terça-feira, março 04, 2014

Putin tenta repetir na Crimeia a sua receita utilizada na Geórgia


O discurso de Vladimir Putin não trouxe grandes novidades quanto à posição russa face à Ucrânia e, por isso, é preocupante.

O dirigente russo reafirmou que o governo ucraniano é ilegítimo, tentou justificar as posições da Rússia, frequentemente alegando que se os outros fazem, nós também podemos fazer.

Porém, e isto acho que é particularmente preocupante, Putin denunciou o Tratado de Bucareste de 1994, que garantia a integridade territorial e a independência da Ucrânia em troco da entrega por Kiev a Moscovo das armas nucleares que se encontravam no seu território quando a URSS se desintegrou.

A justificação é bastante problemática, pois alegou que a Rússia assinou esse acordo com outra Ucrânia e, por isso, já não tem por obrigação cumpri-lo.

O dirigente russo justificou a sua intervenção militar na Crimeia também com o facto de os EUA terem invadido a Líbia, etc. etc.

Porém, parece ter-se esquecido que recusou aos tchetchenos aquilo que acha que os russófonos da Ucrânia têm direito: a autodeterminação.

Por esta lógica, o cortejo de autodeterminações continuará a aumentar, mas a Rússia que se cuide, pois pode virar-se o feitiço contra o feiticeiro.

Não acredito que sanções internacionais sejam o meio melhor para travar o avanço russo. Para serem eficazes, teriam de ser feitas a uma dimensão tão grande que obrigatoriamente teriam consequências funestas para a economia da EU e dos EUA. Seria preciso, por exemplo, suspender durante muito tempo a compra de gás russo ou fazer baixar substancialmente o preço do petróleo nos mercados internacionais. Também poderia surtir algum efeito o congelamento das contas bancárias de oligarcas e corruptos russos, mas não vejo a EU e os EUA a fazerem isso.

O que deve ser obrigatoriamente evitado: as sanções não devem, de forma alguma prejudicar os cidadãos comuns russos, principalmente no que respeita a contactos humanos, culturais, familiares, etc.

Resumindo, a situação encontra-se num perigoso impasse e a mais pequena provocação poderá causar um conflito militar de grandes dimensões.

Moscovo tenta realizar o mais rapidamente possível o referendo sobre o estatuto na Crimeia a fim de legitimar a sua presença aí. Depois, poderá não anexar essa península, mas fazer dela mais um estado fantoche como são a Ossétia do Sul ou a Abkházia.

As novas autoridades de Kiev devem também realizar eleições gerais o mais rápido possível também para se legitimarem e conquistarem um peso maior no diálogo com Moscovo. Porém, a Rússia e os seus apoiantes na Ucrânia tudo irão fazer para que essas realizações não se realizem nem Crimeia e, se a situação o permitir, no Leste e Sul da Ucrânia.

Se a situação continuar assim, iremos ter uma Ucrânia dividida e mais um conflito congelado na Europa.

17 comentários:

MSantos disse...

"Porém, parece ter-se esquecido que recusou aos tchetchenos aquilo que acha que os russófonos da Ucrânia têm direito: a autodeterminação."

Existe uma pequena diferença, os russófonos da Ucrânia querem apenas levar uma vida pacífica. Os tchtchenos querem constituir um Estado islâmico fanático e terrorista.

Tenho pena que o ódio a Putin tolde toda a rasonabilidade e até desculpe coisas tão funestas como o que queremos combater.

É por isso que acho que por muito que condenemos alguém ou alguma política e ideologia nunca devemos sucumbir ao ódio.

E se o povo da Crimeia quer ser russo pela mesma lógica do que vocês apregoam em Kiev, pois deixem-nos ser.

Cumpts
Manuel Santos

Pippo disse...

Dado o extensíssimo rol de quebras contratuais do "Ocidente" e os constantes desrespeitos que o Ocidente manifesta face ao Direito Internacional, não vejo bem onde é que a Rússia está a errar.

A Chechénia? Os chechenos que lutem pela sua independência. Talvez a adquiram, talvez não.

As justificações débeis? São muito mais fortes as justificações de Putin do que as do "democrático" Ocidente para invadir o Iraque em busca de ADM (havia tantas que até já se vendem no EBay...), ou a Líbia para "desalojar um ditador", ou o Afeganistão para "acabar com a opressão dos Talibans sobre as mulheres (agora já podem andar todas de burkha!), e assim por diante.

JM, ou há moralidade, ou comem todos.
O Ocidente "democrático" é profundamente imoral.
Acha que a Rússia tem de jogar com outras regras?

Fernando Negro disse...

Mas, com nazis no poder, como é que poderão haver eleições verdadeiras?

Eleições organizadas por quem já deu provas de só respeitar a Democracia quando lhe apetece?

Que até rasga acordos, feitos com líderes democraticamente eleitos, poucos dias depois de os assinar?

A quererem estes nazis organizar eleições verdadeiras... Só consigo ver isso a acontecer depois de terem estes morto, expulso ou aterrorizado, o suficiente, uma maioria de pessoas que não esteja com eles alinhada...

(O que é até possível que aconteça... Pois, os números de que tenho conhecimento, são de: 143.000 ucranianos que já pediram asilo político à Rússia; e um total de 675.000 que já fugiram para este último território.)


Mas, sobre a Chechénia,

(Alguém aqui que seja honesto e que saiba mais sobre isto, do que eu, que me corrija se eu estiver errado... Mas,)

Não foram as duas guerras, na Chechénia, iniciadas por guerrilhas fundamentalistas islâmicas que recorriam a ataques terroristas - e que não quiseram saber de eleições democráticas ou de partidos políticos para nada?

Desde quando é que é o terrorismo uma forma de luta aceite em qualquer país civilizado e democrático?

(Terroristas fundamentalistas islâmicos no mesmo saco que cidadãos pacíficos e democráticos que, meramente, exerceram o seu direito de voto - o qual não está a ser respeitado?!)

Se há assim tantos chechenos a querer a independência - como alguns nos querem fazer crer - porque é que nunca se ouvi falar de algum partido independentista checheno que tivesse ganho umas eleições regionais? E, de outras formas legítimas de activismo político, que tenham ocorrido, em massa, nesse território?

Anónimo disse...

Candidato a Nobel da Paz!(não é piada, é o resultado de nada terem feito após a cena da Georgia, agora repetida com palminhas na Ucrânia).
Está cada vez mais alucinado e perigoso.
E quem o trava?

Observador atento disse...

Dr. Milhazes, está a comparar o incomparável, ao comparar a situação na Ucrânia com extremistas ligados à Al-Qaeda!

Ou a Al-Qaeda só é má no Afeganistão e já é boa no Cáucaso?

Os Chechenos extremistas tiveram o que mereceram, e Putin fez o que tinha que fazer ao pô-los na linha, caso contrário um dia destes tínhamos um califado no Cáucaso com todos os perigos que isso acarretaria para a europa.

Mais, como o senhor sabe bem, nenhuma das repúblicas interiores do Cáucaso Russo são viáveis, visto que não possuem tecido industrial, nem dimensão demográfica para tal, tão pouco, frente marítima.

Este seu post penso que revela um anti-Putinismo exagerado, Putin fez o que tinha que fazer.

A Rússia não permitirá que a Ucrânia caía nas mãos da NATO (pelo menos a parte Leste e o Sul/Crimeia), porque isso teria como consequência a saída de Sebastopol e a expansão do sistema antimíssil para a Ucrânia, fazem-no carregados de razão, da mesma forma que Kennedy não permitiu que a URSS colocasse misseis em Cuba na década de 60, nessa altura com os americanos carregados de razão.

Se os Russos financiassem um golpe de estado no Canada e colocassem lá um governo anti-EUA, e tivessem planos para plantar bases e misseis junto da fronteira dos EUA como acha que os americanos reagiriam?

Da mesma forma que estão a reagir os Russos.

Talvez quem se vá chamuscar e bem sejam os americanos com esta brincadeira toda, e com esta moda das revoluções coloridas, já anda tudo farto disto e do cinismo desta gente, incluindo na própria Europa que se vê metida nas trapalhadas imperialistas dos EUA.

Como já percebeu a Alemanha está a alinhar com a Rússia, a China também.

E na América há muito quem de razão a Putin, até nos ecrãs da CNN, veja esta entrevista do senhor Stephen Cohen na CNN, em que diz que Putin não criou a crise, mas não teve outra escolha que não reagir a ela.

http://www.breitbart.com/Big-Peace/2014/03/02/Princeton-Prof-Putin-Didn-t-Create-Crisis-Had-No-Choice-but-to-React

Em relação ao Leste e Sul da Ucrânia, o poder de Kiev lá já limitado, as forças de segurança não respondem perante Kiev e os parlamentos e sedes da administração regional foram tomados por pró-Russos em Kharkov, Donetsk e Odessa, onde já estão a ser preparados referendos locais similares ao da Crimeia.

Russos tomam edifício governo Kharkov

http://www.youtube.com/watch?v=zbD9xKqmg04

Russos tomam edifício governo em Donetsk

http://www.youtube.com/watch?v=XgcrxZv2kQ4

Russos tomam edifico governo em Odessa

http://www.youtube.com/watch?v=s8KsaplG75s

Para além disso tivemos protestos Pró-Russos em Lugansk, Melitopol, Yevpatoria, Kherson, Mikolayv e Mariupol, ou seja, todo o Leste e Sul da Ucrânia.

A Ucrânia está em processo de erosão avançada, e a culpa não foi dos Russos, não foram eles que incendiaram o palheiro.

Europeísta disse...

Ele afirma que quer defender os "russos" mas nao há risco para os russos na Ucrânia. Ora, nao dizem aqui que no Leste eles sao maioria? Entao? É mais fácil os tártaros estarem em risco. As imagens no Leste mostram representantes do novo governo sendo agredido. Entao quem tá em risco? Vcs acham mesmo que Putin está preocupado com os Russos? Se ele estivésse começaria a tratar bem os russos da própria Rússia, pois o que se ve na Rússia é repressao, violencia do estado e desrespeito aos direitos humanos. Os russos sob o comando de Putin correm mais riscos do que os russófonos na Ucrânia. Está mais que claro que isso nao passa de um pretexto! O que ele quer é se adonar de metade do território da Ucrânia, ter uma frota armada no Mar Negro (embora o país seja signatário de tratado que proíbe frota armada no Mar Negro), demonstrar poder, se impor ao mundo como um Império e afrontar o Ocidente. Os gastos da Rússia nessa última olimpíada mostram bem isso, Putin quer se mostrar como um novo império. Mas nenhuma império se sustenta sem uma economia forte e a economia da Rússia é débil, nao sob seu poder nenhum outro país a não ser os antigos membros da Urss. Por isso, talvez, tanta necessidade de militarismo.

Europeísta disse...

Pippo,

Já que tu apóias tanto a independência assim, entao pq nao apoiar a independencia da Chechenia? Da Daguestao? Do Tartaristao? E outros tantos territórios na Rússia que almejam independência? Te garanto que nao faltam regioes na Rússia querendo se emamcipar de Moscou. Mais de 100, no mínimo!

PortugueseMan disse...

Russia cancels Ukraine's gas discount and demands $1.5bn

...The European Union said on Tuesday it would help Ukraine pay its debt to Gazprom...


www.telegraph.co.uk/finance/newsbysector/energy/oilandgas/10676228/Russia-cancels-Ukraines-gas-discount-and-demands-1.5bn.html

E voilá.

É melhor começar a colocar uns eurozitos de lado, afinal NÓS vamos começar a pagar o gás ucraniano.

Possivelmente vai ser mais uma taxa na factura da electricidade....

Vamos a ver até onde vai a solidariedade europeia em nome da "Democracia" quando perceberem o que nos vão sacar ao bolso.

Isto promete.

Europeísta disse...

Observador Atento,

O apoio a Rússia nao é uma unanimidade assim nao! Há sim gente no Leste que apoia o novo governo. Essas cidades que vc citou sao as mais russificadas. Donetsk fica na regiao de Donbass, é historicamente mais ligada a Rússia, é de onde veio o corrputo Yanukovich. Odessa tb é uma cidade extremamente russficada, só fica atras de Donbass e a Criméia em termos de Russificação. Sem contar que mesmo nesses lugares há quem nao apóie a Rússia. Eu duvido que consigam tomar a sede do poder em Dnipropetrovosk, onde a populaçao é mais dividida, Mariupol, Kherson....

g_afim disse...

Há uma coisa que me faz confusão: que provas têm esta gente de que foram os EUA que financiaram o golpe na Ucrânia?

PortugueseMan disse...

Não deixa de ser irónico pensar desta maneira:

Os russos devem ter feito as contas, e chegaram à conclusão que sai mais em conta separar a Crimeia.

Com o dinheiro que vão poupar nos subsídios energéticos de uma nação, vão conseguir pagar os jogos olimpicos, as despesas do envio de militares para a Crimeia, impedem a entrada da NATO na Ucrânia e ainda vão receber cheques em euros dos contribuintes europeus para compensar algum prejuizo que possam vir a ter.

Afinal agora somos nós que passamos a pagar a factura do gás.

Democraticamente.

PortugueseMan disse...

Kerry arrives in Kiev, announces $1 billion in loan guarantees

http://www.reuters.com/article/2014/03/04/ukraine-crisis-kerry-idUSL1N0M10PK20140304

Verdadeiramente impressionante, a Ucrânia conseguiu pôr os Europeus e Americanos a pagar o gás russo.

Com sansões destas... parece-me que a Rússia pode bem...

Será que vamos agora ver cheques destes passados todos os meses?

Parece-me um negócio interessante.

A Rússia deixa de enterrar dinheiro na Ucrânia, passa a cobrar preços de mercado.

Americanos e europeus passam a pagar aos russos, aquilo que os Ucranianos consomem.

A Rússia usa este excedente de dinheiro para amortizar alguma incursão militar que tenha feito ou necessite de fazer...

Resumindo, a Rússia desloca forças militares e quem paga é... a Europa mais os EUA.

Parece-me bem.

E viva a Democracia.

Europeísta disse...

Tudo isso mostra para a Europa Ocidental uma necessidade urgente: independência energética em relação a Moscou. A Europa Ocidental não pode mais depender do gas russo, o governo russo é hostil a Europa e Gazprom nao se mostra como um fornecedor confiável, uma vez que usa o gaz como meio de chantagem e pressão política. As alternativas sao a construçao do gasoduto entre a Espanha e a França e a retomada do projeto Nabuco. Qd a Europa for independente da Rússia em relação ao eu quero ver como o regime de Putin vai se manter. Nao terá como se sustentar. O South Stream nao interessa ao Ocidente, deve boicotar o projeto.

Europeísta disse...

Yanukovich simplesmente raspou os cofres da Ucrânia e deixou o país a míngua. É essa gente que Putin acolhe. Se bem que Putin é tao corrupto quanto. Agora é congelar ativos dessa getne no exterior e devolve-los aos cofres da Ucrânia.

O próximo a cair será o Lukashenko.

mikaelrc ribeirocardoso disse...

Voce sabia que a popularidade de putin na chechenia e de mais de 90% da população e que se você perguntar para a população se querem se separar da Rússia eles dirão que não e que quem lutou nas guerras na chechenia foram guupos islâmicos chechenos e de outros paises inclusive da Ucrânia ocidental e arabia saudita financiados pelos usa e que milhares de chechenos lutaram do lado da russia contra a independencia? Minhas palavras acabaram de lhe derrotar espero que poste o comentario e que possa me responder se você conseguir uma resposta plausível para destruir oque falei apesar de achar inposivel estarei pronto para provar que você nao gosta da russia e não quer ver a Rússia forte apenas difamala como se estivesse ainda na guerra fria, apesar de saber que depois das atitudes dos americanos para procurar a egemonia global possivelmente veremos uma situação parecida com a guerra fria, espero que com minhas palavras posso pelo menos fazer com que você seja neutro nas postagens e menos anti russo descaradamente Desculpa por qualquer ofensa. Mikael cardoso

Astromac disse...

Aqui está um artigo de opinião escrito por uma ucraniana russófona que ilustra a situação em primeira mão:

http://edition.cnn.com/2014/03/04/world/europe/ukraine-divided-opinion-irpt/

Talvez leve os críticos da UE a considerar que a situação não é tão clara como a propaganda russa a faz parecer...

Pippo disse...

Europeísta, se a Chechénia fosse independente, juntamente com a Ingushétia, o Dagestão, a Circásia, etc, formariam de imediato um Emirado Caucasiano, com tudo o que daí advém.

Eu sei que a tua cegueira russófoba te impede de ver até o mais elementar e te impele a apoiar extremistas nazis e islamitas, mas tudo tem um limite.

Além disso, é curioso que boa parte dos chechenos, daquestaneses, etc., não só não pretendam a independência como até combatem os movimentos independentistas. Será que eles sabem bem o que lhes aconteceria se a sua terra caísse sob poder dos islamitas?

Antes de dizeres baboseiras, estuda o assunto primeiro.