sexta-feira, janeiro 23, 2015

Leviatã, filme que continua as melhores tradições intelectuais russas


De forma geral, gosto de me deitar cedo, principalmente no Inverno, mas, ontem, deitei-me às 3 horas  da manhã. Podem não acreditar, mas era grande o desejo de ver o filme "Leviatã", que tem feito correr tanta tinta na Rússia. Uma amiga de Novossibirsk, terra-natal do realizador Zvyaguintsev, enviou-me uma cópia e foi só preciso carregar no teclado do computador.
Pode-se gostar ou não do filme, mas eu considero-o essencial para compreender determinados aspectos da vida na chamada "Rússia profunda". Trata-se de uma obra que vale mais do que muitas análises feitas sobre este país por académicos que não sabem russo, nem estiveram na Rússia o tempo suficiente para compreendê-la.
Não vou contar o enredo, mas apenas digo que um homem simples tenta defender a sua casa dos projectos megalómanos do dirigente de uma localidade algures no Norte da Rússia. Muita vodka, palavrões em farta quantidade, corrupção total dos órgãos do poder, bispos ortodoxos vendidos, bandidos, traições passionais...
Ora foi disto que os "patriotas russos", incluindo o ministro da Cultura, Vladimir Medinski, não gostaram e apressaram-se a acusar o realizador de denegrir a Rússia, a Igreja Ortodoxa, o regime do Presidente Putin, cujo retrato pendurado na parede do gabinete do dirigente local lança um ar sério. E, como não podia deixar de ser, "conjuntural" para ganhar o "Oscar", etc., etc.
Depois de ter visto e filme e tendo em conta as minhas andanças pela província russa, principalmente ligadas ao destino da menina Alexandra Zarubina, posso constatar que "Leviatã" é um retrato feio, cruel, duro, mas verdadeiro de grande parte da Rússia. Aqui incluo Moscovo, embora na capital as coisas tenham dimensões maiores e os acontecimentos aconteçam em ambientes "mais higiénicos".  
O realismo do filme é a principal causa do ódio dos "patriotas" para com ele. Estes querem mostrar uma Rússia que não existe: religiosa, sem corrupção, com dirigentes devotados à causa pública e um povo feliz, que pode beber vodka, mas em doses moderadas e de felicidade. Estes "patriotas" que tentam provar que na Rússia existe a "espiritualidade" perdida no Ocidente, que conserva a Ortodoxia, que o Catolicismo e o Protestantismo deixaram afundar na heresia, etc.
Mas, como diz um provérbio russo, "não se queixe do espelho aquele que tem a cara torta". É doloroso para qualquer povo reconhecer que vive num país onde reina a corrupção, onde dirigem líderes incompetentes, onde a justiça não passa de uma prostituta porca e barata e onde o poder do dinheiro, da riqueza é absoluto. (Isto não diz apenas respeito à Rússia, mas também ao meu país: Portugal, e a muitos outros).
Claro que nas estruturas do Poder, da Justiça, da Igreja há pessoas honestas, sinceras, mas não são elas que, actualmente, dirigem os destinos do mundo.  
Este não é o primeiro filme de Zvyaguintsev, já deu provas noutras fitas como "Regresso" que é um grande realizador, continuador das melhores tradições do cinema soviético e russo. Depois de ver o filme, cheguei à conclusão de que Zvyaguintsev continua a nobre tarefa iniciada pelos clássicos da literatura russa: Tchekhov, Tolstoi, etc., de defesa do "homem simples", desprotegido e quase sempre esmagado pelos poderosos.
Poderão acusar Zvyaguintsev de pessimismo excessivo, pois o filme termina com a condenação do herói a uma pena de 15 anos de prisão de alta segurança. Eu olho para o fim da película de forma diferente: talvez ele tenha uma nova oportunidade depois de sair da prisão. No fim de contas, nada é eterno neste mundo.

7 comentários:

Anónimo disse...

JM e quem é culpado dessa situação?


O sistema? As pessoas ? Ou serão ambos?

José Milhazes disse...

Todos têm culpa, mas o mais grave é que o sistema alimente situações dessas.

Christian N disse...

O próprio diretor e roteirista do filme afirmou que se baseou numa história real, OCORRIDA NOS EUA.

joao bacelar disse...

O filme é, de facto, soberbo. E não teria causado tantos incómodos se não tivesse um fundo de verdade...

Anónimo disse...

Стройный хор небесных агнцев возмущался тут и там.
Что ж ты, сука, Мудозвягинцев, очернил Россию нам?
Фильм с подобными идеями опозорил всю как есть
перед западными геями нашу совесть, ум и честь.
Зритель Штатов ли, Европы ли, что подумает о нас?
Педофилы громко хлопали. Прыгал каждый пидарас.
Им же всем такое нравится — извращенцы, либеразь!
Что ж ты, сука, Мудозвягинцев, скрепы втаптывашь в грязь?
Встал бы утром, взял бы камеру, снял бы куст цветущей ржи —
и вези тупому амеру, правду жизни покажи!
Снял бы про надой с покосами! Как встает страна с колен!
Про любовь портнихи с косами к следаку ФСКН!
Как конвейер лентой тянется, перевыполняя план!
Враг ты, сука, Мудозвягинцев. И говно «Левиафан».
Леонид Каганов

Senghor Fernando Oliveira Ca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Milhazes disse...

Caro, procure na Net, no Youtube.