quinta-feira, novembro 27, 2014

“Guilhotina” europeia como tratamento para a “caspa” ucraniana


Herman Van Rompuy, que está de saída do cargo de Presidente do Conselho Europeu, vem propôr agora a “federalização” da Ucrânia, ou seja, o tratamento da “caspa” ucraniana com a “guilhotina” europeia, como se não soubesse que isso será o princípio da balcanização completa do maior país europeu.
Num discurso pronunciado no Instituto de Ciências Políticas (Sciences Po), o dirigente europeu declarou:
É necessário procurar uma solução global. Deve encontrar-se uma maneira para que a Ucrânia se torne um país descentralizado (ou federalizado) e inclusivo. É preciso definir o lugar da Ucrânia na Europa”.
Mas será que este senhor, ainda por cima político belga, não compreende que, no caso da Ucrânia, descentralização e federalização são coisas completamente diferentes? Não ouve e não lê que não é por acaso que os dirigentes ucranianos defendem a descentralização e recusam terminantemente a federalização, enquanto que Moscovo, o patrão dos separatistas no leste da Ucrânia, defende precisamente o contrário?
Depois da sangrenta guerra civil que decorre na Ucrânia e que já ceifou mais de 4000 vidas, a política de federalização da Ucrânia será equivalente à sua balcanização. E não será só o Kremlin que participará na partilha do bolo. Alguns setores políticos da Hungria, Roménia e Polónia não estão contra esse cenário.
Claro que poderão dizer aos ucranianos que, caso aceitem a federalização, eles receberão garantias internacionais da integridade territorial do seu país, mas os ucranianos já sentiram na pele o valor dessas garantias. Em 1994, o Tratado de Budapeste garantia a integridade territorial da Ucrânia em troca da entrega por esta das armas nucleares. Esse documento foi assinado pelas potências nucleares (Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França), mas, dez anos depois, o Kremlin atirou-o para o caixote do lixo.
Não é segredo para ninguém que a União Europeia não teve nem tem uma política pensada, consolidada e coerente face ao antigo espaço soviético, sendo ela, por isso, mais reativa do que preventiva.
Essa falta de política é particularmente evidente durante toda a crise na Ucrânia, que já dura há quase um ano. Ou mais exactamente, já dura desde pelo menos 2004, quando em Kiev teve lugar a “revolução laranja”. Bruxelas teve, depois, numerosas oportunidades de aproximar a Ucrânia da União Europeia, mas não foi além das palavras e da elaboração de um Acordo de Parceria com Victor Ianukovitch, presidente cleptocrata, corrupto e que, há última da hora, decidiu revender-se uma vez mais à Rússia a troco da renúncia da assinatura do citado acordo.
Bruxelas sabia desde há muito que Ianukovitch não iria assinar o acordo, mas continuou a fazer de conta que a assinatura iria ocorrer na data marcada.
Quando começaram os confrontos na Praça da Independência de Kiev, a UE tentou mediar as conversações entre Ianukovitch e a oposição e, aqui, comete mais um erro imperdoável ao tornar-se garante desse acordo que não era para cumprir. Segundo o documento, Ianukovitch comprometia-se a antecipar as eleições presidenciais e parlamentares, enquanto que a oposição e o poder se responsabilizavam pela instauração da ordem em Kiev. No dia seguinte, o Presidente ucraniano teve de fugir da capital.
A continuação da história já é bem conhecida, sendo de sublinhar que a Ucrânia perdeu parte significativa do seu território, algum dele de recupeação praticamente impossível num futuro próximo.
O que Herman Van Rompuy faz é aconselhar a tratar da caspa com a guilhotina, mas esperemos que a nova Comissão Europeia seja mais sensata a tratar crises tão graves como a da Ucrânia.




8 comentários:

Anónimo disse...

A federalização é, talvez, a unica solução para manter a Ucrania como a conhecemos hoje!

Anónimo disse...

Justino disse:

“Ianukovitch comprometia-se a antecipar as eleições presidenciais e parlamentares, enquanto que a oposição e o poder se responsabilizavam pela instauração da ordem em Kiev”

Mas que conceito de democracia é este ? O resultado das urnas só contaria se os vencedores fossem contra Moscovo e coniventes com Washington/Bruxelas, caso contrário o vencedor seria convidado a abreviar e descartar o poder que o povo lhe concedeu pela via democrática?.
Pois bem, efectivamente a oposição tomou o poder a partir de Maidan e o que a seguir se passou foi, nomeadamente, perseguição e humilhação de deputados e jornalistas, ilegalização de um partido, abolição de língua russófona como língua oficial, aquele vergonhoso crime em Odessa. Mas que estranha e nova ordem é esta ??

“Victor Ianukovitch, presidente cleptocrata, corrupto”

Cleptocracia e corrupção são coisas que, como a poliomielite, foram banidas para sempre de países governados a partir de Washington/Bruxelas, aptos assim a darem lições de bom comportamento a todo o mundo incluindo a Ucrânia. E a oposição saída de Maidan é de uma impoluta candura imune a oligarquias, digna assim de povoar os céus ao som das trombetas dos querubins.

Não morro de amores por Putin, por Ianukovitch ou ainda pela actual poder da Ucrânia saído de eleições com partidos ilegalizados ou limitados, mas sou levado a pensar que com o acordo de gás recentemente celebrado entre Ucrânia e Rússia, a acrescer aos acordos de Minsk, estes países estão dar passos importantes para a pacificação sem interferências de mais ninguém, países estes que melhor conhecerão o que fazer em prol da paz, até porque não podem viver um sem o outro, estão historicamente e geograficamente casados para o bem e para o mal.

A este respeito, vale muito a pena toda a atenção para as palavras do insuspeito Henry Kissinger no seu artigo no Washington Post intitulado “Como resolver a crise ucraniana: Rússia e Ocidente precisam de um acordo equilibrado que crie confiança entre os dois lados” de que destaco estas duas frases:

"A Ucrânia não deve ser um ponto de discórdia entre o Oriente e o Ocidente, mas uma ponte entre eles"

'Para o Ocidente, a demonização de Vladimir Putin não é uma política, é um álibi para a ausência de uma [política]"

Quem quiser contestar a assertividade destas duas frases que se chegue à frente.

Anónimo disse...

206Caspa com sangue!!!
Voltamos ao inicio: Mas com menos 5000 civis, 20.000 soldados...Apenas com a mesma estupidez. Afinal, a federalização era a resposta, mas agora, ainda é?

antónio m p disse...

“Estamos preocupados com os múltiplos casos de violação de direitos humanos por batalhões paramilitares, embora tenhamos saudado a inclusão desses destacamentos no quadro orgânico do Ministério da Defesa da Ucrânia e do Ministério do Interior”, assinalou, adiantando “ser importante que esta decisão não seja formal, mas que contribua para o reforço da disciplina e a observação dos Convénios de Viena” - anunciou o diretor executivo da Human Rights Watch (HRW), Kenneth Roth. (Voz da Rússia)

Guilherme Antonio Morgado disse...

Embora você não goste e tenha feito tudo à sua maneira e de acordo com os meios que possui, para que a Rússia fosse enxovalhada, vilipendiada, humilhada e derrotada nesta guerra contra os fascistas que empestam nesta desgraçada e tesa UE dos alemães, você está a entrar na fase daquele que é "enganado" pelas costas. Foi você que escolheu. Só me custa saber que você viveu naquela grande e orgulhosa nação e não aprendeu nada.

Anónimo disse...

Ouvi o seu comentário na radio sobre a economia Russa , onde voçê afirma que a queda do rublo não é culpa do Oeste ou US e E.U. .
Seria melhor voçê antes de mandar essas opiniões para o ar que se informa-se , pois é capaz de se dár mal .

http://drudgereport.com/
http://infowars.com
http://rt.com

everardo disse...

Por outro lado, caro Milhazes, eu propus a Russia a estudar um projeto de lei a incorporar o Estado do Alaska ao seu território. Quer dizer: o Alaska deveria ser novamente da Russia. Abraço daqui do Piauí, Brasil.
Everardo

João Lopes disse...

Caro José Milhazes.

Já leu o debate entre os filosofos Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin.

http://debateolavodugin.blogspot.pt/

Também disponivel em livro:
http://videeditorial.com.br/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=3345&category_id=10&keyword=Os+EUA+e+a+Nova+Ordem+Mundial&option=com_virtuemart&Itemid=55