sexta-feira, junho 27, 2014

O difícil dilema que Putin enfrenta


Hoje, a União Europeia assinou Acordos de Associação com a Ucrânia, a Moldávia e a Geórgia, e Moscovo não gostou. Ainda hoje, Vladimir Putin afirmou que o facto de Bruxelas ter obrigado Kiev a optar pela UE está na origem da desintegração da Ucrânia.
Os peritos pró-Kremlin afirmam em uníssono que a decisão dos dirigentes desses países é uma decisão “suicida” e alguns vão mesmo ao ponto de afirmar que, dentro de alguns meses, esses dirigentes virão pedir de joelhos a Moscovo ajuda económica. Se assim é, não se entende o nervosismo do Kremlin. Caso a política da UE falhe em relação a esses países, a Rússia brilharam no firmamento internacional como uma ilha de prosperidade e estabilidade.
A julgar pelas declarações do dirigente russo, não deverão tardar sanções económicas contra esses países sob o mais variados pretextos, nomeadamente a fim de “proteger o mercado russo” ou encontrando diferentes bactérias, fungos, vírus, etc.
Além disso, o Kremlin irá recorrer aos problemas territoriais como alavanca de pressão sobre alguns desses países. No caso da Moldávia, a Transdnístria não deverá aceitar esse acordo de associação e utilizar a situação para se afastar ainda mais do governo de Chichinau. Quanto a outra região separatista: a Gagauzia, os dirigentes desta vieram uma vez mais lembrar que aí foi realizado um referendo e que a maioria da população votou a favor da integração na Rússia.
Quanto à Ucrânia, hoje termina o cessar de fogo declarado pelo Presidente Petro Poroshenko no leste da Ucrânia sem que ele tivesse verdadeiramente entrado em vigor. E não entrará em vigor enquanto a Rússia não se envolver a sério na solução deste conflito. Claro que no sudeste da Ucrânia há muitas pessoas que estão contra o governo de Kiev, mas a guerrilha separatista pró-russa só existe e sobrevive devido ao apoio, directo e indirecto, de Moscovo.
A julgar pelos últimos acontecimentos, no seio da elite russa tem lugar uma forte luta entre o “partido da guerra”, ou seja, os que defendem a intervenção militar russa na Ucrânia, e o partido a que eu chamaria dos “pragmáticos”, que defendem que o alargamento dos confrontos na Ucrânia poderão ter sérias consequências para a própria Rússia.
O “partido da guerra” até já encontrou uma justificação para a sua atitude. Segundo os seus adeptos, se Moscovo enviar tropas para o Leste da Ucrânia, isso não significará a violação da soberania do país vizinho, porque os soldados irão ficar apenas nas regiões que já declararam a sua independência em relação a Kiev: Donetsk e Lugansk (analogia com Crimeia). O economista Serguei Glaziev, conselheiro de Putin conhecido pelas suas ideias nacional-comunistas, chamou “nazi” ao Presidente ucraniano por este ter ousado assinado o acordo com a UE e é um dos adeptos da intervenção.
Porém, raposas diplomáticas e políticas como Evgueni Primakov apelam ao Kremlin a não se precipitar. Depois de considerar que a Rússia reforçou as suas posições internacionais durante a crise na Ucrânia (o que ainda não é linear, considero eu), ele sublinha: “Hoje, devemos chegar a acordo com todas as partes do conflito, como que ficando de lado, respeitando a soberania da Ucrânia e, ao mesmo tempo, tentando defender os direitos e a vida das pessoas em Donbass no quadro de uma “Ucrânia una””.
Primakov, que não pode ser considerado um crítico de Putin ou um agente da CIA, acrescenta que a Rússia deve compreender claramente que em cima da mesa estão objectivos globais e que ainda não chegou a hora de os atingir.

Este político russo faz uma grave acusação à imprensa russa ao declarar que se as pessoas ficarem desiludidas com essa posição da Rússia será por culpa dela, porque pareciam estar a preparar as pessoas para uma guerra: “Nós exagerámos um tanto na cobertura dos acontecimentos... O tom geral era tal que parecia que nos estávamos a preparar para a guerra. Se alguns não estão satisfeitos, é porque estão sob a influência da propaganda”.   

13 comentários:

Pippo disse...

"Quanto à Ucrânia, hoje termina o cessar de fogo declarado pelo Presidente Petro Poroshenko no leste da Ucrânia sem que ele tivesse verdadeiramente entrado em vigor. E não entrará em vigor enquanto a Rússia não se envolver a sério na solução deste conflito."

Tem razão. A Rússia deve envolver-se a sério na resolução deste conflito.
Já agora, na sua opinião, JM, qual deverá ser o método a adoptar? O do Poroshenko, através das armas? Ou a cedência, deixando todos os trunfos nas mãos da Guarda Nacional?

Por falar em Guarda Nacional, vai publicar o artigo que lhe enviei?

Pippo disse...

Relativamente aos "objectivos globais", a separação do Dombass da restante Ucrânia, seja através da independência pura e simples, seja através da sua autonomia, servirá os propósitos económicos da Rússia. No Dombass, principal centro industrial e mineiro da Ucrânia, reside certa de 1/3 do rendimento produzido no país, talvez até mais, pelo que com a adesão plena da Bielorrússia e repúblicas da Ásia Central, e bons acordos económicos com a China, a União Euroasiática fica confortavelmente instalada.

A UE, se ficar com o resto - pobre - da Ucrânia, terá de a subsidiar durante anos. E daqui a 4 meses o consumo do gás começará a aumentar...

Anónimo disse...

Tudo muito bem só não compreendo essa sua obsessão por onerar exclusivamente a Rússia com a responsabilidade e o poder de solucionar a guerra civil ucraniana.

Da sua parte é uma cegueira deliberada, persistente e, de tão desligada que está da realidade, absurda se não mesmo ridícula.

APARECIDA FELIPE disse...

EZEQUIEL 28

APARECIDA FELIPE disse...

EZEQUIEL 28

Pippo disse...

Parece que as milícias ucranianas tomaram uma base do exército kievita carregadinha de armas anti-aéreas.

http://voiceofrussia.com/news/2014_06_29/Donetsk-militia-takes-control-of-Ukrainian-anti-air-installation-1561/

Se assim for, e se os milicianos souberem usar o material capturado, as forças de Kiev ficarão em maus lençóis. É que atacar com apoio aéreo é uma coisa, mas atacar só com armas terrestres, e numa situação de crescente paridade material (dia 18, perto de Slovyansk, foram capturados mais três blindados ao "Batalhão Aydar"), é outra bem diferente.

Hugo Dionisio disse...

Eu só não percebo uma coisa: ó JM diga-me lá porque é que a Rússia não pode defender os seus interesses geo-estratégicos? Quando os EUA invadem todos os países que não se submetem aos seus interesses; quando violam continuadamente o direito internacional em nome dos mais vis interesses materiai; quando a UE e a NATO, desde a queda da URSS que tentam assumir o comando das regiões ex-soviéticas... Porque é que a este bloco imperialista é permitido o acordo com a Georgia, Moldávia, etc., e à Rússia não é permitido o mesmo processo? Será assim tão absurdo, para quem sempre trabalhou na área das relações internacionais,que a Rússia queira proteger o seu mercado das economias mais fortes? Os EUA, a Alemanha, não fazem o mesmo? Todos o fazem e todos usam de mecanismos criticáveis para o fazer. Todos o fazem influindo na liberdade de autodeterminação dos povos e violando a soberania de cada país. Seja utilizando a ameaça de guerra (Irão...), seja utilizando a corrupção dos poderosos (países africanos), seja através da desestabilização politica (Egipto, Siria, Libia...), ou seja, ainda, através da utilização de ditadores joguetes (Ucrânia, Arábia Saudita, América Latina, paquistão...), o império ocidental utiliza estes esquemas todos e de forma profícua. Todos eles, sem excepção, constituem violações inadmissíveis à liberdade de cada povo. Todos. O que faz a Rússia de diferente? Nada... Faz o mesmos, como qualquer potencia regional. Depois, o seu governo, usa a propaganda governamental para manipular o povo. E por cá, não fazem o mesmo? Ou será que o JM acredita em tudo o que ouve na Comunicação Social? OU em tudo o que diz para a comunicação social? Ainda alguém acredita no Pai Natal? Num mundo crescentemente ultra-liberal, cada vez mais desigual e assimétrico, nada disto admira, nada mesmo!

Pippo disse...

Caaaalma, Hugo Dionísio, caaaalma.

o José Milhazes também critica essas manobras da NATO/EUA/UE... o que acontece é que ele é tão discreto a fazer essas críticas, e tão vociferante a criticar a Rússia, que ninguém repara.

Deve ser para não estragar a música: bater em dois bombos ao mesmo tempo à vezes cria eco e estraga o ritmo. :0)

José Milhazes disse...

Hugo Dionísio, a Rússia tem todo o direito de defender os seus interesses, mas deve responder pelas consequências. Leia com atenção o que o Sr Primakov, não fui eu, disse. Agora, Moscovo acusa os outros de padrões duplos, depois fica zangada quando faz o mesmo e tem de responder por isso.

Hugo Dionisio disse...

Claro JM. A Rússia terá de responder por isso. A Rússia e os Russos. Isso é óbvio e expectável. Mas isso tanto se exige da Rússia como de todos os outros, certo? O problema é que à Rússia exigem-se consequências que ninguém exige à brigada da NATO/EUA/UE. Alguém fala, por exemplo, em aplicar sanções aos EUA pelo que fazem por esse mundo fora? Ninguém! Sabe porquê? Porque sabem que é impossível. Porque sabem que as sanções só têm um sentido. Algum tribunal pena internacional é criado porque os EUA usaram armas químicas (Napalm e fósforo branco) no Iraque? Não, claro que não! Os EUA até assinam acordos bilaterais (acordos...) para garantirem que não se façam queixas contra os seus falcões de guerra. Os EUA, ao abrigo da NATO e dos tratados pós 2ª Guerra possuem mais d e200 bases militares na Europa. E se um país Europeu quiser colocar uma base em solo americano, pode? Não pode! A aliança atlântica só tem um sentido, o da ocupação da Europa. E essa é a verdade última. A Europa é uma região OCUPADA pelos EUA. No dia em que pensar diferente, está invadida à partida. Portanto e resumindo, as consequências que JM exige para a Rússia, te o dever de as exigir para os outros. Em termos absolutamente iguais, com igual veemência e repúdio. Sem querer ser maldoso ou ofensivo, acho que tal postura nem sempre é óbvia.

Ricardo Break disse...

Enviei este comentário creio que a 2 semanas continuo a espera de uma resposta e da aprovação do mesmo portanto decidi postar novamente .. "Mas a política de putin e aceite por 82% da população adulta e por os incríveis 86% da população jovem ou seja se você não gosta da opinião do presidente putin e não respeita às suas opções e ideologias políticas esta no momento a não respeitar o povo russo ! Não pretendo desde já faltar ao seu respeito como tanto o senhor como eu o fizemos mas sinceramente vindo as políticas americanas que sem tirar nem por e a política da bomba e do drone como pode você condenar a política russa e não condenar a política América ? Como você sendo jornalista saber da morte do jornalista russo e não escrever nada sobre isso ??? Todos os noticiários pro ocidente não escrevem que foram mortos pelo governo de Kiev simplesmente dizem ter morrido lol como pode isso ser possível ?? A russia tem graves problemas tem sim as ruas são horríveis a corrupção é enorme sim é tem que mudar tem !!!! Mas a nível de política externa eu concordo com TUDO estão completamente correctos de verdade !!!! A minha esposa toda sua família e de lugansk e donetsk falamos todos os dias por 6 meses via Skype Pqe que você não pode confiar nas pessoas que estão no "terreno " ?? A família são mulheres bebés marido reformado filho policial Pq iriam mentir a minha esposa diga me Pqe ???"

Hugo Dionisio disse...

Junto envio um vídeo, chamado "Fascism as it is". Aviso os mais acérrimos anti-Russos ou pró-imperialistas que o vídeo foi feito por um jornalista Russo. O vídeo fala do fascismo Ucraniano em voga para os lados de Kiev. Nada que não se saiba. Como sempre, e a par do aconteceu em outros lados, o império não tem qualquer pejo em jogar mão de fascistas (como de extremistas religiosos - vide Síria). Depois, bem, depois, temos de levar com eles. MAs há quem não denuncie, há quem branqueie e há quem finja que não vê. Esses também terão as mãos sujas de sangue. Fica o vídeo para quem não seja "russófobo". :-)

http://youtu.be/qarx4pufiM4

Jonatan Souza disse...

http://dinamicaglobal.wordpress.com/2014/06/30/a-aterrissagem-da-normandia-e-segunda-guerra-mundial-as-mentiras-tornam-se-mais-audaciosas/