Publico a tradução feita por António Campos, leitor a quem muitro agradeço.
Sendo o final de ano, além de festivo, uma época tradicionalmente de retrospectiva e balanço, desejo a todos os leitores deste blog (e muito especialmente ao seu autor, que tem realizado um trabalho incansável na divulgação da pouco conhecida realidade do espaço pós-soviético - pelo menos nos países lusófonos), um excelente ano de 2010, com uma tradução de um artigo de Vladimir Ryzhkov, publicado no Moscow Times, que passa em revista o ano que hoje termina.
A Rússia acabará 2009 mais triste e ligeiramente mais sóbria, mas dificilmente mais sensata. A economia russa teve um pior desempenho do que todos os países do grupo dos 20 durante a crise e o número excessivo de catástrofes que sofreu sublinhou quão gritantemente ineficaz, incompetente e corrupto o nosso governo é. Apesar de tudo, este não se mexeu um centímetro do status quo que tem vindo a conduzir o país a um beco sem saída político e económico. A reacção da Duma à morte de Yegor Gaidar é altamente simbólica e uma forma adequada de o presidente Dmitry Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin concluírem o seu ano desastroso enquanto líderes da nação. Liderada por Oleg Morozov, presidente adjunto da Duma e membro do Rússia Unida, a câmara baixa do parlamento chumbou a moção que propunha observar um momento de silêncio por Gaidar, deputado durante 6 anos, primeiro-ministro em exercício e um dos mais influentes economistas e reformistas da história russa. Nem um só membro das cúpulas do Rússia Unida ou da administração presidencial esteve presente no funeral.
Durante os últimos oito anos, Gaidar avisou os principais políticos e economistas do país no Kremlin e na Casa Branca sobre o perigo de construir um estado policial autoritário, de aumentar o papel do governo na economia, de fechar os mercados à concorrência estrangeira e de aumentar o proteccionismo. O seu último livro, “Poder e Propriedade”, editado este ano, é o seu testamento político. Na obra, Gaidar adverte que dar ao governo tanto controlo sobre a economia terá como resultado que a Rússia nunca será capaz de convergir com o mundo desenvolvido. Além disso, escreveu Gaidar, o modelo de capitalismo de estado de Putin levará à destruição do próprio estado. Gaidar nunca se cansou de repetir aos apoiantes de Putin que a dita “via especial” conduziria o país apenas a um destino: o terceiro mundo.
Mais de 10.000 pessoas ficaram em pé durante horas sob 20 graus negativos para assistir ao funeral de Gaidar. Tal revela, mais uma vez, que o número de russos que partilham os pontos de vista liberais e democráticos do reformista é muito maior do que o Kremlin quer admitir. De acordo com várias sondagens do centro Levada efectuadas este ano e no ano passado, o número de russos que partilham com Gaidar as suas posições liberal-democráticas variam entre 15 a 20% da população, ou seja, 21 a 28 milhões de pessoas. Estes apoiantes das reformas liberais não estão representados na Duma desde 2003, quando a União do Poder Justo e o Yabloko, de acordo com os resultados oficiais, receberam votos abaixo do limite mínimo de 5%. Além disso, outros partidos liberais, tais como o meu próprio Partido Republicano da Rússia, não foram sequer autorizados a competir nas eleições para a Duma em 2007, após terem sido eliminados por alegadas “violações técnicas”. Os programas políticos e económicos liberais destes partidos foram sistematicamente difamados pelo Kremlin nos meios de comunicação nacionais controlados pelo estado. Com os reformistas ausentes das fileiras da elite política e económica, não há hipótese de sucesso para o programa de modernização de Medvedev.
2009 sublinhou diversas diferenças de estilo entre Medvedev e Putin. O primeiro gosta de criticar duramente o estado das coisas na Rússia, ao mesmo tempo que apela à rápida modernização e à suavização da política externa. Contudo, Putin insiste que os modelos políticos e económicos actuais funcionam bem, continuando a favorecer um forte controlo estatal da economia e uma política externa agressiva.
Medvedev não substanciou a sua retórica idealista sobre a necessidade de reformas liberais e modernização com acções concretas. Além disso, nada em 2009 levou a crer que o presidente se tenha finalmente tornado numa figura política independente. O governo e a administração presidencial continuam totalmente leais a Putin. Por outro lado, o Rússia Unida reforçou a sua posição como única força política do país. As eleições gerais de Outubro estabeleceram um novo recorde em matéria de falsificação. Ao mesmo tempo, o Rússia Unida tenta alargar a vertical do poder ainda mais, com a sua pressão para acabar com a eleição directa dos presidentes da câmara.
Durante 2009, Putin minou a maioria das posições de Medvedev, que já eram fracas à partida. Durante o programa de perguntas e respostas em Dezembro, em resposta á pergunta de quando estaria a pensar em retirar-se da política, Putin disparou: “não sustenham a respiração!”. Tal não deixa muito espaço de manobra a Medvedev, que, por seu lado, afirmou que não vai querer enfrentar Putin se este concorrer à presidência em 2012. Relativamente às críticas de Medvedev sobre as corporações estatais, Putin replicou que estas são “necessárias”.
Ao longo do ano, Medvedev foi incapaz de gerir as numerosas crises políticas e económicas. Em Março, o Tribunal de Khamovichesky em Moscovo iniciou um novo processo criminal contra Khodorkovsky e Lebedev, ainda mais absurdo que a primeira condenação. Houve um julgamento de alguns cúmplices pouco importantes no assassínio de Anna Politkovskaya, mas os autores morais ainda estão por acusar.
Em Abril o major da polícia Denis Yevsyukov desatou num frenesim assassino num supermercado, usando uma arma procurada no contexto de um crime anterior. Não há muito tempo, o major Andrey Dymovsky fez um apelo a Putin no Youtube, queixando-se de abusos na polícia. Assombrosamente, o ministro do interior Nurgaliyev, próximo de Putin, não foi despedido. Não houve também demissões importantes nos serviços secretos, apesar das explosões no Nevsky Express e de uma onda de atentados terroristas no norte do Cáucaso.
2009 foi também um ano triste para os jornalistas e os activistas dos direitos humanos. O advogado Stanislav Markelov e a jornalista Anastasia Baburova foram assassinados em Moscovo em plena luz do dia. Na Chechénia, assaltantes desconhecidos raptaram e mataram a activista dos direitos humanos Nataliya Estemirova.
O nível de corrupção aumentou marcadamente em 2009. E para mais, este ano demonstrou que a corrupção mata, através dos exemplos do incêndio em Perm, que matou 150 pessoas, e do desastre da barragem de Sayano-Shushenskaya, com 75 mortes. Medvedev continua a combater a corrupção com palavras ocas.Ao nos aproximarmos do final do ano, não há muito para celebrar nas frentes económica e política. Na Rússia, 2009 será lembrado pelo aumento da corrupção, pelas catástrofes sangrentas e pela deterioração global do país. Feliz Ano Novo, Rússia!"















