias: Guerra da Crimeia (1854-1856); revolução comunista na Rússia em 1917; Segunda Guerra Mundial, mas nada disso impediu que a Crimeia continuasse a fazer parte do Império Russo e, depois, da União Soviética.
Em 1954, Nikita Khrutchov, secretário-geral do Partido Comunista da URSS, decidiu oferecer a Crimeia à Ucrânia, pois era, tal como todos os comunista, uma pessoa que não acreditava numa das previsões de Fátima, ou seja, que o regime comunista iria ruir um dia.
Quando a União Soviética caiu, em 1991, quase todos os dirigentes das repúblicas que faziam parte dela aceitaram fazer das fronteiras administrativas, fronteiras estatais, para evitar um sem número de guerras. Como é sabido, não se evitaram conflitos, ainda hoje congelados, como o de Nagorno-Karabakh, Transdnistria, Ossétia do Sul, Abkházia.
Além disso, a Ucrânia foi alvo de um tratado especial. Em 1994, quando Kiev aceitou entregar à Rússia as armas nucleares que tinha no seu território, Rússia, EUA, França e Grã-Bretanha assinaram o Acordo de Bucareste, que garante a “independência” e a “integridade territorial”.
Porém, depois dessa data, ocorreram muitas coisas graves na política internacional: desintegração caótica e sangrenta da Jugoslávia, Kosovo, invasão da Geórgia pela Rússia em 2008, etc.
Com base nesses e noutros acontecimentos, nomeadamente no rasgar do acordo entre Victor Ianukovitch e a oposição, intermediado pela UE e que acabou como todos sabemos, Rússia pode alegar que “se os outros não respeitam, porque devemos nós respeitar?”
Para alguns pode ser surpreendente, o facto de o Kremlin, oficialmente, não ter comentado o assalto armado do edifício do Soviete Supremo e do Governo da Crimeia, mas não é. Moscovo não pode apoiar semelhante acto terrorista, pois pode-se colocar a questão: se a Rússia defendeu a sua integridade territorial matando milhares e milhares de tchetchenos, porque é que Kiev não poderá fazer o mesmo na Crimeia?
Mas o Kremlin pode ser tentado a seguir a sua táctica de 2008 em relação à Geórgia. Ou seja, como é costume numa situação destas, todos arranjam argumentos a seu favor. Porém, esta política vai levar ao “vale tudo e até tirar olhos”.
Não se pode esquecer que na Ucrânia existem 5 centrais nucleares.
E mais um pormenor: na Ucrânia vive o povo autóctone da região: os tártaros, que foram vítimas de perseguições terríveis na era de Estaline: 40 foram exterminados. É mais um dos genocídios comunistas. Hoje, eles são apoiados pela Turquia e a Arábia Saudita. São uma das minorias na Crimeia que não pode ser esquecida.
E para terminar, gostaria de sublinhar um momento: se a Rússia se envolver militarmente na Ucrânia, isso será o fim do país com as fronteiras actuais. As aventuras em Angola, no Afeganistão, etc. levaram ao fim da URSS e, como a sabido, a história tem tendência a repetir-se.

Quanto às consequências para a UE e para as relações entre a UE e a Rússia, a minha colega e amiga Helena Ferro de Gouveia deve saber mais do que eu.

20 comentários:

Pippo disse...

"E para terminar, gostaria de sublinhar um momento: se a Rússia se envolver militarmente na Ucrânia, isso será o fim do país com as fronteiras actuais."

JM, presumo que se esteja a referir às fronteiras da Ucrânia. Ou estará a prever o alargamento das fronteiras da Rússia?

Quanto às comaparações com a URSS em Angola e no Afeganistão... porque é que não compara com as diversas guerras russo-turcas, das quais uma ditou o fim da suserania otomana sobre a Crimeia a qual, pouco depois, foi ocupada e anexada?

Já agora, se eu fosse tártaro, não me fiaria muito no apoio turco-saudita. Estes países não têm tanto peso a ponto de poderem apoiar o que quer que seja na região e, além disso, já estão a braços com problemas muitíssimo maiores ao pé se si: Síria e Irão.

PortugueseMan disse...

...se a Rússia se envolver militarmente na Ucrânia, isso será o fim do país com as fronteiras actuais. As aventuras em Angola, no Afeganistão, etc. levaram ao fim da URSS e, como a sabido, a história tem tendência a repetir-se...

Depende da perspectiva.

A história pode-se repetir sim, tal como uma aventura que se esquece de adicionar, a Geórgia.

...se a Rússia defendeu a sua integridade territorial matando milhares e milhares de tchetchenos, porque é que Kiev não poderá fazer o mesmo na Crimeia?...

Poder, pode. A diferença é que a Rússia não vai permitir a matança de milhares de russos. É só essa a diferença.

PortugueseMan disse...

Ucrânia pede ajuda ao FMI

A Ucrânia pediu formalmente ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Numa nota enviada à comunicação social, Christine Lagarde, directora-geral da instituição, afirma que “as autoridades ucranianas informaram-me hoje”, dia 27 de Fevereiro, que “pediram apoio ao FMI”...


http://www.jornaldenegocios.pt/economia/ajuda_externa/detalhe/ucrania_pede_ajuda_ao_fmi.html

Eu ia para dizer quanto tempo é que um governo vai aguentar em funções, com as medidas que o FMI já tinha indicado, afinal o que estão a fazer é pedir ajuda de novo, o FMI parou de emprestar porque não estavam a aplicar as reformas exigidas.

Mas lembrei-me, isto é um governo provisório, se é que se pode chamar isso, até a umas supostas eleições em Maio se é que as vão fazer.

É este governo provisório que vai acordar o esquema de ajuda, para depois o governo oficial implementar?

isto é tudo deveras engraçado.

engraçado sem graça nenhuma.

João José Horta Nobre disse...

Esta premonição de Mário Soares sobre Putin basta para compreendermos o quão perigoso esta situação pode ficar:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2014/02/dois-olhos-e-um-cerebro-uma-premonicao.html

Cumpts,
João José Horta Nobre

Contacto: historiamaximus@hotmail.com

Manuel Galvão disse...

alguém consegue aceder a http://portuguese.ruvr.ru/ ?

Penso que ninguém.

Manuel Galvão disse...

alguém consegue aceder a http://portuguese.ruvr.ru/ ?

Penso que ninguém.

Wandard disse...

"E para terminar, gostaria de sublinhar um momento: se a Rússia se envolver militarmente na Ucrânia, isso será o fim do país com as fronteiras actuais."

Realmente, as fronteiras contarão com a extensão da Criméia de volta a Rússia, cedida de forma imposta pela OTAN/EUA durante a insolvência da União Soviética. A não ser que o Sr. Milhazes tenha ilusão quanto ao poderio bélico da OTAN e dos EUA e sua capacidade utópica de simplesmente conseguir aniquilar a Rússia. Pago para ver a OTAN querer comprar esta briga.

Anónimo disse...

Vale tudo, desde balas, a tijolos, é o que apanham à mão estes "manifestantes". Pistolas de 9 mm, espingardas, bastões, machados, tudo, vale tudo.

http://www.youtube.com/watch?v=j0kTv_8lwiQ

Este vídeo mostra bem os motivos que levaram as autoridades ucranianas a levar por diante a operação anti-terrorrista de 22 de Fevereiro.

Policias indefesos a ser linchados e baleados, selvajaria pura.

A partir do minuto 4:30 é possível ver 2 policias a ser linchados, um deve ter morrido, porque aos 5:02 enquanto está de gatas é atingido nas costas de forma violenta com um objecto que parece um machado, este homem não deve ter resistido.

Se o individuo que fez isto levasse um balázio de um sniper, convenhamos que seria legitimo, face ao produzido, porque o que ele fez ao policia é inadmissível.

Convém não esquecer que mais de 100 policias foram baleados, centenas ficaram feridos, e 18 morreram.

1/4 dos mortos foram policias e elementos do ministério do interior.

Mas será que em algum pais da mui democrática europa a policia permitiria que "manifestantes" fizessem o que foi feito a este policia aos 5:02 deste vídeo, sem serem tomadas medidas?

Obviamente que não. Em Portugal a PSP deu um enxerto aos manifestantes que foram para Assembleia, só atitaram pedras da calçada. Se por ventura indivíduos aparecessem armados a atirar sobre a policia o GOE tratava-lhe do pelo rápido.

A melhor solução para este problema criado pelos EUA mais o estado pária/vassalo UE é dividir a Ucrânia.

O Leste para a esfera de influencia Russa.

O Oeste ( Galícia) para o controle americano, nem digo UE, porque isto que mais parece a defunta URSS é uma entidade fantoche e meter-se me problemas sérios por andar reboque dos americanos.

Porque uma coisa é certa, se os americanos pensarem que vão levar a Ucrânia toda, então temos molho de certeza, a Rússia nunca o permitirá, e ocupará primeiro a Crimeia e todos os Oblasts do Leste.

Porventura veremos o surgimento de um novo pais denominado de Ucrânia do Leste, ou a total inclusão destes territórios na Rússia.

E os americanos ficarão a ver como em 2008 na Geórgia.

MSantos disse...

Essa de antever o fim da Rússia por dá cá aquela palha é mais um desejo que uma perspectiva racional.

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

E mesmo que a Rússia se envolva numa aventura militar de conquista de províncias ucranianas, por muito que berrassem, os EUA nunca entrariam em guerra por isso.

Além disso, a US Navy ganha em superfícies oceanicas vastas e mar aberto. O Mar Negro é um mar fechado, totalmente coberto pela VVS russa, se fôr o caso.

Cumpts
Manuel Santos

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pippo disse...

Entretanto, a administração norte-americana, que foi tão célere a sustentar os golpistas, já veio alertar a Rússia para "não pisar o risco" durante os exercícios militares que se anunciam.

http://www.theguardian.com/world/2014/feb/27/us-warns-russia-milirary-drills-ukraine-border

E hipócritamente, John Kerry dis que “For a country [Russia] that has spoken out so frequently … against foreign intervention in Libya, in Syria, and elsewhere, it would be important for them to heed those warnings as they think about options in the sovereign nation of Ukraine.”

Portanto, os EUA podem, mas a Rússia não deve sequer pensar nisso.

Mas as notícias não são todas más.

Homens armados (algumas fontes apontam para Spetznaz do GRU) ocuparam dois aeroportos na Crimeia, impedindo igualmente a utilização de meios militares:

"In Simferopol, groups of armed men arrived overnight at the main airport serving the region. They wore military fatigues with no insignia and refused to talk, though one told news agencies they were part of a self-defence unit who wanted to ensure that no "fascists" arrived in the region from Kiev."

Os objectivos parecem ser claros: impedir a utilização das bases por forças inimigas (ucranianos do Oeste ou EUro-Americanos).

Nem todos encaram esta presença como sendo uma ocupação:

"At Sevastopol airport, a military airport that handles few commercial flights, a man who said he was a captain in the tactical aviation brigade but declined to give his name, told the Guardian there were about 300 people of unknown identity inside the airport. "We don't consider it any invasion of our territory," he said without elaborating.
He said the men looked like military, were wearing two different types of uniform and were armed with sniper rifles and AK-47s [AK-74]. "We don't know who they are, nor where they've come from.""

Da Crimeia, veia mais sinais encorajadores:
"Also on Thursday, the Crimean regional parliament voted to hold a referendum over independence from Kiev on 25 May. Ukraine’s presidential elections, when the country will elect a replacement for Yanukovych, are scheduled for the same day."

E da Rússia, idem
"In further worrying signs for Kiev, Russia's parliament began considering two new laws on Friday. One of them offers eased citizenship requirements for Russian-speaking Ukrainians, removing the requirement that they should have lived in Russia for an extended period, while the other makes it easier for Russia to add new territories to its existing boundaries.

The latter law, which appears to be aimed pointedly at the Crimea situation, says territories can be added by a local referendum "in the case that a foreign country does not have effective sovereign state authority"."

http://www.theguardian.com/world/2014/feb/28/gunmen-crimean-airports-ukraine

Portanto, tudo está em aberto.

MSantos disse...

O que tem de muito engraçado, caro Pippo é que os homens armados que tomaram os aeroportos são chamados pelos media de milícias armadas. Quando homens em uniforme de combate, com coktails molotov e mesmo kalashnikovs começaram a aparecer na praça Maidan, eram manifestantes pela liberdade e democracia.

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

"E para terminar, gostaria de sublinhar um momento: se a Rússia se envolver militarmente na Ucrânia, isso será o fim do país com as fronteiras actuais. As aventuras em Angola, no Afeganistão, etc. levaram ao fim da URSS e, como a sabido, a história tem tendência a repetir-se..."
Comparações sem sentido, mais de 50% da populacao da Crimeia e russa, a Crimeira passou a ser Ucraniana no anos 50, oferecida por Khrushchev, e a situacao geografia nada se compara a crise das caraibas, ai as fronteiras eram perto dos EU e o palco militar era em grande parte naval, aonde os EU teriam predominancia, na Crimeia e diferente ...

escreve-se cimérios disse...

daí conan o cimério cimerian is other thing como polonês nun respeita accordo

Semisovereign People at Large disse...

e faltam os vikings ou normandos na lista

Brum Colaco disse...

A União Sovietica morreu e ainda bem, porque dela renasceu a Russia que os europeus sempre temeram e continuarão a desejar a sua morte, a exemplo do senhor bloguista.
Parece claro que estes europeus da treta preferem um império à escala mundial, protagonizado pelos EUA, que suga todos os recursos mundiais para seu usufruto, mas, são os grandes impérios que morrem o que sucederá aos Estados Unidos, apesar de tantas espionagem e tecnologia de topo.
Claro que fica sempre bem ao senhor bloguista defender os poderosos do mundo, é bem mais fácil.

Brum Colaco disse...

A União Sovietica morreu e ainda bem, porque dela renasceu a Russia que os europeus sempre temeram e continuarão a desejar a sua morte, a exemplo do senhor bloguista.
Parece claro que estes europeus da treta preferem um império à escala mundial, protagonizado pelos EUA, que suga todos os recursos mundiais para seu usufruto, mas, são os grandes impérios que morrem o que sucederá aos Estados Unidos, apesar de tantas espionagem e tecnologia de topo.
Claro que fica sempre bem ao senhor bloguista defender os poderosos do mundo, é bem mais fácil.

Brum Colaco disse...

A União Sovietica morreu e ainda bem, porque dela renasceu a Russia que os europeus sempre temeram e continuarão a desejar a sua morte, a exemplo do senhor bloguista.
Parece claro que estes europeus da treta preferem um império à escala mundial, protagonizado pelos EUA, que suga todos os recursos mundiais para seu usufruto, mas, são os grandes impérios que morrem o que sucederá aos Estados Unidos, apesar de tantas espionagem e tecnologia de topo.
Claro que fica sempre bem ao senhor bloguista defender os poderosos do mundo, é bem mais fácil.

Brum Colaco disse...

A União Sovietica morreu e ainda bem, porque dela renasceu a Russia que os europeus sempre temeram e continuarão a desejar a sua morte, a exemplo do senhor bloguista.
Parece claro que estes europeus da treta preferem um império à escala mundial, protagonizado pelos EUA, que suga todos os recursos mundiais para seu usufruto, mas, são os grandes impérios que morrem o que sucederá aos Estados Unidos, apesar de tantas espionagem e tecnologia de topo.
Claro que fica sempre bem ao senhor bloguista defender os poderosos do mundo, é bem mais fácil.