Sexta-feira, Abril 30, 2010

Sessão de lançamento do livro "Samora Machel: Atentado ou Acidente?"

Caros leitores, um dos frequentadores deste blog, Fernando Gil, esteve na sessão do lançamento do meu livro e colocou o vídeo e audio na internet. Aconselho a ouvir não a minha pessoa, mas o ex-piloto português Armando Cró, que trabalhou em Moçambique e acompanhou a investigação. 
Aproveito a oportunidade para lhe agradecer pela participação na sessão.


Quinta-feira, Abril 29, 2010

Livro sobre Moçambique

Caros leitores, quem estiver interessado em adquirir o meu livro: "Samora Machel:  Atentado ou Acidente?", poderá fazê-lo na livraria Aletheia, Rua do Século Nº13, Lisboa, ou na Feira do Livro de Lisboa. Quanto aos leitores de fora de Lisboa, o livro deverá chegar às livrarias por volta de 07 de Maio ou poderá ser adquirido através do sítio http://www.wook.pt/.  
Espero as vossas opiniões e críticas.

Quarta-feira, Abril 28, 2010

Sobre livro "Samora Machel: Atentado ou Acidente?"


Artigo do jornalista e investigador moçambicano João Cabrita, publicado no jornal electrónico canalmoz



“Acidente de Mbuzini



O ponto de vista russo em novo livro sobre a morte de Samora Machel

Será lançado em Lisboa, depois de amanhã, quinta-feira dia 29, o livro, «Samora Machel - Atentado ou Acidente?» da autoria de José Milhazes , investigador português radicado em Moscovo.


Maputo (Canalmoz) - Será lançado em Lisboa depois de amanhã, quinta-feira dia 29, o livro, «Samora Machel - Atentado ou Acidente?» da autoria de José Milhazes , investigador português radicado em Moscovo. Milhazes debruça-se sobre as causas do acidente de aviação em que perdeu a vida o primeiro presidente moçambicano, Samora Machel. “O aparelho Tupolev 134 e a tripulação eram soviéticos, daí ser importante saber o que pensam os especialistas da antiga URSS sobre isso”, refere o autor que reside em Moscovo desde 1977.

No mesmo dia em que o livro é lançado em Lisboa o Armando Guebuza inicia uma visita de Estado a Portugal a convite do seu homólogo Cavaco Silva.

De 51 anos de idade, José Milhazes é doutorado pela Universidade do Porto, tendo-se dedicado à tradução de obras literárias e políticas de língua russa para o português. Foi correspondente do jornal «Público» em Moscovo, e colaborador do canal televisivo, SIC. Presentemente trabalha como correspondente da LUSA na capital Russa, que aquando do acidente era a capital da extinta União Soviética.

Milhazes é autor do livro, «Angola – O Princípio do fim da União Soviética», publicado o ano passado pela Editora Vega. Em «Samora Machel - Atentado ou Acidente?» José Milhazes afirma ter “conseguido encontrar fontes, escritas e orais, que põem um ponto final na discussão” em torno do acidente de Mbuzini.. “Mas essa decisão” acrescenta, “irá pertencer aos leitores”. O novo livro de José Milhazes sairá com a chancela da editora Aletheia.



O Livro de Sérgio Vieira



O mais recente livro a abordar o acidente de Mbuzini foi lançado em Maputo o mês passado. Trata-se de «Participei, por isso testemunho» da autoria de Sérgio Vieira. O autor defende que Samora Machel foi vítima de um “acto de terrorismo de Estado”, que teria contado com o envolvimento do Reino Unido e dos Estados Unidos. (pp. 489-490) Todavia, Vieira não fornece pistas concludentes que substanciem a sua tese, assentando as alegações que faz em chamadas telefónicas recebidas das representações diplomáticas britânica e americana em Maputo poucos dias a seguir ao acidente. Conforme relata o autor, os diplomatas apenas informaram que os seus países não tencionavam integrar a comissão de inquérito instituída pela África do Sul.

No livro, Sérgio Vieira refere que as investigações sobre o acidente de Mbuzini efectuaram-se de acordo com as “regras da IATA”. (p. 486) A IATA é uma associação internacional de transportadoras aéreas que trata exclusivamente de questões comerciais. A instituição que lida com acidentes de aviação é a ICAO, e foi ao abrigo deste organismo das Nações Unidas que a Comissão de Inquérito sul-africana investigou o acidente.

Alega o autor que os radares sul-africanos haviam “segui[do] o voo presidencial desde Mbala e Lusaka”. (p. 491) O raio de acção desses radares, porém, não excedia os 320 km, portanto muito aquém quer da Base Aérea de Mbala, quer da capital zambiana, que distam da fronteira sul-africana 2,500 km e 800 km, respectivamente.

O autor põe em causa a idoneidade e a competência das individualidades estrangeiras que integraram a Comissão de Inquérito. O americano Frank Borman e aos britânicos Sir Edward Eveleigh e Geoffrey Wilkinson são descritos como “personalidades com posicionamento de extrema-direita e pró-apartheid”. (pp. 490-491) Na opinião do autor, Borman “não dispunha de credenciais como perito para estudar acidentes aéreos”. (p. 489)

Engenheiro de aeronáutica, Frank Borman iniciou a carreira como piloto de aviões de combate, desempenhando depois as funções de piloto operacional e de piloto de voos de ensaio. Foi professor assistente de termodinâmica e mecânica de fluidos na Academia de West Point. Em 1968, quando desempenhava as funções de instrutor de aviação na Base Aérea de Edwards, Califórnia, foi escolhido pela NASA para chefiar a Missão Espacial Apolo 8. No ano anterior, havia integrado a comissão de inquérito que procedeu à investigação das causas de um acidente envolvendo uma nave espacial do Programa Apolo.

Igualmente engenheiro de aeronáutica, Geoffrey Wilkinson era, à altura do acidente de Mbuzini, chefe do Departamento de Investigações de Acidentes Aéreos (AAIB) do Reino Unido, sendo então considerado como o único investigador do Ocidente com experiência em investigações de acidentes envolvendo aviões Tupolev-134.

Formado pela Universidade de Oxford, Sir Edward Eveleigh era juiz do Tribunal de Recurso do Reino Unido, contando com vasta experiência em casos jurídicos envolvendo acidentes de aviação.

Sobre Cecil Margo, que chefiou a Comissão de Inquérito sul-africana, o autor considera que esse juiz “distinguira-se por um veredicto sobre o assassinato de Steeve (sic) Biko” e que contrariando um médico, “o senhor Margoo (sic) decidiu que Biko se suicidara dando cabeçadas nos muros da sua cela!”. (p. 490) Cecil Margo não teve qualquer envolvimento, directo ou indirecto, no caso. Marthinus Prins, um magistrado de Pretória, foi quem presidiu ao inquérito judicial instaurado para se apurarem as causas da morte de Biko. A tese do suicídio não foi sequer evocada no decurso do inquérito judicial, tendo Prins concluído que a morte de Biko se devera a "uma briga" com agentes da polícia que o haviam interrogado. Para além do inquérito judicial realizado em 1978, nesse mesmo ano a família Biko moveu uma acção contra o Estado sul-africano, exigindo uma indemnização pela morte do activista anti-apartheid. O caso não foi a julgamento pois o governo da África do Sul e a família Biko chegaram a acordo quanto à indemnização a pagar. Em 1980, o Comité Disciplinar da Ordem dos Médicos da África do Sul ilibou os médicos que haviam tratado Biko pouco antes da sua morte. Não satisfeitos com esta decisão, em 1985 um grupo de membros da mesma Ordem moveu uma acção junto do Tribunal Supremo de Pretória, tendo esta instância decretado que se efectuasse um inquérito à conduta dos médicos que haviam tratado de Biko. Na sequência do inquérito, W.G. Boshoff, juiz presidente do Transvaal, considerou haver provas de conduta imprópria por parte dos referidos médicos, embora o autor de “Participei, por isso testemunho” considere um deles de “eminente patologista”. (p. 490) O caso Biko voltou a ser alvo de um novo inquérito no âmbito da Comissão da Reconciliação e Verdade. Cecil Margo não teve qualquer participação em nenhum dos inquéritos.

Afirma o autor que, “abruptamente, a parte sul-africana deu, unilateralmente, por terminado o seu inquérito, quando toda a comissão desejava que se averiguasse o sinal localizado na zona de Mbuzini e que, aparentemente, haveria fornecido falsas informações aos aparelhos electrónicos do TU134B (sic) do Presidente”. (p. 490)

Tanto Moçambique como a União Soviética retiraram-se da Comissão de Inquérito no momento em que esta se preparava para analisar os dados contidos no Relatório Factual elaborado por peritos representando os três Estados. Não obstante a posição assumida pelos dois países, a Comissão de Inquérito averiguou em profundidade a questão do chamado VOR falso, tendo concluído que a alegação era infundada. Inclusivamente, a Comissão solicitou a Moçambique que autorizasse a utilização do espaço aéreo moçambicano para se efectuar um ensaio à propagação das ondas do VOR de Matsapha. Segundo a parte soviética, o sinal emitido pelo VOR de Matsapha não poderia ter sido captado pelo Tu-134A presidencial devido a obstruções causadas pelos montes Libombos. Não obstante o facto do governo moçambicano ter indeferido a autorização solicitada, viriam a ser efectuados ensaios ao VOR de Matsapha com recurso a voos não oficiais envolvendo dois «Mirage» da Força Aérea Sul-Africana e aviões cargueiros de uma empresa privada. Em ambos os voos foi possível sintonizar o VOR do aeroporto suázi.

Lamenta o autor que os “serviços competentes” da África do Sul não tenham dado atenção às declarações do senhor Hans Louw. (p. 491) Entrevistado no programa televisivo Special Assignment da SABC 3, Louw afirmou que se encontrava no local onde o Tupolev se havia despenhado, como parte de uma unidade portadora de mísseis terra-ar com o objectivo de abater o avião presidencial. Hans Louw precisou ter avistado o avião a aproximar-se, “preparando-se para aterrar, com o trem de aterragem descido” e que “o piloto pensava que estava a aterrar em Moçambique”.

De acordo com o Relatório Factual atrás citado, no momento da colisão, o trem de aterragem do Tupolev presidencial encontrava-se recolhido. A audição do CVR, efectuada na Suíça (e não na África do Sul, como escreve o autor de “Participei, por isso testemunho”, p. 488), prova que a três segundos da colisão, quer o navegador, quer o piloto, não sabiam onde se encontravam, nem para onde ir. Por conseguinte, o piloto não “pensava” que estava a aterrar:



Navegador: Não, não, não há para onde ir, não há NDBs, não há nada.



Piloto: Nem NDBs, nem ILS.



Um indivíduo que reúne todas as características de impostor, que para além de especular sobre as intenções da tripulação de uma aeronave em pleno voo, inventa pormenores técnicos que contrariam o parecer de peritos qualificados, não pode, obviamente, ser objecto de atenção dos serviços competentes do país vizinho.”

Russos publicam documentos secretos sobre Katyn


O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, ordenou a publicação, hoje, de documentos relativos ao crime de Katyn, em 1941. Segundo estes, não restam dúvidas que os mais de 20.000 soldados e oficiais polacos foram fuzilados pelas tropas do NKVD (Comissariado Popular para Assuntos Internos) da URSS, ilibando assim desse crime as tropas alemãs.
Para quem souber russo e queira ler a cópia digital dos originais, aqui fica o sítio dos arquivos russos: http://www.rusarchives.ru/publication/katyn/spisok.shtml .
Se depois disto ainda aparecer alguém a tentar dizer que o crime não foi cometido por Estaline e seus acólitos...

Blog do leitor (Internet na Rússia: zona de liberdade e de pouca política)


Textos traduzidos e enviados por Cristina Mestre:

"A Internet na Rússia tem vindo a desenvolver-se com rapidez e praticamente não é censurada, à excepção do Cáucaso do Norte.

Esta liberdade no espaço virtual contrasta com o forte controlo sobre os meios de comunicação social impressos e audiovisuais. No entanto, os cibernautas russos não gozam de todas as vantagens e encantos da liberdade de expressão uma vez que não se interessam pela política.

“O espaço da Internet é o único meio verdadeiramente aberto e livre de comunicação na sociedade russa”, sublinha a politóloga Marie Mandra. Ao mesmo tempo, refere, na Rússia “só um terço da população tem acesso diário à Internet”.

Para além disso, os russos utilizam a rede global essencialmente para fins profissionais ou de entretenimento. Entre os utilizadores, na sua maioria jovens das zonas urbanas, o interesse em relação a sites políticos ou de defesa dos direitos humanos é muito limitado, embora estes sejam numerosos.

Paralelamente, as autoridades russas estão a criar na Internet os seus próprios instrumentos de influência e de propaganda.

Recentemente, o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung referia que os bloguistas russos assumem frequentemente não só as funções da imprensa mas também dos órgãos de protecção da ordem.

Ultimamente, os blogues têm-se tornado cada vez mais para os cidadãos um espaço de crítica em relação às acções ilegítimas das autoridades.

Não é raro resolverem-se problemas importantes, que preocupam a sociedade, graças à sua discussão na Internet.

Por exemplo, os bloguistas russos discutiram intensamente o destino da menina russa Sandra Zarubina, retirada no ano passado aos pais adoptivos portugueses pela mãe biológica alcoólica e trazida para a Rússia.

Grande ressonância na blogosfera teve também a tragédia que aconteceu na Primavera do ano passado no sul da capital, quando um agente da Polícia, Roman Jirov, atropelou uma mulher grávida numa passadeira, tendo-se posto em fuga praticamente sem sofrer quaisquer consequências.

O marido da falecida, Alexei Chum, colocou uma mensagem sobre o acidente no seu blog, graças à qual o caso passou a ter grande ressonância. Só depois disso é que o Ministério Público abriu um processo penal e o polícia foi detido. Mesmo assim, este acabou por ser libertado com termo de identidade e residência.

A utilização da Internet para combater ilegalidades tem ultimamente sido aplicada pelas próprias autoridades. Assim, as Polícias ligadas ao Ministério do Interior viram-se no centro de um escândalo nacional quando o major da Polícia Alexei Dymovsky publicou na Internet um vídeo em que acusava os seus colegas de corrupção, criticando duramente Vladimir Putin. O exemplo foi seguido por outros polícias em várias regiões do país.

Depois do escândalo, o próprio Dymovsky foi acusado de fraude pelas autoridades, tendo sido posteriormente detido. Para além disso, já houve precedentes de pessoas que foram processadas por fazerem certas afirmações na Internet.

Em 2008, em Syktyvkar, o músico Savva Terentiev foi condenado a uma pena de prisão suspensa por “extremismo”. O músico tinha proposto “queimar os bófias incompetentes” na praça central da cidade.

Ainda em Setembro do ano passado, o tribunal de Syktyvkar, condenou Igor Sajin a pagar uma multa de 6.000 rublos pela autoria de um texto num blog em que o defensor dos direitos humanos chamava aos políticos locais “cus manhosos”, acusando-os de irregularidades na implementação do programa nacional “Habitação Acessível”.

A Administração do Presidente está preocupada com a queda de confiança nos órgãos de comunicação oficiais a nível regional. Foi colocada perante os governadores a tarefa de entrar nos blogs e de estimular discussões virtuais, bem como de contribuir para o desenvolvimento dos meios de comunicação electrónicos regionais. O Kremlin receia que, num futuro próximo, a utilização das tecnologias virtuais, bem como dos blogs e das redes sociais, possa não só formar a opinião em relação aos representantes da classe dirigente mas também ter uma influência real nos resultados das eleições.

Após o presidente Dmitry Medvedev ter iniciado o seu videoblog, em Outubro de 2008, muitos políticos acorreram à Internet.

Boris Nemtsov, político de oposição, compara os políticos e funcionários transformados de repente em activos utilizadores da Internet com os papagaios que repetem as palavras do chefe mecanicamente e sem as entender. “Há outros que fazem sky da mesma forma”, diz o político com sarcasmo. “Banalidades misturadas com bajulamento” – é assim que Nemtsov descreve o conteúdo de muitos blogs de personalidades oficiais.

O que é um facto é que a Internet muitas vezes é fonte de problemas para os políticos e funcionários. Não é para melhorar o seu nível de formação política que os cidadãos russos consultam os blogs e sites dos políticos. O que os interessa são os pormenores “picantes” da vida privada dos governantes.

As pessoas discutem as dimensões das suas casas de férias ou dos carros comprados com o dinheiro dos orçamentos regionais ou federais. As pessoas acham que a verdadeira política não é o que se diz nas tribunas.

O que irrita mais os governantes é o facto de na Internet todos poderem dizer o que pensam.

Ofendidos pelos comentários desagradáveis, uns políticos simplesmente apagam-nos, outros ameaçam os críticos com represálias e chamam a Polícia.

Um exemplo elucidativo foi a “guerra” entre Vladimir Kissiliov, presidente do Parlamento regional de Vladimir, e os leitores do site “Opção 33”.

Nos comentários a um texto sobre o parlamentar, um leitor escreveu:

“As palavras consciência e decência não podem ser utilizadas juntamente com o nome de Kissiliov”. O deputado propôs ao anónimo “se ele é homem”, “encontrar-se cara a cara e definir que palavras podem ou não podem ser utilizadas com determinado apelido”.

Kissiliov deixou o telefone do seu secretariado, mas o leitor propôs-lhe encontrarem-se pessoalmente, na praça da cidade e com testemunhas. Depois disso, o deputado recusou e parou de responder aos comentários.

Posteriormente, os autores do site “Opção 33” foram chamados à Polícia, tendo-lhes sido proposto indicar o endereço IP do anónimo.

Um pouco antes, o governador de Vladimir, Nikolai Vinogradov, conseguiu que o tribunal multasse o jornalista local Dmitry Tachlykov em 100.000 rublos por difamação na Internet.

Num dos fóruns, o jornalista chamou ao governador “animal”, “idiota” e “filho da mãe”.

No entanto, na maioria dos casos, os políticos não vão para tribunal, preferindo simplesmente apagar os comentários críticos ou desagradáveis.

Muitos blogs oficiais têm secretários de imprensa que filtram os comentários na fase de moderação, deixando apenas os comentários elogiosos dos subalternos.

Tradução dos artigos originais:

http://www.newsru.com/russia/17mar2010/apolitnet.html

http://www.newsru.com/russia/21jan2010/vipblgrs.html"

Segunda-feira, Abril 26, 2010

Convite para o lançamento do meu livro "Samora:Atentado ou Acidente?"

Caros leitores e amigos, é com um enorme prazer que vos convido para a sessão de lançamento do meu novo livro.
Todos os dados estão no convite que vos envio abaixo. Obrigado
P.S. Peço desculpa de o aviso estar a ser feito em cima da hora, mas o trabalho a isso obriga. Depois do lançamento, regressarei no mesmo dia a Moscovo.


Domingo, Abril 25, 2010

Os meus 25's de Abril



Recordo-me como se fosse hoje, o 25 de Abril de 1974 foi um bonito dia de Primavera. Estava eu na aula de História, no Seminário Comboniano da Maia, quando alguém veio chamar o Dr. Cunha para ir ao telefone. Não era muito comum que esse excelente professor deixasse as aulas para ir atender telefones, mas a turma não ficou surpreendida, aproveitando o intervalo para “desopilar”.
O Professor Cunha voltou com um ar muito sério, concentrado, e pediu silêncio para anunciar: “Está a ter lugar um golpe de Estado, o regime está a ser derrubado”. E, com lágrimas nos olhos, pediu-nos novamente contensão e silêncio para continuar a aula.
Sim, criou-se um silêncio profundo, mas durou pouco tempo, porque não conseguimos conter a nossa alegria: o regime opressor tinha caído.
Naquela altura, eu tinha quase 16 anos, mas já tinha tido a oportunidade de ver a actuação da PIDE/DGS contra as pessoas que tinham outros ideiais. A polícia tinha acabado de expulsar alguns missionários combonianos de Moçambique e, no seminário, esse era um dos principais temas das conversas.
Além disso, tive professores brilhantes como o Professor Cunha que ousavam falar-nos a verdade.
Foi um momento de enorme alegria e euforia. À noite, até foi aberta uma excepção na disciplina para que pudessemos acompanhar os acontecimentos pela televisão.
Recordo também um caso curioso ocorrido logo a seguir, no dia 1 de Maio. O seminário tinha adquirido bilhetes para irmos ao Porto ver o filme “Jesus Christ Superstar”. Chegamos à porta do cinema (não me recordo o nome) e deparamos com um papel onde se lia algo como “a sessão foi suspensa devido às começorações do 1º de Maio”.
Por razões de segurança, tinham-nos dito para não irmos para a Avenida dos Aliados, onde se realizava a manifestação, mas, nessa dia, todos os seminaristas desobedeceram às ordens dos superiores, ou seja, pecaram, tal era o desejo de ver a primeira grande manifestação livre em Portugal.
E qual não foi o nosso espanto encontrar na manifestação alguns dos nossos superiores! Certamente estavamos perdoados.
Foi dos dias mais lindos da minha vida, quando se acredita que a felicidade, a irnandade está a um passo de distância. Mas, depois da festa, veio a ressaca, que continua ainda hoje. Portugal transformou-se, melhorou muito, mas muito mais ficou por fazer.
Depois, durante a vida de jornalista, tive a oportunidade de assistir a outras festas bonitas: a queda do comunismo na Europa do Leste e, depois, na URSS; a reconquista da independência da Estónia em 1991; a “revolução laranja” de 2004 na Ucrânia, etc., etc. Quanta alegria e esperança se sentia nas pessoas, quantas lágrimas de felicidade derramadas, mas sempre uma ressaca dolorosa e, às vezes, até sangrenta.
A ressaca não surge porque se conclui que esses acontecimentos não valeram a pena, mas porque, quando a festa termina, os líricos são substituídos por cínicos. Na linguagem destes últimos, chamam-se “pragmáticos”.

Robbialac cria tinta especial para casa de Bernardino Soares?


Desta vez não se trata de um sonho ou pesadelo, mas de uma realidade bem curiosa, ou melhor, “colorida”. A empresa de tintas Robbialac, talvez tentando ultrapassar o famoso quadro “Quadrado Negro” de Kazimir Malevitch, criou duas novas cores de tinta a que deu os nomes de “Vermelho Rússia” e “Vermelho Estaline”.
Se não acreditam no que digo, o catálogo está disponível em: http://www.robbialac.pt/folder/catalogo/ficheiro/1_catalogotintagemcolorizer2008.pdf .
Quanto à primeira cor, eu não estaria contra pintar divisões da minha casa com ela, mas haverá alguém capaz de utilizar o “Vermelho Estaline” para pintar interiores?
Depois de muito meditar, cheguei à conclusão hipotética que a Robbialac decidiu aproveitar o ainda significativo mercado de extrema-esquerda em Portugal. O “Vermelho Estaline” poderá ser a cor ideal para pintar os interiores das sedes do Partido Comunista Português ou de casas de militantes desse partido.
Começo a imaginar as cores das salas ou dos dormitórios das casas dos Srs. Jerónimo de Sousa e Bernardino Soares!
Sei que o marketing permite muita criatividade, mas acho que o bom senso deve ter limites.
Talvez, neste caso, eu não tenha entendido que se tratou de uma “manobra global” da famosa empresa de tintas. Depois da conquista do mercado estalinista português, a Robbialac terá intenções de entrar e vencer no imenso mercado estalinista da Federação da Rússia ou candidatar-se a pintar os interiores dos palácios dos dirigentes da Coreia do Norte?
Se essa estratégia tiver êxito, podem começar a criar novos tons e cores. Por exemplo, “Vermelho GULAG”, “Cinzento Hitler”, etc.
Sinceramente, eu gostava mais daquela publicidade que ouvi há muitos anos: “Bate chapas e tinta Robbialac”.

Sábado, Abril 24, 2010

Blog dos leitores (Festa da língua portuguesa na MGIMO)



Texto e fotos enviados por João Mendonça João, leitor do Instituto Camões em Moscovo:

Teve lugar na sala de conferências da Universidade de Relações Internacionais de Moscovo, no dia 22 de abril, a trigésima-sexta edição da festa da língua portuguesa. Durante duas horas e meia estudantes de português de várias universidades da capital russa divertiram e deleitaram um público de cerca de duzentas pessoas, com um programa intitulado este ano “1º Carnaval Lusófono de Moscovo”. Representantes do corpo diplomático de Portugal, Brasil e Mocambique marcaram presença no evento, entre eles o Embaixador de Portugal, Pedro Nuno Bártolo, que deu o pontapé de saída dos festejos, premiando os vencedores do concurso de interpretação recentemente realizado na MGIMO: Elena Bitziukova, Denis Sobe- Panek, Ekaterina Kazakova,
Alena Pepolva, e Elena Smolentseva.
O adido de imprensa da Embaixada de Angola seguiu-lhe o passo e ofereceu à Universidade a bandeira do seu país.
Aliona Peplova, Ekaterina Kazakova (4º ano de Relações Internacionais), Elena Bitsiukova, e Evgueni Skobkarev (4º ano de Jornailsmo Internacional) foram exímios anfitriões, e apresentaram com brio os sketshes, canções e um florilégio de números exibidos ao público.
Ao palco subiram os estudantes do 1º ano de Relações Internacionais, e interpretaram “À Minha maneira”, dos Xutos & Pontapés, e “Não Tente me impedir”, dos brasileiros Bruno & Marrone, acompanhados à guitarra.
As estudantes do 2º ano de Jornalismo Internacional mostraram os seus dotes na sétima arte , parodiando as telenovelas, num divertido enredo de faca e alguidar da sua própria realização e interpretação. Enquanto as estudantes do 1º ano do mesmo curso ilustraram a realidade contemporânea da internet e das suas virtualidades matrimoniais.
Chegou a vez do virtuoso guitarrista Denis Sobe-Panek (4º ano de Relaçãoes), acompanhado ao piano por Andris Dubrovskis, deliciar o público com duas composições suas, “Atlântico” e “Saudade”, inspiradas de Lisboa. Acompanhou Liza Vinogradova e Alina Aderkhaeva (3º ano de Relações Internacionais) num primoroso “Samba do Amor e Ódio”, de Roberto Samba.
O espírito do “desenrasca” estudantil foi evidenciado na peça do 3º ano de Relações Internacionais.
O conjunto “Grenada”, laureado de festivais internacionais, esteve em grande destaque com a sua interpretação de 3 temas tradicionais , e “Grândola Vila Morena”, de José Afonso, com participação especial do Professor e amigo da lusofonia, Andrei Tokarev.
Estudantes do 1º, 3º, 4º anos, e mestrandos de Relações Internacionais puseram a sala ao rubro com a dança tradicional angolana do Batuque.
O 2º ano de Relações Económicas Internacionais cantou, e encantou com as suas bossas, tal como o duo Denis Sobe- Panek/ Ksenia Voevodina nua sua interpretação de “Garota de Ipanema”.
Num registo mais lírico, os colegas da Universidade Linguística de Moscovo declamaram poemas de Fernando Pessoa, e entoaram o fado “Caravelas”, de Mariza.
O humor foi uma constante nos sketshes apresentados ao longo desta tarde. Exemplo disso foi a apresentação de uma cena dos Gato Fedorento, inspirada nas histórias de incestos das telenovelas, pelo 4º ano de Relações Internacionais.
O acordo ortográfico e as diferenças lexicais entre Portugal e o Brasil foram alvo da veia humorística do 4ºano de Jornalismo Internacional, e Nikita Muravev e David Peleg (3º ano de R.I) por sua vez também proporcionaram belas gargalhadas aos convidados, com a sua representação do sketsche “Sinónimos” dos Gato Fedorento.
Os estudantes do 1º ano de Filologia Portuguesa da Universidade Lomonossov- MGU trouxeram ao palco o espírito vanguardista de António Variações com“Mudar de Vida”, e Evgueni Kostrikov e Ana Martchenko (2º ano de Relações Económicas Internacionais), o calor do samba.
A cena “Robô” do 1º ano de Relações Internacionais não poupou a época das altas tecnologias, e provou que “nada substitui a alma e os corações humanos”.
Bakhtior Mansurov declamou versos dos grandes poetas da lusofonia, com carismo e emoção. Denis Sobe- Panek e o leitor do IC fecharam o programa, com ritmo e cor, cantando “Tive Razão” de Seu Jorge.
O convívio continuou seguiu com um banquete em que não faltou o vinho português, oferecido pelo AICEP, a quem agradecemos, na pessoa da sua representante em Moscovo, Dra Maria José Rézio, presente durante o evento.
Tivemos também o prazer de poder contar com a presença do Director da TAP em Moscovo, Dr Pedro Pinto.
É de salientar o esforço colectivo dos professores da Cátedra de Línguas Românicas da MGIMO: Galina Petrova, Marina Konovalov, Elena Gavrilova, Irina Tolmachetva, Nikolai Ivanov e Maria Khvan, que tornaram possível a realização deste evento, e que ano após ano não poupam esforços no sentido de dignificar a lingua e a cultura portuguesas na Rússia."

Sexta-feira, Abril 23, 2010

Números para reflexão


Elena Mizulina, presidente do Comité da Duma Estatal para Assuntos da Família, Mulheres e Crianças revelou que a Rússia, actualmente, tem mais crianças órfãs do que durante a Segunda Guerra Mundial. Se, nos anos 40 do século XX, esse número era de 678 mil, hoje atinge os 697 mil.
Segundo ela, dois terços dessas crianças abandonadas são “órfãos sociais”, ou sejam, órfãos com  pais vivos.
Nos últimos dois anos, 30 mil crianças foram devolvidas a orfanatos.

Quinta-feira, Abril 22, 2010

Passageiro ucraniano afirma ter voado de pé entre Lisboa e Kiev

 Um ucraniano que pretendeu voar de Lisboa para a capital do seu país teve de o fazer de pé e no corredor, devido ao excesso de passageiros, não tendo sido o único a viajar dessa forma, informa a agência Xcid.info.
Segundo esta agência de informação ucraniana, um habitante do distrito de Lugansk, na Ucrânia, viu-se numa situação embaraçosa, pois “o avião de Lisboa para Kiev estava tão cheio que passageiros tiveram de viajar de pé, nos corredores”.
“Estavam todos em estado de choque. As pessoas iam de pé nos corredores, como num trólei, seguravam-se a corrimões… E isto num voo que dura três horas”, relata o passageiro.
“Claro que era um Boeing, mas continuava a ser horrorosamente desconfortável. Não se observavam quaisquer normas de segurança, ninguém pensava no excesso de carga no aparelho”, sublinha ele.
“Porém”, continua o passageiro,”não havia outra saída, pois as pessoas queriam chegar de qualquer maneira a Kiev”.
Segundo ele, a companhia transportadora não fez desconto aos que se viram sujeitos a “condições exclusivas” de voo.
A 14 de abril, um vulcão localizado no glaciar de Eyjafjallajokull, no sul da Islândia, entrou em erupção e lançou uma nuvem de cinzas de grandes dimensões para a atmosfera que obrigou ao encerramento do espaço aéreo em vários países europeus, provocando um caos sem precedentes na história da aviação civil.

Quarta-feira, Abril 21, 2010

Rússia reduz preço do gás à Ucrânia em troca de prolongamento de presença militar no Mar Negro

A Rússia reduzirá em 30% o preço do gás vendido à Ucrânia, um desconto considerado uma compensação pelo prolongamento do prazo de aluguel da base naval russa da Crimeia, que permanecerá nesta região ucraniana até depois de 2017, anunciou nesta quarta-feira o presidente russo Dmitri Medvedev.
"Os nossos parceiros ucranianos terão um desconto no preço do gás que chegará a 100 dólares se o preço (por 1.000 metros cúbicos) for de 330 dólares. Se o preço for inferior, será 30% do preço", disse Medvedev.
O acordo foi anunciado por Medvedev e pelo seu colega ucraniano Victor Ianukovitch na cidade ucraniana de Kharkov. Ianukovitch considerou que o acordo "não tem precedentes".
Ambas as partes assinaram também um acordo para prolongar por mais 25 anos a presença da frota russa do mar Negro no porto de Sebastopol, que expirava em 2017.
À primeira vista, trata-se de um bom negócio para ambas as partes, mas mais para a Ucrânia que espera economizar cerca de 40 mil milhões de dólares em dez anos.
Porém, vamos estar atentos à implicações destes acordos na política interna da Ucrânia. A antiga primeira-ministra, Iúlia Timochenko, já veio dizer que o acordo sobre a Armada do Mar Negro viola a Constituição da Ucrânia e ameaça dar início ao processo de afastamento de Ianukovitch do cargo de Presidente do país.
A NATO reagiu calmamente à notícia, sublinhando tratar-se de um assunto entre os dois países.



Terça-feira, Abril 20, 2010

Blog dos leitores (A Questão Quirguize)


Texto enviado pelo leitor João Gil Freitas:

"A Ásia Central permanece um território altamente desconhecido e até enigmático para os europeus, e ainda mais para os portugueses, cujos interesses externos encontram-se preferencialmente voltados para outras latitudes geográficas. No entanto, esta região tem sido palco de arreigadas tensões políticas e sociais cujos protagonistas se cingem invariavelmente a uma classe dirigente frágil e pouco reconhecida aos olhos dos cidadãos, e a oposições políticas débeis e na prática pouco diferentes dos detentores do poder. Todas as cinco repúblicas da Ásia Central, mau grado apresentarem distintos indicadores económicos, enfrentam problemas estruturais semelhantes: corrupção generalizada, dependência externa, falta de transparência dos processos administrativos, predominância do aparelho executivo sobre o legislativo e judicial, enfim, uma alargada panóplia de fragilidades que atestam a insipiência do estado de direito e a sua má governança generalizada.

Os recentes acontecimentos políticos no Quirguistão, país que em 2005 passou por um curto mas intenso período de abertura política que ficou conhecido por “Revolução das Túlipas”, podem ser vistos como a principal consequência de um avolumar sucessivo de contradições internas e de tensões sociais particularmente acentuadas desde o supracitado fenómeno político de 2005.

Três causas essenciais podem ser apontadas para o fim do poder de Kurmanbek Bakiyev, presidente deposto, e para a consequente tomada do poder por parte da oposição. Em primeiro lugar, Bakiyev passou os cinco anos da sua presidência a nomear para postos chave administrativos e governamentais nada menos do que familiares seus, fosse de forma legal ou ilegal, com recurso não raras vezes a métodos criminosos para tal. Os irmãos do Presidente ocupavam posições de topo na Casa Branca quirguize, e a outros parentes directos eram-lhes atribuídos um sem-número de privilégios, incluindo o controlo de vastas regiões por todo o país. Ora fora exactamente por isso que o anterior presidente, Askar Akayev, líder quiguize desde a independência do país em 1991, fora forçado a abandonar o poder em 2005 na sequência da “Revolução das Túlipas”.

Em segundo lugar, é preciso estar-se ciente de que o Quirguistão mantém uma estrutura social marcadamente tribal, em que as relações de clãs desempenham um papel fundamental para o equilíbrio interno de poderes e para a paz social. Uma qualquer alteração neste frágil equilíbrio representa um perigo imediato para a estabilidade do país. O maior foco de tensão reside na divisão entre as tribos do Norte, originárias das províncias de Chui, Talas, Issyk-kul e Naryn; e as do Sul, provenientes das províncias de Osh, Jalal-Abad e Batken. Bakiyev, nativo de Jalal- Abad, tem desde a chegada ao poder nomeado elementos das províncias do Sul para importantes posições a Norte, o que tem vindo a provocar um profundo descontentamento nas províncias setentrionais, onde está situada a capital, Bishkek.

Em terceiro lugar, Bakiyev tem prosseguido uma política externa tida como irracional por sectores importantes da vida política do país. O Quirguistão tem relações importantes tanto com os EUA como com a Rússia, país que não esconde a sua relutância em aceitar a permanência da base militar norte-americana de Manas. Como é sabido, esta base representa um importante apoio estratégico para as forças em actuação no vizinho Afeganistão. Bakiyev prometera a Putin terminar o licenciamento de utilização da base pelos EUA, mas tal não se verificou. O ex-presidente é acusado de desnorte na sua política externa, fazendo concessões a ambos os lados, dos quais vem recebendo sucessivos incentivos financeiros, todavia sem qualquer estratégia de fundo que lhe esteja associada. É ainda acusado de ocultar o destino do dinheiro que o país vem recebendo, muito do qual não deixou, pura e simplesmente, rasto. Alguns rumores internos apontam ainda para uma alegada “retirada do tapete” por parte da Rússia que, insatisfeita com a actuação de Bakiyev, pode estar na origem do recente levantamento oposicionista, a quem aliás de imediato reconheceu legitimidade.

Existem contudo outras razões, de fundo, que podem também elas ajudar a explicar os tumultos de Bishkek e a queda do governo quirguize. Aparte as questões tribais e de política externa, a verdade é que o governo de Bakiyev é tido como corrupto, desviando ostensivamente recursos públicos, algo que tem afectado as poucas empresas lucrativas do país. Os últimos anos têm assistido a um aumento dos fluxos migratórios, tanto internos como para o exterior, de camponeses das províncias mais distantes do território, com escassíssimos meios de subsistência. A isto acresce a própria mentalidade do povo quirguize, detentor de características muito próprias dentre os restantes povos da Ásia Central: os quirguizes, povo historicamente nómada, possui uma cultura relativamente livre e democrática. A própria cultura popular quirguize patenteia bem a ideia de luta contra os tipos de poder autocrático e injusto, sendo disso exemplos cimeiros a música e a literatura tradicionais. Gengis Khan escolhia quirguizes para a sua guarda pessoal, sabendo que eles nunca o trairiam. Os quirguizes são ainda hoje (re)conhecidos pela sua lealdade, paciência e temperamento fácil, que os leva a encetarem revoltas em larga escala quando as situações se tornam incomportáveis e assim o exijam. Foi o exemplo da “Revolução das Túlipas” em 2005 e dos acontecimentos de Abril de 2010, ambos assumindo contornos particularmente violentos.

É bastante difícil, porventura até pouco recomendável, procurar deslindar qual será o futuro a curto prazo desta paupérrima e longínqua república da Ásia Central. Permanece incerto se o país conseguirá ou não aproveitar esta nova oportunidade para encontrar o caminho da democracia e do desenvolvimento económico, embora o perfil pessoal da nova chefe do governo provisório, Roza Otunbayeva, ela própria um dos líderes da “Revolução das Túlipas” de 2005, ofereça alguma esperança. Por enquanto, o exílio de Bakiyev parece dissipar o perigo eminente de guerra civil, naquela que foi a primeira grande boa notícia da nova era em que o país agora entrou."

Segunda-feira, Abril 19, 2010

Política diplomática de difícil compreensão

O regresso do Presidente da República Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, da República Checa a Lisboa transformou-se num autêntico folhetim devido à erupção de um vulcão na Islândia, ou seja, viu-se obrigado a  andar mais de mil quilómetros por razões de força maior.
Tratou-se de um caso insólito, daí ter sido notícia em numerosos países. 
Mas não era disso que eu queria falar. Ao acompanhar as notícias sobre as aventuras da comitiva portuguesa por terras checas, eu esperava ouvir que o Presidente português decidiu utilizar a situação criada para ir participar nas cerimónias fúnebres do seu homólogo polaco, Lech Kaczynski, em Cracóvia, cidade que fica situada a poucas centenas de quilómetros de Praga, capital da República Checa.
Tendo em conta que poucos foram os chefes de Estado que lá conseguíram chegar, se o Presidente português tivesse tomado essa decisão, ela não teria passado despercebida entre os polacos. O Presidente da Geórgia, Mikhail Saakachvili foi recebido com aplausos pelos cidadãos da Polónia, pois ele teve de fazer um enorme percurso para chegar a Cracóvia. Voou dos Estados Unidos para Portugal, daqui foi até Espanha e do país vizinho para a Turquia. Deste país, foi para a Bulgária, depois para a Roménia e, finalmente, para a Polónia.
O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, após ter feito uma longa viagem de regresso da América Latina, onde participou, entre outras coisas, na cimeira dos BRIC's, decidiu também não renunciar à sua viagem de avião de Moscovo até Cracóvia. E também neste caso os polacos souberam apreciar o gesto do dirigente russo.
O nosso Presidente, em vez de regressar a Lisboa via Barcelona, podia ter feito um pequeno desvio e ter ido a Cracóvia. No fim de contas, Portugal e Polónia são ambos membros da UE e o nosso país parece ter importantes interesses económicos nesse país.
Claro que, neste caso, não precisava de levar toda a comitiva atrás.
Admito desconhecer alguma coisa que levou o Presidente Cavaco Silva a fazer o percurso que fez, mas, nesse caso, foi porque nada foi dito a propósito. Se os assessores do dirigente português deixaram escapar esse momento, é de lamentar. Se existiu alguma explicação, ela devia ter sido revelada.

Blog dos leitores (Cáucaso)



Texto enviado pelo leitor Raphael Tsavkko:

"Ao contrário do senso comum e das intenções Russas, os culpados pelas explosões tanto no metrô Russo quanto no Daguestão, que, juntas, vitimaram mais de 50 pessoas - dentre civis inocentes e militares -, não são os radicais comandados por Doku Umarov e seu grupo que propõe a criação de um Califado Islâmico no Cáucaso Norte, nem os moderados que pregam a formação da República da Chechena Ichkeria, comandados por Akhmed Zakayev.
A culpa, sem dúvida alguma, é de Putin. De Putin e de sua política para a região.
Os problemas locais datam desde a conquista pelos Czares, no século XIX, mas o que vemos hoje é resultado direto da política de confrontação e de alianças com figuras nefastas iniciadas ou ao menos desenvolvidas por Putin.
“É preciso admitir que muitos dos problemas no norte do Cáucaso não estão relacionados nem ao governo de Boris Yeltsin nem ao de Putin”, diz Nikolai Petrov, do Centro Carnegie de Moscou. “Eles têm raízes mais profundas, por exemplo, na forma como o Cáucaso foi subjugado no passado pelos tsares”.
Por outro lado, observa Petrov, há anos o Kremlin não trabalha no sentido de encontrar uma solução fundamental para o conflito e carece de uma estratégia convincente para lidar com o problema. “Foi importante, especialmente para Putin, ser capaz de exibir rapidamente um sucesso no norte do Cáucaso no final do primeiro mandato”, disse Petrov. “Foi por isso que ele se envolveu com o clã Kadyrov”.
Ramzan Kadyrov assumiu o poder depois que o seu pai, Akhmad, que era o presidente da Tchetchênia, foi assassinado. Ele é conhecido por perseguir brutalmente os seus oponentes e é ele próprio suspeito de desejar maior autonomia para a região. Ele sugeriu recentemente que Moscou não deveria enviar forças policiais de outras partes da Rússia para a Tchetchênia, supostamente devido aos custos envolvidos.
Kadyrov, que é odiado tanto pela oposição moderada quanto pelos islamitas, e que é temido pelos ativistas dos direitos humanos, é atualmente um obstáculo para a maior estabilização e pacificação na região, acredita Petrov. O norte do Cáucaso está frágil como nunca, diz ele. “Há muita gente descontente lá, bem como muitas armas e muitos indivíduos que sabem como usar explosivos”.
“Nós esperamos que ataques como esse no metrô de Moscou não aconteçam novamente”, diz Petrov. “Mas essa é uma expectativa meio ingênua”.
"Mas não foi ele quem colocou as bombas!", dirão alguns. De fato. Mas incitou e tornou a situação insustentável. No meu artigo "O mito da estabilidade no Cáucas Norte", tratei um pouco da situação política regional, expondo as razões pelas quais o "terrorismo" encontrou campo fértil na região marcada por conflitos étnicos ancestrais.
Conflitos exacerbados pela criação artificial de repúblicas autônomas que, na verdade, acabaram por acirrar ainda mais os ânimos, opondo grupos étnicos que não necessariamente se dão, seja por motivos históricos ou pontuais - caso dos Kabardinos e dos Balkars na República de Kabardino-Balkária ou dos Lezgins com Kumyks e Ávaros no Daguestão.
Mas, sem dúvida, o maior dos problemas atuais seja, acima de tudo, a indicação dos presidentes das repúblicas - e das demais regiões - por parte do presidente, do executivo Russo e não a eleição através de um processo minimamente democrático. Basicamente, é Putin (e seu colega Medvedev) quem indicam o governante dos Chechenos, dos Ingushes, dos Kabardino-Balkares, dos Tártaros e assim por diante. Um sistema antidemocrático que acirra ainda mais os ânimos.
Em Kabardino-Balkária e Karatchaievo-Therkássia é visível o aumento das ações de grupos islâmicos em regiões antes relativamente calmas. A perseguição à clérigos independentes e a idéia de que todo islâmico é um fanático em potencial – ou seja, a promoção de perseguições, prisões, tortura e assassinados de “elementos perigosos” – acaba por criar, de fato, este inimigo em lugares jamais pensados antes.
O caso checheno é emblemático. Ramzan Kadyrov sucedeu seu pai, Akhmat Kadyrov, no governo Checheno. Vemos a criação deu ma dinastia comandada pelos Kadyrov que, dentre outras, são acusados de sequestro, assassinatos, torturas... Ler sobre a Chechênia é ler sobre um buraco negro onde desaparecem ativistas de direitos humanos, opositores... Sem qualquer investigação ou justificativa válida.
É apenas um exemplo, mas pode ser aplicado à Ingushétia, com a indicação de Yunus-Bek Yevkurov, que já foi vítima de um atentado que quase tirou sua vida.
Enfim, estamos falando de movimentos nacionalistas - especialmente no caso Checheno - que lutam há décadas por independência e que, graças à constante repressão, passaram a adotar posições cada vez mais radicais e, nos últimos tempos, tem estado ligados ao fundamentalismo islâmico pela falha - em suas visões - das vias tradicionais de luta. O movimento Checheno nem sempre teve características de "terrorismo islâmico":
Obviamente esta onda de violência e este crescimento do radicalismo islâmico na região não vem de graça, as razões são duas principalmente:
Em primeiro lugar, as sucessivas derrotas (senão a não complitude de seus objetivos e de suas reformas) das guerrilhas e da resistência local ao longo dos anos 90, mas não só, também o fracasso generalizado dos grupos de orientação marxista ou similar por todo o oriente médio e proximidades (notadamente na luta Palestina, como Fatah, FPLP, FDLP, etc), além do fracasso dos regimes “pan-arabistas” ao longo dos anos 60, 70 e 80 que culminaram com o surgimento e crescimento de grupos de caráter islâmico militante, como Hizbollah, Hamas e o crescimento acelerado e proeminência da Irmandade Muçulmana até, enfim, Talibã e Al Qaeda.
É impossível analisar a região separadamente do "mundo islâmico" e também separar a reação das guerrilhas e suas guinadas - em caso geral - à repressão constante por parte do governo Russo. Acuados, adotam posições mais e mais radicais e vão se afastando das ideologias que "perderam" das "emergentes". É um movimento natural e compreensível. Radicalismo se combate com radicalismo.
Enfim, questão principal deste artigo é apenas demonstrar que os ataques perpetrados no metrô de Moscou e no Daguestão, por mais sangrentos e repreensíveis - ao menos no primeiro caso em que as vítimas e alvos eram basicamente civis - que possam ser, fazem sentido dentro de um quadro maior, quando se analisa a gênese e o desenvolvimento do conflito no Cáucaso.
Os ataques vêem em um período de crescente repressão, não só contra a população da região do Cáucaso, mas contra defensores dos direitos humanos que buscam denunciar os abusos - caso de.... - e também uma maior perseguição de elementos considerados perigosos, de guerrilheiros e líderes regionais.
A única conclusão possível é a de que as políticas Russas para o Cáucaso norte são, no mínimo, ineficazes e, mais ainda, são as grandes responsáveis ou pelo menos uma das responsáveis, pelo crescimento do terrorismo dito islâmico na região, da resistência feroz e violenta e da mudança de paradigma da resistência na região. "

Sábado, Abril 17, 2010

Blog dos leitores (Bielorrússia)

Texto da autoria do leitor António Campos: 

"Bielorrússia - a agonia do último bastião soviético


Não têm havido muitas oportunidades neste blogue de falar deste país semi-ignorado que, após uma breve existência independente, renasceu das cinzas da desintegração da União Soviética, e que continua a ser considerado por muitos  como uma espécie de balão de ensaio do que se optou por designar por "experiência socialista". Infelizmente, na base de mitos oficiais e propaganda, a Bielorrússia continua a ser  invocada por muitos comunistas irredutíveis como um caso de sucesso que justifica a virtude dos seus ideais. A minha ligação emocional e familiar ao país permitiu-me ter um conhecimento mais aprofundado da sua realidade histórica e política que, pela boa vontade do autor deste blog, passo a partilhar com os leitores.

Enquanto país, a sua identidade é recente e, há quem o diga, não tão bem definida como a da maioria dos países ocidentais. Tal é uma característica comum a outros territórios próximos, que passaram por sucessivas experiências de anexação e ocupação ao longo de vários séculos, tais como a Ucrânia. Recuando à Idade do Ferro, o território da Bielorrússia dos nossos dias foi originalmente povoado por tribos eslavas no século VI, que mais tarde se viriam a confrontar com os Varegues, tribos originárias da Escandinávia e das costas do Báltico. Ambos os grupos estiveram mais tarde na origem do "Rus de Kiev", também conhecido por Principado de Kiev.
A subsequente desintegração do Rus numa série de pequenos principados independentes e o seu enfraquecimento em virtude de agressões por mongóis, tártaros e cruzados nos primeiros séculos do segundo milénio, levaram a que alguns daqueles se tenham integrado defensivamente no Grão-Ducado da Lituânia. Este último, por via de uma rápida expansão, tornar-se-ia, no século XIV, na maior nação da Europa, englobando territórios que fazem hoje parte da Bielorrússia, Rússia, Ucrânia e Polónia. Durante os séculos subsequentes, os territórios que compõem a Bielorrússia actual continuaram a fazer parte da entidade que resultou da união entre o Grão-Ducado e o Reino da Lituânia e, posteriormente, da União Polaco-Lituana, que durou até finais do século XVIII, até ser obliterada nas partições da Polónia pelos impérios circundantes. A partir desse momento, e até à sua ocupação pela Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial, os territórios da Bielorrússia integraram o império russo.
A primeira tentativa de instauração de uma entidade nacional bielorrussa independente ocorreu durante as negociações do tratado de Brest-Litovsk entre a Rússia soviética e as Potências Centrais, oponentes dos Aliados na Grande Guerra. Por iniciativa do recém-formado Conselho Nacional, organização que incorporava uma série de grupos cívicos de carácter nacionalista, foi proclamada a "República Popular da Bielorrússia", cuja existência se prolongou até à guerra polaco-soviética de 1920. Como resultado deste conflito, o território foi retalhado entre a Polónia e a Rússia, tendo a parte oriental constituído a base para uma das repúblicas fundadoras da URSS. Mais tarde, em 1939, em resultado da aplicação do acordo Molotov-Ribbentrop, a parte ocidental, antes sob controlo polaco e agora ocupada pela URSS, organizou eleições supervisionadas pelo NKVD e pelo partido comunista soviético. O previsível resultado foi a sua incorporação na República Socialista Soviética da Bielorrússia. O território assim amalgamado ficou muito próximo do que compõe a Bielorrússia actual.
A invasão alemã da URSS na Segunda Guerra Mundial foi especialmente devastadora para a república, que sofreu a destruição de mais de 70% da sua estrutura urbana e de mais de 80% da sua indústria, tendo perdido 25 a 35% da sua população. Por outro lado, dada a sua posição geograficamente próxima do "Ocidente", mais permeável a dissidências e a nacionalismos, o território foi constantemente alvo de uma pressão sovietizante, através da nomeação de burocratas russos para posições-chave governativas, bem como de pressões culturais de vária ordem, incluindo restrições ao uso do bielorruso como língua oficial. A república foi também objecto das mais violentas repressões estalinistas, trazidas à tona pela descoberta em 1988, pelo arqueólogo (e mais tarde político) Zyanon Paznyak, de valas comuns no bosque de Kurapaty, perto de Minsk, onde se estima que estejam enterradas entre 7.000 a 30.000 pessoas (ainda que algumas estimativas apontem para o incrível número de 250.000), executadas pelo NKVD entre 1937 e 1941 (incidentalmente, e num paralelo com a Rússia e a sua postura relativamente aos massacres de Katyn, o governo bielorrusso tem feito tudo para dificultar a investigação destes massacres, tendo mesmo autorizado a recente construção de uma auto-estrada sobre os terrenos ocupados pelas valas comuns, que motivou diversos protestos pouco divulgados nos media).
Esta descoberta, juntamente com as consequências do desastre de Chernobyl, que afectou seriamente o território, acabou por ser um catalisador das motivações independentistas da população, até então relativamente passiva na matéria.
A instauração da actual República da Bielorrússia ocorreu no caos que se seguiu à tentativa de golpe de estado em Moscovo, em Agosto de 1991 e à subsequente declaração unilateral de independência por parte das repúblicas socialistas da Estónia, Letónia e Ucrânia. A desorientação dos comunistas após o golpe foi aproveitada pelos reformistas do Soviete Supremo bielorrusso, que demitiram o seu presidente comunista, substituindo-o por Stanislaw Shuskevich que veio a presidir aos destinos da jovem autoproclamada República da Bielorrússia. Mais tarde, este viria a subscrever, juntamente com Yeltsin pela Rússia e Kravchuk pela Ucrânia, a proclamação da Comunidade de Estados Independentes, o fim oficial na URSS.
No entanto, o governo que presidiu à transição da Bielorrúsia para uma economia de mercado, presidido por Vyacheslav Kyebich e dominado por antigos burocratas do partido comunista, não teve capacidade nem vontade de encetar as necessárias reformas políticas e económicas, deixando a indústria, já de si obsoleta em termos internacionais, e a agricultura, pouco produtiva, degradarem-se cada vez mais. Por outro lado, não conseguiu evitar a corrupção galopante e a erupção do crime organizado que, à semelhança da vizinha Rússia, corroíam o país. Em consequência, os primeiros anos da nascente República da Bielorrússia ficaram marcados por uma pronunciada degradação do nível de vida da população. As condições estavam então criadas para que um candidato populista  assumisse as rédeas do poder através de sufrágio, na sequência da proclamação da Constituição em 1994, que transferia poderes do primeiro ministro para o então criado posto de presidente. Alexander Lukashenko, um ruidoso antigo gerente de um kolkhoz arvorado em paladino anti-corrupção e com uma postura saudosista soviética, vence as primeiras eleições para a presidência com uma confortável margem de 80% na segunda volta. A sua reputação de incorruptível, a imagem de "homem do povo" e a nostalgia face ao melhor nível de vida nos tempos soviéticos terão certamente contribuído para a sua eleição.
A chegada de Lukashenko ao poder marcou o fim da curta experiência democrática na Bielorrússia. Após ter abolido os símbolos nacionais instaurados com a independência e reabilitado a iconografia soviética (o serviço de segurança do aparelho de estado ainda é designado por KGB, abundando no país estátuas de eminências pardas soviéticas de reputação duvidosa, tais como Dzerjinsky), em 1996, "Batka" (paizinho), como é afectuosamente alcunhado pelos seus apoiantes mais fervorosos, alterou arbitrariamente a constituição para domar um parlamento hostil que ameaçava depô-lo, tendo-a alterado novamente em 2004, através de um referendo considerado ilegítimo pela comunidade internacional, para lhe permitir ser presidente para toda a vida. A coberto de uma pretensa legitimidade democrática assente em eleições fraudulentas e no total controlo dos meios de comunicação (que agora se vai alargar, por decreto, à internet), os oposicionistas políticos são sistematicamente esmagados, tendo mesmo alguns desaparecido sem deixar rasto em ocorrências que ainda hoje estão por esclarecer. Casos notáveis são os do antigo ministro do interior Yuri Zakharenko e do antigo vice-presidente Viktar Gonchar, desaparecidos em 1999.
Os telefones têm escutas e existe uma gigantesca rede de informadores clandestinos ao serviço do KGB, infiltrados junto da população. Todos eles têm uma actividade profissional normal e informarem sobre os vizinhos, colegas ou amigos, é um part-time que complementa os geralmente magros rendimentos do emprego principal. Tal como nos antigos tempos soviéticos, o medo impera. O comum dos mortais não será certamente arrastado para o GULAG por criticar o presidente ou as suas políticas, mas o seu emprego ficará certamente em risco, ou o seu negócio poderá ser alvo de um processo judicial arbitrário. Ou pior, tal como no famoso caso de Mikalai Autukhovich, pequeno empresário acusado de "actos de terrorismo" após ter tentado denunciar funcionários governamentais envolvidos em corrupção. Tal é suficiente para manter a maioria calada. Os políticos oposicionistas e os activistas de direitos humanos mais vocais têm ainda menos sorte. As poucas manifestações que ocorrem são brutalmente reprimidas e muitos dos activistas são constantemente assediados pela polícia, atirados para a prisão na base de acusações fabricadas, multados ou assaltados por desconhecidos. Os poucos jornais independentes que existem, tais como o Narodnaya Volya, são constantemente alvo de buscas, assédio das autoridades fiscais ou impedidos de circular através do sistema de distribuição de imprensa, totalmente controlado pelo estado.
E em nome de quê? Se quisermos ver para além dos mitos sobre o "milagre socialista bielorruso", propagados por alguns sectores da esquerda nostálgica europeia e refutados pelas democracias ocidentais, a pergunta incontornável será: como vivem realmente os bielorrussos? Será que os excessos totalitários do "paizinho" poderão ser justificados, ou talvez mesmo aceites como um preço necessário a pagar por uma estabilidade e prosperidade que se clama serem um modelo em todo o universo das antigas repúblicas soviéticas?
À primeira vista, um visitante estrangeiro ficará positivamente surpreendido com o aspecto calmo, limpo e organizado da paisagem urbana bielorrussa. Ao contrário do que muitas vezes se assiste na Rússia e na Ucrânia, as fachadas dos prédios estão razoavelmente bem conservadas mesmo nas cidades periféricas, não há lixo nas ruas, os jardins públicos estão impecavelmente cuidados e as estradas estão em excelente estado, comparadas com as dos seus vizinhos maiores. Quase somos levados a pensar que, afinal aqui, o tal caminho alternativo deu frutos.
Mas a realidade escondida faz estalar rapidamente este verniz. Nos seus quase 16 anos no poder, Lukashenko exerceu uma política económica errática, de cariz marxista, na qual cerca de 80% do tecido produtivo continua nas mãos do estado. O incipiente sector privado, que poderia ser o ponto de partida para a melhoria da competitividade da economia, sofre uma pressão constante dos governos central e locais, na forma de alterações arbitrárias na regulamentação, frequentes inspecções rigorosas, aplicação retroactiva de novos regulamentos e o encarceramento de empresários "incómodos", o que, além de ser destrutivo para o empreendedorismo, afugenta os tão necessários investidores estrangeiros que ajudaram países como a Polónia a atravessar a crise sem cair em recessão. A situação é de tal forma grave que muitos empresários bielorrussos, especialmente os que vivem perto da fronteira com a Rússia, optam por abrir as suas empresas e pagar os seus impostos neste país que, mesmo com as conhecidas dificuldades sofridas pelas suas PMEs, consegue oferecer um clima mais favorável.
O resultado destas políticas foi a total ausência de modernização da indústria, com a consequente queda da procura de produtos bielorrussos nos mercados internacionais por falta de competitividade, especialmente desde a crise financeira global. Por outro lado, a Bielorrússia é o único país da Europa onde a agricultura ainda se encontra colectivizada ao estilo soviético. A produtividade das unidades agrícolas colectivas tem vindo a deteriorar-se, o que se reflecte nos elevados preços dos produtos agro-pecuários ao consumidor.
O apregoado crescimento económico da Bielorrússia nos anos anteriores à crise, que tem financiado o relativo sucesso da  "política social" redistributiva de Lukashenko baseou-se fundamentalmente na aquisição de petróleo e gás a desconto à Rússia e subsequente reexportação dos mesmos produtos a preços de mercado. Assim, a recente imposição russa de tarifas à exportação de hidrocarbonetos está a ter, em consequência, um impacto devastador neste milagre com pés de barro, e o país flutua neste momento à custa de empréstimos estrangeiros, que não vão durar para sempre.
Milagre esse que não foi obviamente sentido pelo cidadão comum. Em 1999, praticamente metade da população vivia abaixo do limite oficial da pobreza. Em 2004, mau grado o acelerado crescimento da economia, existiam ainda, segundo dados oficiais, 20% que não conseguiam vencer essa barreira. As estatísticas oficiais apontam para um salário médio mensal actual de 250 euros (valor certamente inflacionado), que enfrenta um preço de um cabaz de compras de bens essenciais que excede os valores portugueses para os mesmos produtos. Em virtude do preço, o consumo de carne e vegetais frescos com regularidade restringe-se a uma faixa limitada da população, o que se reflecte, por um lado, na terceira mais baixa expectativa de vida da Europa e, por outro, em problemas generalizados de fertilidade e saúde infantil. Para dar o golpe da misericórdia na euforia optimista dos organismos oficiais, os investigadores Olga Grigorieva e Pavel Grigoriev, do Instituto Max Planck para a Investigação Demográfica demonstraram em 2009 que a qualidade de vida dos bielorrussos, quando medida em termos de absorção calórica, percentagem das despesas do agregado familiar em alimentos e qualidade do equipamento doméstico, deteriorou-se pronunciadamente entre 2000 e 2007. O número de casos de depressão e divórcios é alarmante e a taxa de suicídios é neste momento a mais elevada do mundo, segundo dados da OMS.
Muita da população urbana tem cada vez mais que recorrer a múltiplos empregos para manter o nível de vida. E em resposta a um sistema económico soviético, os bielorrussos usam métodos tradicionalmente soviéticos para sobreviver. Os contactos e a troca de favores são generalizados: não se consegue entrar numa boa universidade sem pagar ao decisor e é necessário pedir que amigos bem colocados intercedam para que se possa beneficiar de um bom atendimento num hospital. A pequena corrupção, na forma de troca de favores, é epidémica, mas é muitas vezes a única solução para manter um nível de vida condigno. A inexistência de produtos de consumo à venda é-nos revelada pela diferença abismal entre o florescente pequeno comércio nas cidades da Ucrânia e da Rússia e a existência residual de lojas e centros comerciais nas metrópoles bielorrussas. Por falta de meios e de oferta, muitas mulheres bielorrussas fabricam à mão as suas roupas em casa. Vitebsk, com mais de 300 mil habitantes, assemelha-se por vezes a uma cidade fantasma.
Que futuro aguarda a Bielorrússia? Uma economia em declínio, obstinadamente mantida por um ditador que enche os seus vassalos de privilégios que os tornam insensíveis à morte lenta do seu país, tem extinção anunciada. Mas a renovação não virá tão cedo. A oposição, fragmentada e fraca, não tem voz nem poder para confrontar eficazmente o poder vigente. O controlo dos meios de comunicação e o incessante culto da personalidade têm vindo a permitir a Lukashenko passar eficazmente as culpas da sua gestão desastrosa para elementos externos ou, à despudorada maneira estalinista, até para membros do seu próprio governo, saindo incólume do processo. E  neste momento, o seu filho mais velho Viktar está a ser preparado o suceder no trono.
A população, geralmente passiva e resignada, terá então que sofrer ainda muito mais para sair para a rua e emancipar-se do seu ditador paternal. E quando decidir sair, vai ter que enfrentar a polícia de choque. Mas talvez o mais provável seja que, antes de ser encostado à parede, Lukashenko (ou o príncipe herdeiro) não veja alternativa senão vender a sua alma (e o país) à Rússia, que, dizem alguns, poderá ter sido motivada a tirar o tapete debaixo dos seus irmãos para satisfazer, no médio prazo, as suas ambições imperiais no território."

Sexta-feira, Abril 16, 2010

Contributo para a História (Angola)



Igor Jdarkin escreve nas memórias: "Semelhante coisa não aconteceu nem no Afeganistão": "O facto é que (como já falei atrás)nas tropas angolanas havia muitos traidores. Ou seja, aqueles que transmitiam informação, e da mais fresca, à UNITA.
Por exemplo, na nossa 21ª brigada, o chefe dos serviços operativos (um angolano) era traidor, descobrimos isso em poucas semanas.
Graças a esses traidores, a UNITA e os sul-africanos sabiam praticamente tudo sobre as tropas angolanas, as suas movimentações, armamentos, espírito de combate, intenções, tarefas colocadas, etc. Se a brigada angolana se colocava em posição defensiva, claro que instalava à sua frente campos de minas. Pois é, os mapas desses campos de minas iam parar, muito frequentemente, às mãos do adversário, por isso, os sul-africanos, sem grandes dificuldades,abriam corredores nos campos de minas e atacavam as brigadas angolanas. Mas intrometeram-se os cubanos, instalaram campos de minas, mas transmitiam-lhes outros mapas (falsos).
Os sul-africanos avançavam nas calmas e íam pelos ares. A propósito, os cubanos conseguiram apoderar-se de um filme sul-africano de um combate a 11 de Março: os sul-africanos avançavam em tanques, sentados nos blindados, a tocar gaitas de beiços, muito parecidos aos alemães. E, de súbito, ouviu-se explosão atrás de expolosão e os "tanques voaram" (como se exprimiu Fidel Castro), o operador sul-africano nem sequer teve tempo para desligar a câmara, tudo ficou gravado.
Além dos mapas falsos dos campos de minas, de que já falei antes, os cubanos convenceram-nos a ter, além dos conselheiros soviéticos, cubanos nas brigadas angolanas. E tudo se endireitou".
  

Quinta-feira, Abril 15, 2010

Contributo para a História (Livro sobre Moçambique)


Caros leitores, é com grande alegria e prazer que vos informo, em primeira mão, que, dentro em breve, irá ser publicado o meu novo livro: "Samora Machel - Atentado ou Acidente?". 
Como o título diz, trata-se de uma investigação sobre as causas da queda do avião que transportava o Presidente moçambicano, Samora Machel, em Outubro de 1986. O aparelho Tupolev 134 e a tripulação eram soviéticos, daí ser importante saber o que pensam os especialistas da antiga URSS sobre isso.
Julgo ter conseguído encontrar fontes, escritas e orais, que põem um ponto final na discussão, mas essa decisão irá pertencer aos leitores do meu novo livro.
Além da investigação das causas do aparelho, tentei abordar outras questões das relações bilaterais entre Moçambique e a URSS em diferentes sectores, tendo concentrado as atenções na forma como os diplomatas, políticos e estadistas soviéticos olhavam para os dirigentes moçambicanos: Eduardo Mondlane, Samora Machel e Joaquim Chissano.
Abordo também as raízes e os fundamentos ideológicos da política soviética em África, bem como o seu emprego no terreno, neste caso,em Moçambique.
Não pude também passar ao lado da política dos dirigentes moçambicanos face à população branca, bem como das impressões  que a passagem portuguesa por Moçambique  provocaram nos diplomatas soviéticos.

Desde já ficarei grato aos leitores que apresentarem as suas críticas e opiniões sobre o livro. No caso do livro que publiquei sobre Angola, elas são importantes para desenvolver a minha posterior investigação.


O livro sobre "páginas desconhecidas das relações sovieto-moçambicanas" vai ser publicado pela editora Aletheia, a quem agradeço desde já o apoio concedido.