segunda-feira, agosto 10, 2009

Impressões da Tchetchénia

"Eu,culpado? Provem!"

Entrada da residência de Ramzan Kadirov em Gudermes

Avenida Vladimir Putin, Grozni


Caros leitores, tal como estava planeado, eu realizei uma visita, há muito tempo esperada, à Tchetchénia. As impressões são muitas. O objectivo era entrevistar Ramzan Kadirov, Presidente dessa república do Cáucaso russo, mas ainda tive tempo de passear por Grozni, falar com as pessoas.
Antes de publicar o texto sobre as peripécias do encontro com Ramzan Kadirov, quero salientar que os tchetchenos são um povo muito hospitaleiro e atencioso. Isso permitiu falar com bastantes pessoas em Grozni e ficar com uma ideia da cidade que renasce das cinzas.

A entrevista com o Presidente da Tchetchénia, Ramzan Kadirov, estava marcada para o sábado, mas logo que os jornalistas aterraram na capital tchetchena, na sexta-feira, foram avisados de que o encontro poderia ter lugar a qualquer momento.
“O Presidente Kadirov é imprevisível, tem uma agenda muito cheia, movimenta-se muito. Por isso, não podemos dizer qual a hora certa da entrevista”, informou um funcionário do centro de imprensa da Presidência tchetchena.
“Ramzan Kadirov está em toda a parte”, respondeu o funcionário, com o característico humor caucasiano, à pergunta: “Onde se vai realizar a entrevista?”.
As horas passavam, a noite aproximava-se, mas as informações que chegavam do centro de imprensa continuavam a ser pouco precisas. O primeiro sinal chegou ao hotal cerca das dez da noite, quando nos foi dito que deveríamos estar prontos em quinze minutos para sair.
Uma carrinha da Administração Presidencial recolheu-nos no hotel e dirigiu-se a alta velocidade para fora de Grozni, desrespeitando todas as normas do código de estrada. O encontro não se realizaria no palácio presidencial da capital tchetchena.
Passámos a cidade de Argun e, depois de percorrer cerca de 40 quilómetros, quando nos aproximávamos de Gudermes, outra cidade tchetchena, a carrinha parou junto de uma quinta iluminada com lâmpadas com as cores da bandeira tchetchena: verde, branca e vermelha.
As barreiras e homens barbudos, armados com metralhadoras Kalachnikov, vestidos de forma a que era difícil distinguir se estavamos perante agentes da autoridade ou guerrilheiros, eram um sinal de que ali vivia alguém que necessita de protecção.
Depois da revista de gravadores, máquinas fotográficas e telemóveis, a carrinha transportou-nos através de um parque onde havia um hipódromo (Ramzan Kadirov é um grande admirador de corridas de cavalos) e vários edifícios, entre os quais uma pepuena mesquita, uma jaula com um casal de leões, aves exóticas como pavões e outras.
Um novo e longo compasso de espera foi preenchido com conversas com funcionários do centro de imprensa de Ramzan Kadirov sobre a guerra na Tchetchénia e a situação no Cáucaso.
Já passava da uma hora da manhã quando fomos convidados a entrar na residência do Presidente tchetcheno. Descalçámos os sapatos junto da porta da entrada, como manda a tradição muçulmana, e entrámos numa sala de bilhar, onde Kadirov, vestindo um fato de treino, disputava uma partida com um dos seus seguranças.
Foi ainda preciso esperar mais um pouco para que o Presidente trocasse o fato de treino por uma camisa Dolce & Gabbana e se sentasse à secretária do seu gabinete.
Ramzan Kadirov, com intensa gesticulação e emoção, como é próprio dos homens do Cáucaso, respondeu a todas as perguntas, sem fugir às mais desagradáveis. Os gestos tornavam-se mais frequentes e a voz subia de tom quando se defendia das acusações de estar por detrás de assassinatos de adversários políticos e defensores de direitos humanos.
O dirigente tchetcheno nem sequer escondeu a sua preferência face aos actuais dirigentes russos.
“Putin é o meu herói, estaria disposto a dar a vida por ele. Gostaria que ele fosse Presidente da Rússia!”, exclama Kadirov, mas acrescenta: “O Presidente da Rússia é Dmitri Anatolevitch Medvedev, é perante ele que respondo”.
Eram três da manhã quando Ramzan Kadirov retomou a partida de bilhar, depois de se despedir dos jornalistas.
“Ninguém sabe quando é que o nosso Presidente dorme, descansa ou trabalha. Pode acordar de madrugada e dirigir-se para as montanhas, ou realizar reuniões de trabalho”, revela à Lusa um funcionário da Presidência.



Fez-me lembrar José Estaline, que também gostava de trabalhar à noite, podendo levantar da cama os seus ministros a qualquer hora da noite.

23 comentários:

Anónimo disse...

Milhazes, isso já é obssessão, homem!

Por muito mau que seja o indivíduo, quanta gente não trabalha melhor à noite? Isso torna-o igual a Stalin?

Anónimo disse...

Esse criminoso será a grande dor de cabeça da Rússia.

É um tipo com o estilo do Saddam Hussein.

Ítalo

Pippo disse...

Onde é que está a entrevista?

PortugueseMan disse...

Meu caro,

Isto sabe muito a pouco. Você está a pensar em fazer algo mais elaborado sobre a sua visita e sobre o que viu?

Jest nas Wielu disse...

Sim, este homem é que um verdadeiro estadista, jogo bilhar com os guarda-costas e adora a dupla putin – medvedin. Alguém viu Presidente Saakashvili jogar o bilhar? Adorar o putin? Pois, pois, afinal é muito fácil ver quem é que o neo – liberal da direita e quem é o amigo do povo.

Acusações ao José Milhazes são ridículas, experimentem apenas visitar Grozni, depois podem exigir qualquer coisa que fosse.

Jose Milhazes disse...

Anónimo, eu apenas citei Estaline, porque o seu trabalho nocturno ficou famoso na URSS. Eu escrevi que Ramzan Kadirov é igual a Estaline. Leia o texto com atenção.

Pippo disse...

O problema, JM, é que neste blog, quando escreve que o Kadirov, tal como Stalin, trabalha à noite, a mensagem que passa, como sabe, é que "Kadirov é igual ao Stalin".

Presumindo que a sua observação é inocente, doravante deverá ter mais cuidado com as palavras que escolhe pois há muita gente, aqui neste blog, que entende o que quer, e não o que está escrito. Como alías se comprova.

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, os leitores terão de esperar pelos restantes textos escritos na Tchetchénia e pela entrevista até amanhã, na terça-feira, pois foram escritos para a Agência Lusa e devo respeitar a ética da empresa e do jornalismo. Eu vi na net que foram publicados fragmentos, mas os textos completos podem sair na terça em jornais portugueses, daí a demora.
Fica a promessa de que escreverei mais amanhã.

Infante D. Henrique, o Navegador! disse...

IMPERFEIÇÕES DA TCHETCHÉNIA!!!
Na placa com o nome da avenida V.V. PUTIN… falta um ponto depois do segundo V.

anónimo russo disse...

Pippo disse...
O problema, JM, é que neste blog, quando escreve que o Kadirov, tal como Stalin, trabalha à noite, a mensagem que passa, como sabe, é que "Kadirov é igual ao Stalin".

Exatamente. E não acredito que isso é feito sem querer.

Por sinal, as pessoas aqui sabem que foi exatamente Stalin quem deportou Thcethcenos a Kazaquistão? Igualmente, deportou turcos de mesquétia da Geórgia, e os governantes ultra-nacionalistas dos anos 90 nem lhes permitiram voltar. Talvez assim alguem aqui entenda melhor, porque os ossetas não gostam muito do estado georgiano de hoje.

anónimo russo disse...

Por sinal, li uns trechos da entrevista em russo. Kadirov pronunciou umas ideias interessantes. Disse, por exemplo, que a guerra na Tchetchenia dos anos 90 foi uma especie de ataque contra a Rússia do lado de alguns "amigos nossos". E ele sabe do que fala - o seu pai foi um dos lideres da guerrilha de então. Ele disse que estavam na Thcethcenia "especialistas" estrangeiros de 51 países e ninguem deles no fundo não veio lá lutar pelo islão ou se preocupava muito com a sorte do povo tchetcheno. O objetivo era outro.

Não sei se alguns sites russos publicaram exatamente o que ele disse, mas eu li o que acabo de escrever.

Jest nas Wielu disse...

A jornalista russa do diário moscovita “Moskovsky komsomolets”, Yuliya Kalinina, ficou desagradada com a entrevista colectiva, que Kadyrov concedeu aos jornalistas:
www.mk.ru/politics/publications/331692.html

Anónimo disse...

Snr. Milhazes,
Obrigado pela notícia e desde já uma nota prévia, o facto de ninguém saber ao certo onde o homem tem poiso certo tem óbvia explicação, preocupações securitárias máximas ao bom estilo dos ditadores.
No demais, parece-me estarmos perante um cacique local, melhor especificando, um war lord ao melhor estilo africano-somaliano, na minha modesta opinião o homem tem cara de trolha e aspecto de bandido mafioso.
Tome cuidado na Chechenia, pois corre o risco de dar entrada no hospital, com a cabeça debaixo do braço.
PS: sintomático do novo-riquismo ostentatório parolo e da falta de sentido de estadista: os leões e o globo terrestre dourados "gold-plated" - ou será mesmo ouro? - e para escrever, uma prosaica esferográfica de propaganda grátis.
Nenhuma alma caridosa lhe oferece uma Montblanc? Isso, sim, uma "caneta de dirigente" e condizente com os leões e toda a restante parafernália em ouro. Ou será que seria inútil, por o homem, pouco ou quase nada sabe escrever?

Tiago disse...

"Descalsámos os sapatos junto da porta da entrada"
*descalçámos.

Jose Milhazes disse...

Tiago, obrigado, vou emendar.

PortugueseMan disse...

Uma sugestão caro JM,

porque não usa um corrector ortográfico?

Antes de publicar um texto, faça "copy & paste" para o Word e detecta lá rápidamente os erros. Não perde muito tempo com isto.

Anónimo disse...

O maior problema provavelmente será escrever português num teclado cirílico

Anónimo disse...

Este homem barbudo em frente da mapa parece amigo do Ramzan, so falta-lhe um Kalashnikov...

Anónimo disse...

Alguém viu Presidente Saakashvili comer a sua gravata?

Anónimo disse...

Já o Kadaffi também não se sabe onde dorme e quando, até porque tem insónias crónicas.

Anónimo disse...

Foi um bom trabalho jornalístico, até atendendo às circunstâncias em que foi feito. Parabéns, José Milhazes!
Faltam todavia os detalhes da entrevista.

Anónimo disse...

Caro José Milhazes,
Em português é Chechénia que se diz da mesma forma que República Checa e outros topónimos semelhantes.
Por outras palavra, é com CH, e nunca TCH, memso que nesses línguas tenha outra pronúncia, aqui falamos em português!
Gostaria que respeitasse a maneira habitual de escrever esses topónimos. Obrigado!

Anónimo disse...

... outras impressões pelos próprios chechenos!

Sorte têm os que verdadeiramente percebem este poema checheno!
Traduzido nunca é o mesmo! Por si só ele já é um comentário.

"Ламанах духдуьйлу шал шийла шовданш
Шиэн бекъачу кийрана Ӏаббалца ца молуш,
Ӏин кӀоргиэ буьйлш, мела муж муьйлуш,
Варшан йистиэ йолу маргӀал сийна буц
Шиэн оьздачу зоьрхана буззалца ца юуш,
Орцал лахабуьйлуш, сема ладуьйгӀш,
Иччархочун тоьпуо лацарна, кхоьруш,
Дехачу диэгана буткъага мотт хьоькхуш,
Мокхазан бердах куьрана га хьоькхуш,
Попан орамах торгӀала тӀа детташ,
Лергаш дуьхьал туьйсуш, кур аркъал туьйсуш,
Гу лекха буьйлуш, гӀелашка ва гӀергӀаш,
Масаниэ сай лиэла гӀелашца ва боцуш!
Вай биэн дац, ва кӀентий, аьлар ца хуьлуш?"

Cumprimentos. NAX