quinta-feira, dezembro 31, 2009

Blog dos leitores

Publico a tradução feita por António Campos, leitor a quem muitro agradeço.


Sendo o final de ano, além de festivo, uma época tradicionalmente de retrospectiva e balanço, desejo a todos os leitores deste blog (e muito especialmente ao seu autor, que tem realizado um trabalho incansável na divulgação da pouco conhecida realidade do espaço pós-soviético - pelo menos nos países lusófonos), um excelente ano de 2010, com uma tradução de um artigo de Vladimir Ryzhkov, publicado no Moscow Times, que passa em revista o ano que hoje termina.


"Um ano com mais corrupção e desastres mortíferos

A Rússia acabará 2009 mais triste e ligeiramente mais sóbria, mas dificilmente mais sensata. A economia russa teve um pior desempenho do que todos os países do grupo dos 20 durante a crise e o número excessivo de catástrofes que sofreu sublinhou quão gritantemente ineficaz, incompetente e corrupto o nosso governo é. Apesar de tudo, este não se mexeu um centímetro do status quo que tem vindo a conduzir o país a um beco sem saída político e económico. A reacção da Duma à morte de Yegor Gaidar é altamente simbólica e uma forma adequada de o presidente Dmitry Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin concluírem o seu ano desastroso enquanto líderes da nação. Liderada por Oleg Morozov, presidente adjunto da Duma e membro do Rússia Unida, a câmara baixa do parlamento chumbou a moção que propunha observar um momento de silêncio por Gaidar, deputado durante 6 anos, primeiro-ministro em exercício e um dos mais influentes economistas e reformistas da história russa. Nem um só membro das cúpulas do Rússia Unida ou da administração presidencial esteve presente no funeral.
Durante os últimos oito anos, Gaidar avisou os principais políticos e economistas do país no Kremlin e na Casa Branca sobre o perigo de construir um estado policial autoritário, de aumentar o papel do governo na economia, de fechar os mercados à concorrência estrangeira e de aumentar o proteccionismo. O seu último livro, “Poder e Propriedade”, editado este ano, é o seu testamento político. Na obra, Gaidar adverte que dar ao governo tanto controlo sobre a economia terá como resultado que a Rússia nunca será capaz de convergir com o mundo desenvolvido. Além disso, escreveu Gaidar, o modelo de capitalismo de estado de Putin levará à destruição do próprio estado. Gaidar nunca se cansou de repetir aos apoiantes de Putin que a dita “via especial” conduziria o país apenas a um destino: o terceiro mundo.
Mais de 10.000 pessoas ficaram em pé durante horas sob 20 graus negativos para assistir ao funeral de Gaidar. Tal revela, mais uma vez, que o número de russos que partilham os pontos de vista liberais e democráticos do reformista é muito maior do que o Kremlin quer admitir. De acordo com várias sondagens do centro Levada efectuadas este ano e no ano passado, o número de russos que partilham com Gaidar as suas posições liberal-democráticas variam entre 15 a 20% da população, ou seja, 21 a 28 milhões de pessoas. Estes apoiantes das reformas liberais não estão representados na Duma desde 2003, quando a União do Poder Justo e o Yabloko, de acordo com os resultados oficiais, receberam votos abaixo do limite mínimo de 5%. Além disso, outros partidos liberais, tais como o meu próprio Partido Republicano da Rússia, não foram sequer autorizados a competir nas eleições para a Duma em 2007, após terem sido eliminados por alegadas “violações técnicas”. Os programas políticos e económicos liberais destes partidos foram sistematicamente difamados pelo Kremlin nos meios de comunicação nacionais controlados pelo estado. Com os reformistas ausentes das fileiras da elite política e económica, não há hipótese de sucesso para o programa de modernização de Medvedev.
2009 sublinhou diversas diferenças de estilo entre Medvedev e Putin. O primeiro gosta de criticar duramente o estado das coisas na Rússia, ao mesmo tempo que apela à rápida modernização e à suavização da política externa. Contudo, Putin insiste que os modelos políticos e económicos actuais funcionam bem, continuando a favorecer um forte controlo estatal da economia e uma política externa agressiva.
Medvedev não substanciou a sua retórica idealista sobre a necessidade de reformas liberais e modernização com acções concretas. Além disso, nada em 2009 levou a crer que o presidente se tenha finalmente tornado numa figura política independente. O governo e a administração presidencial continuam totalmente leais a Putin. Por outro lado, o Rússia Unida reforçou a sua posição como única força política do país. As eleições gerais de Outubro estabeleceram um novo recorde em matéria de falsificação. Ao mesmo tempo, o Rússia Unida tenta alargar a vertical do poder ainda mais, com a sua pressão para acabar com a eleição directa dos presidentes da câmara.
Durante 2009, Putin minou a maioria das posições de Medvedev, que já eram fracas à partida. Durante o programa de perguntas e respostas em Dezembro, em resposta á pergunta de quando estaria a pensar em retirar-se da política, Putin disparou: “não sustenham a respiração!”. Tal não deixa muito espaço de manobra a Medvedev, que, por seu lado, afirmou que não vai querer enfrentar Putin se este concorrer à presidência em 2012. Relativamente às críticas de Medvedev sobre as corporações estatais, Putin replicou que estas são “necessárias”.
Ao longo do ano, Medvedev foi incapaz de gerir as numerosas crises políticas e económicas. Em Março, o Tribunal de Khamovichesky em Moscovo iniciou um novo processo criminal contra Khodorkovsky e Lebedev, ainda mais absurdo que a primeira condenação. Houve um julgamento de alguns cúmplices pouco importantes no assassínio de Anna Politkovskaya, mas os autores morais ainda estão por acusar.
Em Abril o major da polícia Denis Yevsyukov desatou num frenesim assassino num supermercado, usando uma arma procurada no contexto de um crime anterior. Não há muito tempo, o major Andrey Dymovsky fez um apelo a Putin no Youtube, queixando-se de abusos na polícia. Assombrosamente, o ministro do interior Nurgaliyev, próximo de Putin, não foi despedido. Não houve também demissões importantes nos serviços secretos, apesar das explosões no Nevsky Express e de uma onda de atentados terroristas no norte do Cáucaso.
2009 foi também um ano triste para os jornalistas e os activistas dos direitos humanos. O advogado Stanislav Markelov e a jornalista Anastasia Baburova foram assassinados em Moscovo em plena luz do dia. Na Chechénia, assaltantes desconhecidos raptaram e mataram a activista dos direitos humanos Nataliya Estemirova.
O nível de corrupção aumentou marcadamente em 2009. E para mais, este ano demonstrou que a corrupção mata, através dos exemplos do incêndio em Perm, que matou 150 pessoas, e do desastre da barragem de Sayano-Shushenskaya, com 75 mortes. Medvedev continua a combater a corrupção com palavras ocas.Ao nos aproximarmos do final do ano, não há muito para celebrar nas frentes económica e política. Na Rússia, 2009 será lembrado pelo aumento da corrupção, pelas catástrofes sangrentas e pela deterioração global do país. Feliz Ano Novo, Rússia!"

O que foi a missão soviética no Afeganistão?

A Rússia recordou o 30º. aniversário do envio de tropas soviéticas para o Afeganistão com o discurso político a assinalar que as 13 mil baixas não foram em vão e os analistas a lembrar que não é psosível ganhar uma guerra naquele país.

Desde a retirada das tropas soviéticas por Mikhail Gorbatchov em 1989 e até muito recentemente, poucos eram os que, na Rússia, refutavam a tese de que o envio de soldados para o Afeganistão constituiu um grave erro da direcção comunista da URSS de então e foi uma das principais causas da queda do império soviético.

Porém, “o combate à revisão da história”, desencadeado pelo actual Presidente russo, Dmitri Medvedev, parece ter chegado também a essa página.

Numa declaração aprovada pela Duma Estatal (Câmara Baixa) do Parlamento Russo, lê-se que “as perdas irremediáveis e vítimas nessa guerra não foram em vão".

"Graças a dez anos de presença de um contingente limitado de tropas soviéticas, foi travado o fogo de uma nova guerra mundial junto às fronteiras do nosso Estado. Pela primeira vez, foi dada uma resposta digna ao terrorismo internacional e ao tráfico de drogas. Não nos devemos esquecer disso”, lê-se na mesma declaração

Este fragmento da declaração foi proposto pelo deputado Franz Klintzevitch, veterano da Guerra do Afeganistão e dirigente do Partido Rússia Unida, dirigido pelo primeiro-ministro Vladimir Putin.

Durante a análise do documento, o deputado Anatoli Lokot, em nome do grupo parlamentar do Partido Comunista da Rússia, assinalou: “A história moderna mostra que os veteranos do Afeganistão defenderam as fronteiras meridionais da URSS e isso não foi feito em vão. Hoje, nós não estamos lá, mas encontram-se os Estados Unidos. Isso não é culpa dos veteranos, mas dos dirigentes, da política realizada por Gorbatchov, Ieltsin e por muitos outros.”

Isto não significa, porém, que Moscovo esteja disposto a enviar soldados para o Afeganistão. Ainda não sararam as feridas nos corações das mães e esposas dos mais de 13 mil soldados soviéticos que perderam a vida nessa guerra. Além disso, a opinião mais frequente entre analistas e políticos russos continua a ser a de que “é impossível vencer no Afeganistão”, apresentando como exemplos não só a derrota dos soviéticos no século XX, como a dos ingleses no século XIX.

No entanto, o Afeganistão esteve no centro do reatamento das relações entre a Rússia e a NATO, no início deste mês. Os contactos entre as partes tinham sido suspensos em Agosto de 2008, quando as tropas russas entraram na Geórgia.

Moscovo aceitou o transporte de mercadorias militares e de tropas da Aliança Atlântica para o Afeganistão através do seu território, bem como se comprometeu a conceder apoio económico e técnico às autoridades afegãs.

No dia 28 de Dezembro, o Presidente Medvedev comentou o envio de dois helicópteros de salvamento e de 52 camiões russos para Cabul como “importante, porque do estado das coisas no Afeganistão depende o estado das coisas na Ásia Central em geral”.

“Infelizmente, todos os problemas que aí surgem reflectem-se, dentro de algum tempo, na Ásia Central e, no fim de contas, no nosso país”, sublinhou Medvedev.

BOM ANO NOVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

CAROS LEITORES, DESEJO-VOS A TODOS, SEM EXCEPÇÃO, UM BOM ANO NOVO.
MUITO TRABALHO, MUITOS SUCESSOS, MUITA SAÚDE E FELICIDADES. NUMA PALAVRA, TUDO O QUE DE BOM SE PODE DESEJAR.
UM ABRAÇO AMIGO.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Blog dos leitores


A leitora e amiga Cristina Mestre enviou a tradução de um artigo que penso ser de extrema importância para quem se interessa pela Rússia.

Quero apenas assinalar que o autor, Gleb Pavlovski, é um dos "tecnólogos políticos" que contribuíram para a ascenção de Vladimir Putin e Dmitri Medvedev na escala da popularidade entre a opinião pública russa. Não se trata de uma voz da oposição a criticar, mas de um homem do sistema a reflectir e prevenir.


"Nezavisimaya Gazeta

A MALDIÇÃO DO “L” CIRÍLICO


Os fracassos no progresso da Rússia têm uma história tão grande como certas democracias veteranas. Desde a abolição da servidão, em 1861, nenhuma reforma na Rússia foi definitiva, escreve o politólogo Gleb Pavlovski num artigo publicado hoje na Nezavisiamaya Gazeta.

Está na moda atribuir as letras latinas "U", "L" ou "W" a diversos cenários da crise global. Pavlovski considera que o “L” cirílico, "Л", reflecte melhor o destino das mudanças na Rússia. Começam por desenvolver-se no sentido anti-horário para depois, já no momento culminante, colapsar para sempre.

Tal como no passado, a Rússia deixa-se envolver nas reformas entre bocejos, perguntando quando irá finalmente algo mudar nestas latitudes. Os actores, já enredados em obstáculos, ainda se queixam de estagnação, exigem ao Kremlin garantias mais claras de mudanças e perdem tempo a sonhar com o futuro, futuro para o qual não estão minimamente preparados. Numa segunda fase, vêm-se catapultados para o céu mas logo se dá o colapso e chega a hora de começar as discussões habituais: “Será que perdemos outra vez? Como é possível, se só agora começámos? Deve ser uma conspiração… mas, quem está por trás?

Todos os acontecimentos que marcam a história na Rússia se desenvolvem segundo o modelo "Л". Nos finais dos anos 80, durante a perestroika de Gorbatchov, a classe política perdeu dois anos a discutir como tornar as mudanças irreversíveis, apesar de já o serem.

O segundo “arranque às cegas” deu-se durante o governo de Boris Yeltsin. Enquanto o presidente mantinha o braço-de-ferro com o Parlamento, o sistema opressivo do Gulag, esquecido pela imprensa e pela opinião pública liberal, duplicou em número, fundiu-se numa estrutura monolítica com a Procuradoria e o Ministério do Interior, comercializou-se e criou as bases da futura degradação da política e dos órgãos de segurança.

A revolução de Putin também não escapou ao modelo "Л".

Quando a elite ainda denunciava a “família” de Yeltsin pelo seu “estilo bizantino”, milhões de burocratas tomaram o controlo do mundo dos negócios e do aparelho administrativo.

A modernização que o presidente Dmitry Medvédev deseja impulsionar na Rússia poderá levar a outro capítulo do historial de fracassos nacionais, adverte o articulista. Pavlovski sugere não ficarmos deslumbrados com a curva inicial do "Л" nem subvalorizar a força deste modelo, cujo problema radica no escasso controlo sobre os processos reais, já em marcha.

Mais que um plano sistemático, a modernização actualmente é um nome aplicado a um processo sem controlo e que se desenvolve a toda a velocidade. O que é necessário agora é controlar esta avalanche ou, pelo menos, avaliar a sua força e direcção. Outra recomendação de Pavlovski é não tentar, no projecto modernizador, destruir a maioria governante formada nos tempos de Putin. Tais tentativas, na sua opinião, conduzirão unicamente a uma nova fase de degradação.


Artigo original : http://www.ng.ru/politics/2009-12-29/1_russia.html"


segunda-feira, dezembro 28, 2009

Desta vez não é gás, mas petróleo!


A Rússia preveniu a União Europeia de uma possível suspensão de fornecimentos de petróleo a três países europeus (Eslováquia, Hungria e República Checa) através do território devido a divergências sobre o preço, anunciou o Conselho de Ministro da Eslováquia, citado por agências internacionais. “Trata-se de um litígio sobre os preços do petróleo... Estamos ao corrente da situação criada, que tem a forma de litígio comercial”, declarou à agência ITAR-TASS uma fonte da Comissão Europeia. Kiev já veio dizer que da parte da Ucrânia não existe qualquer ameaça ao trânsito do petróleo russo para os clientes europeus. Depois de constatar a existência de conversações com a “Transneft” empresa pública russa que monopoliza o transporte de petróleo por pipelines, a companhia “Naftogaz” da Ucrânia acrescenta que “hoje os especialistas das duas companhias acordaram sobre os volumes do trânsito do petróleo russo e outras condições a curto prazo, cujos acordos terminam a 31 de Dezembro de 2009”, sublinhando que “da parte ucraniana não existe qualquer ameaça ao trânsito do petróleo russo para os consumidores europeus”. Pelo seu lado, Nikolai Tokariev, gerente da “Transneft”, declarou ao diário económico “Vedomosti” que a Rússia não aceita o aumento das tarifas de trânsito, bem como o sistema do mesmo “ship-or-pay”. O petróleo russo para a Europa é transportado através do sistema “Drujba”, que tem seis mil quilómetros de comprimento e constitui o maior sistema de oleodutos no mundo. Ao sair do território da Rússia, o sistema divide-se num ramal para Norte, que fornece petróleo à Bielorrússia, Polónia e Alemanha, e noutro para Sul, que transporta crude para a Ucrânia, República Checa, Eslováquia e Hungria. Este sistema transporta quase metade do petróleo russo exportado, escoando, anualmente, entre 70 e 80 milhões de toneladas de crude. Nos anos anteriores, por esta altura, têm tido lugar “crises de gás” entre a Rússia e a Ucrânia, também devidas à discussão em torno do preço do trânsito do gás russo para a Europa por território ucraniano. No ano passado, Moscovo cortou mesmo os fornecimentos de combustível azul à União Europeia durante parte do mês de Janeiro. Este ano, a “crise do petróleo” ocorre em plena campanha eleitoral na Ucrânia, o que poderá ser utilizado pelos numerosos candidatos para ganharem votos, ou uma forma da Rússia participar na contenda eleitoral. As eleições presidenciais na Ucrânia realizam-se a 17 de Janeiro.
Parece-me que Moscovo tomou essa decisão por duas razões: além da participação na campanha eleitoral na Ucrânia, conseguiu um aumento do petróleo nos mercados internacionais. Mas se assim foi, o Kremlin continua a não tirar lições de erros passados. Sem razões fortes, ameaça deixar três países da UE sem petróleo, o que não contribuirá para o melhoramento da imagem do país no mundo enquanto fornecedor seguro de combustíveis.
Publicamente, Vladimir Putin apoiou, tal como em 2004, Victor Ianukovitch, dirigente do Partido das Regiões. Não directamente, mas declarando que esse é partido é o aliado da Rússia Unida, força política por ele dirigida.
Seja como for, o apoio de Moscovo não constuma contribuir para vitórias em eleições nos países vizinhos. Caso na Ucrânia se realize a segunda volta, o que é bem possível tendo em conta o grande número de candidatos (18), esse gesto apenas poderá contribuir para juntar várias forças políticas em torno do político que irá defrontar Ianukovitch.
Mas mesmo que Ianukovitch vença, é preciso ter em conta que ele existe como figura política porque é apoiado por alguns dos oligarcas ucranianos do Leste e Sudeste do país. Ora estes últimos não estão interessados na abertura do mercado ucraniano ao capital russo, principalmente na metalurgia, produção de adubos, etc., pois sabem que, caso contrário, serão despromovidos de oligarcas a pequenos e médios empresários.
Além disso, Ianukovitch também não esconde a sua intenção de levar a Ucrânia à União Europeia. No máximo, caso ele venha a ser eleito, Moscovo receberá um novo Alexandre Lukachenko, Presidente da Bielorrússia que tenta explorar a situação geográfica do seu país, entre a Rússia e a UE.

domingo, dezembro 27, 2009

Petróleo siberiano chega a Pacífico por tubo


O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, realizará uma visita de trabalho, nos dias 28 e 29 de Dezembro, ao Extremo Oriente, nomeadamente para inaugurar o oleoduto Sibéria Oriental-Pacífico, anunciou no Domingo o serviço de imprensa do Governo.

“Durante a sua estadia em Nakhodka, Vladimir Putin participará na cerimónia da inauguração do oleoduto Sibéria Oriental-Pacífico. O primeiro-ministro visitará o ponto final do pipeline, o porto Kozmino (Pacífico), a partir do qual se realizará a primeira carga de petróleo destinado aos países da Região Asiática do Pacífico”, lê-se num comunicado do serviço de imprensa.

O oleoduto Sibéria Oriental – Pacífico (VSTO-1) deverá transportar petróleo russo para os países do Sudeste Asiático. A primeira etapa da obra previa a construção de um terminal petrolífero em Kozmino, com uma capacidade de 30 milhões de toneladas de crude por ano. Após a realização da segunda etapa, a construção do pipeline VSTO-2, as capacidades de escoamento aumentarão para 80 milhões de toneladas por ano.

Além disso, o projecto prevê a construção de um ramal do oleoduto que irá chegar à fronteira da China.

O novo oleoduto irá ligar-se aos pipelines existentes da Transneft, empresa pública russa que tem o monopólio de transporte de crude no país, permitindo criar um sistema único que permitirá controlar a distribuição das correntes petrolíferas pelo território da Rússia no sentido Este e Oeste.

Este novo oleoduto poderá contribuir fortemente para o desenvolvimento do Extremo Oriente russo, tanto mais que o transporte de petróleo da Sibéria Oriental para o Pacífico deverá impulsionar a construção naval, nomeadamente de petroleiros e plataformas para extracção de gás e petróleo.

O Extremo Oriente da Rússia é uma região que tem sido muito esquecida por Moscovo, mas, nos últimos tempos, as atenções viram-se para lá, pois é o ponto de contacto com países como China, Japão, Coreia do Sul, etc. O desenvolvimento da região poderá também atrair população de outras regiões da Rússia, pois um dos entraves ao avanço é precisamente o baixo número de habitantes.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Justiça Russa volta a ficar mal em Estrasburgo


O Supremo Tribunal da Rússia admitiu esta quarta-feira que a detenção do ex-chefe financeiro da petrolífera Yukos, Platon Lebedev, foi ilegal, motivo pelo qual anulou a ordem de prisão do executivo, ditada em 3 de julho de 2003 por um dos tribunais de Moscovo.

O Supremo tomou a resolução mais de dois anos depois de o Tribunal Europeu de Direitos Humanos ter criticado as autoridades russas por terem violado várias garantias judiciais no processo de Lebedev, sócio do fundador da Yukos, Mikhail Khodorkovski.


Tanto Lebedev como Khodorkovski cumprem atualmente oito anos de prisão por diferentes crimes financeiros. Os dois, no entanto, continuam a afirmar que estão inocentes.


A resolução anunciada pelo Supremo não muda a condenação de Lebedev, que, assim como Khodorkovski, enfrenta um segundo julgamento por crimes financeiros, pelos quais ambos podem ser condenados até 22 anos de prisão.


Em 2007, o Tribunal Europeu criticou a Rússia pela ausência dos advogados de Lebedev em uma das audiências sobre a ampliação da prisão preventiva do então réu e por impedir que o próprio comparecesse a uma outra.


Por essas e outras violações, o Tribunal de Estrasburgo condenou as autoridades russas a pagar uma indenização de 3 mil euros a Lebedev e outros 7 mil euros para o custeio das despesas judiciais.


Mais uma vez o Tribunal de Direitos do Homem de Estraburgo continua a ser o único e imparcial órgão de justiça para os russos. Este processo, antes de chegar a Estrasburgo, passou pelas mãos do Supremo Tribunal da Rússia, que, da primeira vez, não viu violação nenhuma. À segunda vez, veio dizer o dito por não dito. Mais um exemplo da "separação" de poderes na Rússia.


As autoridades de Moscovo têm perdido praticamente todas as contendas judiciais que os cidadãos russos levam ao Tribunal Europeu, mas consideram que isso acontece por "questões políticas" e não porque os tribunais russos funcionam mal. A frequente substituição de representantes russos nesse tribunal mostra o mal estar das autoridades russas.


Por enquanto, a Rússia tem tido dinheiro para pagar as indemnizações e custas de processos, mas isso pode acabar. Os accionistas estrangeiros da Yukos sentiram-se lesados quando a petrolífera russa passou para as mãos do Estado russo e procuram justiça em Estrasburgo, exigindo compensações por danos causados de mais de cem mil milhões dólares. Que irá fazer o Kremlin? Pagar as indemnizações ou abandonar o Tribunal Europeu. Caso opte pela segunda possibilidade, os russos ficarão definitivamente privados do acesso à justiça.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Primeiro Natal na União Soviética


Cheguei à URSS alguns meses antes do Natal, em Setembro de 1977, e, não obstante os soviéticos estarem proibidos de celebrar o nascimento de Cristo, nós, os portugueses, bem como outros povos cristãos que andavamos a Leste, não queríamos deixar passar essa data despercebida. Não porque fossemos crentes, não - eu, pelo menos, naquela data, era "ateu combativo" (segundo a escala soviética anti-religiosa) -, mas apenas porque se tratava de uma festa muito especial, familiar. E todos estavamos longe de casa...
E será possível confeccionar uma verdadeira ceia natalícia sem bacalhau? Claro que não. Na URSS, havia muito bacalhau e era dos poucos peixes que apareciam à venda nas lojas, mas tratava-se de peixe fresco. Algumas estudantes tentaram salgá-lo e secá-lo nos aquecedores das residências estudantis, mas, ao que sei, sem êxito. Imaginem só o odor!
Era preciso bacalhau salgado e foi o C. que nos salvou nesta, bem como noutras situações anteriores. Por exemplo, como alguns estudantes (eu era um deles) acreditavam que quando chegasse à URSS poderiam ter acesso a roupas (recebemos apenas um gorro de pele, um sobretudo e umas botas que nos tornavam semelhantes aos idosos membros do Bureau Político do Comité CEntral do Partido Comunista da União Soviética), levavam muito pouca coisa consigo. Como o C. era prevenido, emprestou roupa a muita gente, não obstante as medidas divergirem. Eu que o diga...
Mas voltemos ao bacalhau... Os pais do C. utilizaram a vinda da equipa de futebol do Boavista a Moscovo, que devia defrontar o Dínamo, para mandar bacalhau. Artur, defesa da equipa do Bessa, foi o correio.
Deixo ao C. a oportunidade de um dia nos revelar como fomos recebidos por um senhor que já naquela altura era major, mas a dificuldade maior estava ultrapassada: tínhamos o fiel amigo.
Quando chegou o dia 24 de Dezembro, a cozinha de um dos andares da nossa residência estudantil (DAS) foi ocupada pelos portugueses, despertando com a sua azáfama e odores a curiosidade dos representantes das mais diversas nacionalidades.
Eu consegui até preparar "rabanadas à poveira" e, se bem me recordo, com algumas doses de vinho do Porto.
Naquela altura, essa bebida nacional estava representada nas lojas soviéticas a um preço muito alto: 4 rublos e 60 kopeeks (mais de sete dólares segundo o câmbio oficial) e era uma das formas do Partido Comunista da União Soviética contribuir para os cofres do seu congênere português. Numa fundo, estavamos a pagar uma quota suplementar ao Partido Comunista Português.
Uma surpresa, não sei se agradável ou não, esperavamo-nos quando decidimos cozer o bacalhau. O "fiel amigo" era tanto que não tínhamos tachos e panelas suficientes. Depois de longas meditações, decidimos pedir a três estudantes cipriotas que viviam com a portuguesa E. a bacia metálica que elas utilizavam, normalmente, para lavar a roupa.
A decisão provocou gargalhadas e piadas apimentadas, mas o certo é que conseguimos cozinhar o bacalhau. As batatas e as couves foram preparadas à parte.
E ainda bem que preparámos todo o bacalhau, porque, há última da hora, surgiram uns "penduras", mas, na noite de Natal, todos são bemvindos. Tivemos apenas de ter cuidado com o vinho georgiano, pois era pouco para tanta gente.
Foi uma festa inesquecível e longa. Talvez por isso não me lembro da última parte... No dia seguinte, os estudantes portugueses do DAS não puseram os pés nas aulas. Mas a data justificou a ausência, mesmo num país oficialmente ateu.
P.S. Escrevo apenas as iniciais de alguns dos participantes na festa, mas éramos muito mais.


Regresso às origens




A apresentação do meu livro: "Angola: O Início do Fim da União Soviética" na Póvoa de Varzim foi motivo para visitar a terra natal e rever amigos de longa data.
Em primeiro lugar, não posso deixar de agradecer ao Macedo Vieira, Presidente da Câmara da Póvoa, e a Luís Diamantino, vereador da Cultura, pelo apoio que me deram na organização da sessão de lançamento do meu livro no Diana-Bar, lugar emblemático parta muitos jovens poveiros da minha geração, onde passavamos horas à mesa ou a estudar, ou a discutir política, ou simplesmente a conversar.
Deixo aqui também um abraço de agradecimento ao Carlos Mateus, angolano do Lobito, meu amigo desde os tempos do Liceu Eça de Queirós e homem que se prontificou a fazer a apresentação do meu livro. Aqui, Carlos foi "acolitado" por um outro amigo, o poeta Aurelino, que escreveu para o efeito um excelente texto.
Não obstante o frio que se fazia sentir na noite de sexta-feira, algumas dezenas de pessoas estiveram presentes, nomeadamente muitos familiares e amigos. Acho que conseguimos estabelecer um diálogo aberto não só sobre a temática do livro, mas também sobre a história da URSS e da Rússia.
Para mim, claro que se tratou de um momento muito agradável: apresentar o meu livro na minha terra-natal, tanto mais rodeado pela mãe e numerosas irmãs, pois o irmão esteve ausente, pois nessa noite estava num barco atracado em Aveiro.
Sublinho isto porque eu fui o único filho que conseguiu terminar o ensino superior e foi, em grande parte, devido ao grande sacrifício dos outros. Por isso, o meu livro também é fruto do trabalho deles.
Por fim, agradeço à Livraria Minerva, na Rua da Junqueira, por fazer a distribuição do livro e a António José Gonçalves, que me enviou as fotos do evento. Um muito obrigado a todos
.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Numerosos russos continuam a simpatizar com Estaline, mas maioria não quer ver dirigente desse tipo no Kremlin


Continua a ser maior o número dos que fazem uma avaliação positiva da actividade de José Estaline, ditador comunista que dirigiu a União Soviética entre 1824 e 1953, revelam sondagens publicadas hoje, dia do 130º aniversário do seu nascimento.

Segundo o Instituto de Estudos da Opinião Pública (VTSIOM), 37 por cento dos russos avaliam a acção de Estaline como positiva, dos quais 26 sentem por ele respeito, 08 por cento, simpatia e 03 por cento, admiração.

Do lado oposto, 24 por cento dos russos têm um sentimento negativo face ao ditador comunista, 13 por cento dos quais detestatam-no, 06 por cento têm medo e 05 por cento, repulsa.

O estudo mostra que José Estaline é bem mais popular entre os idosos do que no seio das camadas jovens.

Quanto às qualidades de Estaline enquanto líder, 54 por cento dão-lhes uma nota alta, 25 por cento consideram-nas médias e apenas 08 por cento baixas.

35 por cento dos inquiridos reconhecem que Estaline foi um tirano cruel, culpado da destruição de milhões de pessoas, enquanto que o mesmo número lhe atribui o principal papel na vitória na Segunda Guerra Mundial.

O VTSION chama a atenção para o facto de, entre 1998 e 2009, ter aumentado o número de respondentes, de 16 para 21 por cento, que considera o ditador comunista “sábio líder”, crescendo mais depressa ainda, de 28 para 35 por cento, a quantidade de russos que vêem nele um “tirano cruel”.

A sondagem mostra que, entre 2005 e 2009, subiu de 52 para 58 por cento o número de russos que não querem ver um político do tipo de Estaline no Kremlin.

Esta sondagem mostra que a Rússia continua fortemente dividida no que respeita à sua história.

A conhecida defensora dos direitos humanos Liudmila Alekseevna sublinha, numa entrevista ao diário Rossiskaia Gazeta, que “nós não temos o direito de esquecer os fusilados, as vítimas do terror estalinista”, sublinhando que o seu número é comparável ao dos soviéticos que tombaram na Segunda Guerra Mundial (1939-1941).

Depois de constatar que “o genocídio do próprio povo é um facto sem precedentes na história”, Liudmila Alekseevna, acrescenta que também o estalinismo está na origem do actual atraso científico da Rússia.

“Estaline liquidou a genética, determinou o nosso atraso de muitos anos no campo da cibernética, que ainda não conseguimos superar. Além disso, ele provocou graves prejuízos à ciência ao prender e assassinar muitos cientistas conhecidos”, frisou.

Os comunistas, pelo seu lado, foram hoje depôr flores no jazigo do ditador, que se encontra na Praça Vermelha.

“Os maiores êxitos da era estalinista continuam a ser a base de apoio da Rússia actual”, considera Ivan Melnikov, membro do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética.

O analista político Boris Tumanov considera que “qualquer discussão sobre o papel de Estaline na história da Rússia não tem sentido, porque se discute não sobre um homem que realmente existiu, mas sobre um mito que foi inventado pelo próprio líder e mestre”.

P.S. À medida que as gerações mudarem e se a Rússia não enveredar por um novo regime repressivo, os admiradores de José Estaline irão diminuir. Tanto mais se foi deixada aos historiadores analisarem imparcialmente esse período da história soviética.

Recentemente, na televisão russa, voltei a ver um filme chamado "O testamento de Lénine", baseado na biografia e obra de Varlam Chalamov, um dos maiores escritores e poetas do séc. XX. Leiam os seus "Contos de Kolimá". Fiquei ainda mais convencido que o comunismo não foi mais humano, nem tem melhor explicação do que o fascismo. Trata-se de duas ideologias que se encontram por serem extremas. Em situação alguma, qualquer uma dessas ideologias conduziu apenas a regimes sanguinários e ditatoriais.

Não estando contente com o actual estado das coisas no mundo, não recomendo, mesmo assim, fazer novas experiências com essas ideologias, porque o preço dos primeiros ensaios foi tenebroso.

Deixo aqui apenas uma das ideias de Varlam Chalamov: os campos de concentração foram criados pelo regime comunista soviético. O primeiro abriu em 1921, ou seja bem antes da chegada de Hitler ao poder e quando ainda Vladimir Lénine governava a União Soviética...

domingo, dezembro 20, 2009

Milhares de pessoas despediram-se de Iegor Gaidar

Cerca de dez mil moscovitas juntaram-se hoje em frente do Hospital Clínico Central, com flores nas mãos, para se despedirem do conhecido economista e político Iegor Gaidar.
O político e ex-primeiro-ministro reformista impulsionou a transição da Rússia para a economia de mercado no início dos anos 90.
Na cerimónia de despedida estiveram presentes tanto políticos como empresários, entre os quais Boris Nemtsov, Mikhail Kassianov e Anatoli Tchubais, membros do Governo dirigido por Gaidar, como simples cidadãos, agradecidos a Gaidar pelo que fez pela Rússia.
Arkadi Dvorkovitch, assessor do Presidente russo Dmitri Medvedev, declarou que Gaidar “salvou o país da guerra civil, da fome e de outras tragédias”.
O ex-primeiro-ministro da Rússia, Victor Tchernomirdine, considerou-o “homem de muita coragem”.
O antigo-primeiro-ministro russo Igor Gaidar, conhecido por lançar a Rússia para a economia de mercado naquilo a que ficou chamado como “terapia de choque” morreu sexta-feira de madrugada, com 53 anos.
Igor Gaidar nasceu a 19 de Março de 1956 numa conhecida família de intelectuais soviéticos, tendo feito uma carreira brilhante na era comunista, que ajudou a derrubar em 1991.
Formado em economia pela Universidade Estatal de Moscovo em 1978, adere ao Partido Comunista da União Soviética dois anos depois. Entre 1987 e 1990, foi vice-director da revista Comunista, órgão teórico do PCUS e, em 1990, ocupou o mesmo cargo mas no jornal Pravda, principal diário do mesmo partido.
Após a queda do comunismo, em 1991, Gaidar está entre um grupo de economistas jovens que defendem a transição da economia russa “do plano para o mercado” e ocupa o cargo de primeiro-ministro interino do Governo de Boris Ieltsin até 1994.
Foi durante estes anos que Gaidar realizou a sua política de “terapia de choque”, obrigando os russos a darem um salto brusco da economia planificada para a economia de mercado.
Actualmente ocupava o cargo de director do Instituto da Economia de Transição e era conselheiro económico do governo do Iraque, tendo publicado várias obras de economia, onde tecia críticas à política dos actuais dirigentes do país.

Rússia e Cimeira de Copenhaga

A Rússia juntou-se, este sábado, aos países que sugerem «dar um passo em frente» e aprovar o acordo final da conferência da ONU sobre alterações climáticas em Copenhaga.
Alexandre Bedritski, representante da Rússia nesse fórum e assessor do Presidente russo para as alterações climáticas, exprimiu o seu «apoio às delegações que consideram necessário dar um passo em frente» e declarou não concordar com os que rejeitaram a proposta de declaração do acordo de Copenhaga, pelo seu alegado carácter sectário.
O delegado russo insistiu em que a cimeira deve terminar «com um resultado concreto».
Na cimeira de Copenhaga, o Presidente russo, Dmitri Medvedev, anunciou que a Rússia está pronta a «garantir uma redução acumulativa sem precedentes das emissões para a atmosfera (de gases com efeito de estufa) de mais de 30 mil milhões de toneladas no período entre 1990 e 2020, o que corresponde a 25 por cento da redução dos lançamentos de gás durante esse período».
Os Estados Unidos tomaram como base não o ano de 1990, como a Rússia, mas 2005, quando o nível de emissões foi sensivelmente maior. Durante todos esses anos, as emissões de gases com efeito de estufa por parte da Rússia foram inferiores em 35 por cento em relação a 1990.
«No final de contas, até 2020, a Rússia, tendo em conta o crescimento do PIB antes da crise (o crescimento foi cerca de 8,5 por cento ao ano, sendo o aumento das emissões da ordem de um por cento), não irá reduzir as emissões, mas, pelo contrário, aumentá-las», considerou o director do Centro de Investimentos Ecológicos da Rússia, Mikhail Iulkin.
O mesmo ocorreu nos anos 90, quando a Rússia assinou o Protocolo de Quioto. Então foram anunciados compromissos inferiores aos possíveis e, durante todos estes anos, tendo uma grande base de solidez, não foi necessário modernizar a economia.
«Porque é que a Rússia diminui as suas possibilidades de redução das emissões? É tudo simples. Há receios de que não cumpriremos compromissos maiores. Isso é também condicionado pelo facto de não termos uma estratégia clara de desenvolvimento económico e energético até 2020», sublinhou Iulkin.
A imprensa russa receava, nas edições de hoje, que a conferência de Copenhaga termine com um grande fiasco. «Os países desenvolvidos não conseguiram convencer os Estados em vias de desenvolvimento a chamar a si compromissos para reduzir o nível de emissões de gases nocivos para a atmosfera», escreve o jornal electrónico gazeta.ru, e sublinha que a cimeira está a dar «um valente fiasco».
O jornal de negócios "Kommersant" fala de «caos climático», acrescentando que «o dióxido de carbono dividiu países desenvolvidos e em desenvolvimento em Copenhaga».

quinta-feira, dezembro 17, 2009

NATO interessada em cooperação mais estreita com Rússia no Afeganistão

A NATO está interessada numa cooperação mais estreita e sólida com a Rússia no Afeganistão, declarou aos jornalistas Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da Aliança.
“Convidei a Rússia a alargar a participação nas operações no Afeganistão, nomeadamente, ajudando a aliança com helicópteros, preparação de pilotos, peças sobresselentes e combustível”, precisou Rasmussen, que se encontra de visita à capital russa.
Fonte diplomática da Lusa em Moscovo disse por telefone que existem “algumas divergências”: “a Rússia não se quer envolver directamente no conflito do Afeganistão” e “pretende receber dinheiro pelos serviços prestados e armamentos fornecidos”.
“Porém”, acrescenta a mesma fonte, “Moscovo terá de dar um apoio mais substantivo à NATO no Afeganistão, visto a derrota militar da Aliança levar ao aparecimento de uma forte ameaça extremista no Sudoeste da Rússia e na Ásia Central”.
O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, declarou que as relações entre o seu país e a NATO entraram numa nova etapa, sublinhando que “do seu nível depende muita coisa”.
Num encontro com Rasmussen, o dirigente russo considerou que a visita do secretário-geral da NATO a Moscovo tornará as relações entre a Rússia e Aliança “mais sólidas e produtivas”.
“Temos muitos motivos e pontos de contacto, muitos temas para a interacção”, declarou Medvedev, acrescentando que há desafios comuns como o terrorismo e a pirataria.
A cooperação entre as partes foi suspensa depois da Rússia ter feito entrar as suas tropas na Geórgia, em Agosto de 2008. Porém, no passado 05 de Março, os chefes da diplomacia dos membros da Aliança decidiram restabelecer a interacção no campo da segurança.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Morreu Iegor Gaidar, o controverso ideólogo das reformas de mercado no país


O antigo-primeiro ministro russo Iegor Gaidar, conhecido por lançar a Rússia para a economia de mercado naquilo a que ficou chamado como “terapia de choque”, faleceu hoje de madrugada com 53 anos, anunciou o seu assessor Guennadi Volkov.


Segundo as agências noticias russas, Gaidar faleceu de uma trombose na sua casa dos arredores de Moscovo, mas os seus assessores e amigos próximos não confirmam essa versão, nem adiantam mais pormenores.


Igor Gaidar nasceu a 19 de Março de 1956 numa conhecida família de intelectuais soviéticos, tendo feito uma carreira brilhante na era comunista, que ele ajudou a derrubar em 1991.


Formado em economia pela Universidade Estatal de Moscovo em 1978, adere ao Partido Comunista da União Soviética dois anos depois. Entre 1987 e 1990, foi vice-director da revista “Comunista”, órgão teórico do PCUS e, em 1990, ocupou o mesmo cargo mas no jornal “Pravda”, principal diário do mesmo partido.


Segundo o deputado russo Alexandre Khinchetein, quando Gaidar trabalha no “Pravda”, não autorizou a publicação de um artigo do economista e futuro chefe do Parlamento russo Ruslan Khasbulatov, alegando que “o autor de facto defende a economia de mercado, mas esta não interessa a ninguém na União Soviética”.


Após a queda do comunismo, em 1991, Gaidar está entre um grupo de economistas jovens que defendem a transição da economia russa “do plano para o mercado” e ocupa o cargo de primeiro-ministro interino do Governo de Boris Ieltsin até 1994.


Foi durante estes anos que Gaidar realizou a sua política de “terapia de choque”, obrigando os russos a darem um salto brusco da economia planificada para economia de mercado.


Anatoli Tchubais, um dos economistas que trabalhou ao lado de Gaidar, considerou-o “um grande cientista, um grande estadista”.


“Poucos são aqueles na história da Rússia e na mundial que podem ser a ele comparados pela força do intelecto, pela clareza na compreensão do passado, presente e futuro”, declarou Tchubais aos jornalistas.


Leonid Groisma, dirigente do partido liberal Causa de Direita, acrescenta: “Gaidar salvou o país e toda a humanidade. Há 18 anos atrás, a Rússia esteve a um passo da desintegração e da guerra civil e isso poderia provocar uma guerra mundial nuclear”.


Guennadi Gudkov, deputado do partido Rússia Unida, dirigido por Vladimir Putin, afirma que não apoia muito do que Gaidar realizou, mas reconhece que “ele não foi um político corrupto no sebtido actual da palavra”.


Os dirigentes do Partido Comunista da Federação da Rússia não lhe perdoam o facto de ele ter destruído o “modelo económico socialista”, acusando-o de ter lançado para a miséria milhares de famílias russas.


sábado, dezembro 12, 2009

Rússia não tenciona limitar seu crescimento económico para reduzir emissões


Alexandre Bedritski, assessor do Presidente russo para alterações climáticas, declarou que a Rússia não tenciona limitar o seu crescimento económico para reduzir as emissões de gases
“Não limitaremos o nosso crescimento económico. Precisamos de percorrer o mesmo caminho de todos os demais países: primeiro, o crescimento, e só depois, cortes absolutos”, afirmou Bedritski numa conferência de imprensa na capital russa.
O conselheiro do Kremlin acrescentou que a redução de emissões em cerca de 25 por cento até ao ano 2020 é “um número bastante bom” e que “a Rússia é líder no que diz respeito à redução da pressão antropogénea no clima”.
Bedritski excluiu também a venda de quotas de emissões de dioxodo de carbono a outros países e propôs experimentá-la primeira no mercado internao, “sob a forma de projectos piloto em alguns sectores, por exemplo, o do gás”.
Ao abordar a situação criada na Cimeira do Clima em Copenhaga, ele assinalou que esse forum deveria conduzir à assinatura de um acordo político, mas não de um convénio vinculante no plano legal.
O funcionário russo defendeu a redução de gases independentemente do que se passa com o clima, pois considera isso indispensável para o desenvolvimento de novas tecnologias e, por conseguinte, para o crescimento económico.
O Kremlin já anunciou que o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, irá participar na Cimeira do Clima de Copenhaga.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Um teste falhou, o outro teve êxito

A Rússia realizou hoje com êxito um lançamento de teste do míssil balístico intercontinental RS-12M Topol, anunciou o coronel Vadim Koval, porta-voz do Ministério da Defesa.
“As Tropas de Mísseis Estratégicos da Rússia lançaram hoje às 15.35 horas de Moscovo (12.35 horas em Lisboa) um míssil balístico intercontinental RS-12M Topol do polígono de Kaputin Iar na província de Astrakhan”, informou.
A ogiva do míssil atingiu o alvo convencional instalado no polígono de Sari-Chagan, no Cazaquestão, acrescentou a fonte.
Porém, o Ministério da Defesa da Rússia viu-se obrigado a reconhecer que o teste de um míssil intercontinental Bulava fracassou novamente devido a uma falha técnica.
«Os dois primeiros níveis do foguete funcionaram normalmente, mas aconteceu uma falha técnica na trajectória durante a terceira etapa», afirma-se um comunicado oficial.
«Segundo os dados do serviço de controle, o motor do terceiro nível não funcionou correctamente», acrescenta o texto.
O fracasso do ensaio ocorreu ontem, quarta-feira, de manhã, mas a notícia só foi confirmada hoje pelos militares russos, depois da imprensa russa, baseando-se na informação de um sítio electrónico norueguês, ter noticiado que o míssil Bulava não tinha atingido o alvo. Na véspera, o Ministério da Defesa e o Estado-Maior da Marinha da Rússia recusaram-se a reconhecer a realização do próprio ensaio.
Desde 2005 foram realizados 12 testes de mísseis e oito deles fracassa, o último deles a 15 de Julho, segundo as agências de notícias russas.
Com alcance de 8.000 quilómetros, o Bulava (SS-NX-30 na classificação da NATO) pode transportar 10 ogivas nucleares. Será instalado nos submarinos nucleares de quarta geração que estão a ser construídos.
O general Alexandre Chevtchenko, comandante da Manutenção de Armamento do Ministério da Defesa, declarou, no passado mês de Junho, que os mísseis balísticos estratégicos Bulava e Topol constituirão o núcleo da tríade nuclear do país.
Segundo o general, a Rússia renovará entre 60 e 80 por cento do seu arsenal nuclear até 2015 e continuará a modernizar os bombardeiros estratégicos Tupolev 160 e 95.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Convite para os meus leitores do Norte de Portugal


Caros leitores e amigos, estarei na Póvoa de Varzim para apresentar o meu livro. O encontro está marcado para o dia 18 de Dezembro, às 21.30 horas no Diana-Bar, na Avenida dos Banhos.
Ficarei feliz por ver leitores do blog e amigos. Espero por vós.

Aumenta número de mortos e culpados


O número de mortos provocado pelo incêndio num restaurante da cidade russa de Perm, na passada sexta-feira à noite, subiu para 125, informa hoje o Ministério para Situações de Emergência da Rússia.
Nos hospitais de Perm, Moscovo e São Petersburgo continuam internados cerca de cem feridos em estado “grave” e “muito grave”.
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, esteve na cidade de Perm, acompanhado de vários ministros do seu Governo.
Depois de depositar flores num monumento improvisado onde a população depositou flores, velas acesas e fotografias dos falecidos, perto do edifício onde ocorreu a tragédia, Putin reuniu-se com os dirigentes locais e fez declarações que alargaram o leque de culpados pela tragédia.
No sábado passado, o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, acusou os proprietários e directores do restaurante de “negligência” e exigiu um “castigo exemplar”.
Vladimir Putin considera que, além de proprietários e directores do restaurante, que já foram detidos, devem ser determinadas as responsabilidades das autoridades locais.
“Semelhante atitude para com as coisas pode ser considerada, no mínimo, como negligência”, declarou o primeiro-ministro visando “a inactividade dos funcionários públicos”.
Putin não exclui que semelhante atitude se deva à corrupção.
“É possível que tenham existido outros motivos para a inactividade dos funcionários públicos”, frisou.
Serguei Choigu, ministro para Situações de Emergência da Rússia, anunciou a demissão de três altos funcionários regionais encarregados do serviço de prevenção de incêndios.

O Governo da Região de Perm, bem como o presidente da câmara da cidade também apresentaram pedidos de demissão.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Restos mortais de Hitler foram cremados para não se tornarem objecto de culto


Os restos mortais do ditador alemão Adolfo Hitler, salvo fragmentos do crânio e maxilares, foram cremados em 1970 e as suas cinzas atiradas ao rio Bideriz, revelam os arquivos do Serviço Federal de Segurança (FSB, ex-KGB) da Rússia.
“No dia 13 de Março de 1970, Iúri Andropov, presidente do Comité de Segurança de Estado (KGB) junto do Conselho de Ministros da URSS, enviou uma nota ao Comité Central do Partido Comunista da União Soviética onde defendia a necessidade da exumação dos restos mortais de Hitler, (Eva) Braun e da família de Goebbels e da sua destruição. Assim surgiu o plano da acção rigorosamente secreta “Arkhiv”, realizada por um grupo operativo do Departamento Especial do KGB”, revelou Vassili Khristoforov, chefe dos arquivos do FSB da Rússia, numa entrevista à agência Interfax.
Ele assinalou que esse plano tinha objectivos muito precisos: “exumar e destruir fisicamente os restos mortais dos criminosos de guerra sepultados em Magdeburgo a 21 de Fevereiro de 1946, no quartel situado na rua Westendstrass, junto da casa Nº 36”.
“A destruição dos restos mortais foi feita através da sua incineração numa fogueira, acesa num lugar ermo da cidade de Schenebek, a 11 quilómetros de Magdeburg. Os restos foram queimados, reduzidos a cinzas com o carvão, recolhidos e atirados ao rio Bideriz”, lê-se num dos documentos publicados.
Khristoforov explicou que os cadáveres de Hitler, Eva Braun, da família de Goebbels, foram estudados em Maio de 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, e sepultados num bosque perto da cidade alemã de Ratenow, tendo o local sido fixado no mapa.
A 21 de Fevereiro de 1946, os restos mortais foram transladados para Mgdeburgo, no território de um quartel onde estava instalado um departamento da contra-espionagem soviética “Smerch”.
Em Março de 1970, o quartel foi entregue às tropas alemãs, mas, antes disso, os restos mortais foram cremados.
“No arquivo do FSB encontram-se os maxilares de Hitler e, no Arquivo de Estado, fragmentos do crânio. Não existem outras restos do cadáver de Hitler”, frisou Khristoforov.
Segundo ele, Andropov tomou a decisão de cremar os restos mortais receando que, mais tarde, o túmulo de Hitler poderia transformar-se num centro de adoração para os seguidores das suas ideias.
“Provavelmente, essa decisão foi de todo fundamentada, não valia a pena criar causas para o aparecimento do culto de adoração. Porque, além daqueles que se interessam da história da Segunda Guerra Mundial, há os que seguem a ideologia fascista. Infelizmente, até na Rússia”, acrescentou o dirigente dos arquivos do FSB.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Convite para os meus leitores

Convido todos os meus leitores e demais pessoas interessadas a participar na sessão de apresentação do meu livro "Angola - O Princípio do Fim da União Soviética", que terá lugar no autitório da FNAC Chiado, no dia 15 de Dezembro às 18 horas e 30.
Ficarei contente em conversar convoscovo.

Poder russo parece o que realmente não é


As últimas catástrofes na Rússia e, principalmente, a última: o incêndio no restaurante de Perm, que provocou 113 mortos e dezenas de feridos, denunciam de forma gritante o maior paradoxo da Rússia moderna: a concentração crescente de poder nas mãos do dueto Putin-Medvedev, que permite falar da existência de um sistema autoriário no país, é acompanhada da paralisia do poder. Vladimir Putin está no poder há dez anos, criou a chamada "vertical do poder", mas a Rússia continua a "deitar água por todos os lados".

Na sua última intervenção televisiva, que durou quatro horas, o primeiro-ministro russo tratou de tudo: desde a defesa dos tigres e das focas-bébés, passando pelo salário em atraso dos operários de uma fábrica do Extremo Oriente, etc., etc., etc. Ou seja, o chefe do Governo tenta dar a entender que manda e controla tudo, mas os factos mostram que a Rússia se torna cada vez menos governável.

Vejamos a tragédia de Perm. Ainda a investigação "ia no adro" e já o Presidente Medvedev anunciava os nomes dos culpados: os gerentes e os proprietários do restaurante, levando a polícia a detê-los imediatamente.

As pessoas citadas até poderão ter fortes culpas na tragédia, mas não serão os únicos culpados. Elas já não deverão escapar a penas pesadas porque Medvedev já ditou a sentença, e isto poderá permitir que outros culpados (não menos culpados) escapem à justiça.

Porque é que as inspecções de segurança contra incêndios do Ministério para Situações de Emergência da Rússia não conseguem prevenir catástrofes deste tipo? Porque toda a gente sabe que, no país, tudo tem um preço, tudo pode ser comprado e vendido; que a corrupção entranhou-se no país "até ao tutano". Qualquer empresário russo pode dizer que tem de pagar "luvas" aos numerosos órgãos de inspecção, viole ou não as regras de segurança.

A corrupção não pára de aumentar também nos órgãos de segurança. Dou um exemplo pessoal para que não digam que falo sem conhecimento de causa. Recentemente, eu e uma equipa de reportagem da SIC fomos à região de Iaroslav. Quando regressavamos num carro alugado, fomos mandados parar quatro vezes pela polícia de trânsito nos primeiros 50 quilómetros. Conseguimos não pagar um cêntimo às primeiras três patrulhas, o que fazia acreditar que estavamos com toda a sorte do mundo, mas, à quarta vez, não escapámos...

Fomos parados por excesso de velocidade. Eu saí do carro, pois era o único que falava russo, embora não fosse o condutor, e dirigi-me ao oficial da polícia de trânsito para passar a multa.

"Passar a multa? O carro é alugado e vocês podem sair do país amanhã e não pagar a multa!", exclamou o oficial, e acrescentou: "E se eu passar a multa terão de ir ao banco pagá-la, voltar aqui para levantar o carro".

"Mas hoje é Domingo e os bancos estão fechados!", repliquei eu, chamando a atenção para o facto de nos estarmos num lugar tão longínquo que não conseguiríamos encontrar um banco nas redondezas.

"Ficam detidos até amanhã, pagam a multa e vão-se embora!", propôs o oficial.

Como não estavamos nada interessados em ficar 24 horas numa esquadra, o oficial chamou-me ao lado e mostrou-me a soma mínima e máxima que teríamos de lhe dar directamente para o caso ficar resolvido. Claro que o leitor descobre como acabou esta história.

Se isto acontecesse nos anos 90 do séc. XX, diriam que se devia à inexistência de poder estatal, à anarquia, ao liberalismo desenfreado, etc., etc.

Vladimir Putin chegou ao poder há dez anos atrás e prometeu pôr ordem na casa, mas as coisas não melhoram. Resolveu o problema do Cáucaso?- Não. Pôs fim ao enriquecimento rápido dos funcionários e políticos ligados ao poder?- Não. Pôs fim aos oligarcas? - Não, prendeu apenas o único que teve a "triste ideia" de o criticar. Modernizou e diversificou o tecido económico, social e político russo com o dinheiro conseguido com a exportação de petróleo e gás? - Não. Acho que não vale a pena continuar a lista...

Conseguiu sim limitar a liberdade de expressão, profanar as eleições democráticas, travar o aparecimento da sociedade civil no país, etc.

Ora sem as liberdades democráticas, sem a existência de oposição política, do controlo por parte da sociedade civil, a burocracia russa (três vezes mais numerosa que a União Soviética) perde a vergonha e a corrupção entranha-se em todas as esferas da vida na Rússia. Nesta situação, qualquer tentativa de modernização e diversificação do tecido económico e tecnológico falha e o país atrasa-se cada vez mais em relação aos países mais desenvolvidos.
A Rússia tem de voltar a um dos princípios da Revolução Francesa e base dos sistemas políticos democráticos, ao princípio da divisão de poderes: legislativo, executivo e judicial. Sem isso, não haverá modernização possível...

Quando chegou ao poder, Vladimir Putin prometeu que o seu país iria ultrapassar Portugal em quinze anos, tendo-se "esquecido" de dizer que Portugal está muitos anos atrasados em relação a países como Alemanha, França, Espanha, etc., etc.

Talvez até já tenha ultrapassado Portugal, mas está muito longe das grandes economias mundiais. Por isso, se nos próximos 10-15 anos, a Rússia não realizar uma verdadeira revolução no campo da modernização, arrisca-se a perder o comboio da modernidade para sempre. Os BRIC's transformam-se rapidamente em BIC's.

Podem dizer que sou um pessimista, mas o facto é que as catástrofes continuam a suceder e, na maioria das vezes, a culpa é..., não, não é da corrupção total, não é dos dirigentes, mas dos jornalistas, dos agentes do Ocidente, etc., etc.

domingo, dezembro 06, 2009

Blog dos leitores (A CIDADE CINTILANTE)


Texto enviado pela leitora Cristina Mestre


"Em 2006 estava eu em Moscovo, por obrigações profissionais. Após dois anos, já me tinha habituado à cidade, à sua frenética correria, às vagas de pessoas, às intransponíveis avenidas largas cheias de carros de luxo, às distâncias sem remédio, ao frio cortante dos meses de Inverno, às montras luxuosas e cintilantes, às elegantes jovens louras de beleza perturbante e a todo um misto de euforia, incerteza e mudança que se sentia em todo o lado.
Em Moscovo, o tempo corria demasiado depressa. Sentíamos que algo estava a acontecer que não sabíamos, que estávamos a perder oportunidades que outros teriam, esses outros de quem se falava a meia voz, que muitos admiravam, muitos invejavam e todos os outros odiavam.
Nesse Outono, o cheiro nas ruas era o mesmo de todos os Outonos. Não há tempo de maior melancolia em Moscovo que os dias frios de fim de Verão, quando paira no ar a irremediável certeza dos próximos meses, quando o manto de folhas caídas das árvores cobre os passeios, esvoaça nas praças, definha e morre nas esquinas. Um sol frágil que mal se sente e a brisa fria faz-nos lembrar que tudo acaba sempre por mudar e que os nossos sonhos de Verão chegaram ao fim.
Mas Setembro era também o início de tudo, o início de novos projectos, de novas casas e de novos encontros.
Era em Setembro que muitos começavam uma vida diferente.
Nesse dia eu ia jantar com um compatriota, que acabara de chegar de Lisboa e que conhecera vagamente uns anos antes na Margem Sul.
António F. era um comunista dos “velhos tempos”, uma daquelas pessoas que nunca deixara de acreditar “numa sociedade igualitária” e que chorara o fim da União Soviética. Tinha lá vivido nos anos áureos do socialismo, algures entre 1970 e 1980, a traduzir artigos para revistas de propaganda. Depois, voltara para Portugal e assistira incrédulo ao fim do socialismo. Desde então, uma amargura indizível apodera-se dele, como quando alguém que nos ama nos abandona, tornara-se irascível, triste e indolente. Continuava, é verdade, no seu emprego numa pequena Câmara Municipal perto de Lisboa, onde matava o tédio a organizar o Boletim Municipal, outra obra de propaganda a que já estava habituado.
Mas o seu descontentamento aumentava de dia para dia. Estava descontente com o chefe no trabalho, com a mulher com quem era impossível conversar de política, com o Governo “de direita”, enfim, com tudo. Resolvera então visitar Moscovo que deixara há mais de vinte anos, uma viagem de nostalgia, um último esforço para segurar as convicções, para comprovar a desgraça “que o capitalismo trouxera ao povo soviético”.
O aeroporto internacional de Domodedovo, nos arredores de Moscovo, rodeado de bosques de bétulas, era agora uma estrutura moderna, gigante, ao estilo alemão, cheia de “boutiques”, de pequenos restaurantes e de uma enorme quantidade de turistas russos que regressavam de férias na Europa Ocidental e na Turquia. Famílias inteiras bronzeadas, com crianças louras ainda em trajes de praia, afadigavam-se à volta de malas de luxo, com o ar feliz de quem provou os prazeres da vida. Lá fora, eram esperadas por Mercedes negros e por motoristas atléticos que as acomodavam com ar confiante.
António F. olhava incrédulo para tudo aquilo. A nova Moscovo era outro país, nada tinha a ver com as suas memórias. Até a estação dos comboios junto ao aeroporto, que tantas vezes percorrera décadas antes, era difícil de reconhecer, rodeada por novas construções, de paredes de vidro brilhante, painéis publicitários e carros, carros sem fim.
Nesse fim de tarde jantámos num pequeno restaurante perto da galeria Tretiakov, uma zona restaurada da cidade, limpa, aristocrática, de enormes árvores frondosas e passeios de asfalto molhados.
António estava ainda a tentar reconhecer os lugares por onde antes passara, muitos dos quais tinham mudado de nome, de cores e de destino.
Após a sobremesa e, entusiasmados pelos anteriores cálices de vodka, embrenhámo-nos numa discussão ideológica. António afirmava empolgado que eu exagerava os males do Estalinismo, que a culpa não era só da Rússia, mas também da Geórgia porque Estaline era georgiano. Chegados ao tema dos recentes governos portugueses e dizendo eu que a concorrência é necessária, António jurava que não precisamos da concorrência para nada, que os capitalistas exploram os trabalhadores, que até nem precisamos de intermediários, de comerciantes, que podemos comprar directamente aos produtores e que, resumia, o mundo só será feliz quando houver um “verdadeiro socialismo”.
António falava alto, entusiasmado, provocando olhares reprovadores das mesas em volta e eu sorria da sua ingenuidade, feliz também por ter chegado ao meio da vida e compreendido o sentido do enorme puzzle que é a História e o destino do Homem. Moscovo fervilhava lá fora, com a noite já próxima, a gente sem fim que passava a correr para o metro, as luzes dos painéis luminosos e dos quiosques que se acendiam, uma promessa do regresso da chuva que se adivinhava nas ruas molhadas, táxis velozes que passavam sem parar e também, ao fundo, a silhueta de uma igreja restaurada, imponente e bela, que nos dava força, certeza e calma."

sábado, dezembro 05, 2009

Blog dos leitores (Putin e os oligarcas: filhos e enteados)



Texto enviado pelo leitor António Campos:

"Por qualquer razão, Putin nutre um ódio de estimação em relação a Khodorkovsky que o faz perder a compostura sempre que este é mencionado na sua presença. Na sua última longa sessão pública de perguntas e respostas, ao ser inquirido quanto à libertação do ex-oligarca, em vez de dar a necessária resposta de verdadeiro estadista (que seria a de que o caso está nas mãos do poder judicial e o poder executivo não tem voto na matéria), descambou a fazer afirmações sugerindo que Khodorkovsky estaria envolvido em “pelo menos cinco assassínios provados”.
Estas importantes acusações do primeiro-ministro da Rússia levarão certamente muitos de nós a pensar porque é que a pessoa em causa nunca terá sido formalmente acusada de tais actos pelo ministério público, tendo nós todos e o mundo inteiro agora descoberto em assombro que Putin tem provas do seu envolvimento.
Seja como for, já muito pouca gente tem ilusões quanto à legitimidade dos processos criminais instaurados contra Khodorkovsky e a simultânea expropriação dos activos da Yukos, por acaso recentemente considerada ilegal por um tribunal arbitral internacional, e com desenvolvimentos que prometem ser interessantes, que abrem caminho para pedidos de indemnização ao estado russo de muitos milhares de milhões de dólares.
Mas os píncaros da hipocrisia de Putin são atingidos quando o mesmo afirmou que os activos expropriados foram “devolvidos à nação”. Ou seja, qual Robin dos Bosques eslavo, o defensor do povo expropria o ladrão e devolve à populaça o que era seu de direito. O golpe mediático não poderia ter sido melhor, alimentando o mito de que o antigo presidente repôs a ordem no país ao quebrar as costas dos sanguinários, gananciosos e corruptos oligarcas.
Esta ideia terá mesmo sido reforçada nas mentes do público quando o primeiro-ministro, neste verão, aparece em frente às câmaras de televisão qual super-homem em roupa desportiva, a humilhar Oleg Deripaska, dono da RusAl e um dos oligarcas mais ricos da Rússia, obrigando-o por decreto a reabrir a fábrica de Pikalevo. A um Deripaska cabisbaixo, Putin afirmou em tom grave para todos ouvirem: “Você fez milhares de residentes reféns da sua ambição, da sua falta de profissionalismo e, possivelmente, da sua ganância”. Depois de assinar, o pobre Oleg ainda teve que ouvir: “A caneta é minha. Passe-a para cá”. Adorável. Quem não votaria em Putin depois de um espectáculo destes?
O que a maioria dos telespectadores desta cena não sabiam é que a administração russa, em contraste com o gesto magnânimo de devolver ao povo o que é do povo (no caso da Yukos), está agora a gastar centenas de milhões de dólares do erário público para salvar o império de Deripaska, construído no rescaldo das violentas guerras do alumínio dos anos 90 e inchado com crédito ocidental barato durante o boom dos preços das matérias-primas. Deripaska, reputadamente agora a pessoa mais insolvente do planeta, recebe ajudas de bancos estatais na forma de renegociações de empréstimos em condições favoráveis e aquisição de participações com dinheiro dos fundos nacionais de estabilização. O que lhe permitirá manter o controlo do seu vasto império empresarial.
O caso da RusAl nem é o único: outras empresas nas mãos de oligarcas e altamente endividadas, tais como a LukOil e a Norilsk Nickel, têm vindo a receber volumosa assistência estatal.
Qual é a conclusão óbvia? Que a tão badalada “domesticação” dos oligarcas em benefício do povo não é mais do que um embuste para consumo interno sem ligação com a realidade. Os beija-mão do regime continuam a enriquecer à custa da população (mesmo que tenham que comprar uma caneta nova) e os críticos vão parar à cadeia com base em acusações fraudulentas."

Coitado do meu Varzim!


A equipa de futebol do Varzim Sport Clube pouco ou nada tem a ver com o tema central deste blog, mas não posso deixar de reagir à notícia de que o meu clube do coração tem jogadores com salários em atraso, passando por dificuldades.

Não posso dizer que que sou louco pelo clube A ou B, mas gosto do Varzim porque é o clube da minha terra natal, Póvoa de Varzim, e da minha infância. O que fazia eu e outros rapazes para entrarem no estádio para ver os jogadores alvinegros, principalmente quando se tratava de jogos contra clubes grandes como o Benfica ou o Sporting! Íamos para perto das portas do estádio e, quando víamos que alguma pessoa vinha sozinha, perguntava-mos: "tio, posso ir consigo!", e esta manobra quase sempre resultava.

Claro que, às vezes, quando o meu pai não estava na faina do bacalhau ou a pescar em Moçambique, ele levava-me ao futebol. Foi assim que vi actuar ao vivo ídolos como Eusébio, Simões, Hilário, Coluna, etc., etc. Quando estes ases do futebol jogavam pela selecção portuguesa ou contra algum clube estrangeiro, eu apoiava-os de todo o coração, mas quando jogavam contra o meu Varzim, a música era outra.

E quando o Varzim subia à primeira divisão! Que grande festa! Ainda me recordo da canção que todos entoavam (Ai, oh meu Varzim, do meu coração, conseguiste entrar na primeira divisão!)

No meio piscatório, onde nasci e cresci, o futebol era uma das formas de "subir na vida", ainda eram raríssimos os filhos de pescadores que chegavam à Universidade. Além do amor à bola, o factor acima citado também contribuiu para que os escalões juvenis do Varzim, bem como os do Rio Ave, Leixões fossem autênticos viveiros de jogadores de renome nacional e internacional: Noé, Quim, Artur, André, Paulinho Santos, Helder Postiga, Fábio Coentrão e muitos outros.

Como eu gostava de jogar à baliza, o meu ídolo era o gigante moçambicano Benje, que defendia as redes do Varzim.

Embora não tenha seguido a carreira de futebolista, porque fui para o seminário e os meus dotes futebolísticos não iam muito além do facto de ser bem mais alto do que os rapazes da minha idade, ficou-me sempre a simpatia pelo Varzim Sport Clube.

Os tempos mudam e, por várias razões (não sei se por má gestão ou falta de patrocínios), o Varzim vê-se numa situação difícil. O que fazer?

Pode ser que muitos conterrâneos meus fiquem indignados, mas acho que a melhor saída é juntar as sinergias do Varzim e do Rio Ave num clube só. O bairrismo balofo já passou e essa saída poderá contribuir para fazer nascer um clube maior.

Claro que a solução apresentada poderá não ser a melhor se o novo clube for mal gerido, for utilizado para alguns enriquecerem. Os dirigentes desportivos até podem enriquecer, desde que isso seja por mérito próprio e não através da destruição de emblemas históricos.