Quinta-feira, Junho 30, 2011

Vladimir Putin vai ocupar-se da sua higiene depois de Março de 2012


Não há dia em que o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, não nos traga uma surpresa ou não nos brinde com  algum aforismo.
Hoje, numa conferência da Rússia Unida, realizada em Ekaterimburgo, nos Urais, Putin decidiu revelar o que irá fazer no dia 13 de Março de 2012, o dia a seguir às eleições presidenciais.
"Irei lavar-me. Tanto no sentido próprio, higiénico, como no plano político. Depois de todas as campanhas eleitorais que nos esperam, será necessário tratar a fundo da higiene", declarou. 
Esperemos que isto não seja interpretado pelos restantes dirigentes do Partido Rússia Unida como um apelo aos russos para que poupem água e sabão até Março de 2012. 
Putin explica que a necessidade de higiene profunda se deverá ao facto de as eleições serem sujas. Curioso, o primeiro-ministro de um país tão grande como a Rússia reconhece antecipadamente que as eleições, parlamentares e presidenciais, não irão ser limpas.  
Pergunta-se: num país completamente controlado por Vladimir Putin e seus "muchachos", quem irá sujar as eleições? A oposição marginal que é impedida de participar no ato eleitoral? Os serviços secretos ocidentais? O obediente Partido Comunista da Federação da Rússia?
Não acredito. A julgar pela experiência passada, parece ser mais sensato pensar que os governadores das regiões e repúblicas da Rússia, as comissões eleitorais regionais e central serão os principais "produtores de lixo eleitoral". Como dizia um dirigente tchetcheno, se for preciso 104% dos votos, garantiremos.
Admiro uma qualidade em Vladimir Putin: a frontalidade. Ele não está com meias medidas, diz a verdade: depois de se manchar nas eleições sujas que ele e o seu "poder vertical" vão organizar, precisa de tratar da sua higiene. 
Por isso, preferia que ele se candidatasse à Presidência da Rússia nas eleições de Março de 2012 e pusesse fim aos mito sobre o dueto que governa o país e sobre o bom (Medvedev) e o mau (Putin) governantes.
Para aumentar a "sujidade" das eleições, Putin decidiu criar a Frente Popular Unida. E embora hoje tenha dito que ninguém deve ser obrigado a ingressar nessa força política, todos sabem que as pessoas são levadas para essa organização sem o seu conhecimento e contra a sua vontade. Empresas públicas inteiras, como, por exemplo, os Correios da Rússia ou os Caminhos de Ferro da Rússia, filiam-se na Frente Popular.  Até a Organização das Loiras da Rússia aderiram à dita! Mas alguém imaginou uma coisa dessas num país minimamente democrático? 
Isto tem apenas um nome: corporativismo, que os portugueses conhecem bem de outras alturas. Basta mudar o nome de Frente Popular para União Nacional.
Vladimir Putin terminou a sua tirada com as palavras de Winston Churchill:  "A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas". E aqui tem toda a razão: a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas, incluindo o regime por ele criado, acrescento eu.
 


Quarta-feira, Junho 29, 2011

Oposição síria é contra ingerência externa no confronto com Presidente Assad


Mikhail Marguelov, assessor do Presidente Medvedev, encontrou-se ontem com membros de uma delegação da oposição síria, tendo estes pedido que o Kremlin apoie a resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a Síria.
“Apelamos a que a posição da Rússia se torne mais positiva no Conselho de Segurança. Queremos que a Rússia não só dê um voto de apoio às decisões tomadas pelo CS da ONU, mas que esteja nas origens das mudanças a que apelamos”, disse Ziade.
Outro membro da delegação síria, Mahmud Al Hamsa, declarou que ela espera que a Rússia, na ONU, condene a violência e mortes provocadas pelo regime de Assad.
Marguelov insistiu no diálogo político como forma de resolver os problemas internos desse país do Médio Oriente, mas nada prometeu quanto à discussão deles nas Nações Unidas.
Antes, o Presidente Medvedev afirmou várias vezes que o seu país não apoiará qualquer resolução do CS da ONU sobre a Síria, pois receia que se repita o “cenário líbio”, ou seja, abra caminho a uma intervenção armada da NATO..
O regime do Presidente da Síria, Bashar Assad, deve ser derrubado pelos próprios sírios, sem ingerência do exterior, declarou Ravdan Ziade, chefe de uma delegação da oposição síria, à Ria-Novosti.
“No que respeita ao derrube do regime, apoiamo-nos, antes de tudo, no povo sírio”, acrescentou.
Ravdan Ziade frisou que “a oposição síria é contra a ingerência externa na solução da crise na Síria”.
Segundo ele, “a direção síria não tem intenção séria de dialogar com a oposição”.
Porém, caso surja essa intenção, a oposição impõe condições: “antes de tudo, é necessário retirar os blindados das cidades sírias, fazer regressar as tropas aos quartéis. Também é preciso libertar todos os presos políticos e permitir ao Conselho para dos Direitos Humanos da ONU que envie os seus representantes à Síria para investigações”.
A delegação da oposição síria está em Moscovo a convite da Sociedade de Solidariedade com Países da Ásia e da África.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia fez questão de sublinhar, ontem, que “se trata de uma visita particular” e que “não estão previstos encontros com os seus representantes”.

Bielorrússia pode transformar-se em plataforma chinesa na Europa



A Rússia interrompeu o fornecimento de eletricidade à Bielorrússia por falta de pagamento. A InterRao, empresa controlada pelo Estado russo, cumpriu a ameaça e prometeu repor o serviço assim que forem pagas as faturas de março, abril e maio.
A Bielorrússia está confrontada com uma grave crise económica e deve a Moscovo 37 milhões de euros por fornecimentos de energia elétrica.
A primeira vista, trata-se de mais um episódio da longa guerra entre o Kremlin e o dirigente bielorrusso Alexandre Lukachenko, mas, na realidade, o problema é bem mais sério.
A economia da Bielorrússia encontra-se no limiar da falência e Lukachenko necessita urgentemente de ajuda económica e financeira. Moscovo diz-se disposto a estender a mão de apoio, mas, em contrapartida, exige de Minsk a realização de um grande programa de privatizações, onde as empresas russas terão prioridade.
O dirigente bielorrusso recusa-se a vender a "propriedade do povo", mas precisa de dinheiro.
Tendo em conta as relações existentes com a União Europeia e Estados Unidos, Lukachenko não pode esperar apoio desses lados.
Encurralado, ele teve uma ideia no mínimo curiosa: pedir apoio à China.
Segundo os especialistas na matéria, Pequim está disposto a dá-lo, pois, em termos geoestratégicos, pode transformar esse país numa plataforma sua na Europa.
Além disso, isso poderá significar o funeral da ideia de criação de um Estado conjunto da Rússia e Bielorrússia.
Tudo isto se a pressão interna, apoiada de fora, não levar a alterações significativas na política da direção bielorrussa. Todas as quartas-feiras, milhares de pessoas saiem para as ruas de Minsk em sinal de protesto contra a política de Lukachenko. Os, manifestantes, convocados através das redes sociais, são para o centro de Minsk em silêncio e reconhecem-se por baterem palmas inesperadamente ou comerem gelados.
A polícia é que responde sempre da mesma forma, com dezenas de prisões.

Terça-feira, Junho 28, 2011

Da irmandade luso-brasileira em Moscovo (Moscou)

Antes de começar a escrever o texto, quero deixar claro que nunca pus em causa a irmandade luso-brasileira antes da sua escrita, como não porei depois. Para mim, isto é sagrado e ponto.
Mas regressemos à prosa. Alguns dias atrás, uma senhora russa de uma empresa organizadora de eventos telefonou-me e, depois, enviou-me um mail com um convite para participar na festa "Brazil is calling you", organizada pela Embaixada do Brasil em Moscovo (Moscou).
Fiquei surpreendido, porque nunca tinha sido convidado para um evento organizado pela Embaixada do país irmão, e mais surpreendido fiquei por me terem telefonado várias vezes a pedir confirmação. Talvez isso tenha acontecido (isto é apenas uma suposição) por a festa ter empresas portuguesas entre os patrocinadores.
Lá fui eu à procura do "Riz Carlson", restaurante com pretensões situado no centro da capital russa. Cheguei e fiquei muito surpreendido com as medidas de segurança à entrada. Antes de se entrar no elevador para chegar ao 14º andar, era preciso identificar-se, mas nem todos. Não entendi o critério que levava uns a entrarem sem controlo e outros depois do controlo, mas em Moscovo (Moscou) tudo pode acontecer.
Entrei no dito restaurante e dei com pessoas amontoadas à entrada e de pé por entre as mesas.  Acho que os organizadores da festa não estavam à espera de tanta gente.
Encontrei aí outros portugueses e decidimos encontrar uma mesa, mas foi-nos dito que nem todos os convidados tinham direito a cadeira e tentaram encaminhar-nos para uma varanda de onde se podia ver apenas os convidados VIP a jantar, o que, diga-se de passagem, não é lá muito agradável.
Recorremos à ajuda de Danilo, um funcionário da Embaixada brasileira que, depois de grandes esforços, nos conseguiu sentar a uma mesa, mas longe dos VIP's. Sentámo-nos e ficamos à espera de uma bebida que fora prometida no convite, mas apenas chegou a ementa do restaurante com preços pouco convidativos.
Perguntei, por curiosidade, ao empregado de mesa: mas será que não nos foi prometido uma bebida? 
O jovem ficou surpreendido, mas, depois de pensar um pouco, respondeu: cada convidado tem direito a uma caipirinha. Uma revelação destas é valiosa depois de uma hora de  busca, mas nem sequer isso bebemos, pois a disposição já estava estragada.
Mais tarde deveria atuar uma "brazilian diva" Gabriella, mas não fiquei. Peço aos irmãos brasileiros perdão pela minha ignorância, mas só conheço a Gabriela do Jorge Amado. Se convidaram a maior parte das pessoas apenas para ver o espetáculo, os organizadores podiam ter-nos convidado para mais tarde. 
Não é boa ideia pôr dezenas de pessoas a olharem para a mesa dos VIP's durante pelo menos mais de uma hora. Primeiro, os VIP's podiam sentir-se incomodados com a quantidade de olhos neles concentrados e, segundo, isso é altamente prejudicial para a saúde dos que estão a olhar.
Mas o mais curioso foi que, quando íamos a sair, uma das organizadoras do evento se aproximou de nós e pediu desculpa pela desorganização!
Não quero ingerir-me nos assuntos internos do país irmão, mas não ficaria mal uma maior atenção para com a imagem do Brasil. 
E por falar em imagem. Hoje, quando conversava com uma professora de língua portuguesa numa das universidades de Moscovo (Moscou), ela queixava-se que o Brasil não envia um leitor (professor) de português para a capital russa há mais de um ano, coisa que não acontecia mesmo nos períodos de forte crise económica no país-irmão. 
Embora vivendo uma pesada crise económica, Portugal (o Instituto Camões) vai mantendo o seu leitor de língua portuguesa em Moscovo, mas é claramente insuficiente para manter acesa a chama da lusofonia na Rússia. 
Irmãos brasileiros, vá lá, dêem uma ajudinha...

Blogo do leitor: (A Nova Nobreza: os herdeiros do KGB)

Texto enviado pelo leitor António Campos:


"Nos países lusófonos, e especialmente em Portugal, a Rússia continua a ser uma “adivinha embrulhada num mistério dentro de um enigma” que, quase setenta e um anos após Winston Churchill o ter afirmado pela primeira vez, continua a ser a definição mais precisa da sua realidade, mesmo para os entusiastas estranhos que insistem, com maior ou menor sucesso, em tentar deslindá-la. Em geral, a população portuguesa tem uma noção que raia o residual da importância geopolítica do mais extenso e misterioso país do planeta e a vaga de imigração proveniente dos destroços da antiga União Soviética pouco fez para estimular a curiosidade local. O desinteresse aparenta ser mútuo, se exceptuarmos as habituais curiosidades culinárias, os casamentos mistos, falhados na sua esmagadora maioria por razões que dariam para escrever um tratado, e as estrelas do futebol de ambos os lados, que transitam deste clube para aquele a troco de milhões suficientes para fazerem manchete nos equivalentes masculinos da imprensa dos mexericos. E fica por aí.

Para isso muito contribui a escassez de publicações recentes, traduzidas para português, de livros de autores russos que se dedicam a escrever sobre a sua realidade social e política. Sabemos que já não há União Soviética há mais de 20 anos e o pouco que é divulgado e discutido em português vai-se fazendo através do blog “Darussia” do jornalista e historiador José Milhazes, bem como de alguns outros com projecção muito mais limitada.

Felizmente, para os leitores da língua inglesa, a realidade é diferente. Para além de muitos descendentes da emigração “branca” russa para o ocidente, alguns dos quais se tornaram jornalistas e escritores com projecção significativa, muitas das publicações de carácter político de autores e jornalistas russos acabam por ser traduzidas para inglês, ou mesmo escritas de raiz nessa língua. É o caso do “The New Nobility”, escrito pelos jornalistas Andrei Soldatov e Irina Borogan, co-fundadores do site agentura.ru, uma espécie de observatório online independente das forças de segurança russas, que luta pela sua existência há mais de dez anos.

O livro que escreveram é extremamente importante, na medida em que, para entender a sociedade e a política russa actuais, é necessário entender em primeiro lugar o papel que as forças de segurança e, em especial o FSB, desempenham no aparelho de estado. E a forma como os seus tentáculos penetram no tecido social. E é importante também, na medida em que o Ocidente, mais preocupado com a chamada “guerra ao terror” no início da primeira década do século, virou a sua atenção para o radicalismo islâmico, enquanto o seu antigo inimigo da guerra fria transitava silenciosamente do caos de Yeltsin para um estado que passou a ser dominado pelos herdeiros do antigo KGB, que procuram agora ganhar alavancagem geopolítica com a arma da venda e do transporte de petróleo e gás.

O subtítulo do livro, cujos autores revelam um conhecimento enciclopédico e quase obsessivo do tema, é revelador do seu tom geral: “A restauração do estado policial russo e a persistência do legado do KGB”. Conta-nos como os destroços do KGB foram organizados por Putin e transformados numa “nova aristocracia”, cujo objectivo é o de proteger o regime. Retratada na propaganda estatal como a única força capaz de restaurar e manter a estabilidade do país, é, nas palavras dos autores, “em muitos aspectos bastante mais próxima das implacáveis Mukhabarat, as polícias secretas dos países árabes: dedicadas à protecção de regimes autoritários, responsáveis unicamente perante os que ocupam o poder, impenetráveis, totalmente corruptos e livres de utilizar métodos brutais contra indivíduos ou grupos suspeitos de terrorismo ou dissidência”.

Utilizando fontes indirectas, jornalismo de investigação e entrevistas com agentes no activo, que permanecem anónimos em muitos casos, Soldatov e Borogan embalam o leitor num conto sinistro, em que Putin, levado à popularidade após os misteriosos ataques bombistas em Moscovo, em Setembro de 1999, destrói progressivamente uma série de agências de segurança até aí independentes e competindo por influência, tais como a polícia fiscal, a agência de comunicações (dedicada à segurança da informação e das comunicações) e a guarda fronteiriça, transferindo os seus poderes para o FSB. A organização assume poderes de contra-informação até no exército, numa manobra que se assemelha à introdução dos famosos “comissários políticos” do NKVD nas fileiras do Exército Vermelho. Os arquitectos desta reorganização são todos amigos de Putin, antigos funcionários dos departamentos regionais do FSB de São Petersburgo e da Carélia. Nomes conhecidos que ainda hoje ocupam altos cargos no aparelho de estado, tais como Nikolai Patrushev, Rashid Nurgaliev, Victor Ivanov e Igor Sechin.

Passando pela descrição detalhada da promoção de uma espécie de culto de personalidade da organização, apoiado em “séries policiais” encomendadas, algumas até com significativa popularidade junto do público, os autores descrevem o ataque às organizações não-governamentais, aos cientistas, aos ambientalistas, e aos jornalistas estrangeiros em nome do mito do inimigo externo contra a fortaleza Rússia, e a infiltração em movimentos oposicionistas: a repressão da “quinta-coluna”, reforçada ainda mais após a introdução, pelo presidente Medvedev, das leis contra o “extremismo”.

Estas leis foram o veículo ideal para intimidar a comunidade blogger, que ainda constitui a esperança de um dia ser possível existir algo que se assemelhe a uma sociedade civil na Rússia. Em Março de 2009, segundo os autores, Dmitri Soloviev, líder do grupo oposicionista Oborona em Kemerovo, foi criminalmente acusado de criticar o FSB no seu blog do LiveJournal. Os alegados “crimes" foram dois posts, intitulados “o FSB mata crianças russas” e “Comportamento arbitrário do FSB no centro de recrutamento militar”. A acusação entendeu que a informação publicada por Soloviev “incitava ao ódio e à hostilidade e degradava um grupo social: a polícia e o FSB”. AS acusações foram mais tarde retiradas. O livro relata inúmeros exemplos semelhantes, alguns cujas acusações raiam o ridículo, terminando o capítulo com uma citação da conhecida activista dos direitos humanos Ludmila Alekseeva: “Temos uma sensação de “déjá vu”. Retornámos à prática da vigilância sobre os dissidentes, arrastando pessoas para fora de comboios, evitando conversas. Esta prática não só voltou como foi enriquecida com novos métodos de pressão”.

Interessante também é a forma como é descrita a transferência de privilégios materiais para os oficiais do FSB, e como os Volgas negros com motorista dos generais do KGB se converteram em Mercedes, BMWs e Audis ostentando a famigerada luzinha azul, que até lhes permite andar em contramão a alta velocidade, bem como as mansões dos generais do FSB paredes-meias com as dos oligarcas queridos do regime, na prestigiosa área de Rublyovka.

A segunda parte do livro lida com a eficácia das forças de segurança na abordagem às grandes crises terroristas da primeira década do século: a crise dos reféns no teatro Dubrovka e a tomada da escola em Beslan. O leitor é confrontado com relatos detalhados em primeira mão do desenrolar dos acontecimentos, na perspectiva dos próprios jornalista a testemunhá-los, quase minuto a minuto. Para quem ficou confuso com a cobertura mediática dos acontecimentos e a sua filtragem pelo regime, esta obra constitui um recurso valioso, se extremamente dramático, e engloba a demonstração inequívoca de que, apesar do comportamento descoordenado e incompetente do FSB, ninguém do aparelho foi punido ou afastado em virtude do seu desempenho. Segundo os autores, no dia 19 de Outubro de 2004, Irina Khakamada, deputada liberal da Duma, exigiu um inquérito parlamentar ao desastre de Beslan. Apenas 44 dos 441 membros do parlamento votaram a favor. Acabou por não ocorrer qualquer inquérito parlamentar.

A obra não poderia ficar completa sem capítulos que abordassem o papel das forças de segurança em execuções extrajudiciais e assassinatos de separatistas no estrangeiro, tais como o do senhor da guerra checheno Zelimkhan Yandarbiyev em Doha em 2004 e, como não poderia deixar de ser, o envenenamento em Londres do dissidente e antigo tenente-coronel do FSB, Alexander Litvinenko.

O último aspecto abordado pelo livro é a aliança entre o FSB e uma rede não oficial de hackers simpatizantes do regime, pioneira nos ataques aos sites separatistas chechenos, e a diversificação dos seus ataques a sites de grupos “extremistas”, tais como o do partido Nacional-Bolshevique, o site de Garry Kasparov e até os sites do jornal Kommersant e da rádio Ekho Moskvy . Em Abril de 2007, um país inteiro, a Estónia, tornou-se um alvo destes hackers. Em 2008, seguiu-se-lhe a Lituânia.

Depois de descreverem, em cerca de 200 dramáticas páginas tão absorventes que se lêem num ápice, o alcance imune a escrutínio que o FSB atingiu na sociedade russa, as conclusões dos autores não deixam de surpreender: desenham um Vladimir Putin empenhado em construir um aparelho de segurança em torno do estado, que constituísse ao mesmo tempo um garante da estabilidade e uma defesa contra as ameaças do separatismo violento. Uma genuína e patriótica defesa da Mãe Rússia. O actual primeiro-ministro terá (politicamente) “aberto as portas a dezenas de agentes de segurança, talvez na esperança de os mesmos se revelarem a vanguarda de estabilidade e ordem. Mas uma vez que provaram os benefícios, começaram a lutar entre eles pelos despojos”, dizem os autores. Mais adiante, “os serviços de segurança imiscuíram-se na política para proteger Putin, talvez para demonstrar o seu poder e a lealdade ao Kremlin, ou porque calcularam mal as eventuais oposições ao popular presidente”, num tom idealista, em que o FSB deveria ser a engrenagem da máquina de um estado governado pela lei, mas que demonstrou falta de visão e falhou redondamente na protecção dos cidadãos, tendo-se tornado complacente e opulenta com as recompensas à lealdade. E, porventura, terá extravasado as suas responsabilidades. Na prática, esta resenha quase inocenta Putin, retratando-o como uma espécie de criador bem-intencionado, ultrapassado pela máquina que criou. Num mundo perfeito, talvez fosse possível alinharmo-nos com este "volte-face" final idealista por parte dos autores do que terá presidido à formação do serviço de segurança federal, na linha do famoso combate ao “niilismo legal” promovido pela já não tão recente retórica de Medvedev. Que poucos ou nenhuns frutos gerou.

No entanto, se o objectivo for pura e simplesmente a defesa do aparelho do estado, tal como era a função da PIDE nos tempos de Salazar, teremos que concordar que estão a fazer um trabalho irrepreensível. Graças aos serviços de segurança, o domínio de Putin sobre a sociedade é total e quaisquer ameaças ao regime, internas ou externas, tornaram-se irrelevantes. O facto é que um regime autocrático que preside a 140 milhões de habitantes, que deliberadamente destruiu a sociedade civil e implantou um sistema corporativista e um simulacro de parlamento não pode passar sem uma polícia de defesa do estado contra os cidadãos para garantir a sua longevidade. Os próprios autores o afirmam no início da obra, ao compararem o FSB à polícia política de Saddam Hussein.

Onde está a verdade? Como em quase tudo na Rússia, cabe então ao leitor desvendar mais esta adivinha embrulhada num mistério dentro de um enigma.

“The New Nobility”
Andrei Soldatov e Irina Borogan
Public Affairs, 2010"

Segunda-feira, Junho 27, 2011

Forças de segurança russas abateram mais de 200 guerrilheiros no Cáucaso


O ministro do Interior russo, Rachid Nurgaliev, anunciou hoje que as forças de segurança liquidaram, em 2011, mais de 200 guerrilheiros, 100 dos quais no Daguestão, no Cáucaso do Norte.
“Durante 957 operações especiais bem sucedidas, foram neutralizados 206 bandidos, incluindo 24 líderes, e detidos 235 bandidos e cúmplices”, precisou Nurgaliev.
Segundo Nurgaliev, o Ministério do Interior e o Serviço Federal de Segurança (ex-KGB) da Rússia “impediram a realização de 29 atos terroristas, liquidaram 78 bases e 176 locais secretos com meios para realizar atos terroristas”.
Nurgaliev anunciou também que, em 2011, “renderam-se 22 guerrilheiros”.
“As pessoas começaram a acreditar no Ministério do Interior, nos oficiais que trabalham com a população, que se quer ver livre desses desumanos que se escondem nas florestas e organizam atentados terroristas contra a população civil”, concluiu o ministro.
O Cáucaso do Norte tem sido palco, desde o fim da União Soviética em 1991, de uma guerra entre uma guerrilha separatista islâmica e forças de segurança da Rússia.

Forças de segurança russas abateram mais de 200 guerrilheiros no Cáucas


O ministro do Interior russo, Rachid Nurgaliev, anunciou hoje que as forças de segurança liquidaram, em 2011, mais de 200 guerrilheiros, 100 dos quais no Daguestão, no Cáucaso do Norte.
“Durante 957 operações especiais bem sucedidas, foram neutralizados 206 bandidos, incluindo 24 líderes, e detidos 235 bandidos e cúmplices”, precisou Nurgaliev.
Segundo Nurgaliev, o Ministério do Interior e o Serviço Federal de Segurança (ex-KGB) da Rússia “impediram a realização de 29 atos terroristas, liquidaram 78 bases e 176 locais secretos com meios para realizar atos terroristas”.
Nurgaliev anunciou também que, em 2011, “renderam-se 22 guerrilheiros”.
“As pessoas começaram a acreditar no Ministério do Interior, nos oficiais que trabalham com a população, que se quer ver livre desses desumanos que se escondem nas florestas e organizam atentados terroristas contra a população civil”, concluiu o ministro.
O Cáucaso do Norte tem sido palco, desde o fim da União Soviética em 1991, de uma guerra entre uma guerrilha separatista islâmica e forças de segurança da Rússia.

Domingo, Junho 26, 2011

Iúri Liubimov abandona com escandalo o mítico teatro da Taganka

Любимов был основателем и главным режиссером Театра на Таганке


O encenador Iúri Liubimov anunciou o abandono do mítico teatro Taganka em Moscovo, que fundou em 1964, após um conflito com os atores ocorrido durante uma digressão na República Checa.
“Não tenho intenção de continuar a dirigir este teatro”, declarou no sábado à agência Ria-Novosti, explicando que essa decisão foi tomada depois de um escândalo, quando os atores se recusaram a trabalhar durante um ensaio, reclamando dinheiro.
“Que sejam dirigidos por um sindicato. Estou farto desta falta de vergonha, humilhação, falta de vontade de trabalhar, mas só de receber dinheiro. Esta digressão terminou com uma vergonha”, acrescentou Liubimov, sublinhando que “o país e o teatro russo foram atingidos no seu prestígio”.
No entanto, os atores do Teatro da Taganka desmentem as acusações do encenador de 94 anos.
“Andaram sempre a enganar-nos, diziam que não recebiam dinheiro e que as digressões eram apenas para ganhar imagem. Mas ficavam com o dinheiro. Desta vez, conseguimos receber honorários por dois espetáculos”, declarou a atriz Tatiana Sidorenko à rádio Eco de Moscovo.
Os atores acusam a mulher do realizador de teatro, Katalina Liubimova, de estar na origem do escândalo.
O teatro apresentava nesta digressão “A Boa Alma do Sichuan”, de Bertolt Brecht, espetáculo com o qual Liubimov lançou o Teatro da Taganka em 1964.
Este teatro transformou-se num símbolo da resistência à censura e arbitrariedade do comunismo soviético. Em 1984, quando se encontrava em Londres, Liubimov foi privado da cidadania soviética por ter feito críticas ao Kremlin.
Regressado à URSS em 1988, voltou à direção do teatro que agora abandona.

Blog do leitor (Solovki: nascimento do GULAG)

Ver Solovki_b...jpg na apresentação de diapositivos



Texto enviado pelo leitor Jest nas Wielu:
"Os Campos de Utilidade Especial de Solovki (SLON), foram os primeiros campos de concentração soviéticos, criados pelos bolcheviques em 1923. Aqui foram inventados e pela primeira vez ensaiados vários tipos de torturas usadas mais tarde em GULAG’es de toda URSS. 
O estalinismo era um desvio ou a continuação genuína do bolchevismo? Será que os campos de concentração, tortura, trabalhos forçados e fuzilamentos em massa foram introduzidos na URSS pelo Stalin? Até que ponto o mito do “bom comunista Lenin” e “mau ditador Stalin” perdura nas mentes e nos livros escolares ocidentais? Algumas respostas a estas questões podem ser encontradas no artigo que se segue... 
“A situação climática severa, o regime laboral e a luta contra a natureza serão uma boa escola para os diversos elementos viciados!”, — anunciaram os bolcheviques que apareceram em Solovki em 1920. O mosteiro ortodoxo recebeu o nome de Kremlin, lago Branco tornou-se lago Vermelho e no território do mosteiro foi criado o campo de concentração para os prisioneiros da guerra civil. Em 1923 o campo foi transformado em SLON, e é de notar que os seus primeiros prisioneiros foram os activistas dos partidos que ajudaram aos bolcheviques usurpar o poder na Rússia. 
A “utilidade especial” dos campos de Solovki se manifestava pelo facto do que as pessoas eram enviados para lá não por crimes cometidos ou a sua culpabilidade, mas apenas por representar a ameaça ao regime comunista pelo facto da própria existência. Os opositores activos eram eliminados pelo novo poder imediatamente. Aos campos de concentração eram enviados aqueles, cuja formação não correspondia à prática comunista, quem era “socialmente alheio” por causa da educação, origem social ou seus conhecimentos profissionais. A maioria destas pessoas veio para Solovki não condenados  pelos tribunais, mas pelas decisões das diferentes comissões, colégios ou reuniões. 
Em Solovki foi criado o modelo do Estado, dividido pela pertença à classe, com a sua própria capital, Kremlin, exército, marinha, tribunais, cadeia e a base material, recebida de herança do mosteiro. Aqui existia a sua própria moeda, editava-se os seus próprios jornais e revistas. Aqui não existia o poder soviético, mas o poder soloviético, pois o primeiro Soviete dos deputados foi criado em Solovki apenas em 1944. 
No início, o trabalho era usado apenas para a reeducação. Antigos professores universitários, médicos, especialistas qualificados durante o Inverno levavam a água de uma abertura no gelo para outra, no Verão moviam os troncos das arvores de um lado para outro ou gritavam as vivas às chefias ou ao poder soviético até perder os sentidos. Este período da formação do sistema de concentração era marcado pela morte massificada dos prisioneiros por causa do trabalho impossível e maus tratos dos guardas. Depois dos prisioneiros, eram exterminados os seus guardas, nos diferentes anos foram fuzilados praticamente todos os líderes do partido que criaram SLON e os chekistas que dirigiam a administração dos campos. 
A próxima etapa do desenvolvimento do sistema dos campos em Solovki foi a obtenção do lucro máximo do trabalho semi-escravo dos prisioneiros, a criação de novas delegações de SLON na URSS continental, desde a província de Leninegrado até Murmansk e Montes Urais. Solovki começaram receber os camponeses dekulakuizados, os operários. Aumentou o número dos presos, a nova lei do campo dizia: “Pão pelo trabalho”, o que colocou na linha da morte os prisioneiros idosos e fisicamente fracos. Aqueles que conseguiam fazer as normas recebiam os diplomas e bolinhos de prémio. 
Após a destruição dos seus próprios recursos naturais (as florestas milenares das ilhas), a pátria do GULAG – Solovki – transferiu a maior parte dos prisioneiros para a construção do canal Mar Branco – Mar Báltico. O regime do isolamento endurecia, desde meados dos anos 1930, os prisioneiros passaram para o racionamento prisional. No Outono de 1937, Solovki receberam a ordem do Moscovo sobre a “norma” – um determinado número de pessoas que deveria ser exterminado. A administração de Solovki escolheu dois mil pessoas que foram fuzilados. Depois disso SLON foi retirado do GULAG e transformado em uma cadeia – modelo da Direcção Central da Segurança Estatal, que possuía cinco delegações em diferentes ilhas. 
Para abrigar os prisioneiros, no Solovki eram usados todas as construções do mosteiro e as barracas construídas rapidamente. Em algumas destas barracas até hoje vivem as pessoas. Existia a “barraca de crianças”, onde estavam presos as crianças ChSIR (Membros de Famílias dos Traidores da Pátria). 
Em 1939 foi terminada a construção do Grande edifício especial prisional. Mas o novo Comissário popular da Segurança estatal, Lavrentiy Beria, ordenou o desmantelamento da cadeia de Solovki. Começou a II G. M. e o território do arquipélago era necessário para organizar aqui a base militar da frota do Mar do Norte. O Grande edifício prisional ficou inabitado. No fim do Outono de 1939 os prisioneiros de Solovki foram transferidos aos outros locais do GULAG. 
Historiador russo Yuri Arkadievich Brodski dedicou 38 anos da sua vida ao pesquisar e reunir os dados sobre SLON: depoimentos das testemunhas, documentos. Em 2002, com a ajuda financeira da Fundação Soros e da Embaixada da Suécia na Rússia, ele publicou o livro "Solovki. Vinte anos de objectivo especial", escrito na base do material recolhido. As 525 páginas do livro reúnem o material único – depoimentos escritos dos antigos prisioneiros do SLON, testemunhos documentais, fotografias...

Monte Sekirnaya
 Monte Sekirnaya é o ponto mais alto na Grande ilha de Solovki. Os bolcheviques instalaram aqui a área do isolamento punitivo № 2 (Savvatievo), conhecido pelo seu regime extremamente duro. Os prisioneiros ficavam sentados durante 24 horas em cima das varras de madeira e eram espancadas sistematicamente, o que constituíam as punições mais leves. Na praceta em frente da igreja os prisioneiros da área do isolamento eram periodicamente fuzilados. 
Engenheiro Yemelyan Solovyov conta que uma vez viu os prisioneiros da área do isolamento que eram levados para os trabalhos de enchimento do cemitério dos que morreram do escorbuto e tifo: 
“— Apercebemos nós da aproximação dos isolantes da Monte Sekirnaya pela ordem alta: — Fora do caminho!
Obviamente, todos fugiram para os cantos e ao nosso lado foram levadas as pessoas com a aparência absolutamente animalesca, cercados pela guarnição numerosa. Alguns vestiam os sacos, em nenhum deles eu via as botas”. 
Em 1929 escritor proletário Máximo Gorki visitou a Monte Sekirnaya na companhia dos seus familiares e dos funcionários do OGPU. Antes da sua chegada foram retiradas as varras de madeira, colocadas as mesas e os prisioneiros recebiam os jornais, com a ordem expressa de fazer de conta que estão os ler. Muitos dos prisioneiros viraram os jornais de cabeça para baixo. Gorki viu isso, aproximou-se a um deles e colocou o jornal correctamente. No fim da sua visita no livro do controlo Gorki escreveu: “Diria que óptimo” e assinou. 
A escada famosa de 300 degraus na Monte Sekirnaya era usada para obrigar os prisioneiros levar a água 10 vezes por dia, para cima e para baixo. O futuro académico Dmitri Likhachev que desempenhava no Solovki o papel do VRIDL (Temporariamente Executando as Tarefas do Cavalo) contava que os guardas costumavam atirar os prisioneiros destas escadas, amarrados ao tronco curto de madeira. “Em baixo já chegava um cadáver ensanguentado que até era difícil de reconhecer. No mesmo local, debaixo da monte, logo o enterravam no buraco”, — escrevia Likhachev. Debaixo da monte existem os buracos onde são sepultados várias dezenas de pessoas. Alguns buracos eram abertos antecipadamente – escavadas no Verão para aqueles que seriam fuzilados no Inverno. 
Os funcionários do Campo dos inválidos na ilha de Grande Muksalma diziam que no Inverno de 1928 morreram no local os 2040 prisioneiros. No Outono para lá eram enviados os deficientes de toda a 1ª zona que não poderiam ser usados em Solovki e também porque eram pobres, não tinham o apoio da família e por isso não conseguiam pagar o suborno. 
Os subornos em Solovki eram muito desenvolvidos. O futuro destino do prisioneiro muitas das vezes dependia deles. Prisioneiros “ricos” podiam garantir o lugar no 6° destacamento de guarnição, onde a maioria eram os padres, que guarneciam armazéns, oficinas e hortas. Aqueles que eram enviados para Muksalma sabiam que os seus dias estão contados e que no Inverno eles iriam morrer. Os condenados viviam em beliches de dois andares na barraca com 30 – 40 m² que abrigava 100 pessoas. No almoço recebiam a sopa simples em grandes bacias e comiam do prato comum. No Verão os deficientes trabalhavam na recolha dos bagos, cogumelos e plantas que se pretendia exportar para o estrangeiro. No Outono eram mandados escavar os buracos das suas futuras campas, para não os escavar no Inverno na terra congelada. Os buracos eram grandes, cada um para 60 – 100 pessoas. Os buracos eram tapados com as tábuas para não serem enchidos com a neve. Com a chegada dos frios do Inverno as campas eram preenchidas, primeiramente com os doentes pulmonares, depois chegavam os restantes. Até a Primavera naquela barraca restavam apenas algumas pessoas. 
O professor Vladimir Krivos (Nemanic) trabalhou como tradutor no Comissariado dos Negócios Estrangeiros. Razoavelmente falava praticamente todas as línguas do mundo, incluindo chinês, japonês, turco e todas as línguas europeias. Em 1923 foi condenado à 10 anos de prisão ao abrigo do artigo 66: “espionagem a favor da burguesia mundial” e deportado para Solovki. 
Tendo a dentadura postiça, ele usava duas facas para comer: faca de mesa e um canivete, cuja posse sempre lhe foi permitida desde a cadeia do GPU. Em Solovki as facas foram lhe retiradas com a seguinte resolução do comandante do campo: “As regras estabelecidas são obrigatórias para todos e não poderá haver excepções!” O professor saiu em liberdade em 1928.

Texto e fotos © drugoi
As fotos do arquivo e os textos dos depoimentos © Yuri Brodski "Solovki. Vinte anos de objectivo especial", RPE, 2002

Magnata russo eleito dirigente de Partido Causa Justa


Mikhail Prokhorov, magnata russo e dono da equipa de basquetebol norte-americana New Jersey Nets, foi eleito, no sábado, dirigente do Partido Causa Justa (ou Causa de Direita).
Prokhorov foi eleito com o apoio de 107 delegados do congresso do partido, com um voto contra e uma abstenção.
“Proponho excluir a palavra 'oposição' do nosso léxico. Ela associa-se com grupos marginais que perderam a ligação com a realidade. Deve haver pelo menos dois partidos do poder, mas hoje há apenas um”, declarou o magnata russo.
Mikhail Prokhorov declarou ter aceite o desafio do único partido do poder “Rússia Unida”, dirigido pelo primeiro-ministro Vladimir Putin.
“A Rússia Unida já nos lançou um desafio ao criticar o nosso programa que ainda não publicámos, e nós aceitá-mo-lo”, acrescentou.
O Partido Causa Justa, agora dirigido pelo multimilionário de 46 anos de idade, apresenta-se como uma força política da direita liberal, mas a oposição extra-parlamentar considera esse partido uma criação do Kremlin para conquistar os votos desse setor político nas eleições parlamentares de dezembro.
Na segunda-feira passada, Dmitri Medvedev, Presidente da Rússia, defendeu que o espectro partidário deve ser alargado, mas o Ministério da Justiça da Rússia recusou o registo ao Partido da Liberdade Popular, força política liberal dirigida por Mikhail Kassianov e Boris Nemtsov, antigos primeiro-ministro e ministro, que criticam duramente a política do dueto Medvedev-Putin.

Sábado, Junho 25, 2011

Mikhail Gorbachov, político das causas nobres



Texto escrito a propósito do "Concelho de Estado" em Arcos de Valdevez para a Agência Lusa. Infelizmente, Milkhail Gorbachov não esteve presente por motivos de saúde:

"Os adversários políticos de Mikhail Gorbachov criticam-no quando faz publicidade a pizzas ou malas de viagem, mas o antigo Presidente da União Soviética responde que o objetivo é conseguir meios para apoiar causas nobres.
Depois de ter abandonado o cargo de Presidente da URSS, em dezembro de 1991, Gorbachov criou uma fundação com o seu nome, que realiza um intenso trabalho de investigação histórica, nomeadamente no campo da publicação de documentos relativos à história da “perestroika”, processo de reformas ocorrido na URSS entre 1985 e 1991.
Gorbachov, que este fim de semana é homenageado em Arcos de Valdevez, participa também numa série de programas humanitários e ecologistas na Rússia e no estrangeiro.
Em 1993, Gorbachov criou, na Suíça, a Cruz Verde Internacional, análoga da Cruz Vermelha, mas no campo da ecologia.
A organização coloca como objetivos: “prevenir e resolver conflitos que surjam devido à deterioração da situação ecológica, prestar ajuda às pessoas que sofram devido a consequências ecológicas de guerras, elaborar normas jurídicas e éticas que se tornem a base da criação de um mundo ecologicamente seguro”.
A mulher do reformador soviético, Raísa Gorbachova, morreu de leucemia. Gorbachov decidiu criar uma Fundação para financiar o tratamento de crianças com cancro e investigação no combate a essa doença.
Entre 2006 e 2010, conseguiu juntar mais de 10 milhões de euros que foram empregues na aquisição de aparelhos modernos para dois hospitais pediátricos em Moscovo e São Petersburgo (este último com o nome de Raísa Gorbachova).
Parte do dinheiro foi entregue à Fundação Marie Curie, organização que se dedica a combater o cancro.
Iniciador da liberdade de imprensa na União Soviética, Gorbachov apoia alguns órgãos de informação independentes na Rússia, nomeadamente o jornal Novaya Gazeta, onde trabalhou Anna Politkovskaia, conhecida jornalista assassinada em 2007.
Mikhail Gorachov está também na origem do Fórum da Nova Política, organização criada em 2010 com vista à análise informal dos problemas internacionais.
A primeira assembleia do FNP realizou-se em Outubro do ano passado na Bulgária."

Recomendo muito: Homenagem ao músico e químico russo Alexander Borodin em Lisboa


Notas químicasBorodin: compositor e químico
Assinalando o Ano Internacional da Química, integrado nas comemorações dos centenários da Faculdade de Ciências e da Universidade de Lisboa, o Departamento de Química e Bioquímica promove uma interpretação musical documentada com o programa que junto se anexa. 
Criar um momento único de ciência e cultura num dos locais históricos mais nobres da cidade ˆ o Laboratório Chimico da Escola Politécnica, é o objectivo destes eventos que exploram a relação da música com a química em torno da pessoa de Alexander Borodin. 

Recomendo concertos a realizar em Lisboa. Para mais informações, ver em: http://www.fc.ul.pt/
 



 
 

Sexta-feira, Junho 24, 2011

Professor de física russo compõe ópera inspirando-se no fado de Coimbra


 A ópera “Evgueni Zavoiskii ou a Época da Ressonância Paradoxal”, inspirada no fado de Coimbra, estreou na quinta-feira à noite na cidade de Kazan, capital da Tartária, república da Federação da Rússia.
A obra musical foi composta por Nikolai Silkin, professor de electrotecnia quântica e radioespetrologia da Universade de Kazan.
A ópera começa ao som do “Fado fadinho” interpretado por Lolita Torres, mas toda a obra é composta tendo a canção tradicional portuguesa como modelo.
Eduard Treskin, Artista do Povo da Rússia e encenador da obra, afirmou, em declarações à agência Tatar-inform, que “Kazan pode transformar-se num dos centros da ópera-fado, porque aqui está concentrado um riquíssimo folclore de cientistas e estudantes”.
O texto da ópera foi escrito com base no folclore de estudantes e professores de universidades russas como as de Moscovo, Kazan e São Petersburgo e a sua inspiração na tradição coimbrã tem a ver com o facto da cidade portuguesa ter também um importante centro universitário.
O compositor Nikolai Silkin revela que o inspirador da sua obra foi o cientista Evgueni Zavoiskii, o descobridor do fenómeno da ressonância paramagnética eletrónica, um dos criadores da bomba atómica soviética e criador do transformador eletro-ótico.
O principal “herói” da ópera é Vani Jukov, estudante de física pouco aplicado. Além dele, são personagens da ópera um papagaio da Rubliovka (bairro de luxo de Moscovo), um galo de Skolkovo (local nos arredores da capital russa onde o Presidente Medvedev pretende construir o equivalente russo do Silicon Valley norte-americano) e o gato do romance “Margarida e o Mestre”.
Os cantores são todos membros de grupos corais estudantis da cidade de Kazan.
A ópera foi estreada no palco do complexo de Cultura e Desporto “Unix”, uma das maiores salas de Kazan.
Segundo a imprensa local, o espetáculo foi bem recebido pelos numerosos espetadores.

Carta aberta ao Sr. Paulo Portas, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal

Exmo. Sr. Paulo Portas, acredito que as suas tarefas não lhe deixem tempo para ler este blog e, por conseguinte, esta carta aberta, mas pode ser que algum leitor deste blog ou amigo do Facebook faça chegar esta missiva às mãos de Vossa Excelência ou de algum dos seus assessores.
Hoje, por razões pessoais, tive de ir à Embaixada de Portugal em Moscovo e deparei com um grande número de pessoas à porta do nosso Consulado na capital russa. 
Trata-se de um bom sinal em tempos de crise económica, pois, como é do conhecimento geral, Portugal é um destino turístico cada vez mais popular entre os russos. Assim seja por muito tempo!
Porém, fico incomodado, enquanto português, quando entro no Consulado, pois a julgar pelo estado do interior do edifício e pela falta de espaço, parece tratar-se da representação consular de um país do Terceiro Mundo, e não de um membro da União Europeia. 
Peço desculpa por descer a alguns pormenores, mas a casa de banho parece não ter sido alvo de obras desde abertura desse Consulado no longínquo ano de 1974. Não sei se vou revelar algum segredo de Estado, mas os 400 m2 de área são claramente insuficientes para responder à procura de vistos.
Poderão dizer-me que o nosso país está em crise, não tem meios para outras tarefas mais urgentes, etc., etc., mas não aceito essas explicações porque o Consulado é uma instituição que dá lucros diretos e indiretos. Quanto aos indiretos, quanto mais turistas forem a Portugal, mais a nossa economia ganha.
Quanto aos diretos, apenas alguns exemplos. No ano passado, o Consulado de Portugal em Moscovo passou cerca de 23 mil vistos, mas o número de russos que visitaram Portugal (segundo estatísticas do Turismo de Portugal) foi superior a 80 mil. Como cada visto custa 30 euros, pode-se constatar que quase 50 mil vistos foram tirados noutros consulados de países de Schengen e, por conseguinte, perdemos uma quantia significativa de euros (1.500.000 euros).
Este ano, o número de turistas russos para Portugal está a aumentar significativamente e, graças aos esforços dos funcionários, o Consulado concederá mais vistos, mas o dinheiro de muitos mais  continuarão a entrar nos cofres de outros países que sabem reagir operativamente à conjuntura.
Resumindo, o dinheiro que é perdido neste processo chegaria, e sobraria, para alugar ou comprar um edifício maior e mais moderno para o Consulado Português na Rússia, bem como para aumentar o número de funcionários. 
Gostaria de lembrar que este consulado luso é o que mais vistos concede anualmente depois da representação consular portuguesa em Luanda.
Acredite que um investimento financeiro na modernização dos serviços consulares terá um retorno rápido. Não sendo tão grande como aquele que é necessário para construir o TGV, dará um retorno muito mais rápido do que o mais veloz dos comboios. Trata-se apenas de contas de matemática.
Este problema coloca-se há muitos anos, mas ficou sempre por resolver. Talvez tenha funcionado o princípio: os russos visitarão Portugal de qualquer forma, o que é pernicioso e prejudicial. 
Receba esta missiva como uma proposta para melhorar as finanças nacionais. Eu tenho consciência de que se trata de uma gota no Oceano, mas, como diz o nosso povo, "grão a grão enche a galinha o papo".
Obrigado pela atenção e desejo-lhe as melhores felicidades e êxitos à frente da nossa diplomacia. José Milhazes

Quinta-feira, Junho 23, 2011

Roberto Carlos é novamente alvo de ato racista na Rússia

Roberto Carlos, um dos mais famosos jogadores brasileiros, foi mais uma vez alvo de um ato racista na Rússia. Um adepto do clube  Krylia Soviétov atirou na sua direção uma banana, o que fez com que o médio abandonasse o campo e se dirigisse para os balneários. 
O jogador reconheceu depois que chorou e lançou um apelo às autoridades russas para que tomem medidas com vista a acabar com o racismo no desporto.
Alguns dos meus leitores podem dizer-me que casos semelhantes acontecem em qualquer país, e estou de acordo. Porém, gostaria de chamar a atenção para o facto de atos racistas serem frequententes no futebol russo e de que a Rússia é a organizadora do Campeonato do Mundo de Futebol de 2018.
Gostaria de sublinhar que Roberto Carlos já foi vítima de um ato semelhante há cerca de meio ano atrás, no estádio do Zenith de São Petersburgo, tendo este clube sido multado pelo crime cometido por um seu adepto racista.
A propósito, e afirmo isto com conhecimento de causa, a direção do Zenith de São Petersburgo não contrata jogadores de cor por recear problemas semelhantes ao que ocorreu com Roberto Carlos.
A direção do clube Krylia Soviétov lançou uma verdadeira caça ao autor da ação racista e promete interditá-lo de entrar no estádio. Mas não seria mau se esse e outros autores de atos racistas fossem às barras do tribunal e condenados a exemplares penas de prisão.
A Rússia é habitada por mais de cem povos e nem todos são loiros e de olhos verdes. Por isso, as manifestações racistas são particularmente perigosas e podem mesmo conduzir à destruição do país.
Em vez disso, as autoridades estão mais preocupadas na criação de organizações corporativas como a Frente Popular Unida com vista a eternizar o seu poder, mas não a resolver os problemas do país.
Os Correios e os Caminhos de Ferro da Rússia ponderam aderir a essa Frente Popular. Mais de 450 organizações sociais já deram esse passo, embora a FPU não exista como organização legalmente registada. A Organização das Loiras da Rússia também recebeu o convite, vamos ficar à espera da resposta.
A ideia da criação da FPU foi lançada pelo primeiro-ministro russo ao ver que o Partido Rússia Unida, já batizado de "Partido de Vigaristas e Ladrões", perde popularidade. Mas essa iniciativa contém em si uma forte contradição. Normalmente, as frentes populares são criados em momentos críticos, em véspera de guerra, mas, segundo Putin, a Rússia é uma "ilha de estabilidade". 
Mas de onde virá o perigo?

Quarta-feira, Junho 22, 2011

Ministério da Justiça recusa registo de partido da oposição liberal


O Ministério da Justiça da Rússia recusou o registo ao Partido da Liberdade Popular, dirigido por Mikhail Kassianov e Boris Nemtsov, primeiro-ministro e ministro do governo do ex-Presidente Boris Ieltsin.
“O processo de análise do nosso pedido de registo terminou e foi decidido recusar o registo ao partido”, declarou aos jornalistas Konstantin Merzlikin, porta-voz do partido.
O Ministério da Justiça da Rússia justificou a sua decisão com o facto de ter encontrado na lista de militantes do partido pessoas já falecidas, menores e pessoas sem residência fixa.
Vladimir Rijkov, dirigente do Partido da Liberdade Popular (PLP), considera essa justificação “inventada com vista a impedir a participação da oposição nas eleições parlamentares”, marcadas para dezembro.
“Mais de 46 mil assinaturas foram consideradas corretas e temos organizações em 53 regiões do país, por isso cumprimos a lei, mas esta decisão não é inesperada”, precisou ele.
Mikhail Kassianov é mais concreto nas suas críticas, apontando o dedo ao primeiro-ministro Vladimir Putin.
“É evidente que Putin decidiu não permitir a participação do nosso partido nas eleições. A participação do PLP nas eleições portaria sérios riscos para Putin”, precisou.
Segundo Kassianov, “as eleições não poderão ser consideradas livres e as autoridades russas continuarão a violar a Constituição e os compromissos internacionais do país”.
O Partido da Liberdade Popular foi criado em dezembro de 2010. Em maio passado, apresentou o pedido de registo agora recusado.
Os dirigentes do PLP já anunciaram que não desistirão da luta contra o “regime de Putin” e irão “trazer o povo para a rua”.

Terça-feira, Junho 21, 2011

TAP: Indefinição autoridades russas poderá impedir reforço ligação à Rússia

Moscovo, 21 jun (Lusa) – A TAP continua as diligências junto das autoridades russas para obter autorização para mais quatro voos semanais entre Lisboa e Moscovo, dando um prazo de 14 dias para o problema ser resolvido, sob pena de ser forçada a suspendê-los.
Em causa está a realização de 60 voos entre junho e outubro deste ano. Dois deles já foram cancelados.
“De acordo com os procedimentos da legislação internacional, em fevereiro de 2011, a TAP requereu à Agência Federal do Transporte Aéreo da Federação Russa autorização para operar nove voos semanais na rota Lisboa/Moscovo/Lisboa, durante o período compreendido entre 19 de junho e 18 de setembro de 2011”, esclarece a TAP, num comunicado hoje divulgado.
Mas, até à data, a TAP não obteve resposta daquela agência, nem “recebeu também qualquer recusa oficial à execução do seu programa de voos na totalidade, o que seria expectável no quadro das práticas internacionais”, salienta a transportadora aérea portuguesa.
Caso a FATA (Autoridades Aeronáuticas da Rússia) não autorize os voos adicionais, a TAP vai sofrer fortes prejuízos morais e materiais.
“Os bilhetes têm tido boa procura e se, agora, a TAP não garantir os nove voos semanais, iremos ter sérios prejuízos, pois teremos de encontrar outras soluções para os clientes”, declarou a funcionária de uma agência turística de Moscovo à Agência Lusa.
Este cenário, previu, “poderá constituir um rude golpe na reputação da TAP na Rússia, pois prometeu e não consegue cumprir os seus compromissos. Serão cerca de sete mil passageiros que se sentirão enganados”.
A TAP irá tentar tomar medidas para facilitar a vida aos passageiros caso as autoridades russas neguem a autorização.
“Se dentro de 14 dias não for recebida a autorização para os voos, a TAP vai cancelar os quatro voos suplementares”, sublinha a transportadora, no comunicado.
Um especialista russo em aviação civil disse à Agência Lusa que este problema poderia ser resolvido “se existisse uma intervenção da parte das autoridades portuguesas”.
Acrescentou que “a FATA não está a respeitar os acordos existentes. Isso já foi feito em relação a outras companhias aéreas estrangeiras e o problema ficou resolvido depois de intervenção política e diplomática”.
Atualmente, a TAP realiza todas as semanas cinco voos regulares entre Lisboa e Moscovo. Em dezembro, tendo em conta o aumento do caudal de turistas russos para Portugal, a TAP requereu junto da FATA autorização para realizar mais quatro voos semanais entre junho e outubro.
Segundo um documento assinado em 2010, durante a comissão mista realizada em Moscovo, as duas companhias nomeadas pelas autoridades dos dois países podem realizar cada uma 14 voos semanalmente.
Até recentemente, as companhias aéreas russas mostraram pouco interesse por esta linha, mas, ao verem o êxito alcançado pela TAP, passaram a querer ocupar parte do nicho.
“A TAP começou na Rússia a partir do zero. Fez um bom trabalho de divulgação de Portugal como destino turístico e, agora, aparecem companhias russas que querem colher esses frutos”, disse à Agência Lusa uma fonte do setor em Moscovo.
A companhia aérea russa Transaero realiza, a partir de junho, um voo ‘charter’ entre Moscovo e Lisboa e espera autorização do Instituto Nacional de Aviação Civil para realizar mais outro para a capital portuguesa e um terceiro para o Funchal. Além disso, segundo disseram fontes ligadas ao processo à Agência Lusa, está pronta a ocupar o nicho vedado à TAP.
JM/fim