terça-feira, novembro 22, 2016

Trump e Putin: amigos para sempre?


O que encerrarão estas duas "matrioshkas"?


A imprensa oficial russa e muitos dos políticos russos que apoiam a política do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, não cabiam de contentes com a vitória de Donald Trump nas presidenciais norte-americanas, esperando um “futuro radioso” para as relações entre os dirigentes dos países.
Uma das razões para tanta euforia são algumas das promessas políticas que Trump fez durante a campanha eleitoral. Por exemplo, a política de isolacionismo ou o distanciamento em relação à União Europeia.
Além disso, vêem traços comuns no carácter dos dirigentes russo e norte-americano: ambos se apresentam como patriotas, defensores dos interesses nacionais, pouco preocupados com o politicamente correcto nas relações com os seus adversários. Segundo os apoiantes de Putin dentro e fora da Rússia, isso poderá contribuir para o estabelecimento de boas relações pessoais e políticas entre Vladimir Putin e Donald Trump.
Porém, há uma outra característica comum que torna muito difícil prever quais irão ser as relações entre a Rússia e os Estados Unidos: tanto Putin como Trump são políticos imprevisíveis, autênticas “caixas de surpresa”.
Por outro lado, importa salientar que ambos actuam em regimes políticos muito diferentes. Se, na Rússia, Vladimir Putin é senhor absoluto da política interna e externa, Trump, nos Estados Unidos, tem o seu poder limitado pelo Senado e pela Câmara de Representantes. Além do mais, os tribunais gozam de independência em relação ao poder político. Mesmo que os republicanos controlem essas duas câmaras, isso não as transforma em “fantoches” na mão do Presidente, visto que no seio da família republicana há várias tendências.
O dirigente norte-americano tem também de levar em conta os interesses do capital norte-americano, o que não é obrigatório para Putin que não permite que ninguém se imiscua na sua política. Seria possível nos Estados Unidos um processo semelhante ao da petrolífera Yukos na Rússia, onde o seu patrão foi privado da empresa e atirado para a prisão? Receio que não.
A propósito, um dos primeiros atritos entre Moscovo e Washington poderá estar ligado aos preços mundiais do petróleo.  As companhias petrolíferas norte-americanas, que normalmente apoiam os republicanos, defendem o fim das limitações à exploração de petróleo nos Estados Unidos, o que poderá provocar novas quedas no preço desse combustível nos mercados internacionais. Ora, isto será muito desfavorável para a economia russa, já fortemente afectada por isso.
E mais uma diferença substancial: Donald Trump, ao contrário de Vladimir Putin, tem de prestar contas perante os eleitores e vencer eleições a sério e não farsas eleitorais organizadas.  Por conseguinte, o novo dirigente norte-americano terá de apresentar resultados positivos.
No campo da política externa, Trump poderá tentar resolver mais rapidamente problemas como o da guerra na Síria e no Iraque através de um reforço da presença militar norte-americana na região, o que não corresponde aos interesses do Kremlin. Não é líquido esperar que Washington chegue a acordo com Moscovo sobre a forma como resolver outros graves problemas do Médio Oriente, pois nem Trump, nem Putin aceitarão fazer figura de fracos.
Parece igualmente difícil esperar que os dirigentes norte-americanos enfraqueçam a aliança transatlântica e abandonem a União Europeia, uma das grandes esperanças do dirigente russo.
Nestes processos, terá grande peso a equipa que o Presidente americano irá organizar. A este propósito, vale a pena recordar outro dirigente republicano: Ronald Reagan. Quanto foi eleito Presidente, foi alvo de numerosas críticas e até de chacota, sublinhando os seus críticos que ele não passava de um “actor de segunda”. Porém, reuniu em seu redor uma equipa muito forte, capaz de derrotar o seu principal adversário: a União Soviética. 
Alguns dos nomes apontados para a equipa de Trump, como, por exemplo, James Mettis (conhecido por “Cão Raivoso), para ministro da Defesa dos Estados Unidos, não prometem vida fácil ao dirigente russo.  Porém, há também políticos como Michael Flynn, futuro conselheiro para a segurança nacional, que defende uma maior cooperação dos Estados Unidos com a Rússia na Síria.
Ainda falta mês e meio para que Donald Trump passe a ocupar o cargo de Presidente dos EUA e muita coisa poderá acontecer até lá. Vamos esperar o melhor, mas não há razões para optimismo.


P.S. Embora as relações entre Washington e Moscovo sejam muito importantes, devido ao facto de serem os dois países potências nucleares, a prioridade para Trump, na política externa, deverá ser a China devido às fortes relações económicas existentes entre os dois países, bem como ao poderio crescente de Pequim no palco internacional. 

3 comentários:

Nuno Rolo disse...

Boa noite,
Queria colocar duas questões.
1-Se o novo Presidente Americano realmente fizer o que prometeu em retirar os militares americanos dos paises Balticos, a Russia irá fazer o mesmo que fez na Crimeia?
2-Se o EUA, aumentar a sua produção de petrolio a partir do xisto, poderá desencadear uma guerra comercial entres EUA e a Russia?

José Milhazes disse...

Julgo que nem Trump irá fazer isso, nem Putin terá capacidade para fazer o que você diz. A Rússia é um gigante militar com pés de barro económicos. Quanto ao petróleo, não haverá guerra comercial entre EUA e Rússia, porque, em termos económicos, os primeiros são muito mais fortes que a segunda. Guerra económica poderá dar-se entre EUA e China. A queda do preço do petróleo apenas contribuirá para o enfraquecimento do regime de Putin.

FM disse...

Quanto à preocupação da legitimidade , ex-presidente da YUKOS, Mikhail Khodorkovsky é suspeito num caso de lavagem de dinheiro. Não foi na Rússia mas , sim na Irlanda.
Qual é o país perante sanções das principais potências que visavam o isolamento , continua a manter um assinalável êxito no plano geopolitico e na relação com outros países . Então os EU e a UE não estão numa guerra económica com a Rússia ?