
“Peço-te que não morras de dor. A vida é vida e ninguém está livre de amanhã ser atropelado por um automóvel. Eu acredito completamente na tecnologia. Ela não deve enganar”, escreveu Iúri Gagarin a 10 de Abril de 1961, dois dias antes de fazer a primeira viagem espacial.
Numa carta dirigida à esposa e às duas filhas, o primeiro cosmonauta acrescenta: “mas acontece que uma pessoa pode cair num lugar plano e torcer o pescoço. Aqui também tudo pode acontecer. Mas, por enquanto, não acredito nisso”.
“Mas se algo acontecer, devemos saber tudo até ao fim. Eu vivi, até agora, honestamente, com verdade e sendo útili para as pessoas, embora a minha vida tenha sido ainda curta. Quando era criança, li as palavras de Tchkalov: “A ser, tenho de ser o primeiro”. Tento ser assim até ao fim”, frisava Iúri Gagarin.
Valentina Gagarina, esposa do homem que realizou uma viagem espacial, apenas recebeu esta missiva depois da morte do marido, a 27 de março de 1968.
A carta e outros documentos secretos sobre a vida e obra de Gararin são publicados no livro “108 minutos que mudaram o mundo”, de Anton Pervuchin, que chegará às prateleiras das livrarias russas no início de Abril.
Neste livro, dedicado ao 50º aniversário da primeira viagem do homem ao Espaço, o autor relata que as autoridades soviéticas sempre afirmaram que a cápsula “Vostok” aterrou, com Gagarin a bordo, no local previsto, embora isso não corresponda à verdade.
Gagarin acabou por aterrar na região de Saratov, no sul da Rússia, longe do local calculado pelos engenheiros, e as esposa e neta de um guarda florestal local foram as primeiras a vê-lo a regressar do Espaço.
“Sou dos nossos, dos nossos, sou soviético”, gritou ele ao notar o rosto de espanto delas quando viram um homem envergando um escafandro.
Segundo Pervuchin, as autoridades comunistas tentavam fazer segredo de tudo, tendo provocado com isso cenas ridículas. Por exemplo, um censor proibiu os jornais soviéticos de escreverem que o foguetão tinha três níveis de locomoção, o que levou a que essa informação chegasse a um grande número de jornalistas.
Os nomes dos construtores das naves espaciais eram também um grande segredo. Por exemplo, após a viagem de Gagarin ao Espaço, o nome do principal engenheiro, Serguei Koroliov, continuou a ser desconhecido, o que o deixava profundamente ofendido.
O autor do livro considera que Koroliov olhava com maus olhos para o fato de a direção comunista da URSS utilizar as viagens espaciais para fins puramente políticos, pondo, por vezes, em risco a vida dos astronautas.



