domingo, julho 25, 2010

Blog dos leitores (A DISNEYLAND SOCIALISTA)


Texto traduzido e enviado pela leitora Cristina Mestre:

"Reportagem de uma jornalista russa na Bielorrússia
No voo Moscovo – Minsk costumam dar jornais bielorrussos aos passageiros. Ao lê-los, mergulhamos num mundo fantástico de ordenhas e ordenhadoras, de heróis da produção agrícola, da luta pelas colheitas e pelo conhecimento, de êxitos desportivos e laborais.
Estes jornais alimentam-nos de moral em grandes doses. Na sociedade bielorrussa de gente boa também aparecem uns meliantes, condenados ao fracasso: uns burocratas maus, com os quais esta mesma sociedade leva a cabo uma permanente luta vitoriosa.  
Não sei, de facto, que relação têm estes jornais com o jornalismo mas o facto é que acalmam espantosamente os nervos. 
No mundo das futuras crises financeiras mundiais, os médicos deveriam receitar imprensa bielorrussa a todos os que estão aflitos, em vez de calmantes e soporíferos.
A Bielorrússia é a última ilusão de estabilidade e regresso da infância soviética, quando não havia publicidade nem engarrafamentos nas estradas, quando todos tinham a confiança tranquila que o futuro seria …igual ao presente.

Em frente rumo ao passado
No restaurante “Déjà vu”, no centro de Minsk, há esculturas de mármore de jovens comunistas com cornetas, vagueiam imponentes empregadas sonolentas, nas paredes estão pendurados retratos do Politburo e carpetes gastas (tal como na minha infância, quando colocar carpetes no chão era considerado um hábito burguês e uma bofetada à moral pública).
Os altifalantes difundem com entusiasmo: “Nada de tristezas, temos toda a vida pela frente!”. Parece que os bielorrussos não têm razões para estarem tristes. Têm um TSUM e um GUM, ruas de Lenine e de Karl Marx, avenidas largas e direitas. A criminalidade, pelos vistos, não existe: as crianças andam na rua até altas horas da noite. As pessoas são amigáveis e um bocado inibidas, os taxistas são bem-educados e dão troco de acordo com o taxímetro, os bêbados andam a direito, em geral mantendo a direcção, e não são brutos. As mulheres são moderadamente bonitas, os homens são moderadamente feios.
Pela discrição nas cores, pela fleuma e moderação no comportamento, a Bielorrússia está mais próxima da Europa do que a Rússia.  
O lema do presidente “um prato de torresmos e um cálice de vodka” é rigorosamente respeitado: nas ruas não há mendigos e um naco de toucinho e um cálice de vodka estão garantidos a todos.
Acrescente-se a isso a natural sovinice camponesa dos bielorrussos. “Quando compro toucinho na loja, levo fresco e vez de salgado, que é mais barato, e salgo-o em casa”, explica-me uma minha conhecida. “Nós, bielorrussos somos poupados, gostamos de guardar coisas como os hamsters. Todos têm qualquer coisa escondida em casa para o que der e vier”.    
A popular rede de lojas “Rubliovski”, que eu erradamente tomei por um oásis de luxo e produtos gourmet, está antes vocacionada para as pessoas que gostam de poupar. “Isto não é a vossa Rubliovka”, explicaram-me os bielorrussos ligeiramente ofendidos. “Rubliovka vem da palavra rublo. É uma loja para quem cada rublo conta”.
O bielorrusso não é só uma nacionalidade mas uma mentalidade.
“Trata-se de um fenómeno de um país de camponeses, ou melhor, de um país de camponeses migrantes não adaptados”, diz o politólogo bielorrusso Leonid Zaiko. 
É daqui que vem a sua prudência de pessoas do campo, a capacidade de se adaptar a uma realidade pobre, a baixa emigração, a astúcia amenizada por uma gentileza faladora e uma irremediável hostilidade em relação a qualquer ideia revolucionária que tenham ouvido nos últimos 20 anos.
Em Moscovo há muito menos trabalhadores imigrantes bielorrussos do que tajiques, moldavos ou ucranianos.  
Os bielorrussos ficaram presos à terra dos seus campos. Eles sentem nostalgia em relação ao seu passado soviético, basta-lhes o seu presente e têm medo do amanhã. 
Neles está há muito tempo escondida uma desconfiança em relação ao enriquecimento rápido, aos novos-ricos. Não é tanto uma assumida consciência de classe mas sim uma secreta inveja de camponês. Quando há umas semanas, um carro velhinho embateu num Bentley em Minsk, os cidadãos viram-se a braços com um complexo sentimento: por um lado, orgulho de na Bielorrússia terem surgido os primeiros Bentley, por outro, o embate satisfez-lhes o seu sentido de justiça social (“é bem feito, para o Bentley não andar a fazer-se de fino!)  
“No nosso país é indecente ser rico”, diz Viktor Lobkovich, um empresário local.
“Não se pode mostrar o dinheiro que tens: para quê irritar as pessoas? Aqui não há um fosso tão grande entre os pobres e os ricos, como na Rússia”.
“Então vocês gostam de serem todos nivelados?”, perguntei.
“Gostamos da estabilidade”.
“Estabilidade na pobreza?”  
“Ainda que assim seja. Não temos pessoas MUITO pobres, mas também não há bielorrussos na Forbes.”
A elite russa gosta de ter o Abramovich, que pode comprar iates ou um submarino, gosta dos oligarcas”, diz o politólogo Leonid Zaiko. “Quando eu olho para essas caras tenho a impressão que estou no futebol: andam 20 jogadores no campo e os outros estão sentados a ver. Na Bielorrússia não há um único iate. É perigoso tê-los. Se alguém aparece com algum, o presidente “privatiza-o” logo e mete o dono na prisão. No nosso país gostam de prender as pessoas.
Se um empresário começa a ter dinheiro, é convidado para uma “conversa” com as autoridades locais e estas propõem-lhe afavelmente que patrocine alguma escola ou hospital (conforme os rendimentos).
Esta é uma proposta que pode ser recusada mas que é melhor não recusar já que na Bielorrússia há cerca de 70.000 leis e actas normativas e não será difícil encontrar uma razão para prender um empresário renitente.
O patrocínio é uma espécie de imposto moral: se tu tiveste sorte, faz favor de ajudar a sociedade.
“É mais fácil para mim dar uns computadores e equipamento desportivo todos os anos à escola, do que pôr em risco a minha liberdade”, explicou-me um empresário conhecido.
(continua) 

http://kp.by/daily/24344/534140 "

13 comentários:

António disse...

Olá Cristina,

Parabéns e mil obrigados pelo excelente artigo e pela tradução! O retrato é dos mais fiéis que já tive oportunidade de ler. Aguardo ansiosamente a segunda parte.

António Campos

José Manuel disse...

"Na Bielorrússia não há um único iate. É perigoso tê-los."

Mas onde é que iriam colocar um iate num país que não tem costas marítimas nem acesso ao mar?

António disse...

Tendo em conta que na Bieorrússia existem mais de 11 mil lagos, tendo o maior cerca de 80 quilómetros quadrados, desfrutar de um iate nesse país não seria certamente difícil.

António Campos

António disse...

Cristina,

Infelizmente na Bielorrússia, o patrocínio compulsivo não está limitado a quem está bem na vida. É frequente "pedir" aos empregados duma empresa ou a funcionários estatais, seja qual for o seu nível de vida, que contribuam "voluntariamente" para um determinado investimento social, seja através de pagamentos em contado, seja por via de horas de trabalho não pagas.

Quem se recusa a ser um desses "voluntários" está sujeito às mais variadas represálias.

António Campos

Jose Milhazes disse...

Caro António, esse é um exemplo típico de uma tradição comunista e soviética do "voluntariamente obrigatório" ou do "obrigatoriamente voluntário".

ALONE HUNTER disse...

Parabéns pelo artigo! Para mim que nunca teve oportunidade de conhecer estas regiões que não saem de minha mente, foi uma degustação do cotidiano daquele país!!!

Sugiro que se repita artigos deste tipo, porém retratando o real cotidiano dos russos, o dia-a-dia dos russos, porém não da região de Moscow, mas de regiões como a Sibéria, Península de Kola, etc... Regiões que habitam a minha imaginação e que apenas visito através do meu Google Earth!!!

Como é a vida de um cidadão russo comum em cidades como Murmansk, Smolensk, Yaroslavl, Yekaterinburg, Chelyabinsk, Vladivostok, etc...

Estes tipos de coisas, retratar o cotidiano dos russos, não apenas retratar neste blog o lado "podre" da Rússia...

Está aí uma excelente sugestão!!! Retratem como é o cotidiano dos russos, como é o povo russo em geral, etc...

Abraços!

Wandard disse...

"Como é a vida de um cidadão russo comum em cidades como Murmansk, Smolensk, Yaroslavl, Yekaterinburg, Chelyabinsk, Vladivostok, etc...

Estes tipos de coisas, retratar o cotidiano dos russos, não apenas retratar neste blog o lado "podre" da Rússia...

Está aí uma excelente sugestão!!! Retratem como é o cotidiano dos russos, como é o povo russo em geral, etc..."

Falou bem Alone Hunter.


Cristina,

Parabéns pelo texto e pela tradução, gosto do que você costuma postar pois não tem caráter tendencioso mantendo ainda a alma pura do jornalismo que infelizmente vem se perdendo gradativamente.

Abraço,



Wandard

Nuno B. disse...

"nacionalizar" em vez de "privatizar"?

Parabéns, um retrato muito interessante da "Rússia Branca"!

Cristina disse...

Nuno B
Tem razão quanto ao "privatizar". Eu própria hesitei no termo, que está assim no original. Aliás na própria imprensa russa oficialista há um certo pudor em utilizar a palavra "nacionalização", mesmo quando se trata disso mesmo, como é o caso.

Jest nas Wielu disse...

Um retrato um pouco ingénuo, pois os jornalistas ocidentais têm o péssimo habito de acreditar naquilo que as pessoas provenientes das sociedades totalitárias lhes dizem em conversas públicas. Embora cada cidadão que teve o azar (sorte) de nascer na URSS sabe que “até as paredes têm ouvidos” e pode dizer a verdade apenas quando estiver com os copos, no meio de poucos amigos íntimos.

Anónimo disse...

Repentinamente passei a gostar deste lugar, quase me vejo morando lá... :)

António disse...

Caro Wandard,

Talvez o jornalismo tolerado nos países totalitários não tenha o carácter "tendencioso" que aponta, parecendo-se mais com as descrições brandas dos tradicionais guias turísticos, que só mostram as paisagens bucólicas e as particularidades culturais, dando tudo por tudo para esconder do olhar crítico da população a podridão que corrói a sua sociedade.

É mais do que óbvio que a sua definição de pureza jornalística é diametralmente oposta à minha. Numa sociedade livre e democrática, o jornalista tem não só o direito mas também o dever de intervir e expor os cancros sociais. Ao fazê-lo, está a dar a sua contribuição indispensável para melhorar a sociedade onde está inserido.

Na minha terra, o "jornalismo puro" que refere dá pelo nome de propaganda e não beneficia em nada a sociedade em geral. Só quem se serve dela para fazer avançar a sua agenda. E para quem é de fora, basta comprar um guia Michelin para obter esse tipo de informação.

Não pára de me espantar o número de pessoas que fazem comentários neste blog, que se arvoram em defensores das classes oprimidas e que depois dão cobertura a regimes totalitários que não se podiam estar mais nas tintas para os seus constituintes, chamando "tendenciosos", ao melhor estilo soviético, aos jornalistas que cumprem o seu dever cívico de os expor ao escrutínio popular.

António Campos

Cristina disse...

Completamente de acordo, António!