sábado, julho 31, 2010

Rússia em chamas



Os incêndios florestais nas zonas centrais da Rússia provocaram pelo menos 28 mortos e destruíram 1257 casas, deixando sem teto mais de 2800 pessoas.
Serguei Chapochnikov, funcionário do Ministério para Situações de Emergência da Rússia, informou que nos combates a centenas de incêndios no país estão envolvidos 240 mil bombeiros, mais de 25 meios técnicos, entre os quais 226 aviões e helicópteros.
Porém, o vento forte e as altas temperaturas, que tendem a continuar na próxima semana, estão a dificultar o combate aos incêndios. Nos próximos dias, o mercúrio nos termometros irá manter-se acima dos 30 graus centígrados.
“A situação é bastante complicada. Neste ano, ela carateriza-se pelo fato de os fogos serem provocados por tornados de chamas, o que não aconteceu nos anos difíceis de 1962, 1981 e 2002”, precisou Chapochnikov.
Segundo ele, “os prognósticos do desenvolvimento da situação não são bons: o tempo seco dirá continuar nos próximos dias nas regiões centrais do país e irá chegar aos 40 graus”.
O avanço das chamas obrigou à declaração do estado de emergência em 14 regiões e o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, ordenou a mobilização de cerca de dois mil soldados para fazerem vigilância e limparem as florestas.
As autoridades russas estão sempre prontas para travar a chuva para que não estrague as paradas militares em Moscovo, mas os incêndios, não obstante a longa onda de calor, voltaram a ser uma "surpresa".
O Presidente Medvedev quer saber como foram gastos os meios concedidos pelo Governo para combater os incêndios.

sexta-feira, julho 30, 2010


Recebi uma mensagem do violinista russo Alexei Tolpygo, que trabalha e reside em Portugal. Coloco ao juízo dos leitores este projecto, podendo ouvir uma das canções do projecto em:  http://www.sendspace.com/file/q3yob1
 
Projecto Rebirth – Gravação do CD
 
            Trata-se de um projecto original da autoria de Alexêi Tolpygo. Um trabalho musical em que são tomadas por base obras poéticas escritas entre os séculos onze e treze. Entre elas incluem-se dois poemas do Rei D. Dinis no idioma daquela época, denominado de Galaico-Português. Todas as músicas são originais e compostas num estilo que combina características do Rock Sinfónico com alguns aspectos familiares da música contemporânea erudita. As músicas serão cantadas por um contratenor, cujo papel será aqui entregue à magnífica voz de Terry Barber, um nome prestigiado do canto lírico internacional que também se tem dedicado a projectos mais próximos da música ligeira. 
            Não se pretende fazer uma tentativa de reprodução histórico musical da época mas sim construir a partir de tais referências uma nova dimensão criativa. No entanto, nem por isso deixa de assumir o seu interesse naquilo que se refere à manutenção e preservação da cultura medieval Portuguesa e da Galiza. A poesia em questão quase caiu em desuso, o Galaico-Português extinguiu-se do panorama linguístico dos últimos séculos. Trata-se aqui de valorizar esta ligação histórica entre Portugal e Espanha. 
Finalidades
Gravação de um CD e sua consequente promoção (ex: eventuais concertos). Através deste projecto ambicionamos ser um valor acrescentado, por um lado, à música pop-rock, e por outro, valorizar a poesia quase esquecida dando-lhe outra vida. 
Como target principal teremos um público que se revê nas tradições da época dos anos 70 - 80, com especial interesse e gosto musical por um rock alternativo. Através deste projecto ambicionamos colmatar a falta de continuidade das experiências musicais daquela época.

Características, necessidades, procura ou problemática que se pretende cobrir com o projecto

Recuperação de um património histórico linguístico importante para Portugal bem como para a região da Galiza, através de uma abordagem musical disruptiva com as tradicionais fórmulas de aproximação a uma fiel reprodução musical histórica. 
Música Rock com alguns aspectos familiares da música erudita contemporânea, fusão da sonoridade maioritariamente electrónica com a voz clássica. Os recursos musicais aplicados em cada canção são baseados no tema de cada texto. É, por isso, propositadamente poli-estilístico, pois abrange desde o Rock'n'Roll a uma paródia modal de estilo Techno, passando pela música atonal e até serial. Uma particularidade especial - os solos em algumas das canções são tocados pelo autor no violino eléctrico com uma sonoridade pouco vulgar graças à utilização de processadores de efeitos e uma maneira de tocar muito singular.
A música composta está pré-gravada em forma de maquetes, na sua maioria com os arranjos feitos, posteriormente serão efectuados os arranjos finais.
 
 
Conteúdo

O projecto/CD contém quinze canções, das quais treze têm letras em Galaico-Português, uma - em Castelhano Arcaico (poesia trovadoresca), e uma canção que apesar de não estar directamente ligada com o tema (sobre o poema de Almeida Garrett "Os Cinco Sentidos") mas no entanto continua a mesma linguagem musical. Este tema é por assim dizer um "bonus track".

Duração aproximada do álbum - 63 minutos.

Grau de inovação ou carácter experimental do projecto

Combinação da sonoridade pop-rock electrónica com a voz lírica do contratenor. Utilização da poesia trovadoresca do período medieval. Não se pretende recriar a música da época, antes pelo contrário, criar um novo estilo. Podem-se citar aqui as palavras do grande compositor Serguéi Prokôfiev ao escrever a sua Primeira Sinfonia ("Clássica"): "se o Josef Haydn vivesse agora, escrevia assim."
Se os Martin Codax, D.Dinis, Nuno Fernandez Torneol, estivessem vivos agora, provavelmente utilizariam sintetizadores e guitarras eléctricas."
 

Treinador da Selecção da Coreia do Norte foi expulso do Partido?



Segundo a imprensa russa, o treinador e jogadores da selecção de futebol da Coreia do Norte apanharam uma grande ensaboadela depois de regressaram do Campeonato do Mundo na África do Sul, mas tiveram mais sorte do que os membros da equipa de 1966.
O treinador, Kim Chon Hon, e os futebolistas tiveram um encontro com representantes das autoridades norte-coreanas no Palácio do Povo do Ensino de Pyongyang e, durante seis horas, tiveram de ouvir as críticas de mais de 400 estudantes.
A reunião decidiu expulsar o treinador do Partido do Trabalho da Coreia e repreender os jogadores da selecção; à excepção dos dois futebolistas que jogam em equipas do Japão. 
Porém, é de sublinhar que os desportistas tiveram mais sorte do que os seus colegas da selecção de 1966, que foram enviados para "campos de trabalho" depois de terem sido eliminados no Campeonato do Mundo em Inglaterra.
Hing Yong-Cho, capitão da selecção sul-coreana que milita na equipa russa "Rostov", desmente essa notícia: "Eu estou aqui convosco. Pelo contrário, quando chegámos a casa, os dirigentes do partido e do governo avaliaram de forma positiva o resultado da nossa participação. Tendo em conta que há mais de 40 anos que não chegávamos à fase final do Campeonato do Mundo, jogámos muito bem. Disseram-nos que, agora, acreditam mais na selecção da RPDC no país do que antes. Desejaram-nos  êxitos no nosso trabalho difícil, mas digno. Claro que ninguém falou de castigos".




terça-feira, julho 27, 2010

Programa espacial russo necessita de salto qualitativo


O programa espacial russo encontra-se numa encruzilhada fulcral do seu desenvolvimento, sendo necessário um salto qualitativo neste campo, defendem os especialistas.

Anatoli Kroteev, Presidente da Academia da Cosmonáutica da Rússia, considera que a revolução na indústria espacial passa pelo fabrico de novos módulos equipados com motores nucleares.
“No ano passado, na Rússia foi dado um passo extremamente importante com a decisão do Presidente de ordenar o fabrico de um módulo espacial de transporte movido a energia nuclear”, declarou Kroteev, num encontro ontem realizado com os jornalistas.
No dia em que se comemorou o 10º aniversário da criação da Estação Espacial Internacional (EEI), Kroteev considera que essas novas tecnologias serão “de dez a quinze vezes mais eficazes do que as atuais”.
Segundo ele, o objetivo é “fazer do Espaço uma base potencial para realizar uma revolução em várias áreas científicas”.
“A imponderabilidade e o vácuo especial permitirão criar novos materiais”, sublinhou o académico, acrescentando que “estamos na véspera de uma revolução no campo da ciência espacial”.
Alguns especialistas consideram que, no projeto da EEI, a Rússia tem-se limitado a garantir o transporte de cargas e astronautas, enquanto que Estados Unidos, Agência Espacial Europeia e outros países tenham dado prioridade à investigação científica.
Alexei Leonov, um dos primeiros cosmonautas soviéticos, defende que o planeta Marte deve ser o objetivo de novos programas espaciais, sublinhando, porém, que o regresso à Lua é fundamental para o êxito dessa iniativa.
“Na Lua há reservas de algumas matérias-primas que será vantajoso transportar para a Terra do que utilizar o petróleo, que se esgotará em breve”, declarou Leonov, numa entrevista ao diário eletrónico lenta.ru.
“No que respeita a Marte, a questão colocar-se-á mais tarde ou mais cedo perante a Humanidade, que precisará de um planeta-reserva. Mas para voar para Marte será necessário juntar os esforços de todos os países, para lá não voará um russo, nem um americano, mas uma equipa, formada por representantes de pelo menos seis países”, frisou.

Acreditem se quiserem!


O acampamento organizado pelos "Nachi", uma espécie de mocidade portuguesa do partido Rússia Unida, foi visitado por várias personalidades políticas, entre as quais esteve Vassili Iakemenko.
Iakemenko, que já dirigiu os "Nachi" e hoje é o chefe da Agência Federal para Assuntos da Juventude, lançou um apelo para que a juventude faça uma "vida saudável" e "emagreça". Dirigindo-se a um jovem bastante bem nutrido, ele revelou a "essência do projecto do programa "responsabilidade social"": "Tal como qualquer empresa que gasta mais do que é preciso, é ineficaz a pessoa que come mais do que é preciso", sublinhando que esse homem "rouba o país, e Putin nomeadamente".
"Putin pode fazer tudo, mas não pode emagrecer por cada pessoa", frisou.
Para quem não acredita no que está escrito e sabe russo, recomendo ver e ouvir em:  
Este episódio fez-me lembrar uma velha anedota soviética: os animais selvagens reúnem-se e o leão anuncia: "O animal mais gordo será devorado!"
"Coitadinho do crocodilo!", comentou o hipopótamo".

Blog dos leitores (A DISNEYLAND SOCIALISTA – 3ª parte)

Oposição de cozinha
Uma amiga de infância, a jornalista Irina Khalip – um dos líderes da oposição bielorrussa, é uma mulher corajosa, decidida, agraciada com o título Herói da Europa pela sua luta pelos direitos humanos e liberdade. Nós estamos as duas sentadas na sua cozinha (na melhor tradição do underground soviético) e falamos sobre o destino da Bielorrússia. As nossas posições estão irremediavelmente afastadas: A Irina é uma romântica, democrata até ao tutano, eu sou pragmática; a Irina admira a América, eu não. Há dez anos que ela luta contra o ditador Lukachenko e há dez anos que Lukachenko se sente maravilhosamente.
A pequena e zangada oposição bielorrussa está infinitamente longe da população, das massas desconfiadas de antigos camponeses, que encaram tudo o que seja novo com uma apreensão resmungona. Para elas, a democracia até pode ser uma boa coisa mas não dá de comer.
“Lukachenko brinca sempre com a oposição”, explica-me ela. “Ele podia acabar com toda a gente, como se faz às moscas, mas não o faz. Para ele é mais vantajoso deixar os opositores sob vigilância, mas em liberdade: quando começar um novo jogo com o Ocidente, pode sempre dizer que tem alguém na oposição. Como diria Lukachenko, eles que continuem pelos seus apartamentos ou que discutam na Internet mas, se fizerem comícios, lá terão polícias com bastões à espera. No nosso país, só se pode fazer verdadeira política na cozinha, tal como na URSS, com a única diferença que os nossos dissidentes podem sempre emigrar, aqui ninguém os segura. Não posso dizer que temos uma ditadura com letra grande, a nossa é uma pequena ditadura familiar. Infelizmente, a maioria da população está-se nas tintas para a política”. 


Um idílio de exportação
A nossa gente considera sinceramente que a Bielorrússia é o “futuro luminoso” da Rússia, ou melhor, um dos futuros, o mais bem-amado. Em relação ao outro possível futuro, à maneira da China, e não obstante todas as aspirações dos comunistas, os russos têm uma certa desconfiança por razões conhecidas.
Compreensivelmente, a perspectiva de um futuro tipo “Europa” ou, Deus nos livre, “Estados Unidos”, na Rússia é encarada com repulsa.
Aliás, esta repulsa em relação ao Ocidente, aliada ao respeito em relação ao Batka, é tão enternecedora e paradoxal que percebemos enfim como a alma russa é de facto misteriosa.     
Em Minsk gostam de brincar com os russos que se admiram com a limpeza das ruas bielorrussas, com os relvados bem tratados, com as vedações pintadas de fresco, com as máquinas agrícolas que funcionam (!) e com os exuberantes campos bem cultivados (!).
Uma coisa que me admirou pessoalmente há uns anos foi uma decisão do Batka: em todas as aldeias deveria haver uma cabeleireira! Eu até franzi docemente a testa. Que idílio! Imaginei a cabeleireira rural a frisar os caracóis às ordenhadeiras…. Lukachenko, tu és mesmo um verdadeiro pai, preocupado com os filhos, pensei eu encantada e sem qualquer ironia.
Sim, os kolkhoses, para cumprir o capricho do presidente, foram obrigados a gastar dinheiro nas cabeleireiras, contaram-me os meus amigos de Minsk a sorrir do meu arrebatamento. E o que é que aconteceu? As cabeleireiras lá ficaram sentadas sem trabalho e acabaram por ser mandadas embora. Não havia ninguém para arranjar o cabelo!
Depois de eu ter percorrido o país de Lukachenko, compreendi uma coisa importante (pelo menos, para mim). Há que ter muito cuidado com as impressões quando se vai à Bielorrússia. Muitas delas são para exportação.  
Por exemplo, vemos um kolkhoz limpinho, com belíssimos indicadores de produção de leite e carne, com ordenados de 500 dólares. Podemos ficar emocionados e recordar os horrores das aldeias russas da região de Tver? Naturalmente. Só não nos podemos esquecer que os kolkhoses-modelo na Bielorrússia não são assim tantos e, se sairmos da estrada principal e entrarmos numa estrada velha, podemos rapidamente ir parar à “Rússia”.
Sim, a limpeza das ruas, a ordem, as casas sólidas e os autocarros que respeitam o horário ao minuto, tudo isto é naturalmente mérito do Governo.
Mas ainda é mais mérito dos bielorrussos, simples e trabalhadores, coisa que os apoiantes do Batka esquecem não sei porquê, ou melhor, não gostam de ter em conta….
Neste país, desprovido de grandes jazigos de petróleo e gás, apertado entre o Leste e o Ocidente em permanente rivalidade, e vivendo à custa de dotações russas, Lukachenko construiu uma economia exótica que os analistas mundiais não se cansam de olhar com admiração. Mas a sua admiração não tem a ver com inveja, mas sim com aquele sentimento de surpresa e estranheza como quando percorremos um museu de raridades: que coisas mais estranhas há neste mundo! Ou com a preocupação pensativa de um arquitecto: quanto tempo ainda irá ficar em pé esta engenhoca, construída contra todas as leis da Física? 

Espírito empresarial luso na Rússia

A Parfois, marca portuguesa que é líder do mercado no sector dos acessórios, abriu duas lojas na capital russa e prepara-se, até 2013, para ter uma rede de doze lojas em Moscovo e São Petersburgo.
A empresa portuguesa, que fabrica acessórios, bijuteria, carteiras, relógios, chapéus, calçado e óculos, instalou as suas primeiras lojas na Rússia em dois grandes centros comerciais de Moscovo: “Centro Comercial Mega-Khimki” e “Centro Comercial Mega-Tiopli Stan”.
O sítio eletrónico Intermoda.ru não dúvida do êxito desta empresa portuguesa na Rússia, sublinhando que a Parfois “renova a sua coleção semanalmente”, acrescentando que, por isso, “aí poderá encontrar-se sempre uma prenda ideal para os mais existentes seguidores da moda”.
Além disso, chama-se a atenção para “a correlação ideal entre qualidade e preço”.
A Parfois, criada em 1994, tem lojas em 19 países e lança-se agora à conquista do mercado russo, onde o tipo de mercadoria por ela fabricada goza de grande procura.
 Em declarações à Lusa, Sérgio Marques defende que “Moscovo é prioritário para a Parfois”, realçando que “o plano de expansão prevê dez lojas em Moscovo e duas em São Petersburgo até 2013”.

segunda-feira, julho 26, 2010

Ponte 25 de Abril vista de Oeiras

Moscovo visto da minha janela


O mercúrio nos termómetros da capital russa subiu hoje até aos 37,2 graus centígrados, batendo assim o recorde absoluto durante todo o período de observações meteorológicas.
O anterior recorde: 36,8 graus centígrados, foi registado em 1926.
Porém, o Serviço Meteorológico da Rússia já veio anunciar que este recorde, o sétimo este ano, poderá ser batido já na próxima quinta-feira.
A Rússia está a ser assolada por uma onda inaudita de calor, que começou no início de Junho. Nas últimas semanas, o mercúrio não desce abaixo dos 30 graus na capital russa e arredores.
Esta anomalia atmosférica já levou à perda de 10 milhões de hectares de culturas, bem como a fortes fogos florestais.
Hoje de manhã, Moscovo acordou coberta por uma densa nuvem formada pelo fumo e cinzas explidos pelos incêndios nas florestas dos arredores da capital russa.
Segundo as autoridades sanitárias, o nível de poluição atmosférica em Moscovo é sete vezes superior à norma.

Blog dos leitores (A DISNEYLAND SOCIALISTA – 2ª parte)


Este banquete é à custa de quem?
Uma das fraquezas dos bielorrussos é o vício das palavras de ordem, hábito que ficou dos tempos soviéticos. Por exemplo, num campo de cultivo aberto encontrei um severo placard de alerta: “Proteja as condutas de gás! O gás é a nossa riqueza!”.
“Um momentinho…”, indignei-me eu. “Por que é que o gás é a vossa riqueza? O gás é a nossa riqueza!”
 “Mas nós temos as condutas”, explicaram-me com um sorriso angelical.
“A astúcia bielorrussa consiste em dar a ideia que nós somos todos pobres e, ao mesmo tempo, receber da Rússia cerca de 8 mil milhões de dólares de subsídios por ano”, diz o politólogo local Leonid Zaiko. “Na Rússia não sabiam disso até 2004, simplesmente não contavam o dinheiro. Nós, só do petróleo, não pagávamos taxas de importação no valor de 3.010 milhões de dólares por ano. Aliás, Lukachenko nem sequer deu ordem para não pagar mas, mesmo assim, não pagávamos. Agora a Bielorrússia começou um novo jogo com a Europa e faz alusões a uma eventual mudança de “orientação”. O que acontecerá à Bielorrússia se a Rússia a obrigar, como vingança, a pagar o preço de mercado do gás? Só lhe poderemos dizer obrigado. Assim que a Rússia começar a vender-nos o gás de acordo com os preços médios regionais, o nosso país começará a progredir economicamente. Os baixos preços da matéria-prima levam à baixa competitividade dos produtos. Assim que o vosso Miller começar a vender-nos gás a preços normais eu organizo um abaixo-assinado para lhe construir uma estátua no centro de Minsk como libertador da Bielorrússia. O gás barato é como uma droga. Se nos libertarmos da dependência do gás barato, poderemos ser competitivos”. (…) “As bem ordenadas zonas rurais bielorrussas, que você parece tanto admirar, são pagas pelas cidades. O Estado canaliza todos os anos mil e quinhentos milhões de dólares para estas zonas. A agricultura é de tal maneira subsidiada que tal até irrita o Kremlin. Os trabalhadores agrícolas pagam a energia eléctrica a preços mais baixos que a média nacional. Nós temos uma estranha sociedade de subsídio-dependentes: uma em cada duas pessoas recebe subsídios do Estado. Metade da população habituou-se que lhe paguem diversas subvenções, pensões e regalias, enquanto a outra metade precisa de trabalhar. Na Bielorrússia nós estamos perante um vulgar neo-socialismo autoritário, com uma política social bastante perigosa, que já levou ao crescimento do paternalismo – um neo-socialismo construído com base nas ideias da igualdade e do logro económico”. 

Por que é que Lukachenko é tão popular? 
“Na Bielorrússia, respeitam os produtores porque eles garantem postos de trabalho”, diz o director da empresa de cosméticos Modum, Victor Lobkovich. “Lukachenko disse a dada altura: não precisamos de intermediários, dos que compram os produtos a baixo preço no estrangeiro e os vendem aqui mais caro.
 Nós temos uma lei que não está escrita: 70% dos produtos vendidos nas lojas têm que ser nacionais, em todo o lado se lêem apelos a comprar produtos bielorrussos.  
Fazendo uma activa propaganda do produtor local, o Estado, no entanto, mete os empresários na prisão com facilidade e variedade. Uma amiga minha bielorrussa, que há muito fugiu para o estrangeiro, contou-me que, dos 20 empresários que ela conhecia, 13 (!) estão presos.
“No nosso país, mantêm o povo sempre “em forma”: um grande número de homens de negócio estão nas prisões devido à imperfeição da nossa legislação”, diz o redactor-chefe do jornal “Obozrevatel”, Serguei Atrochenko.  “Isto é triste. Prendem também responsáveis públicos e até ministros. Ninguém está livre disso. Mas não há sistemas ideais. Nós, pelo menos, não temos oligarcas, como na Rússia. O que é a oligarquia? É a fusão dos grandes empresários com o poder político. Na Bielorrússia de Lukachenko isso é completamente impossível”.
As prisões de funcionários públicos e empresários são muito populares entre a população, condescendendo com os seus instintos mais baixos (quando se diz “somos pobres mas honestos” há sempre uma certa dose de agressividade social).
“Lukachenko joga com o seu eleitorado – pessoas de instrução média, a viver em pequenas cidades ou zonas rurais, com cerca de 50 anos ou mais velhas”, diz o politólogo Leonid Zaiko. Mas o seu eleitorado preferido são os reformados acima dos 70 anos, que no país não são poucos, cerca de 933.000. Este tipo de pessoas fica sempre muito bem impressionado com a “cenoura” das regalias sociais e o “pau” das prisões.   

Poderá haver uma revolução na Bielorrússia?
Tal parece ser pouco provável. A tendência para as revoltas e revoluções advém fundamentalmente dos estômagos vazios e, numa Bielorrússia rural, não há grande risco de fome. Todas as tentativas da pouco significativa oposição de “fazer despertar” a consciência política do povo estão condenadas ao fracasso.
Em parte, tal explica-se por uma espécie de reacção anti-romântica das classes médias em relação à Revolução Laranja na Ucrânia.
O camponês bielorrusso tem uma imagem caricatural da democracia ucraniana. Para ele, tudo aquilo não é mais que uma balbúrdia caótica. Uma outra explicação mais profunda tem a ver com o carácter nacional, paciente, tolerante, ponderado. “Os bielorrussos aguentam durante muito tempo”, diz o empresário Viktor Lobkovich. “Para além disso, nós não temos uma ideia nacional como na Ucrânia ou nos países bálticos. Nós nunca vivemos separados da Rússia, nós pensamos em russo, embora tenhamos, claro, o nosso orgulho próprio”.
“Somos um povo sossegado”, confirma o dono do jornal Obozrevatel, Serguei Atrochenko. Mas até um povo sossegado pode ser “aquecido” se a ideia do nacionalismo for bem financiada. Quando Lukachenko chegou ao poder, ele expulsou logo organizações do tipo George Soros. Mando-as embora e fez muito bem”.
No entanto, a geração jovem da época da Internet olha com esperança para o Ocidente. Cerca de 70% dos filhos da elite trabalham no estrangeiro e já não irão voltar. Mas a maioria da juventude, que não pode pagar universidades no estrangeiro, estuda nos estabelecimentos de ensino do Estado, ficando condenada a não poder sair do país. Lukachenko introduziu o velho sistema soviético de “distribuição” de licenciados: depois de terminarem o curso, o jovem é obrigado a trabalhar alguns anos no local para onde for “distribuído”. Os estudantes universitários que planeiam ser colocados pelo Estado estão proibidos de sair do país: é praticamente impossível obter um visto Schengen. Depois disso, as coisas seguem o seu curso natural: casamento, filhos, casa, e o jovem especialista fica “enterrado” numa qualquer pequena cidade ou zona rural do país. Este é um sistema brilhante, experimentado durante largos anos, que eu não me canso de aplaudir: a que propósito os contribuintes, na pessoa do Estado, deverão pagar os estudos de jovens mal-agradecidos que depois de receberem o diploma se vão logo embora para o estrangeiro e fazem de lá um gesto feio à sua mal-amada pátria?
(continua)

domingo, julho 25, 2010

Vladimir Putin encontrou-se com espiões russos expulsos dos Estados Unidos



O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, informou hoje que se encontrou com os russos que foram expulsos dos Estados Unidos por espionagem.
“Eu encontrei-me com eles”, reconheceu aos jornalistas num encontro com jornalistas em Foros, na residência do Presidente ucraniano, após conversações com Victor Ianukovitch.
“Conversámos sobre a vida”, acrescentou.
Quando os jornalistas lhe pediram para confirmar se ele realmente cantou com os ex-espiões karaoke, ele respondeu: “Cantámos não karaoke, mas com música ao vivo, cantámos “Quais as origens da Pátria””.
Esta famosa canção foi composta na era comunista e visava educar o patriotismo nos soviéticos.
(Não consigo imaginar a cena de Putin a cantar com os antigos espiões. Pagaria para ver)
Putin, que também foi agente dos serviços secretos soviéticos, declarou que os espiões desmascarados “irão trabalhar”.
“Estou convencido de que eles irão trabalhar em lugares condignos, estou convencido de que terão uma vida interessante e rica”, frisou.
No início de Julho, as autoridades policiais norte-americanas detiveram e expulsaram do país dez pessoas acusadas de espionagem a favor da Rússia.
Antes de se encontrar com Ianukovitch, Vladimir Putin participou num encontro de motociclistas que se reuniram na Crimeia. O primeiro-ministro Vladimir Putin apareceu num potente triciclo Harley Davidson, tendo sido recebido triunfalmente.
Quanto ao encontro com o Presidente da Ucrânia, o dirigente russo frisou que o objectivo principal foi "dar-lhe os parabéns". 


Blog dos leitores (A DISNEYLAND SOCIALISTA)


Texto traduzido e enviado pela leitora Cristina Mestre:

"Reportagem de uma jornalista russa na Bielorrússia
No voo Moscovo – Minsk costumam dar jornais bielorrussos aos passageiros. Ao lê-los, mergulhamos num mundo fantástico de ordenhas e ordenhadoras, de heróis da produção agrícola, da luta pelas colheitas e pelo conhecimento, de êxitos desportivos e laborais.
Estes jornais alimentam-nos de moral em grandes doses. Na sociedade bielorrussa de gente boa também aparecem uns meliantes, condenados ao fracasso: uns burocratas maus, com os quais esta mesma sociedade leva a cabo uma permanente luta vitoriosa.  
Não sei, de facto, que relação têm estes jornais com o jornalismo mas o facto é que acalmam espantosamente os nervos. 
No mundo das futuras crises financeiras mundiais, os médicos deveriam receitar imprensa bielorrussa a todos os que estão aflitos, em vez de calmantes e soporíferos.
A Bielorrússia é a última ilusão de estabilidade e regresso da infância soviética, quando não havia publicidade nem engarrafamentos nas estradas, quando todos tinham a confiança tranquila que o futuro seria …igual ao presente.

Em frente rumo ao passado
No restaurante “Déjà vu”, no centro de Minsk, há esculturas de mármore de jovens comunistas com cornetas, vagueiam imponentes empregadas sonolentas, nas paredes estão pendurados retratos do Politburo e carpetes gastas (tal como na minha infância, quando colocar carpetes no chão era considerado um hábito burguês e uma bofetada à moral pública).
Os altifalantes difundem com entusiasmo: “Nada de tristezas, temos toda a vida pela frente!”. Parece que os bielorrussos não têm razões para estarem tristes. Têm um TSUM e um GUM, ruas de Lenine e de Karl Marx, avenidas largas e direitas. A criminalidade, pelos vistos, não existe: as crianças andam na rua até altas horas da noite. As pessoas são amigáveis e um bocado inibidas, os taxistas são bem-educados e dão troco de acordo com o taxímetro, os bêbados andam a direito, em geral mantendo a direcção, e não são brutos. As mulheres são moderadamente bonitas, os homens são moderadamente feios.
Pela discrição nas cores, pela fleuma e moderação no comportamento, a Bielorrússia está mais próxima da Europa do que a Rússia.  
O lema do presidente “um prato de torresmos e um cálice de vodka” é rigorosamente respeitado: nas ruas não há mendigos e um naco de toucinho e um cálice de vodka estão garantidos a todos.
Acrescente-se a isso a natural sovinice camponesa dos bielorrussos. “Quando compro toucinho na loja, levo fresco e vez de salgado, que é mais barato, e salgo-o em casa”, explica-me uma minha conhecida. “Nós, bielorrussos somos poupados, gostamos de guardar coisas como os hamsters. Todos têm qualquer coisa escondida em casa para o que der e vier”.    
A popular rede de lojas “Rubliovski”, que eu erradamente tomei por um oásis de luxo e produtos gourmet, está antes vocacionada para as pessoas que gostam de poupar. “Isto não é a vossa Rubliovka”, explicaram-me os bielorrussos ligeiramente ofendidos. “Rubliovka vem da palavra rublo. É uma loja para quem cada rublo conta”.
O bielorrusso não é só uma nacionalidade mas uma mentalidade.
“Trata-se de um fenómeno de um país de camponeses, ou melhor, de um país de camponeses migrantes não adaptados”, diz o politólogo bielorrusso Leonid Zaiko. 
É daqui que vem a sua prudência de pessoas do campo, a capacidade de se adaptar a uma realidade pobre, a baixa emigração, a astúcia amenizada por uma gentileza faladora e uma irremediável hostilidade em relação a qualquer ideia revolucionária que tenham ouvido nos últimos 20 anos.
Em Moscovo há muito menos trabalhadores imigrantes bielorrussos do que tajiques, moldavos ou ucranianos.  
Os bielorrussos ficaram presos à terra dos seus campos. Eles sentem nostalgia em relação ao seu passado soviético, basta-lhes o seu presente e têm medo do amanhã. 
Neles está há muito tempo escondida uma desconfiança em relação ao enriquecimento rápido, aos novos-ricos. Não é tanto uma assumida consciência de classe mas sim uma secreta inveja de camponês. Quando há umas semanas, um carro velhinho embateu num Bentley em Minsk, os cidadãos viram-se a braços com um complexo sentimento: por um lado, orgulho de na Bielorrússia terem surgido os primeiros Bentley, por outro, o embate satisfez-lhes o seu sentido de justiça social (“é bem feito, para o Bentley não andar a fazer-se de fino!)  
“No nosso país é indecente ser rico”, diz Viktor Lobkovich, um empresário local.
“Não se pode mostrar o dinheiro que tens: para quê irritar as pessoas? Aqui não há um fosso tão grande entre os pobres e os ricos, como na Rússia”.
“Então vocês gostam de serem todos nivelados?”, perguntei.
“Gostamos da estabilidade”.
“Estabilidade na pobreza?”  
“Ainda que assim seja. Não temos pessoas MUITO pobres, mas também não há bielorrussos na Forbes.”
A elite russa gosta de ter o Abramovich, que pode comprar iates ou um submarino, gosta dos oligarcas”, diz o politólogo Leonid Zaiko. “Quando eu olho para essas caras tenho a impressão que estou no futebol: andam 20 jogadores no campo e os outros estão sentados a ver. Na Bielorrússia não há um único iate. É perigoso tê-los. Se alguém aparece com algum, o presidente “privatiza-o” logo e mete o dono na prisão. No nosso país gostam de prender as pessoas.
Se um empresário começa a ter dinheiro, é convidado para uma “conversa” com as autoridades locais e estas propõem-lhe afavelmente que patrocine alguma escola ou hospital (conforme os rendimentos).
Esta é uma proposta que pode ser recusada mas que é melhor não recusar já que na Bielorrússia há cerca de 70.000 leis e actas normativas e não será difícil encontrar uma razão para prender um empresário renitente.
O patrocínio é uma espécie de imposto moral: se tu tiveste sorte, faz favor de ajudar a sociedade.
“É mais fácil para mim dar uns computadores e equipamento desportivo todos os anos à escola, do que pôr em risco a minha liberdade”, explicou-me um empresário conhecido.
(continua) 

http://kp.by/daily/24344/534140 "

sábado, julho 24, 2010

Blog dos leitores (O Padrinho)



Texto escrito e enviado pelo leitor António Campos: 

"Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades", lá diz o velho ditado português, que parece reflectir o encanto que, de quando em vez, para nós vão tendo as politiquices entre quistos totalitários regurgitados das cinzas da União Soviética. Refiro-me neste caso à recente guerra mediática entre o Kremlin e o seu antigo compadre, Aleksander Lukashenka, que anda a dar que falar e garante desenvolvimentos interessantes. Especialmente tendo em conta que as próximas eleições presidenciais na Bielorrússia estão marcadas para daqui a alguns meses.

A administração russa parece ter-se cansado da rebeldia do presidente da  "última república soviética", depois de uma série de bofetadas que este resolveu dar nos propósitos do seu irmão mais velho. Todos temos bem presentes as inúmeras disputas político-económicas entre estes dois vizinhos, que acabavam quase sempre em boicotes de parte a parte, e parece que a mais recente guerra do gás, em conjunto com uma redescoberta amizade entre o ditador e a União Europeia, levaram a que o Kremlin tenha tirado as luvas e passado ao ataque abaixo da cintura.

No dia 16 de Julho, a cadeia de televisão NTV, propriedade da Gazprom, transmitiu um documentário  intitulado "O Padrinho", retratando Lukashenka como um líder desonesto, ignorante e sem escrúpulos, empenhado em manter o poder a todo o custo. Entre muitos outros salamaleques do mesmo género, a reportagem revela também que o "milagre económico bielorrusso" provém fundamentalmente da subsidiação russa. As invectivas jornalísticas continuam durante largos minutos, contando com o apoio diante das câmaras de diversas figuras da oposição bielorrussa.

A verdade é que, para os observadores da realidade política e económica de ambos os países, não há aqui nada de extremamente novo. Mas para muitos dos dez milhões de bielorrussos, cuja informação é manipulada por meios de comunicação subservientes ao regime (o qual tem também vindo a contar com uma relativa benevolência dos media russos transmitidos via satélite), o que lhes entrou pelas casas adentro foi devastador. De momento, este é o principal tema de conversa nas cozinhas do país inteiro. Inquirido para comentários, Lukashenka afirma que não responde ao que apelida de “suja propaganda anti-bielorrussa”. (Estava aqui a pensar com os meus botões…de acordo com a interpretação de Lukashenka, será neste caso legítimo acusar os russos de “bielorrussofobia”?)

A retaliação não se fez esperar: jornalista bielorrussos deslocaram-se à Geórgia para entrevistarem Saakashvili. Na peça, transmitida pela televisão, este não se poupou a esforços para dissecar a natureza maléfica do regime russo. E lá veio o contra-ataque, com a transmissão da segunda parte do documentário, onde, pasme-se, os jornalistas russos fazem revelações bombásticas sobre atropelos aos os direitos humanos e os misteriosos desaparecimentos de políticos oposicionistas em finais da década de 90. Cada vez mais interessante, a troca de galhardetes continua, desta vez com a publicação na Bielorrússia de excertos do famoso relatório incriminatório de Boris Nemtsov sobre Putin (cujas cópias destinadas a distribuição em território russo foram confiscadas pelo FSB), imediatamente contraposta pela deslocação à Rússia, a convite das autoridades, de destacadas figuras da oposição bielorrussa.

Lukashenka enfrenta um problema sério, uma vez que preside a um país com uma fraca identidade nacional e pouca consciência cívica e política, o que o torna extremamente permeável à propaganda russa. Por outro lado, o apoio coxo do ocidente à oposição bielorrussa está a levá-la a procurar apoios mais a leste, o que paradoxalmente levou a uma total inversão dos patrocínios: temos hoje um cenário em que se vê Lukashenka a apelar à inteligentsia ocidentalizada com algumas cenouras apontadas a oeste, e os oposicionistas a orquestrarem campanhas suspeitamente bem financiadas, pondo-se ao lado da Gazprom durante a guerra do gás. As voltas que o mundo dá…

Qual é o verdadeiro objectivo do Kremlin com esta manobra de agitprop que lembra o negrume soviético? Shaun Walker,  jornalista a escrever no Independent, dá um lamiré, quando relembra o "súbito interesse da televisão russa, no início deste ano, sobre os abusos dos direitos humanos no Quirguistão, que serviu como catalisador do descontentamento popular, levando a uma revolução que depôs o presidente Bakiyev".  Há quem ande já a dizer que as deslocações de políticos oposicionistas bielorrussos a Moscovo fazem parte do processo de "casting" para seleccionar o sucessor de Lukashenka. Por outro lado, se os seus vassalos se aperceberem que o timoneiro já não cai nas graças de Moscovo, poderão virar rapidamente a casaca e tirar-lhe o tapete, uma vez que em política o cavalheirismo pouco conta. Outros afirmam que estas manobras são apenas uma tentativa de vergar o presidente sem fomentar a mudança de regime, voltando a ter a Bielorrússia como um estado satélite subserviente conduzido por um Lukashenka menos problemático.

Seja qual for o verdadeiro plano do Kremlin, encurralado entre Moscovo e Moscovo, o querido Batka (rebaptizado Krestni Batka – padrinho -  pela televisão estatal russa) tem à sua frente uns quantos meses que prometem ser cativantes para nós, que adoramos estas intrigas, e mais importante que tudo, meses que talvez sejam decisivos para o futuro a longo prazo dos bielorrussos. Mas a capacidade de sobrevivência de um ditador que se conseguiu cravar no poder durante 16 anos sem contestação de maior, num país com a economia de pantanas e um dos mais baixos níveis de vida da Europa, não é certamente de subestimar.

quinta-feira, julho 22, 2010

Antologia de poesia russa e soviética


Texto publicado ontem pela Lusa:
"A antologia "Poesia soviética russa (séculos XIX-XX)", editada esta semana, integra 107 poemas de 30 autores russos, seleccionados, traduzidos e anotados pelo poeta José Sampaio Marinho.
A época que José Sampaio Marinho viveu na ex-União Soviética 'foi determinante' para a escolha os poetas, escreve no prefácio o jornalista José Milhazes, que foi seu amigo.
José Sampaio Marinho faleceu em 1998, na Póvoa de Varzim, vítima de cancro no pulmão, mas antes entregou a José Milhazes os poemas traduzidos, considerando este ser sua incumbência encontrar uma editora, como afirma no prefácio.
No texto, Milhazes salienta 'a qualidade das traduções', conservando 'não só o conteúdo, mas a riqueza rítmica dos originais russos'.
Estão representados nesta antologia, entre outros, Serguei Essénine, Boris Pasternak, Leonid Martínov, Nikolai Rúbtsov,Vladimir Sokolov, ou poetas que na década de 1980 'não tinham sido reabilitados', como Òssip Madelchtam, Anna Akhmatova e Marina Tsvetéeva.
Há também poetas revolucionários como Vladimir Maiakovski, mas em que prevalece a sua 'qualidade poética'.
Referindo-se ao trabalho do amigo, Milhazes conta: 'Paralelamente, nas horas extras depois do 'trabalho oficial', Sampaio, quase sempre acompanhado do seu uísque com gelo e água gaseificada, de cigarro praticamente sempre aceso, traduzia poemas de autores soviéticos e russos, que, de vez em quando, recitava na presença dos amigos mais próximos'.
José Sampaio Marinho, tradutor da editora Arcádia, foi amigo do poeta Ruy Belo, colaborou com o escritor Vitorino Nemésio e trabalhou na ex-Emissora Nacional.
Após o 25 de Abril de 1974, foi convidado pela editora soviética Progresso a ir trabalhar para a Moscovo, onde residiu durante 15 anos, regressando a Portugal, onde foi professor do ensino secundário.
Deixou editados, além de muitas traduções, que fez do russo para português de textos vários - romances, ensaios, e poesia - quatro livros de poesia de sua autoria. Um deles, 'Nuvens choram - Poemas', reúne todos os poemas escritos entre 1952 e 1956.
Referindo-se a 'Poesia soviética russa (séculos XIX-XX)', publicado pela Editora Labirinto com o apoio da Câmara de Fafe, José Milhazes atesta: 'Na generalidade, os russos afirmam que há poetas seus tão nacionais que é impossível a tradução dos seus versos para línguas estrangeiras. Um deles é o poeta lírico Serguei Iessénime, mas José Sampaio Marinho ousou fazer o impossível e conseguiu'.
P.S. Fico à espera das críticas de todos os que se interessam pela cultura russa, principalmente daqueles que consideram que este blog é um ninho de russófobos. É muito mais difícil fazer do que falar...