Terça-feira, Novembro 30, 2010

Dmitri Medvedev não exclui a possibilidade de uma nova corrida aos armamentos no mundo

O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, não exclui a possibilidade de uma nova corrida aos armamentos no mundo caso não se chegue a um acordo sobre o sistema de defesa antimíssil.

“Nesta sala, gostaria de dizer abertamente que, nos próximos dez anos, ver-nos-emos perante a seguinte alternativa: Ou chegamos a um acordo sobre a defesa antimíssil... ou, se não conseguirmos acordos construtivos, começará um novo ciclo de corrida aos armamentos”, declarou ele na sua mensagem anual à nação.

“Então, teremos de tomar a decisão de instalar novos meios ofensivos”, acrescentou.

O dirigente russo frisou que o seu país está “pronto a trabalhar com os Estados interessados no reforço do mecanismo de travagem da difusão de mísseis”.

Entretanto, Dmitri Medvedev aunciou o investimento de mais de 20 biliões de rublos na modernização das forças armadas e defendeu o reforço da defesa anti-aérea da Rússia.

“É necessário prestar particular atenção ao reforço da defesa espacial e aérea do país, fundir os sistemas de defesa anti-aérea e antimíssil, de prevenção de ataques de misseís e de controlo do espaço aéreo”. Eles devem atuar sob um comando estratégico único”, frisou.

O Presidente da Rússia, considerou também que a União Europeia deve ajudar o seu país a ingressar na Organização Mundial do Comércio.

No seu discurso à nação, o dirigente russo revelou que, na próxima cimeira UE-Rússia, que terá lugar em Bruxelas na próxima semana, irá discutir as questões da adesão do seu país à OMC e do fim dos vistos com a União Europeia.

Medvedev considera que a “Parceria para a Modernização” deverá trabalhar em três sentidos: “primeiro, troca de tecnologias, harmonização de normas e regulamentos técnicos... e a UE deve ajudar-nos a entrar na OMC”.

“O segundo sentido é o reforço do sistema de vistos com o objetivo da sua liquidação total numa perspetiva próxima”, acrescentou.

“O terceiro consiste no alargamento significativo do intercâmbio profissional e académico. É precisamente nestes sentidos que irei conversar com os nossos parceiros em Bruxelas”, frisou.

O Presidente russo defendeu também que o alargamento da cooperação com a UE e os Estados Unidos são mais “uma reserva substancial” para a modernização tecnológica da Rússia.

“É preciso utilizar os mecanismos da parceria russo-americana com vista a estabelecer uma cooperação económica completa, a melhorar o clima de investimentos e a interagir na esfera das altas tecnologias”, sublinhou.

Dmitri Medvedev discursou no Kremlin perante os deputados das duas câmaras do Parlamento Russo, membros do Governo e representantes do poder local, bem como outras entidades civis, militares e religiosas

Segunda-feira, Novembro 29, 2010

Bella AKHMADÚLINA (1937-2010)

В Переделкине на 74-м году жизни скончалась советская и российская поэтесса Белла Ахмадулина

Faleceu Bella Akhmadúlina, uma das maiores poetisas soviéticas e russas. Aqui fica um dos seus poemas traduzido pelo meu saudoso amigo José Sampaio Marinho:

OUTRA COISA







Que me acontece que não posso já,

Desde há um ano inteiro, sem demora

Fazer meus versos? Sim... porque será

Que tal mudez meus lábios sela agora?



Dir-me-ão alguns: mas já tem aqui,

Letra após letra, já fez um versinho.

Mas não. Há muito o hábito adquiri

De com letras fazer um fiozinho.



A mão fá-lo sozinha, sem querer...

Não falo disso. Outrora, o que ocorria?

Não sentia a estrofe aparecer,

Mas outra coisa. Sim, o que seria?



Saberia essa coisa o que é temor,

Quando o seu verbo se elevava ousado,

Ria como de risos portador

E, se queria, soluçava irado?

Kremlin não comenta “personagens fictícias de Hollywood"

Transferir f_51095.jpg (188,4 KB)





 A Presidência da Rússia não fará comentários oficiais sobre as informações publicadas no portal Wikileaks porque “carecem de interesses”, declarou hoje a porta-voz do Kremlin, Natália Timakova.
“Não há nada de interessante, nem digno de ser comentado nas publicações do Wikileaks e de outros órgãos de informação”, assinalou Timakova.
Segunda ela, “personagens fictícias de Hollywood não merecem comentários”.
Diplomatas norte-americanos consideram que o Presidente russo, Dmitri Medvedev, continua na sombra do seu antecessor no Kremlin e atual primeiro-ministro Vladimir Putin, revela a correspondência publicada pelo sítio Wikileaks.
Nas suas mensagens, funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos comparam a situação de Medvedev com a de “Robin em relação a Batman-Putin”, em alusão ao herói da banda desenhada e do cinema que, depois de longas aventuras sozinho, faz-se acompanhar de um ajudante mais jovem e menos experiente.
Outros documentos descrevem Medvedev como “fraco” e “indeciso”, enquanto que Putin é considerado o “macho alfa”.
Segundo os documentos publicados, os Estados Unidos estão preocupados com a ligação estreita de Vladimir Putin com o seu homólogo italiano, Sílvio Berlusconi, chamando a atenção para “presentes de luxo”, “contratos lucrativos no campo energético” e de um “agente secreto russófono”, a cujos serviços Berlusconi recorre.
Washington revela também preocupação face à cooperação entre os serviços secretos e o mundo do crime na Rússia, afirmando que este país se transformou num “Estado de bandidos”.
As revelações do Wikileaks ameaçam também complicar as relações da Rússia com outros Estados. Uma das cartas publicadas revela que o Kremlin estava disposto a suspender o envio de mísseis anti-aéreos S-300 para o Irão em troca de um contrato de mil milhões de dólares para o fornecimento de aviões não tripulados à Rússia.
Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, considerou prematuro qualquer comentário.

“Por enquanto, não posso dizer nada de concreto. Antes de tudo, é necessário analisar que palavra inglesa é empregue precisamente, qual o nível dos diplomatas e dos funcionários que fazem as avaliações e de que tipo de documentos se trata”, declarou.
“E devemos compreender primeiro de é de Putin que se trata. Só depois poderemos comentar”, concluiu.

Sexta-feira, Novembro 26, 2010

Duma Estatal Russa condena um dos crimes mais hediondos do estalinismo




A Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento russo aprovou hoje um documento onde se reconhece que o assassinato de cerca de 20 mil oficiais polacos em Katin é da responsabilidade de José Estaline e de outros membros da direção soviética.
“Os documentos publicados, que foram guardados durante muitos anos nos arquivos secretos, não só mostram a envergadura dessa terrível tragédia, como testemunham que o crime de Katin foi cometido por ordem direta de Estaline e de outros dirigentes soviéticos”, lê-se na declaração hoje aprovada.

Este documento recebeu o apoio dos partidos Rússia Unida, Rússia Justa e Partido Liberal-Democrático, sendo os comunistas os únicos a votarem contra.

“Na propaganda oficial soviética, a responsabilidade por essa malvadez, que recebeu o nome de tragédia de Katin, era imputada aos criminosos nazis. Essa versão foi, durante muitos anos, objeto de discussões escondidas, mas por isso não menos acesas na sociedade soviética e provocou sempre a ira, a reprovação e a desconfiança do povo polaco”, consideram os deputados.

A Duma Estatal exprimiu “profunda compaixão a todas as vítimas das repressões infundadas, aos seus parentes e próximos”.

Os deputados defendem que é necessário continuar a estudar os arquivos com vista a esclarecer todas as vítimas de Katin.

Victor Iliukin, deputado comunista, declarou que a decisão da Duma se baseia em documentos falsos.

“Foi Goebbels e a sua equipa que declararam, em outubro de 1940, que o Comissariado do Povo para Assuntos Internos (antecessor do KGB) fuzilou 20 mil oficiais em Katin”, disse ele, argumentando que “durante as investigações foram encontradas balas alemãs nos cadáveres dos oficiais polacos”.

Outro deputado comunista, Vladimir Kachin, chamou a atenção para o fato de a decisão da Duma pode trazer pedidos de indemnização enormes à Rússia da parte polaca, sublinhando que “na Polónia já se fala em 2 biliões de euros (2 000 000 000 000)”.

Konstantin Kossatchov, deputado da Rússia Unida que apresentou o projeto de resolução, respondeu que, neste momento há apenas quatro queixas de polacos no Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

“Em duas deles não se pede compensação material, numa exige-se a compensação simbólica de um euro e numa deixa-se ao tribunal a liberdade de determiná-la”, precisou.

As organizações de defesa dos direitos humanos saudaram esta decisão e esperam que as autoridades abram os arquivos para que se investigue outros crimes do estalinismo.

“Estou feliz pelo fato da Duma ter feito essa declaração. Espero que isso ajude a desmascarar e a condenar, oficial e definitivamente, o estalinismo”, declarou Liudmila Alekseevna, dirigente do Grupo de Helsínquia.

“Em relação à tragédia de Ktin, devemos fazer tudo para que nem sequer fique uma dúvida de que tentamos esconder algo”, declarou Mikkhail Fedotov, dirigente do Conselho junto do Presidente da Rússia para o apoio ao desenvolvimento dos institutos da sociedade civil e dos direitos humanos.

Após a invasão pela URSS, em Setembro de 1939, das regiões do Leste da Polónia devido ao pacto germano-soviético, cerca de 20 mil oficiais polacos foram detidos e fuzilados na floresta de Katin (Rússia) e em Kharkov (Ucrânia).

Os dirigentes soviéticos acusaram os nazis de terem cometido esse crime e, apenas em abril de 1991, Milhail Gorbatchov, Presidente da URSS, reconheceu a responsabilidade do seu país nesses massacres.

Ao aprovar esta decisão, a Duma contribui para a aproximação russo-polaca que se tem vindo a registar nos últimos meses.



Quinta-feira, Novembro 25, 2010

Putin propõe juntar esforços para travar terrorismo e tráfico de droga na Ásia

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) estudam a criação de faixas de segurança anti-terrorista, anti-narcotráfico e financeira, declarou hoje o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin.

Ao discursar na reunião dos chefes de Governo e de Estados dos países membros da OCX, que se realizou na capital tadjique, Putin sublinhou que a situação na região da OCX, e particularmente em torno do Afeganistão, exige da organização uma atenção constante para as questões da segurança, da luta contra a ameaça terrorista e o tráfico de drogas.

“Numa direção tão importante como o combate ao tráfico de droga, é necessário formar o mais rapidamente possível um mecanismo de cooperação, que inclua nele os países observadores e os parceiros de diálogo com a OCX, bem como outras estruturas internacionais que atuam na região”, acrescentou o dirigente russo.

Porém, ele sublinhou que as medidas administrativas e de força são insuficientes para essa luta.

“Uma condição importante do êxito é o desenvolvimento económico e social eficaz. Para isso é necessário realizar projetos concretos no campo das infraestruturas e energia, incentivar a cooperação em vários campos da economia”, frisou.

A OCX engloba países como a Rússia, China, Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguízia. O Irão, Índia, Paquistão e Mongólia são observadores e a Bielorrússia e o Sri-Lanka são parceiros para o diálogo.

A OTSC é uma organização militar que reúne países como Rússia, Bielorrrússia, Cazaquistão, Quieguízia, Tadjiquistão e Uzbequistão.

Na mesma reunião, Putin propôs aos parceiros da OCX a criação de um roteiro para coordenar ações nos próximos dez anos em áreas como a economia e o comércio.

O dirigente russo sublinhou o enorme potencial desses países como “corredores intercontinentais Norte-Sul e Ásia-Europa”.

Quarta-feira, Novembro 24, 2010

Blog dos Leitores ( Medvedev destaca sintomas de “estagnação” na vida política do país)

Крупнейшие политические партии, чьи фракции представлены в российском парламенте, в целом приветствовали критику, неожиданно прозвучавшую в их адрес со стороны президента Дмитрия Медведева

Texto traduzido e enviado por Cristina Mestre:


O presidente da FR, Dmitry Medvedev, vê sintomas de “estagnação” na vida política do país e considera ser necessário aumentar o nível de concorrência política na Rússia.

“Não é segredo que, a partir de uma certa altura, no nosso sistema político começaram a manifestar-se sintomas de estagnação, surgiu a ameaça de que a estabilidade possa transformar-se num factor de estagnação. A estagnação é perniciosa tanto para o partido do poder, como para as forças de oposição. Se a oposição não tem quaisquer hipóteses de ganhar numa luta justa, ela degrada-se e torna-se marginal. Mas, se o partido do poder não tem chances de perder nunca e em parte alguma, ele simplesmente transforma-se num monumento imóvel, tal como qualquer organismo vivo que fica sem movimentos também se degrada. Por isso surgiu a necessidade de elevar o nível de concorrência política”, declarou Medvedev terça-feira à noite no seu blog vídeo na Internet.

O presidente ressaltou que há dois anos que tem vindo a ser implementado um programa de reforma do sistema político na Rússia.

“Simplesmente, queremos tornar o nosso sistema político mais justo, mais flexível, mais dinâmico, mais aberto à renovação e ao desenvolvimento. Ele deve gozar de maior confiança por parte dos nossos eleitores”, declarou Medvedev.

Nas suas palavras, a tarefa principal das autoridades, tal como a tarefa de qualquer democracia, é “elevar a qualidade da representação popular”.

“Devemos fazer com que a maioria política não seja simplesmente estática, que não se transforme numa maioria formada por figurantes e executores. O partido do poder deve ter direitos e deveres e não servir simplesmente de anexo ao poder executivo, deve participar plenamente na formação deste poder executivo. O partido é um meio, um instrumento de representação. O partido representa os seus eleitores. No caso do partido do poder, trata-se da maioria dos eleitores e a realização dos seus direitos, o respeito pela sua opinião é o princípio fundamental da democracia”, disse o chefe de Estado.

O presidente destacou ainda a importância e complexidade de garantir os direitos das minorias.

“O qualquer sistema político deve garantir que sejam ouvidas e consideradas as opiniões de todos, inclusive dos grupos sociais mais pequenos e, no caso ideal, que seja ouvida a voz de cada pessoa. Neste plano, o sistema deve ser transparente, sensível em relação a cada pessoa. Cada pessoa deve sentir que tem correligionários nos órgãos representativos de poder”, declarou Medvedev.

Para além disso, nas suas palavras, “as reformas políticas não devem levar ao caos e à paralisia das instituições democráticas”, tendo como tarefa “reforçar a democracia e não destruí-la”.

“Por isso no artigo “Avante, Rússia!”, escrito no ano passado, indiquei o método e o estilo das reformas: as reformas devem ser graduais, mas firmes”, disse o chefe de Estado.

Na sua opinião, em dois anos a Rússia tem avançado “gradual e, ao mesmo tempo, de forma firme” para este objectivo.

“No início da actual sessão de Outono da Duma de Estado terminou finalmente a aprovação de um pacote de projectos de lei que apresentei ao Parlamento em 2009 e 2010. Falei sobre a necessidade de aprovar estas leis nas minhas mensagens à Assembleia Federal. Em 2009, entraram em vigor novas leis que garantiram uma importante reforma do sistema multipartidário e eleitoral a nível nacional, a nível federal. No ano em curso, as reformas análogas foram estendidas ao nível das unidades da Federação”, comunicou Medvedev.

O presidente acentuou que estas leis ajudaram a minimizar os riscos de manipulação nas eleições.

“Entendemos que quaisquer maquinações são inadmissíveis durante as eleições. Para isso foram regularizados os procedimentos de votação antecipada e de utilização de talões de votação à distância: a utilização ilegal destes talões é castigada penalmente. As infracções mais sérias foram registadas nomeadamente nesta esfera”, disse Medvedev.

“Para além disso, diminuímos o papel do factor humano durante a contagem dos votos e continuaremos a fazê-lo. Já neste ano, aproximadamente 5% das circunscrições eleitorais terão dispositivos electrónicos. Esta é uma ideia cara: até 2012 este índice constituirá 15% e até 2015 – 100%, mas tal tornará o nosso sistema eleitoral mais moderno. Os esforços que empreendemos merecem o dinheiro que estamos a gastar. Espero que os contribuintes compreendam isso”, apontou.

Para além disso, nas palavras de Medvedev, os partidos têm acesso igual aos meios de comunicação social estatais tanto a nível federal, como regional.

“As comissões eleitorais devem controlar a realização destas garantias. A igualdade no acesso não deve ser declarativo (como acontecia antes), mas literal, medido em horas, minutos e até segundos do tempo de antena. É garantida também a igualdade dos partidos na utilização de locais para reuniões e propaganda”, ressaltou o presidente.

O presidente fez lembrar que os partidos que têm maioria nos parlamentos regionais obtiveram o direito de propor ao chefe de Estado candidaturas à presidência das unidades da Federação.

“Deste modo, a maioria dos eleitores tem a possibilidade de participar na formação do poder executivo da sua região através do partido que apoiam”, considera Medvedev.

“Uma série de medidas protege também os direitos das minorias. Para além do acesso igual aos meios de comunicação social, a oposição pode ocupar cargos dirigentes nos parlamentos regionais. Foi diminuído o número de assinaturas necessárias para a participação nas eleições. Foi reduzida até 5% a barreira eleitoral (para obter representação dos partidos) nos parlamentos de todos os níveis”, disse o chefe de Estado.

“Mudaram também os princípios de representação regional no Conselho da Federação. Só os deputados eleitos para os órgãos regionais de poder podem ser membros da câmara alta do Parlamento, ou seja as pessoas apoiadas por habitantes locais, as pessoas que conhecem as necessidades e os problemas regionais”, disse o líder russo.

“Espero que, em resultado destas mudanças, o sistema político seja seriamente reformado. Tenho a certeza absoluta que ele se tornou mais aberto, mais flexível e mais justo. As eleições regionais em Outubro demonstraram que houve menos reclamações do que, por exemplo, há seis meses. Tanto a opinião pública, como os partidos de oposição avaliaram estas eleições de forma mais moderada e mais tranquila”, assinalou Dmitry Medvedev.

Conflito entre Coreias não deve aumentar de intensidade e Rússia irá apelar ao diálogo

A situação na Península da Coreia é muito tensa, não só do ponto de vista militar, mas também político, por isso podem rebentar, a qualquer momento, conflitos como o que ocorreu hoje, declarou à Lusa Leonid Ivachov, general russo na reserva.

“As tropas dos dois lados estão em estado de alerta máximo e o mínimo incidente pode provocar um conflito armado. Tanto a Coreia do Norte, como a do Sul não querem a guerra, por isso, penso ter-se tratado de disparos não sancionados”, disse Ivachov, diretor do Instituto de Estudos Geopolíticos.

“Considero que o incidente de hoje não deverá conduzir a um conflito de grandes dimensões. A China e a Rússia não querem uma guerra nas suas fronteiras e os Estados Unidos também não a querem, pois estão envolvidos no Iraque e Afeganistão”, acrescentou.

Pavel Felguengauer, especialista russo em assuntos militares, exprimiu à Lusa posição semelhante.

“Considero que os combates fiquem por aqui, embora não exclua um agravamento de discurso. Isto porque ninguém está interessado numa guerra de grandes dimensões na Península da Coreia”, disse ele.

Quanto à posição da Rússia, Leonid Ivachov considera que ela se irá juntar aos Estados Unidos e China no esforço diplomático para travar o aumento da tensão.

“É necessário uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU, a criação de uma comissão internacional para investigar o incidente”, sublinha.

Felguengauer estima que o seu país irá “manter a neutralidade no conflito, aconteça o que acontecer”.

“As nossas autoridades competentes já revelaram essa posição e acho que a irão manter. Além disso, irão continuar a apelar ao diálogo entre as duas Coreias”, frisou.

De acordo com o Ministério da Defesa sul-coreano, a Coreia do Norte disparou granadas de morteiro contra uma ilha da Coreia do Sul, causando dois mortos e 18 feridos, e desencadeando uma resposta militar da parte de Seul.

O incidente coincide com as manobras anuais militares sul-coreanas, iniciadas na segunda-feira, que envolvem cerca de 70 000 efetivos.

Terça-feira, Novembro 23, 2010

Família russa residente em Portugal proibida de ver filha adotiva – imprensa

Uma família russa residente em Portugal ficou privada de educar a filha adotiva, de três anos, que sofre de grave doença genética, informa hoje o primeiro canal da televisão russa ORT.
Segundo a televisão, “os médicos portugueses, no lugar de ajudar, acusaram a mãe e do pai de maus tratos, proibiram-nos de falar com ela em russo e, depois, privaram-nos completamente da possibilidade de ver a criança”.
A menina, de nome Sabrina, encontra-se agora num lar de crianças.
A mãe adotiva, Maria Beliakova, declarou: “O primeiro dia foi simplesmente histérico. Tudo foi inesperado, rápido. Eu cheguei ao hospital e já não estava lá ninguém. Conversei com o médico e perguntei: como ousaram fazer isso? Ele respondeu: “Faço o melhor que posso para a Sabrina”.
O jornalista russo relata que Sabrina foi muitas vezes internada: “é uma daquelas crianças a quem chamam de “cristal”. Os seus ossos são de tal forma frágeis que se podem partir devido ao peso de um cobertor. O diagnóstico: formação incorreta dos ossos e articulações, foi feito na Rússia”.
“Em Portugal”, continua o jornalista”, os médicos não deram ouvidos aos colegas russos e consideraram que a criança foi vítima de maus tratos, depois de na radiografia terem visto sinais de numerosas fraturas e uma enorme cicatriz no lábio”.
Anna Novikova, neurologista que observou a criança em Moscovo, declarou ao canal televisivo: “Durante o dia, ele tinha ataques frequentes, ou seja, caía para o chão, começava a bater com a cabeça na parede, no chão, ou seja, a agitar os bracinhos, as perninhas, momentos de histeria”.
O canal televisivo russo informa que a menina se encontra internada “num centro infantil especial nos arredores de Lisboa”.
“O centro infantil é um apartamento no segundo andar de uma casa residencial numa região problemática. Ninguém jamais adivinhará que aqui se salvam crianças dos seus pais. A porta está fechada. É impossível saber em que condições vive a doente Sabrina”, continua o jornalista.
O pai adotivo, Serguei Beliakov, afirma: “Somos também acusados de que nós falamos com ela em russo quando a queremos ver”.
A Embaixada russa em Lisboa afirma que, depois de uma conversa com os membros da comissão médica, soube que foi decidido retirar a criança da família após uma conversa com a menina.
Dmitri Potapov, dirigente da secção consular russa em Lisboa, declarou à televisão: “À nossa pergunta, como decorreu a conversa, responderam-nos que ela decorreu em português, o que, claro está, provocou o nosso espanto, visto que a menina tem três anos e meio, viveu a maior parte da vida na Rússia e, por conseguinte, não fala português”.
Segundo ele, foi-lhe recusada uma cópia do resultado da comissão de trabalho, alegadamente por “falta de tinta na impressora”.
“O julgamento começa dentro de duas semanas e o casal Beliakov espera ganhar o processo e voltar a ver rapidamente a filha”, concluiu o jornalista.
Esta notícia está a ser fortemente noticiada na Rússia. Foram os médicos do Hospital do Barreiro que fizeram o diagnóstico e não seria mau se as coisas se esclarecessem rapidamente para que Portugal não seja alvo das acusações de que foi a Rússia no "caso Alexandra".

Domingo, Novembro 21, 2010

Lev Tolstoi: um profeta de utopias

Publico a minha comunicação na sessão realizada no Centro Cultural de Belém a propósito do centenário da morte de Lev (Leão) Tolstoi.

"Excelentíssimos senhores e amigos, começo por agradecer-vos pelo facto de terem vindo a esta reunião organizada pelo Centro Cultural de Belém.

Fui convidado a apresentar a esta reunião uma comunicação sobre um olhar de Leão Tolstoi sobre a Rússia, tarefa que rapidamente compreendi ser muito difícil, se não impossível, visto que o grande escritor e pensador russo não se preocupou apenas e não tanto dos problemas da sua pátria, mas de toda a Humanidade. As suas ideias filosóficas e morais visam melhorar a Humanidade em geral, e não apenas a Rússia em particular. O aperfeiçoamento moral e espiritual dos russos era, para Leão Tolstoi, parte integrante do aperfeiçoamento moral universal. É a ele que pertence a frase: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

Tão paradoxais são as ideias do pensador, como iremos ver mais abaixo, como paradoxais são as atitudes das autoridades russas face a ele em diversas épocas.

Pode parecer inacreditável, mas é verdade: em 2008, na Rússia não foram praticamente celebrados os 180 anos do seu nascimento. Mais, nesse ano, por incrível que pareça, três tribunais russos consideraram algumas das suas ideias “extremistas”.

Tolstoi foi acusado de “atiçar a inimizade e ódio contra a religião”, o que fez ressuscitar a luta entre o escritor/pensador e a Igreja Ortodoxa da Rússia que terminou com a sua excomunhão.

Mas é preciso reconhecer que o centenário da sua morte não está a passar despercebido, bem pelo contrário. E simbólico é o facto de, ontem, ter reaberto ao público, depois de obras de restauro, a casa-museu de Tolstoi em Iassnaia Polan, ninho da nobreza onde o conde nasceu.



Na reviravolta moral e ética que irá ocorrer na vida de Tolstoi, sobre a qual nos debruçaremos mais abaixo, o pensador russo dedicou particular atenção ao Cristianismo como uma doutrina moral e as ideias éticas dessa religião são interpretadas por ele de um ponto de vista humanista, como a base da irmandade universal dos homens.

Isto levou-o a analisar o Evangelho e obras teológicas de um ponto de vista crítico, dando essa análise origem a obras como “Estudo da Teologia Dogmática”, “Em que consiste a minha fé” e “O Reino de Deus está dentro de nós”.

Essas e outras obras foram mal recebidas pela Igreja Ortodoxa Russa, pois ele questionava a dogmática cristã, negava a necessidade da existência do corpo clerical e criticava fortemente a aproximação da Igreja em relação ao Estado.

Aqui convém recordar que, desde a época de Pedro o Grande, no início do séc. XVIII e a revolução comunista de 1917, a Igreja Ortodoxa Russa, a mais numerosa no Império, dependia directamente do Governo russo através do Procurador do Santo Sínodo, ou seja, era dirigida por um funcionário leigo. Na era comunista, o Santo Sínodo foi substituído por um Comité Estatal para Assuntos Religiosos. Ou seja, a Igreja estava acorrentada e dominada pelo poder civil, o que era fortemente contestado não só por Tolstoi.

Essas críticas foram bem recebidas por uma parte significativa da intelectualidade russa, mas receberam fortes críticas da Igreja Ortodoxa e levaram a que o Santo Sínodo excomungasse Tolstoi em 1901.

Em 2006, Kirill I, actual Patriarca de Moscovo e de Toda a Rússia da Igreja Ortodoxa Russa, justificou da seguinte forma a excomunhão do escritor:

"Alguns consideram que a Igreja amaldiçoou o grande escritor, como se o tivesse injustamente ofendido. Não é nada disso. A Igreja apenas constatou o que realmente existia" - declarou o clérigo ortodoxo no programa televisivo "A Palavra do Pastor". Segundo ele, "a excomunhão é apenas a constatação do facto de que uma dada pessoa não pertence à Igreja, e isto é particularmente importante compreender no caso da história de Leão Tolstoi".

"O próprio escritor afastou-se da Igreja. E o que ele disse de Cristo, da Igreja, dos sacramentos mostra a sua rotura total com a Igreja" - sublinhou o futuro patriarca, acrescentando: "e visto que muitas pessoas estavam convencidas de que Leão Tolstoi, falando assim e continuando a ser um cristão ortodoxo, lançava grande confusão no seio da Igreja e na vida social".

Deve-se constatar também que tanto o regime czarista que governou a Rússia até 1917, como o regime comunista que ruiu em 1991, nunca ousaram pôr em causa a importância de Tolstoi enquanto escritor, mas levantavam sérias reservas face a Tolstoi enquanto pensador.

O dirigente comunista Vladimir Lénine, no artigo “Lev Tolstoi como espelho da revolução russa”, escrito a propósito da primeira revolução russa de 1905, sublinha, por um lado, o papel do escritor como um denunciador dos maiores males e chagas da sociedade capitalista, mas, por outro lado, considera-o a expressão do pensamento retrógrado dos camponeses russos.

Como é sabido, o pensamento de Leão Tolstoi mudou radicalmente durante a sua longa vida. Enquanto jovem, o seu comportamento pouco se distinguia do comportamento dos nobres russos da sua idade. Rafael Lowenfeld, escritor alemão, tradutor das obras de Tolstoi para a língua alemã e um dos seus primeiros biógrafos, escreveu: “Depois das privações de Sevastopol, onde Tolstoi combateu durante a Guerra da Crimeia, a vida da capital era duplamente encantadora para um jovem rico, alegre, impressionável e aberto. Tolstoi gastava dias inteiros e até noites em borracheiras, cartas e festas com ciganos”.

Segundo alguns estudiosos, o processo de revisão radical dos princípios étnicos e morais iniciou-se precisamente depois da sua participação na Guerra da Crimeia, em 1854, onde combateu heroicamente em Sevastopol. É esse o cenário das suas obras reunidas na colectânea “Contos de Sevastopol”.

Regressado a São Petersburgo, em Novembro de 1855, Tolstoi adere ao círculo literário Sovremennik, que reunia famosos homens das letras como Nekrassov, Turgueniev, Ostroksvi e Gontcharov. Ele é recebido como “a grande esperança da literatura russa”, participa em jantares e conferências, vê-se envolvido nas discussões e conflitos entre escritores, mas rapidamente se sente um estranho naquele meio. “Essas pessoas faziam-me enjoar, eu próprio estava enjoado comigo mesmo”, escreveu ele em “Confissões”.

A morte do irmão mais velho Nicolau, em 1860, é outro dos marcos importantes da transfiguração moral e ética do escritor, transfiguração essa que demorou cerca de 30 anos, durante os quais escreveu as mais conhecidas das suas obras “Guerra e Paz”, “Ana Karenina” e “Ressurreição”.

Este último romance é de extrema importância nessa transfiguração moral de Tolstoi, pois é uma espécie de confissão de um dos graves pecados da sua juventude. Dmitri Nekhliudov e Ekaterina Maslova têm protótipos na vida real. O escritor contou ao seu biógrafo Pavel Biriukov sobre os “crimes” que cometeu durante a juventude ao seduzir Gacha, criada de uma das suas irmãs: “ela era pura, eu seduzia-a, ela foi expulsa e perdeu-se”.

Durante essa travessia, Lev Tolstoi começa a preocupar-se cada vez mais com os problemas da Humanidade em geral, considerando que os problemas do seu país só poderiam ser resolvidos nesse contexto.

Não será exagero afirmar que o pensador Tolstoi apresentou soluções para os problemas da Rússia e do mundo nos finais do séc. XIX e início do séc. XX que continuam a ser radicais ainda hoje.

Tomemos, por exemplo, a ideia de Estado do pensador, expressa numa das suas últimas obras: “O caminho da vida”.

Não conhecendo pessoalmente, nem mantendo correspondência com Piotr Kropotkin, Lev Tolstoi tem do Estado uma opinião muito idêntica à de um dos pais do anarquismo. É próxima também a posição face à cidadania: “Não pode um homem que vive no Canadá ou no Kanzas, na Boémia, na Ucrânia, Normandia, ser livre enquanto se considerar, e frequentemente, ter orgulho em ser cidadão britânico, norte-americano, austríaco, russo. Não pode também o Governo, cuja vocação consiste em conservar a unidade de uma união tão impossível e sem sentido como a Rússia, Grã-Bretanha, Alemanha, França, dar aos seus cidadãos a verdadeira liberdade, nem algo semelhante a ela como é feito em todas as engenhosas constituições monárquicas, republicanas ou democráticas”.

Segundo ele, “a principal e quase única razão da ausência de liberdade é a pseudo-doutrina sobre a necessidade do Estado. As pessoas podem ser privadas da liberdade mesmo sem Estado. Mas não pode haver liberdade se as pessoas pertencerem ao Estado”.

E aqui não há excepções, nem para os estadistas mais bem intencionados. Tolstoi é peremptório: “Um estadista honesto e virtuoso é uma contradição interna tal como uma prostituta casta ou um alcoólico sóbrio”.

Quantos dos políticos actuais desmentem esta constatação do pensador russo? – pergunto eu.



Leão Tolstoi cita as palavras de Mikhail Bakunin, outro dos grandes ideólogos e teorizadores do anarquisno: “As mudanças que se colocam agora perante a Humanidade consistem na transição do estado animal para o humano. Esta transição só é possível com o desaparecimento do Estado”.

Mas, ao contrário dos teóricos do anarquismo, Tolstoi recusa liminarmente a violência como meio para acabar com o poder e até a existência do Estado.

Isto levou a que alguns dos estudiosos o coloquem entre os pais do anarquismo, mas, ao contrário dos anarquistas clássicos, Tolstoi vê o fim do Estado no estabelecimento daquilo a que chama o “verdadeiro cristianismo”. Por isso, o seu anarquismo é definido como “anarquismo cristão”.

“A doutrina cristã não prevê destruir nada, nem uma organização sua que substitua a anterior. A doutrina cristã distingue-se de todas as outras doutrinas sociais não porque ela fale de uma ou de outra organização da vida, mas em que consiste o mal e o verdadeiro bem da vida de cada pessoa e, por conseguinte, de todas as pessoas”.

No fundo, para Tolstoi, o Estado deixa de ter sentido de existência se as pessoas seguirem os princípios: “não faças ao outro o que não queres que te faça a ti”, “ama o próximo como a ti mesmo”.

No entanto, o seu “cristianismo” entrou em colisão com a igreja oficial na Rússia, pois, tal como no caso do Estado, o pensador russo não aceita uma igreja estruturada, organizada.

Esta forte contradição fez perder a paciência da Igreja oficial, no caso, a Igreja Ortodoxa Russa, que acabou por excomungar o pensador. Tolstoi não via nessa instituição religiosa a sucessora do Estado, mas o fim deste implicava também o desaparecimento da primeira, pois “a verdadeira fé não precisa de Igreja”. Como está bem explícito no título de um dos seus livros: “O Reino de Deus está em vós”.

Esta visão anti-Estado de Tolstoi prevê a negação de todas as instituições que o constituem e em que ele se baseia: a negação da propriedade privada, dos tribunais, do serviço militar e da violência em geral.

No caso da violência, tal como face ao Estado, Tolstoi recusa-a totalmente como meio de conseguir objectivos políticos, sociais e económicos. Numa das obras já citadas “O Reino de Deus está em vós”, o pensador expôs as bases da sua doutrina de não-violência e de resistência pacífica, que teve seguidores famosos como Mahatma Gandhi e Martin Luther King.

Neste sentido, as ideias do escritor russo aproximam-se também do Budismo, religião que ele conhecia muito bem e estudou profundamente.

“Uma das principais desgraças das pessoas é a concepção falsa de que umas pessoas podem, através da violência, melhorar, organizar a vida de outras pessoas”, escreveu Tolstoi no “Caminho da Vida”.

Palavras visionárias do pensador russo sobre os regimes ditatoriais: comunismo e fascismo, que marcaram o século XX.

Este poder de visão está bem patente na análise que Leão Tolstoi faz da Revolução Republicana de 1910 em Portugal.

O grande escritor e pensador russo, recebeu a notícia com alguma dose de humor.

Valentin Bulgakov, um dos secretários de Tolstoi, escreveu nas suas memórias: “Em Setembro (Outubro segundo o calendário gregoriano) rebentou a revolução em Portugal. Eu contei a Lev Nikolaevitch que, segundo as informações dos jornais, o rei português Manuel, depois de fugir do palácio, esteve duas horas escondido numa adega. Tolstoi observou a propósito: - As revoluções são inevitáveis nos Estados modernos. É como um incêndio, toda a Terra arderá... Chegará a hora e todos eles, esses reis, esconder-se-ão nas adegas!”.

Porém, ao analisar o carácter “relativamente pacífico da revolução em Portugal, Tolstoi assinalou: “No nosso país, se tal coisa acontecer, não terá lugar uma revolução portuguesa”.

Os posteriores acontecimentos na Rússia vieram dar-lhe razão. Em nome da construção de uma sociedade sem classes e de um futuro comunista sem Estado, Lénine, Trotski e Estaline transformaram o seu país num verdadeiro campo de concentração. “Tanto os estadistas como os revolucionários consideram justo e útil matar outras pessoas. Eles têm princípios segundo os quais pensam que podem saber quem é necessário precisamente matar para o bem comum”, sublinha Tolstoi.

Com ideias como estas, certamente que Tolstoi teria sido devorado pelo Moloque bolchevique ou cuspido do seu país, como foram expulsos centenas de cientistas, escritores, filósofos, etc.

Mas voltemos atrás, à medida que a idade vai avançando, o pensador vai radicalizando a sua posição de negação do mundo envolvente, não poupando nada, nem ninguém, incluindo a sua própria pessoa. É o período de obras como “A morte de Ivan Ilitch”, “A Sonata para Kreutzer”, o “Padre Sérgio”, o “Cadáver Vivo” ou o conto “Após o Baile”. Ao mesmo tempo que descreve um quadro da desigualdade social e do modo fútil como as camadas instruídas queimam a vida, Tolstoi continua a colocar perante si e perante a sociedade questões sobre o sentido da vida e da fé, intensifica as críticas a todos os institutos do Estado, nega a ciência, a arte, os tribunais, o casamento, os êxitos da civilização.

No Verão de 1909, um dos visitantes de Iassnaia Poliana, residência de Tolstoi nos arredores de Moscovo, começou a manifestar o seu entusiasmo e agradecimento pela escrita de obras como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”. O escritor respondeu: “isso é o mesmo que ir visitar Edisson e dizer-lhe que o respeito muito porque dança bem mazurka”.

“Dou importância a outro tipo de livros”, acrescentou ele tendo em vista as suas obras de cariz filosófico e religioso.

Em obras suas de crítica cultural e estética: “Sobre a Arte”, “O que é a arte?”, “A escravidão do nosso tempo”, “De Sheakspeare e do drama”, Tolstoi faz uma crítica demolidora de génios como Dante, Rafael, Sheakspeare, Bethoven, etc., chegando à conclusão. “quanto mais nos entregamos à beleza, mais no afastamos do bem”.

Assim Tolstoi chega à renúncia total do que é material: “Tenho nojo da minha vida; sinto-me mergulhado nos pecados, logo que saio de um, entro noutro. Como emendar pelo menos um pouco a minha vida? Há um meio de todo eficaz: reconhecer a minha vida no espírito, e não no corpo, não participar em actos sujos da vida corporal. Se desejares isso de todo o coração, verás como a tua vida começará a emendar-se. A vida era má apenas porque a tua vida espiritual servia a vida corporal.

A sua filosofia e princípios morais, à medida que se iam radicalizando, acabavam por entrar em contradição com a própria vida real de Tolstoi e provocavam conflitos no seio da numerosa família. A sua negação da propriedade privada, por exemplo, foi uma das razões que o leva a romper com a família no fim da vida. Isso provocou forte descontentamento de vários membros da família, incluindo a esposa.

Recusando-se a seguir o princípio do “olha para o que digno, mas não para o que eu faço”, Tolstoi dá o último passo na ruptura com o mundo que o rodeia e abandona o lar e a família.

A sua fuga do lar no fim da vida parece ser a sua última tentativa de materializar as suas ideias, mas faltou tempo. Passou por alguns dos lugares mais sagrados da Ortodoxia russa, mas acabou por não se reconciliar com a igreja, como lhe pediam numerosos amigos.

A 20 de Novembro de 1910, Tolstoi falecia na pequena estação ferroviária de Astapov.

Não obstante as autoridades czaristas terem feito tudo para que o funeral de Tolstoi não se transformasse num acontecimento nacional, vários milhares de pessoas conseguiram chegar a Iassnaia Poliana, para participarem no seu funeral.

Talvez outro paradoxo. A julgar por alguns números, o seu legado intelectual é muito mais procurado fora do que dentro da Rússia. Por exemplo, se a livraria electrónica russa ozon – a maior do país - tem à venda menos de cem títulos de Tolstoi, sendo a maioria livros usados, na amazona.com, em inglês, poderemos encontrar mais de cinco mil títulos.

O sacerdote, filósofo e teólogo ortodoxo Alexandre Men, barbaramente assassinado nos anos 90 do séc. XX, escreveu: “Tolstoi continua a ser a voz da consciência. É a censura viva para aqueles que estão convencidos de que vivem em conformidade com os princípios morais”.

O ditado bem diz que “ninguém é profeta na sua própria terra”. No caso de Tolstoi, a palavra terra deve ser escrita com letra maiúscula, ser sinónimo de planeta.

Não poderia deixar de abordar, antes de terminar a minha comunicação, a Cimeira Rússia-NATO que se realizou ontem em Lisboa. Acho que a data não foi escolhida para que esse evento coincidisse com o dia do centenário da morte do grande pensador russo, mas o facto é que coincidiu.

Falou-se muito de guerra e de paz, talvez mais da primeira do que na segunda, mas o certo é que ouvi numerosas vezes os dirigentes de numerosos países a declarem até à exaustão que “a guerra fria terminou”. Ao conversar com um alto representante de um dos países membros da NATO, perguntei: “Terminou a guerra fria? Outra vez?”.

Ele olhou para mim e acrescentou: desta vez, parece mesmo que sim. Se assim for, e se as relações entre a Rússia e a NATO continuarem a evoluir no sentido da aproximação, da redução do vector militar e do aumento da vertente civil e humanitária na cooperação bilateral, então poderemos alimentar uma esperança muito ténue de que, pelo menos no Velho Continente, algum dos ideais de Tolstoi se concretize.

Obrigado pela atenção.

Cimeira Rússia-NATO: algumas breves considerações

Peço desculpa aos meus leitores pela redução brusca do meu rendimento neste blog, mas o trabalho nas várias cimeiras realizadas em Lisboa, nos dias 19 e 20, foi infernal, mal dava tempo para dormir.
Não vou adjectivar esse acontecimento de "histórico", termo usado até à exaustão, pelos participantes, mas diria que se trata de um bom ponto de partida para a cooperação entre a Rússia e a NATO, bem como para a adaptação, a moderrnização da Aliança Atlântica num mundo em rápida transformação.
Foi dito insistentemente que a "guerra fria" foi enterrada, mas como já ouvi isso noutras ocasiões, fico à espera para ver.
Quanto aos documentos aprovados e declarações dos participantes, os leitores já devem saber o suficiente. Por isso quero apenas referir que Dmitri Medvedev, Presidente da Rússia, foi o único dirigente a duvidar do realismo dos prazos de retirada das tropas da NATO do Afeganistão e considero que tem toda a razão.
Em termos pessoais, as cimeiras foram uma excelente oportunidade para reencontrar velhos amigos, e não só jornalistas, de vários países do mundo. Infelizmente, pouco foi o tempo para conversar.
Não quero deixar de frisar aqui a forma grosseira e indigna dos dirigentes georgianos presentes no acontecimento. Um exemplo apenas. Depois do encontro dos Presidentes Saakachvili e Obama, dirige-me, em russo, a Gueorgui Baramidzé, Ministro para a Integração Europeia da Geórgia, que me respondeu que só sabia falar inglês! Espantoso! Não faço ideia onde é que esses dirigentes aprendem as regras de diplomacia, do bom-senso e da boa educação.
Assim não vão muito longe! E certamente que não causarão muitos danos à língua russa, que é dominada por praticamente todos os georgianos. Misturar política com tradições e culturas! Minha Nossa, como dizem os brasileiros...
Não posso também deixar de registar uma regra que se torna cada vez mais generalizada nas conferências de imprensa dos dirigentes mais importantes deste ou daquele país. Eles praticamente só respondem às perguntas de jornalistas do seu país, escolhidos pelos seus assessores ou assessoras de imprensa. Dmitri Medvedev não foi excepção, mas, como neste mundo ainda há almas bondosas, consegui com que uma delas me pusesse a entrevistar Dmitri Rogozin, embaixador russo junto da NATO. 
Um muito obrigado a essa alma russa fica aqui registado.
Espero retomar o normal funcionamento do blog dentro de poucos dias. O regresso para Moscovo é já amanhã. 

Quarta-feira, Novembro 17, 2010

Aliança Atlântica não representa qualquer ameaça para a Rússia

O secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, considera que em Moscovo compreendem bem que a NATO já não constitui qualquer ameaça para a Rússia.
“Estou convencido de que a Rússia também não é uma ameaça para nós. Estou de acordo que devemos ser parceiros. Penso que a atual direção russa compreende que o futuro da Rússia está na cooperação estreita com a UE e a NATO”, declarou ele, numa entrevista ao diário Kommersant.
“Estou absolutamente convencido de que é melhor para todos, tanto para a Rússia, como para a NATO, gastar dinheiro no bem estar das pessoas do que em guerras mundiais destruidoras”, acrescentou.
Quanto às áreas da cooperação, Rasmussen destaca o Afeganistão.
“Para os russos é importante o nosso êxito no Afeganistão. Para Moscovo não é vantajosa a nossa derrota nesse país. A Rússia sabe por experiência própria quão perigosa é para a sua segurança a instabilidade nessa região. Trata-se da ameaça do terrorismo, do tráfico de droga. A Rússia é alvo de constantes ataques terroristas, de ondas de drogas afegãs. Devemos cooperar para combater isso”, explicou.
A NATO e a Rússia vão incentivar o trânsito de mercadorias do Ocidente para o Afeganistão e vice-versa, mas Moscovo exige controlar os comboios da Aliança à saída do território afegão para evitar o tráfico de drogas.
“Claro que vemos o interesse de Moscovo em pôr fim ao tráfico de drogas, por isso poderemos encontrar facilmente uma solução”, considerou.
Quanto aos novos desafios que se colocam perante a Aliança, Rasmussen destaca as ameaças de mísseis, o terrorismo, a pirataria e os ataques cibernéticos.
Segundo ele, a criação de um novo sistema de defesa antimíssil na Europa será “uma das resoluções concretas da cimeira de Lisboa”.
Porém, Rasmussen considera que não se trata de um sistema único da NATO e da Rússia.
“Devemos respeitar o fato dos nossos sistemas serem diferentes e podemos conservar diferentes sistemas. Mas a situação dita-nos que os sistemas devem cooperar, por exemplo, ganhar com a troca de informações”.
O secretário-geral da NATO aponta como tarefa central da nova doutrina da Aliança a “garantia da segurança dos cidadãos dos países membros”, mas admite a intervenção armada noutras regiões “em conformidade com a Carta da ONU”.
Rasmussen não esconde a existência de divergências com a Rússia sobre a Geórgia, acrescentando, porém, que esse problema não deverá ser discutido em Lisboa.
“Jamais reconheceremos a Ossétia do Sul e a Abkházia como Estados independentes. O nosso princípio fundamental consiste em que a instalação de tropas só deve ocorrer com a autorização da outra parte (Geórgia)... Nós e os nossos parceiros devemos dar um novo alento ao tratado sobre tropas convencionais na Europas. Isso é um processo paralelo que não iremos abordar em Lisboa”, precisou.
No entanto, frisou que as portas da NATO continuam abertas para a Geórgia e a Ucrânia se esses países corresponderem aos padrões exigidos.
Ramussen prometeu não fazer surpresas ao Presidente russo, Dmitri Medvedev, tal como este tinha pedido.

Blog do leitor (O Prodígio - a História de Eldar Djangirov)

Texto escrito e enviado por António Campos:

Só nos lembramos do Quirgistão, uma república pobre, semi-esquecida nascida das cinzas da União Soviética, dominada pela corrupção (para não fugir à regra) quando ocasionalmente esta é palco de tensões étnicas e protestos políticos, tal como o que deu origem à "revolução das túlipas", em 2005, e as manifestações ocorridas em Abril deste ano, que resultaram na deposição do presidente Kurmanbek Bakiyev.
O que surpreenderá muitas pessoas é que em 28 de Janeiro de 1987 nascia em Bishkek de pais russos uma criança que se haveria de tornar precocemente numa referência no panorama musical contemporâneo. Filho de Tatiana, musicóloga e professora de música num colégio local, e de Emil, engenheiro mecânico entusiasta da música jazz, que ouvia constantemente os programas musicais da BBC e da Voice of America, Eldar Djangirov ouvia aos cinco anos o seu pai a tocar o piano da família e repetia nota por nota o que ele tocava e também o que ouvia da discografia caseira. Com a ajuda da mãe, iniciou muito cedo a prática do instrumento, tendo começado a notar-se rapidamente nas suas execuções uma tendência para a improvisação. Numa ocasião em que praticava Mozart com a mãe, no final de uma sonata em que deveria ter terminado com um simples acorde em dó maior, Eldar deriva para um acorde complexo de jazz. Tatiana diz-lhe então: "Eldar, isso não é o acorde de Mozart", ao que ele responde: "Mas é melhor!".
O ponto de viragem na sua vida surge aos nove anos, num festival de Jazz em Novosibirsk, onde Eldar é "descoberto" por Charles McWhorter, entusiasta musical e patrono do jazz americano, que, impressionado pelo talento em bruto do jovem pianista, convence-o a frequentar um curso de verão no Interlochen Center of Arts, no Michigan. Sabendo meia dúzia de palavras em inglês, Eldar acaba por se mudar para os Estados Unidos com a família para um subúrbio de Kansas City. O reajustamento à pátria de acolhimento foi difícil, mas ajudados pela comunidade local, os Djangirov viram facilitada a sua inserção e Eldar pôde prosseguir os seus estudos.
A ascensão tornou-se meteórica quando McWhorter enviou à sua amiga pianista Marian McPartland, autora do famoso programa de rádio Piano Jazz na NPR, uma gravação de Eldar. O jovem pianista tornou-se imediatamente no mais jovem convidado do programa e, a partir daí, as solicitações tornaram-se incessantes. Eldar é convidado para tocar no programa da CBS Sunday Morning e acaba por aparecer nos Grammy Awards de 2000, aos treze anos. Desde então, tem tocado em inúmeros festivais, tendo vencido o concurso do Lionel Hampton Jazz Festival de 2001. Aos 15 anos, executava a Rhapsody in Blue de Gershwin com a Independence Symphony Orchestra.
Antes dos 18 anos, já tinha gravado três CDs, um deles com dois dos mais importantes nomes do jazz actual, John Patitucci e Michael Brecker, e assinado um contrato com a Sony Classical, um feito de que nenhum outro artista da sua área e da mesma idade se pode orgulhar. O seu álbum Re-Imagination recebeu uma nomeação para um Grammy Award.
Numa crítica a uma das suas aparições em público, a revista Billboard relatava: "Eldar tem as mãos mais rápidas do Jazz…mistura a alma russa (nas baladas) com a vertigem do be-bop em standards e composições originais. O seu reportório de nove peças deitou a casa abaixo. Eldar parece veicular facilmente Art Tatum e Oscar Peterson na sua abordagem, mas em seu benefício, perde-se na música à sua maneira original." De facto, Eldar faz questão de combinar de forma vertiginosa os estilos pianísticos mais diversos e não se acanha de enveredar, ocasional e surpreendentemente, pelos caminhos da electrónica e do lo-fi. O público fica estarrecido.
Apesar do seu talento e de toda a fama que o persegue, Eldar, nunca pensou em si como uma celebridade, nem alguma vez foi visto como tal pelos amigos e colegas do liceu. Era apenas conhecido como o Eldar, um jovem inteligente e simpático que, no fundo, era um adolescente normal que gostava de fazer as coisas que os adolescentes normais fazem.
Hoje, com 23 anos, aclamado unanimemente pela crítica, com cinco CDs gravados e aparições ao vivo em todos os cantos do mundo, Eldar Djangirov, a viver agora em Nova Iorque, continua a amadurecer estilisticamente, encontrando-se, na minha opinião, no caminho de se tornar um dos músicos de jazz mais importantes de todos os tempos.
A pergunta que repetidamente me faço é inevitavelmente a mesma: o que teria sido do prodígio Eldar se não tivesse dado o salto para o ocidente? A resposta encontra-se, obviamente, nos meandros da História alternativa. Neste caso, as coisas não poderiam ter corrido melhor. Ainda bem.



Terça-feira, Novembro 16, 2010

Victor But, o “senhor da guerra” que fala português

O notório traficante de armas Victor Anatolevitch But poderia ser um dos muitos oficiais que abandonaram as Forças Armadas da União Soviética e foram aumentar o número de desempregados ou de malfeitores após a desintegração da URSS em 1991.
Tal não aconteceu, porque conseguiu “orientar-se” nas novas condições criadas após aquilo a que o atual primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, considerou “a maior catástrofe geopolítica do séc. XX”.
Victor But foi extraditado hoje da Tailândia para os Estados Unidos depois de um processo que se arrastou durante meses.
But nasceu a 13 de janeiro de 1967 em Duchambé, então capital da República Socialista Soviética do Tajiquistão, na Ásia Central. Na escola interessou-se pelo estudo do inglês, alemão e esperanto, esta última língua ligada ao romantismo revolucionário.
Em 1984, terminou a Escola de Cadetes de Kazan e em finais dos anos 80, tentou ingressar no Instituto de Relações Internacionais de Moscovo, onde se preparava a elite diplomática soviética, mas não conseguiu, tendo então optado pelo Instituto Militar de Línguas Estrangeiras.
Aluno exemplar, segundo alguns dos colegas com quem a Lusa falou, Victor But tencionava estudar francês, mas acabou por dedicar-se à língua de Camões, porque naquela altura a União Soviética necessitava de quadros militares que falassem português para trabalharem como conselheiros nas ex-colónias portuguesas que passaram a fazer parte da órbita soviética.
Terminado o curso, o jovem oficial foi prestar serviço militar em Angola e Moçambique, onde trabalhou sob as ordens de Igor Setchin, agente dos serviços secretos soviéticos que atualmente ocupa o cargo de vice-primeiro-ministro, controla o sector petrolífero russo e é o “braço direito” do chefe do governo, Vladimir Putin.
Após a queda da URSS, But segue para a África do Sul, onde cria uma empresa de aviões de transporte, que, segundo as autoridades norte-americanas, foi utilizada para transportar ilegalmente armas para o Afeganistão, Angola, Togo, Ruanda, Libéria, Burkina Faso, bem como para fornecer armamentos aos talibãs e à Al-Qaida.
Angola foi a alavanca para o negócio. No início dos anos 90, a aviação de transporte na Rússia estava praticamente paralisada devido à falta de combustível e But decidiu aproveitar essa situação, alugando aviões por 400 dólares a hora no seu país, para os colocar em serviço em Angola, a 1200 dólares por hora.
Para rentabilizar o negócio, os seus pilotos trabalhavam para o Governo do MPLA, mas forneciam armas à UNITA em troca de diamantes. Em pouco tempo, But passou a ter uma frota de 50 aparelhos.
As actividades ilícitas do russo fizeram dele modelo para a personagem principal do filme “O Senhor da Guerra”, do romance “O Vingador” de Frederick Forsyth e do jogo de computador “Far Cry 2” (Chacal).
Os Estados Unidos começaram a investigar os negócios de But em finais dos anos 90 e, em 2006, o Presidente George W. Bush congelou as suas contas bancárias, porque considerou que as suas ações ameaçavam a política externa norte-americana na República Popular do Congo.
A 6 de março de 2008, o poderoso barão do contrabando de armas foi detido na Tailândia a pedido das autoridades norte-americanas, que exigiram a sua extradição.
Moscovo desenvolveu grandes esforços diplomáticos e políticos para não permitir a entrega do seu cidadão à justiça americana. Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, considerou que a decisão de extradição “não é jurídica, mas política”.
Fontes da Lusa na capital russa consideram que este empenho da diplomacia russa se deve ao fato de Victor But poder vir a colaborar com a justiça norte-americana e a revelar ligações entre atuais dirigentes russos e atividades ilícitas como tráfico de armas e diamantes.



Segunda-feira, Novembro 15, 2010

Blog do leitor (Oito porcento do corpo, sem contar com alma)

Texto traduzido enviado pelo leitor Jest:


"Um dos mitos defendidos pela esquerda estalinista é o mito do que os campos de concentração soviéticos eram mais humanos do que os campos de concentração nazis. A verdade histórica demonstra uma realidade cruelmente diferente...
 
por: Vakhtang Kipiani
Jornalista, Historiador e Redactor-chefe da página WEB “Verdade Histórica”

... No Verão de 1937 a troika especial do Departamento do NKVD da província de Leninegrado (chefe do NKVD L. Zaykovski, o seu vice-chefe V. Garin e procurador da cidade de Leninegrado B. Pozner), condenou ao fuzilamento um grande grupo de pessoas (no total 1825 indivíduos), prisioneiros da Cadeia Especial de Solovki (em russo STON, palavra que em russo também significa o gemido).

 
Durante muitos anos não se sabia onde e como os carrascos vermelhos executaram a sua sentença bárbara. Falava-se de ilhas de Solovki, existia a versão, segundo a qual os prisioneiros foram colocados nos barcos, afundados em seguida no Mar Branco, e finalmente tenho nas mãos os documentos do arquivo especial do KGB (hoje FSB da República da Carélia).
Cada processo tem um grifo “Absolutamente secreto”. Mesmo mortos, os fuzilados eram testemunhas perigosas contra o regime soviético.
No dia 16 de Outubro de 1937, o comissário do NKVD da 1ª categoria, Zaykovski, prepara dois documentos: o primeiro é dirigido ao chefe do STON, camarada Apeter com a ordem de “entregar imediatamente 1116 pessoas condenadas ao fuzilamento ao cuidado do enviado para a execução da sentença ... capitão da NKVD cam. Matveev M. R.”, o segundo documento é a disposição pessoal ao Matveev, com o grifo “apenas pessoal” com a ordem “fuzilar”.
O assassínio em massa das pessoas inocentes foi executado em três tempos.
O último grupo (198 prisioneiros) foi fuzilado na ilha Grande Solovki na área de “missão especial” Isakovo no dia 17 de Fevereiro de 1938.
Antes disso, um grupo de 509 prisioneiros do STON foi levado até a cidade de Leninegrado (os documentos sobre a execução da sentença foram assinados pelo primeiro tenente A. Polikarpov).
O destino dos 1116 condenados era desconhecido. Agora sabemos que no dia 27 de Outubro Matveev fuzilou 208 pessoas, 2 de Novembro – 108, 3 de Novembro – 265, 4 de Novembro – 248, nos próximos dias outros 210 pessoas. Cinco condenados à pena capital não chegaram ao destino de execução (um morreu na cadeia, outros quatro foram enviados para Leninegrado, Odessa e Kyiv e assassinados lá).
O local exacto da sepultura dos 1111 mártires – quilómetro 16° da auto-estrada Medvezhyegorsk – Povenets na Carélia. Os documentos existentes permitem seguir a sua última marcha.
No dia 27 de Outubro de 1937 na floresta de Sandarmokh, nos arredores da cidade russa de Medvezhyegorsk começaram os fuzilamentos dos prisioneiros políticos da “etapa de Solovki”. Eram 1111 pessoas no total. Cerca de metade eram russos, 163 – ucranianos; 135 judeus; 40 belarusos; 31 alemães; 30 polacos…
Lista dos fuzilados na floresta de Sandarmokh
Por mar eles foram trazidos até a vila de Kem, da lá, pelo caminho-de-ferro até Medvezhyegorsk, onde se situava a cadeia de isolamento pertencente ao Canal Mar Branco – Mar Báltico, com a capacidade mínima de 300 pessoas. Da cadeia, com as mãos amarradas, as pessoas eram transportados até a floresta de Sandarmokh, onde Matveev pessoalmente (as vezes com ajuda do vice – comandante provincial do NKVD Y. Alafer) fuzilava as pessoas com a bala de revolver na nuca.
Cada dia duzentos pessoas... Um trabalho normal de um chekista...
No dia 10 de Novembro o capitão avisou as chefias sobre o fim da tarefa e já no dia 20 de Dezembro o esperava uma surpresa agradável – uma prenda valiosa e a Ordem da Estrela Vermelha “pela luta de sucesso contra a contra-revolução”. Uma testemunha contemporânea escrevia que Metveev “batia os contra-revolucionários com as estacas de bétula nas cabeças, nas costas – todos os que apareciam debaixo da sua mão quente”. Ele também fuzilava as pessoas “rapidamente, de forma precisa e inteligente”.
Após a queda do “inimigo do povo” Yezhov, os grandes e pequenos chefes da NKVD, eles próprios, entraram atrás das grades. Matveev também – acusado de “abuso do poder”.
Do protocolo de interrogatório do 13 de Março de 1939: “Pergunta: Você participou nas operações de execução das sentenças dos condenados à pena capital?
Resposta: Sim, nestas operações eu participei várias vezes, desde 1918, com intervalo entre 1923 à 1927. Em 1937 as sentenças eram executadas pessoalmente por mim, Matveev Mikhail Rodionovich e Alafer, os restantes membros do grupo tinham outras tarefas...”.
Desta maneira, o assassino sádico também foi sentenciado. Ao mando da mesma “consciência revolucionária”.
Os locais da floresta, onde foram assassinados milhares de pessoas foram achados absolutamente ao acaso. Ainda nos anos 1950, um operador da escavadora do Povenets durante a construção de uma estrada encontrou os ossos humanos. E os enterrou, “longe do pecado”.
Depois, mesmo antes de morrer, se confessou um dos moradores locais – participante nas acções de fuzilamentos da NKVD. Quarenta NKVDistas “trabalhavam” de noite, vivendo nas tendas sob a guarda. Tentando se justificar, dizia que se recusasse a matar, seria fuzilado ele próprio.
Em 1994, um operador da escavadora, trabalhando na carreira areal em Sandarmokh outra vez encontrou os crânios com o buraco característico e ... outra vez enterrou. Medo.
No dia 1 de Junho de 1997, o líder da Sociedade Memorial da Carélia, Yuriy Dmitriev, finalmente encontrou a primeira campa, a vala comum: “Vi no terreno o fosso de forma geométrica correcta – se o (fosso) é de 15 – 20 cm, na vala estão cerca de 40 pessoas”.
A pessoa deixa apenas oito por cento do seu volume. Pois a alma dos inocentes assassinados voa até o céu...
Publicado em português: