segunda-feira, março 06, 2017

As crianças não são feitas para a guerra




A educação do patriotismo é um dever de cada sociedade, mas nada de patriótico tem alimentar nas crianças o ódio contra os outros baseando-se em povos concretos.

Serguei Choigu, ministro da Defesa da Rússia anunciou, no final do mês passado, que o seu ministério tenciona construir nos arredores de Moscovo uma maquete do Reichstag para treinar os activistas do movimento “Iunarmia” (Exército Jovem), uma espécie de Putinjugend.

“Nós, no parque “Patriota” estamos a construir o Reichstag. Não em tamanho real. Para que os nossos jovens militares possam tomar de assalto um edifício concreto”, explicou o ministro.

Como é sabido, o Reichstag, edifício imponente no centro de Berlim, foi tomado pelas tropas soviéticas a 9 de Maio de 1945, e é considerado um dos mais importantes símbolos da vitória do Exército Vermelho sobre os nazis.

Mas o problema é que Serguei Choigu, talvez porque esteja mais ocupado com as guerras na Síria e na Ucrânia, se esqueceu que esse edifício alberga hoje o Parlamento da Alemanha reunificada.

As autoridades alemãs, perante tal “esquecimento”, chamaram a atenção do ministro russo para esse pormenor. Patricia Flor, funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Alemã, considerou o plano “estranho” e acrescentou que “esta ideia parece-me muito estranha, até porque, hoje, no Reischtag, reúne-se o Parlamento Alemão”. 

Até o politólogo alemão Alexandre Rahr, conhecido pelas boas relações com o Kremlin, considerou a ideia da tomada do Reischtag “estranha e inadequada”, frisando que “aí se reúne o Parlamento da Alemanha Democrática, que se demarcou do passado nazi”.

Não obstante, o Ministério da Defesa da Rússia, face a essa onda de indignação, manifestou perplexidade. O general-major Igor Konachenkov, porta-voz militar, aquele que nas conferências de imprensa comenta os êxitos da aviação russa na Síria, mesmo quando os pilotos erram o alvo, reagiu da seguinte forma: “os ataques a este propósito dos políticos alemães não só provocam perplexidade extrema, como nos obrigam a reflectir sobre quais as suas convicções reais sobre os “construtores” do Terceiro Reich em 1933-1945”.

Ou seja, os críticos da posição russa, no fundo, escondem as suas verdadeiras ideias em relação a Hitler e ao nazismo. Mas o mais estranho é que o Kremlin não utiliza a mesma linha de raciocínio para condenar aqueles que abertamente defendem posições políticas extremas. A reacção do general russo mais parece ser uma das formas para desviar a atenção da política de Putin de financiamento e apoio a grupos de extrema-direita e neo-nazis estrangeiros.

Desconhece-se, por enquanto, que outras maquetes irão ser instaladas no citado parque, mas certamente que lá não irá estar a sede do Partido da Frente Nacional de Marine Le Pen, conhecida “combatente” contra o fascismo e pela democracia.

Suponho também que, pelo menos por enquanto, não haverá uma maquete da Trump Tower, e, a julgar pela quantidade crescente de revelações sobre os contactos pouco transparentes entre os homens de Donald Trump e serviços secretos e diplomatas russos, esse edifício em miniatura não deverá ser erigido. A não ser que…  As coisas mudam com tanta rapidez que vou deixar os prognósticos para mais tarde.

Poderia não valer a pena comentar esta afirmação do general russo se não se soubesse que o Kremlin revê descaradamente a história para justificar a sua política interna e externa. A cerca de um ano de eleições presidenciais, Vladimir Putin prepara mais uma vitória através de métodos tradicionais, populistas e demagogos: muito foi feito no plano interno, mas não fizemos mais porque os inimigos externos e a quinta coluna nos criam problemas com sanções, etc., mas tivemos grandes êxitos na política externa, pois mais de meio mundo tem medo de nós. 



P.S. Não ficarei surpreendido se alguém vier defender a ideia de Choigu dizendo que é melhor que as crianças “façam” guerras ao ar livre, para que pratiquem exercício físico, do que nos computadores. Acho as duas formas de treino desumanas, cruéis e anti-pedagógicas.

2 comentários:

Anónimo disse...

Sr. Milhazes, no Brasil existe uma expressão: os políticos são como nuvens, a cada vez que se olha estão diferentes.

Natya d'Avelino disse...


Caro José:

Encontrei o seu blog, devido ao meu interesse por este país e povo, tão fustigado por guerras e dificuldades; e por uma tal discrepância entre o reconhecimento que por tal têm recebido, e as suas dádivas à cultura e civilização; com excepção das salas de concerto, onde se goza de Tchaikovsky ou Rachmaninov, indiferente ao frio passado por velhinhas e crianças na Rússia, como consequência das sanções. É como se as leis da economia, não existissem para a Rússia. País onde, depois de no passado, a sua pobreza e fome, ser explicada exclusivamente pelo comunismo, tendo outras grandes causas sido omitidas, como seja o preço da 2ªGuerra Mundial, sem recompensas, hoje em dia, mais uma vez, tudo o que nela se passa de errado, se deve ao presidente. Também já é azar.

Vi que o José tem imenso conhecimento académico e existencial da Rússia. Visitei o seu blog, interessada nesse seu conhecimento e experiência da língua e cultura, quando deparei com este seu artigo.

Poderá esclarecer os fundamentos do que abaixo cito do seu texto?

"política de Putin de financiamento e apoio a grupos de extrema-direita e neo-nazis estrangeiros."

Tem referências, que não sejam uma mera repetição do mesmo tipo de acusação em jornais, mas sem provas e dados concretos? Não digo que seja sempre fácil, mas, no entanto, para tais acusações serem tão firmes e acima de qualquer interrogação, deve haver também provas igual e sobejamente evidentes. Existem "facturas", cópias das transaçções para esses financiamentos e apoios, por contraste a uma ausência total desses mesmos apoios e financiamentos da parte dos acusadores de V.V.Putin?

Como sabe, a narrativa oposta, é a de que, justamente, aqueles que se opõem e lutam contra Pr. Vladimir Vladimirovich Putin, é que são os grupos (neo)nazis, de extrema direita, ou/e aqueles que os financiaram e apoiaram, nomeadamente na Ucrânia, por razões geo-políticas e económicas.

Com os melhores cumprimentos,

M