quarta-feira, janeiro 21, 2009

Pluralismo religioso não divide


O pluralismo religioso na Ucrânia não contribui para a desintegração do país, mas garante um clima de tolerância entre seguidores de diferentes crenças religiosas, considera Victor Ielenski, um dos maiores especialistas ucranianos em assuntos religiosos.


“A Ucrânia é o país religiosamente mais plural da Europa. Além de três igrejas ortodoxas, neste espaço coabitam também greco-católicos, protestantes e muçulmanos. Todos eles têm os seus lobbies políticos, mas nenhum é dominante”, declarou Ielenski, numa entrevista à Lusa.


“Além disso”, continua o professor, “a ideia nacional ucraniana não está ligada à religião, como acontece com os georgianos e arménios. Quando foi criado o chamado 'mito nacional', os seus criadores não acentuaram o seu cariz religioso”.


Os ortodoxos ucranianos estão divididos entre três igrejas, sendo a maior a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo, que, como diz o nome, depende do Patriarca russo, com 11.500 paróquias, sendo seguida da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Kiev, com 4.000 paróquias, e a Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala. E


Estas duas igrejas, de vincado cariz nacional, não conseguem chegar a um acordo sobre a fusão, não obstante os esforços de dirigentes ucranianos como o Presidente Victor Iuschenko com vista a juntar os ortodoxos do seu país.


“É curioso assinalar que os crentes ortodoxos não prestam sempre atenção a que Igreja Ortodoxa pertence este ou aquele templo quando vão orar, mas o facto de a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo ser a canónica leva a maioria dos ortodoxos a dizerem que pertencem a ela”, afirmou o mesmo especialista.


Quanto à Igreja Greco-Católica, muito influente na parte ocidental do país e que reúne cristãos que seguem o rito litúrgico ortodoxo, mas reconhecem a primazia do Papa de Roma, Victor Ielenski explica a sua popularidade como forma de os ucranianos se demarcarem de polacos e russos.


“Trata-se de um identificador étnico. Os uniatas, como também são conhecidos os greco-católicos, optaram pelo culto oriental para se distinguirem dos católicos polacos e pela fé católica para se demarcarem dos russos”, sublinha.


A Igreja Greco-Católica surgiu, no séc. XVI, de uma tentativa falhada do Vaticano (União de Brest) de atrair para o seu rebanho os ortodoxos. Não obstante o Papa aceitar que eles continuassem a seguir o rito litúrgico bizantino, a maior parte dos hierarcas ortodoxos não aderiram à união.


Os uniatas foram alvos de duras perseguições na era comunista (1917-1991), mas conseguiram sobreviver e transformar-se numa influente corrente religiosa na parte ocidental da Ucrânia.


Contudo, o professor Ielenski chama a atenção para o facto de esta coabitação pacífica de várias crenças vir a ser posta em causa devido às batalhas políticas.


O problema mais grave está na Crimeia, península situada no sul do país, e não tem a ver com a maioria russófona da região, mas com os tártaros locais.


Os tártaros da Crimeia são o povo autóctone da península. De raízes turcomanas, segue o Islão. Em 1944, o ditador comunista soviético José Estaline deportou todo esse povo da Crimeia para a Ásia Central e a Sibéria a pretexto de que “tinham colaborado com Hitler” durante a Segunda Guerra Mundial.


Quando começaram a regressar à terra natal, no fim da União Soviética, encontraram as suas terras e casas ocupadas por eslavos transferidos para a Crimeia da Rússia e da Ucrânia.


“Os tártaros têm sido um forte aliado das autoridades de Kiev nas tentativas de neutralizar a pressão de Moscovo, que não esconde as suas pretensões territoriais face à Crimeia. Porém, o poder central ucraniano não tem sabido resolver os seus problemas, não arranja maneira de distribuir terras aos tártaros, correndo-se o risco de as posições se extremarem”, considera Ielenski.


“A Turquia e a Arábia Saudita competem na construção de mesquitas na Crimeia e deve-se reconhecer que a última está a vencer a competição, o que significa o alastramento de correntes islâmicas radicais, principalmente entre os jovens”, acrescenta.

2 comentários:

Andrea disse...

É tão bom ver alguém falando da Ucrânia! No Brasil temos fortes laços com este país, pois somos descendentes de imigrantes! A maioria aqui - para fazer um paralelo- é greco-católica, pois nossos avós e bisavós vieram da Halytchená (Galícia), já em 1895.
Somos, portanto, filhos, netos e bisnetos da Ucrânia Ocidental. Conservamos, ao menos em parte, os costumes, da culinária ao folclore, do artesanato ao idioma em nossas celebrações (bizantinas) litúrgicas. Muito bem colocado o texto! Oportuno pra quem ama esta pátria! Um grande abraço luso vindo da antiga colônia, a muitas e muitas léguas da Metrópole.
Andrea Bulka Sahaiko.

Jose Milhazes disse...

Leitora. este mundo é mesmo uma pequena aldeia!