quarta-feira, novembro 30, 2011

Partidários de dirigente da oposição apresentam queixa no Supremo Tribuna da Ossétia do Sul

Os partidários de Alla Djioeva, líder da oposição cuja vitória nas eleições presidenciais foi ontem anulada pelo Supremo Tribunal da Ossétia do Sul, apresentaram uma queixa nesse tribunal para que altere a sua decisão.
Atzamaz Bitchenov, presidente desse tribunal, declarou que a queixa será analisada amanhã.

No passado domingo, Djoieva derrotou, à segunda volta, o candidato apoiado por Moscovo, Anatili Bibilov, com uma diferença de votos de 16 por cento.

Bibilov pediu ao Supremo Tribunal para anular o resultado do escrutínio, alegando que os partidários de Djoieva violaram a lei eleitoral, e os juízes deram-lhe razão.

A líder da oposição reuniu-se hoje com o actual presidente da Ossétia do Sul e apresentou-lhe um ultimato, deu-lhe 24 horas para que o Supremo Tribunal altere a sua decisão. Caso contrário, não se responsabiliza pelo “desenvolvimento dos acontecimentos”.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia declarou, numa nota publicada em Moscovo, que não tenciona imiscuir-se “nos assuntos internos do Estado vizinho amigo”, mas Djoieva afirma que o Kremlin enviou a Tskhinval um alto funcionário para resolver o impasse.

A Ossétia do Sul é uma região separatista da Geórgia que proclamou a sua independência em 2008 depois da entrada de tropas russas nesse território.

Para os meus leitores e amigos que se encontram em Moscovo

Португальский Культурный Центр и Курсы португальского языка PORTUGUES.RU приглашают вас на авторскую презентацию книги знаменитого португальского журналиста и историка Жозе Милязеша:

“Saga dos Portugueses na Rússia” (Cага о португальцах в России)
Книга посвящена истории взаимоотношений России и Португалии и является результатом многолетней исследовательской работы автора в российских архивах и библиотеках.




Жозе Милязеш уже более 30 лет живет в СССР/России, где представляет португальское новостное агенство Луза. В 2009 году вышла его первая книга Angola – O Princípio do Fim da União Soviética (Ангола — начало конца Советского Союза), которая стала первой монографией на португальском языке об участии СССР в ангольской гражданской войне. В следующем году вышла его следующая книга Samora Machel: Atentado ou Acidente (Самора Машел: покушение или катастрофа).

После небольшой лекции все желающие смогут задать вопросы автору и принять участие в неформальном обсуждении. Для тех, кто только начинает изучать португальский язык, лекция и дебаты будут переводиться с португальского на русский.

Встреча и лекция состоятся в воскресенье, 11 декабря, в 14:00
в клубе «Цвет ночи»: Б. Козихинский пер., 12/2 (Схема проезда)

Вход свободный

terça-feira, novembro 29, 2011

O FIM DO IMPÉRIO SOVIÉTICO - MEU NOVO LIVRO

 
Esta é a capa e contracapa do meu novo livro, que vai ser vendido juntamente com o jornal Público no dia 07 de Dezembro. Trata-se de uma análise das causas da queda do Império Soviético, dos acontecimentos na URSS entre 1985 e 1991. No dia 25 de Dezembro, faz 20 anos que a União Soviética deixou de existir. 
Como vai ter um preço muito acessível, espero que os meus amigos o comprem, leiam e dêem a sua opinião. O autógrafo está garantido.

Radar de Kalininegrado é a primeira resposta ao sistema de defesa antimíssil norte-americano

A entrada em funcionamento do radar russo de Kaliningrado mostra que Moscovo está pronta a reagir de forma adequada ao perigo que apresenta o sistema de defesa antimíssil europeu, declarou hoje o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev em Dunaievo, na região de Kalininegrado.
“Espero que os nossos parceiros ocidentais considerem esta medida como a primeira prova de que o nosso país está pronto a dar uma resposta adequada à ameaça que representa o sistema de defesa antimíssil para as nossas forças estratégicas nucleares”, disse ele, numa reunião com o comando das Forças Armadas russas no enclave russo no Báltico.
“Se este sinal não for ouvido, utilizaremos outros meios de defesa, tomaremos medidas severas e instalaremos um grupo ofensivo como prometi a 23 de novembro último”, acrescentou.
Dmitri Medvedev prometeu então instalar no ocidente e sul da Rússia sistemas ofensivos modernos, incluindo a instalação de míssseis Iskander em Kalininegrado, que garantam a destruição das instalações europeias do escudo antimíssil se os Estados Unidos continuarem o seu desenvolvimento.
O dirigente russo exige dos Estados Unidos e NATO garantias por escrito de que o escudo não visa prejudicar a segurança do seu país.
“Não nos satisfazem mais simples declarações de que o sistema a criar por etapas de defesa antimíssil europeu não está virado contra a Rússia. Infelizmente, declarações ocas não garantem a defesa dos nossos interesses”, considerou.
“Se forem dados outros passos, claro que estamos dispostos a dar-lhe ouvidos. Mas, em qualquer dos casos, as declarações ocas são pouco”, concluiu.
Os Estados Unidos tencionam instalar, entre 2015 e 2020, uma terceira zona de posicionamento do seu sistema de defesa antimíssil na Europa. Moscovo a esse projeto, considerando que a instalação de um escudo antimíssil na proximidade das suas fronteiras é uma ameaça ao potencial estratégico russo.
P.S. A julgar  pelas declarações dos dirigentes russos e pelo que a imprensa russa controlada pelo Kremlin escreve, até parece que está iminente uma guerra entre a Rússia e a NATO. 
Acredito que se trata, em grande parte, de campanha eleitoral. Se assim não é, pode-se esperar uma nova corrida aos armamentos, com consequências imprevisíveis. Espero que não se repita o destino da URSS. Uma das razões da sua ruína foi precisamente a corrida aos armamentos.  

Supremo Tribunal anula resultados das eleições presidenciais na Ossétia do Sul

O Supremo Tribunal da Ossétia do Sul, região separatista da Geórgia, anulou os resultados das eleições presidenciais de domingo, que deram a vitória à líder da oposição, Alla Djioeva.

Segundo dados anunciados pela Comissão Eleitoral da Ossétia do Sul, Djioeva conseguiu 56,7 por cento dos votos, enquanto que Anatoli Bibilov conseguiu 40 por cento na segunda volta das presidenciais.
 Os juízes deram razão ao Partido Unidade, que apoiou o candidato derrotado Anatoli Bibilov, considerando que os partidários de Djioeva “cometeram numerosas violações da lei eleitoral”.
Bibilov era apoiado pelo Kremlin e a sua derrota foi considerada pelos analistas como mais um fiasco das autoridades russas no Cáucaso.
A dirigente da oposição declarou que não aceita a decisão desse tribunal.
O presidente do Supremo Tribunal da Ossétia do Sul declarou  também que Djioeva não poderá participar no novo escrutínio.
“Alla Djioeva não poderá participar nas próximas eleições presidenciais. Segundo a ela, ela fica privada desse direito porque o tribunal reconheceu que houve violações por parte dela durante as eleições anteriores”, explicou Atzamas Bitchenov.
Segundo ele, novas eleições terão a 25 de Março.
Valentina Matvienko, dirigente do Conselho da Federação da Rússia, declarou que “a Rússia irá respeitar a escolha da população da Ossétia do Sul”. 

A Ossétia do Sul é uma região separatista da Geórgia que proclamou a sua independência em 2008 com o apoio das tropas russas. Esse território vive fundamentalmente a meios financeiros concedidos por Moscovo.
Segundo analistas políticos, a vitória de Djioeva é um sinal de que a maioria da população da Ossétia do Sul está cansada do domínio do clã do actual Presidente, Eduard Kokoiti, e da corrupção reinante no território.
A Ossétia do Sul vive à custa de meios financeiros transferidos por Moscovo, mas grande parte não chega à população, que tem um baixo nível de vida.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Moscovo ameaça rever cooperação Rússia-NATO em torno do Afeganistão

O embaixador russo junto da NATO, Dmitri Rogozin, ameaçou hoje que a falta de reação por parte da NATO face à declaração do Kremlin sobre o escudo de defesa antimíssil norte-americano pode levar à revisão da cooperação entre Rússia e NATO, nomeadamente no Afeganistão.

“Se os nossos parceiros não reagirem aos riscos e ameaças previsíveis e proporcionais da declaração, teremos de reanalisar questões das relações com os nossos parceiros noutros setores”, declarou ele na mesa redonda: “Iniciativas Estratégicas do Presidente da Rússia com vista a garantir a segurança nacional e a estabilidade internacional”.

“Uma delas poderá ser o da cooperação em torno do Afeganistão”, acrescentou Rogozin.

Na semana passada, o Presidente russo, Dmitri Medvedev, ameaçou que, em caso de desenvolvimento desfavorável para a Rússia da situação em torno do sistema de defesa antimíssil europeu, o seu país reserva o direito de não dar novos passos no campo do desarmamento e do controlo de armamentos.
Medvedev anunciou que os mísseis balísticos russos serão equipados de forma a superarem o sistema de defesa antimíssil e que as Forças Armadas russas deverão, em caso de necessidade, tomar medidas para destruir os meios de informação e controlo da defesa antimíssil norte-americana.
“Se os meios enumerados não forem suficientes, a Rússia instalará no Ocidente e no Sul do país sistemas modernos ofensivos de armamentos que garantirão a destruição da componente europeia do sistema de defesa antimíssil. Um desses passos será a instalação de mísseis Iskander na região de Kalininegrado”, precisou ele.
Como a NATO não respondeu ao ultimato do Kremlin, este reage agora utilizando o incidente ocorrido na véspera no Paquistão, onde a aviação da Aliança Atlântica bombardeou um posto de controlo das tropas paquistanesas, matando 24 militares.
Segundo analistas russos, se as relações entre o Paquistão e os Estados Unidos se deteriorarem, poderá aumentar sensivelmente o papel da Rússia como corredor de passagem de armamentos e soldados da NATO para o Afeganistão através do seu território.
Este corredor atravessa também o Uzbequistão e Quirguistão, países que poderão ser utilizados na sua política de pressão sobre os Estados Unidos e NATO.

domingo, novembro 27, 2011

Partido Rússia Unida cada vez mais semelhante a Partido Comunista da União Soviética



Os 614 delegados do Congresso do Partido  Rússia Unida apoiaram unanimemente a candidatura ao cargo de Presidente do país.
O actual primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, agradeceu o forte apoio que lhe foi concedido e  não deixou de lançar fortes ataques ao Ocidente, acusando-o de financiar a oposição russa.
“Estou grato a Dmitri Anatolievitch Medvedev, ao Congresso do Rússia Unida pela apresentação da minha candidatura ao cargo de Presidente da Rússia. Claro que aceito essa proposta com gratidão”, declarou.
Putin disse que o Rússia Unida “mostrou o seu valor perante o rosto das convulsões económicas durante a crise financeira” e que é esse partido que “sabe melhor o que é preciso fazer e como fazer na nova etapa de desenvolvimento da Rússia”.
O actual primeiro-ministro russo prometeu resolver o problema das desigualdades sociais e manter a paz social no país.

“Faremos tudo para defender a paz social e a concórdia, pois trata-se do destino do Estado, do bem estar dos cidadãos, de coisas que iremos proteger e defender”, frisou.
“Saibam os que proclamam palavras de ordem de intolerância nacional e oficial, atirem diferentes ideias populistas e provocadoras, que conduzem à traição nacional e, no fim de contas, à desintegração do país, nós somos uma sociedade multinacional, um povo uno, uma Rússia indivisível”, acrescentou.
Segundo ele, a Rússia irá continuar a realizar uma política externa ativa e a falar verdade sobre o que se passa no mundo.
 “Iremos continuar a realizar uma política externa ativa, a defender, direta e honestamente, os nossos interesses, a participar na solução dos problemas globais, na criação de um sistema mundial político e económico mais justo, iremos falar de tudo o que se passa no mundo, mesmo se alguém não gostar disso”, precisou.
“Todos os nossos parceiros estrangeiros devem compreender: a Rússia é um país democrático, um parceiro seguro, previsível, pode-se e deve chegar a acordo com ela, mas nada se lhe pode impor a partir de fora”, preveniu.
Vladimir Putin aconselhou os Estados estrangeiros a não tentarem influir nos resultados das eleições na Rússia.
“Representantes de alguns Estados estrangeiros juntam aqueles a quem pagam dinheiro, dão-lhes instruções, encaminham-nos para o “respetivo trabalho” para, no fim de contas, no andamento da campanha eleitoral no nosso país”, acrescentou.
Segundo ele, “trata-se de um trabalho inútil. Como diz o nosso povo, é atirar dinheiro fora”.
“Porque, primeiro, Judas não é a personagem bíblica mais respeitada entre o nosso povo. Segundo, seria melhor se gastassem o dinheiro no pagamento da sua dívida pública e pusessem fim à política externa ineficaz e cara”, concluiu.
P.S. O Partido Rússia Unida faz cada vez mais lembrar o Partido Comunista da União Soviética: elogios intermináveis ao grande chefe, votações unânimes, promessas de futuro radioso e ameaças ao Ocidente. Será que a história na Rússia se irá voltar a repetir? De que forma: cómica ou trágica?
Como não podia deixar de ser, este partido violou a lei eleitoral ao ver o seu congresso ser transmitido em directo e na integra na televisão, sendo que os restantes seis partidos participantes nas parlamentares de 4 de Dezembro não têm direito a privilégios desses.

Blog do leitor (O meu comunismo familiar)


Texto enviado pelo leitor Jest: 
"O comunismo que chegou à Ucrânia nos anos 1920 trazido pelas baionetas do exército vermelho, atingiu os meus trisavôs em cheio. O descendente da pequena nobreza polaca, o trisavô perdeu quase todos os seus bens que foram lhe confiscadas em nome do “futuro brilhante” de toda a Humanidade...

A sua casa agradou a direcção do recém – criado kolkhoze, que lá se instalou, ficando na posse dos bens que os avôs tinham em casa: mobílias, utensílios, roupas, coisas que as pessoas adquirem durante as suas vidas. Os trisavôs receberam a generosa permissão de ficar com a roupa que traziam no corpo, além de pudessem manter o violino (o trisavô tocava as polcas nos casamentos). E ficaram ainda com a máquina que fazia óleo, a partir das sementes do girassol. Desta maneira, até a sua morte, os trisavôs tiveram um pequeno meio de sustento que lhes permitia sobreviver com o mínimo da dignidade.

Incrivelmente benevolentes, as novas autoridades até deixaram os trisavôs a viver no seu próprio estábulo. Os seus animais: vaca, cavalo (o trisavô possuía pequena carroça que usava para se deslocar até a cidade mais próxima), porcos, também abalaram rumo ao socialismo científico, colocados nos estábulos kolkhozianos. Onde em breve muitos destes animais morreram, pois novas autoridades proibiam aos antigos donos de cuidarem dos seus bichos e não designaram absolutamente ninguém para tratar deles.

Por fim o kolkhoze mandou abater todas as arvores de um grande pomar, formado pelas macieiras e pereiras, que também pertencia aos meus trisavôs. As arvores “burguesas” deveriam dar lugar às culturas mais úteis aos proletários e camponeses. Como resultado, este novo campo nunca foi cultivado e se tornou um terreno baldio, cheio de ervas daninhas e arbustos inúteis...

Apesar de tudo isso, o filho do meu trisavô, meu bisavô, recebeu o comunismo de braços abertos. Doutrinado, provavelmente, durante o seu serviço no exército czarista, ele voltou a Ucrânia no fim da I G. M., aderindo às rédeas do bolchevismo. A lenda familiar reza que bisavô servia nas fileiras da maquina repressiva, embora não se sabe ao certo nas quais: Tcheka?, Chon?, GPU? Mesma lenda conta que uma vez no Outono, os homens do chefe insurgente ucraniano Zeleniy, vieram a procura do bisavô e dos seus. Ele não estava em casa e a bisavó teve que se esconder às pressas dentro da meda de feno. Os intrusos picaram a meda com as baionetas, uma deles perfurou a xaile da bisavó. Seja por causa do susto extremo, seja porquê ficou constipada, ela adoeceu e morreu de seguida.

Nas vésperas do Holodomor, a sua filha, a minha avó, foi levada para a cidade pelo seu irmão mais velho, que a colocou a estudar na escola técnica e ensinou a falar russo. Ninguém da minha família directa faleceu em consequências do Holodomor, os protegeu a proximidade com Belarus (onde as pessoas iam para trocar os alimentos) e o facto de viverem em um canto bastante esquecido da Ucrânia.

O irmão mais velho de um outro bisavô meu (o funcionário público soviético) foi dado como desaparecido em combate na frente da batalha da Ucrânia Ocidental durante a I G.M. Em vez de ficar quieto e calado (possuir os familiares no estrangeiro na União Soviética era a maneira mais curta de perder o emprego e acabar no GULAG), ele tentou o localizar através da Cruz Vermelha, imaginem, internacional. Quando o seu serviço soube do sucedido, o bisavô foi imediatamente despedido e só não foi preso porque Alemanha nazi atacou URSS; assim ele foi imediatamente mobilizado para o exército como soldado raso (da outra maneira não seria mobilizado). O bisavô morreu nos primeiros meses da guerra, tombado na defesa do Leninegrado, “o berço da revolução” que Stalin ordenou defender custe o que custar.

Já o avô, que foi mobilizado para a inteligência do regimento da infantaria soviético em 1943, quando o Exército Vermelho retomou a Ucrânia, terminou a II G. M. em Budapeste. Ele deixou a sua vila em 1932 fugindo do Holodomor, rumando à Kyiv, onde primeiro entrou no Rabfak (Faculdade dos Trabalhadores), depois conseguiu a vaga na Universidade. Holodomor de tal maneira afectou a vida social e académica na sua região que durante três anos consecutivos: 1932, 1933 e 1934 na escola dele não foram leccionadas nenhumas aulas. O que criou uma situação inédita, quando a sua turma original começou a 10ª classe, o avô voltou à escola como professor, leccionando-lhes a física, química, biologia e matemática. Em 1941 ele já não estava na idade de recruta, além disso a condição do professor permitiu que não fosse mobilizado ao exército.

Apesar da exigência do poder comunista e depois dos nazis de entregar todos os aparelhos de rádio (os nazis simplesmente executavam aqueles que encontravam na sua posse), o avô não entregou o seu rádio. Escutava à noite as notícias de Moscovo e algumas estações de rádio estrangeiras. Foi denunciado e levado pelos nazis para ser enforcado, quando um membro da polícia auxiliar ucraniana interveio em sua defesa. Após a guerra, o avô mostrava o tal polícia (quando se cruzavam na rua) aos seus familiares e dizia: “Vejam, filhos, este é o homem que salvou a minha vida”.

Nos anos pós – guerra os avôs guardavam cada copeque para pudessem construir a sua própria casa. De noite, a família ia para os bosques próximos, para apanhar os pequenos troncos para fazer as ripas; também levavam as folhas, bolotas e agulhas que se misturavam com o barro, tudo para construir as paredes. Nada disso era permitido por Lei, se eles fossem apanhados poderiam ser detidos, multados ou presos.

A tia conta que vivia um drama constante: tudo o que aprendia na escola a ensinava que deveria denunciar os pais às autoridades, pois eles “delapidavam o património socialista”. Por outro lado, eram os seus pais, a sua única família no mundo. Algumas vezes ela pensava que iria faze-lo, no fim, o complexo comunista do Pavlik_Morozov não funcionou nela.

Quando eu próprio me tornei pioneiro, aderi ao Clube da Amizade Internacional (KID), o Clube fornecia-nos os endereços das crianças dos países socialistas com quem poderíamos se corresponder em língua russa. Os países como Albânia, China, Jugoslávia e Roménia não constavam na lista. Escrevi para vários endereços, no fim comecei me corresponder com uma menina polaca, gostaria imenso de saber onde vive e o que faz hoje a “minha” Agnieszka... Um dia os meus pais compraram o bonito álbum bilingue (em russo e polaco) sobre a arte sacra da Igreja de Santa Sófia em Kyiv, eu queria o enviar para a minha amiga. Mas nos correios centrais da nossa cidade fomos informados do que este álbum, editado na Ucrânia Soviética, numa editora soviética (portanto próprio para o consumo doméstico), deveria obter a permissão oficial do KGB para poder ser enviado para o estrangeiro. Mesmo para um país socialista irmão.

Anos mais tarde, já nas vésperas da Perestroica, conheci a jovem senhora, chamaremos ela de Valentina, casada com um membro do PCP, a estudar na nossa cidade alguma ciência útil. Valentina era bela, fresca e deslumbrante, ela dizia com ar de vedeta internacional cansada da fama: “sou bi – cidadã, tenho o passaporte soviético e português” e nós demonstrava o livro do Álvaro Cunhal autografado pelo próprio. Além disso, Valentina, era costureira, creio que usava os modelos da revista “Burda” (uma novidade absoluta na URSS, a primeira edição em russo só chegou em 8 de Março de 1987), e as vendia como roupas de marca ocidentais, que alegadamente, comprava no Berlim Ocidental (os quadros da PCP faziam lá as compras nas férias universitárias) ou mesmo em Portugal, que para nós equivalia aos EUA ou mesmo à Marte, um lugar simplesmente inacessível.

A Valentina tinha uma vida paralela, seguramente não sancionada nem pelo marido, nem pelo PCP. Ela tinha um amante, rapaz novo, belo e musculoso, creio que boliviano, com quem mantinha uns encontros “calientes” aqui e ali. Por vezes, eles se encontravam no meu apartamento, tudo começava com beijos e abraços e acabava com beijos, abraços e choros recíprocos. Mais tarde soube que Valentina chegou a esconder na sua casa um amigo meu, expulso da Universidade na sequência do processo ordenado pelo KGB. Recentemente encontrei, graças à Internet, o nome do marido da Valentina (que recordo como um sujeito sempre cabisbaixo, triste e desanimado) nas listas distritais (vocês vão se rir), do PSD. Que voltas dá o mundo...

Estive no centro de Kyiv quando no dia 24 de Agosto de 1991 foi proclamada a Independência da Ucrânia, naquele mesmo dia começaram desmontar o monumento enormíssimo de Lenine (rodeado pelas figuras alegóricas do soldado, marinheiro e operária), que dominava a actual Praça de Independência. Durante muitos anos guardei como recordações os bocados do granito e do bronze que faziam parte daquele conjunto monumental.

Pressuponho que a história do polícia auxiliar poderá servir para algum “camarada cacete” me acusar de “branquear os crimes de nacional socialismo”. Do mesmo jeito os mesmos camaradas classificam qualquer denúncia dos crimes do comunismo como “um ataque contra os comunistas”. O que não pode e nem deve ser confundido. Os crimes do comunismo são reais, massificados e largamente documentados. Mas a responsabilidade pelos crimes é sempre individual. Algum correligionário do Lenine ou do Stalin assinou a ordem executiva, algum carrasco a executou. Mas todos eles possuem os seus nomes próprios e como tal são responsáveis pelos seus próprios actos.

O escritor ucraniano e político socialista Ivan_Bahrianyi, autor do ensaio “Porque não quero voltar para URSS”, dizia: “Os nossos quadros estão no partido (comunista) e em Komsomol (juventude comunista)”. A frase que a maior parte da emigração ucraniana rejeitava revelou-se bastante profética. Como demonstrou a história, os patriotas da Ucrânia se encontravam no partido, em Komsomol e até mesmo no KGB. Apenas entre os delatores e os carrascos não havia patriotas, pois os seus corpos físicos se encontravam na Ucrânia, mas as suas almas, mesmo nos dias de hoje, pertencem às gavetas obscuras dos arquivos moscovitas.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Partido de Vladimir Putin pode perder maioria constitucional – sondagens

O Partido Rússia Unida, dirigido pelo primeiro-ministro Vladimir Putin, poderá perder a maioria constitucional na câmara baixa do Parlamento Russo, mas manter a maioria relativa, apontam sondagens hoje publicadas por centros de estudo de opinião pública.

Segundo o estudo do Levada Center, o Partido Rússia deverá conquistar, nas eleições parlamentares de 4 de dezembro, 53 por cento dos votos, o que lhe dará 252 assentos na Duma Estatal, câmara baixa do Parlamento da Rússia.

Em comparação com o escrutínio de 2007, o partido de Putin poderá perder cerca de 60 deputados.

Nas eleições de 2007, o Rússia Unida conquistou 64,3 por cento dos votos e 315 dos 450 deputados eleitos, o que lhe permitia fazer alterações constitucionais. Por exemplo, o mandato do Presidente da Rússia passou de 4 para 6 anos e o da Duma Estatal de 4 para 5.

O segundo lugar pertencerá ao Partido Comunista da Federação da Rússia, que conseguirá 20 por cento dos vostos, sendo seguido do Partido Liberal Democrático (nacionalista) com 12 por cento e do Partido Rússia Justa (centro-esquerda) com 9 por cento.

As restantes três forças políticas que participam no escrutínio: Partido Iabloko (liberal), Causa Justa (centro-direita) e Patriotas da Rússia (centro-esquerda) não deverão conseguir mais do que um por cento dos votos.

Só terão representação parlamentar, as forças políticas que superarem a barreira dos 7 por cento.

Outra sondagem, desta vez do Instituto de Estudo da Opinião Pública (VTSIOM), aponta que o Rússia Unida poderá conquistar 53,7 por cento dos votos e 262 dos 450 mandatos.

O Partido Comunista conseguirá 16,7 por cento, o Partido Liberal Democrático – 11,6 por cento, o Rússia Justa 10 por cento.

Quanto aos restantes três partidos, o Iabloko poderá conquistar 2.9 por cento, o Causa Justa – 1,7 por cento e o Patriotas da Rússia – 1,6.

Se estas previsões se concretizarem, o Partido Rússia Unida verá a sua presença na Duma reduzida de 315 para 262 mandatos; o Partido Comunista aumentará de 57 para 82; o Partido Liberal Democrático crescerá também de 40 para 57 e a Rússia Justa subirá de 38 para 49 mandatos.

O mesmo estudo aponta uma afluência às urnas da ordem dos 58 por cento dos inscritos.

Hoje é o última dia em que é permitido publicar sondagens antes do acto eleitoral de 04 de dezembro.

Fila de vários quilómetros para ver o Cinto de Nossa Senhora

 
 
Mais de meio milhão de pessoas já passaram pela Catedral de Cristo Redentor, na capital russa, a fim de venerar o Cinto da Virgem Maria, uma das mais importantes relíquias da Igreja Ortodoxa Russa.
A afluência de crentes é tão grande que as portas do templo estão abertas dia e noite, a relíquia ficará em Moscovo mais cinco dias do que o previsto, até 28 de novembro, e a Igreja Ortodoxa teve de simplificar a cerimónia de veneração para que todos aqueles que queiram consigam chegar até ela.
O Cinto de Nossa Senhora foi, segundo a crença ortodoxa, feito pela própria Maria com pelo de camelo e é-lhe atribuído o poder de estimular a fertilidade e curar diferentes males. Esta relíquia, uma das mais veneradas pelos cristãos ortodoxos, foi trazida para Moscovo a 19 de Novembro do Mosteiro de Vatopedi, no monte de Athos na Grécia, onde se encontra guardada.
A relíquia encontra-se guardada numa arca de prata e ouro e, inicialmente, era permitido aos peregrinos beijá-la ou tocá-la com a mão. Porém, devido à enorme afluência de pessoas, superior a mais de 80 mil por dia, a direção da Igreja Ortodoxa decidiu colocar a relíquia em cima de um arco de madeira, por baixo do qual passam três pessoas ao mesmo tempo, mas sem poderem parar.
As filas para entrar no templo estendem-se por numerosos quilómetros, obrigando os peregrinos a esperar mais de dez horas na rua, numa altura em que o mercúrio dos termómetros se encontra abaixo de zero.
A polícia, a segurança civil e voluntários ortodoxos montaram uma operação de apoio aos peregrinos, fornecendo refeições e cuidados médicos.
Este grande acontecimento religioso está a ser ensombrado por um escândalo que se prende com a desigualdade no acesso dos ortodoxos ao templo. Alguns crentes-VIP’s não precisam de estar nas longas filas, pois receberam um convite que lhes permite entrar numa porta aberta para o efeito.
Quando a situação foi denunciada na Internet por alguns dos crentes, a Igreja Ortodoxa veio desmentir a existência de semelhantes convites, sublinhando que só entram sem fila os padres e coristas que participam no serviço religioso permanente.
Porém, Ksénia Sovctchak, conhecida figura do jet-7 russo e filha do antigo dirigente da Câmara de São Petersburgo, publicou o convite na Internet e acompanhou-o com o comentário: “E onde está o mandamento “não mentir”? Isto está para além do bem e do mal e a Igreja ainda nega!”
Confrontada com a onda de protestos, a Igreja Ortodoxa Russa viu-se obrigada a dar uma justificação através de um porta-voz seu.
“Nós vimos venerar as relíquias para ficarmos mais puros. Não devemos condenar ninguém. Isso não abre perspetivas. Além disso, podemos enganar-nos, o que acontece frequentemente… Se uma pessoa entra sem fila, “por cunha”, talvez seja a sua única experiência de oração”, declarou o sacerdote Vladimir Viguilianski, citado pela agência Ria-Novosti.
O Cinto de Nossa Senhora já passou por várias cidades russas, onde foi venerado por mais de dois milhões de crentes.

Ultrapassámos as 2500 postagens



Caros leitores, o texto enviado pelo Pippo é o 2501. Ultrapassámos a barreira psicológica dos 2500 e iremos continuar até que pelo menos um leitor nos leia e comente.
Infelizmente, poucos são os leitores como o Jest e o Pippo que enviam textos para publicação. Alguns criticam duramente a linha deste espaço, mas, depois de numerosas vezes convidados a escrever, ficam-se pela ameaça de enviarem textos. 
Cada um faz como entender. Para nós, o mais importante é que alguém lê aquilo que escrevemos, sem intenção de querer converter ou desconverter.
Vamos continuar! 

Blog do leitor (Como a Rússia encara o “Reajuste”)


Texto traduzido e enviado pelo leitor Pippo:

"Numa recente viagem a Moscovo, aprendi que muitas pessoas dentro do aparelho de Política Externa russa se surpreenderam com o facto de algumas pessoas em Washington encararem a política de “reajuste” [de relações com a Rússia], ou como uma grande conquista, ou como uma enorme concessão para a Rússia. Assim, elas parecem desapontadas quando a Rússia não segue cegamente a liderança dos EUA sobre a questão do Irão.Os russos não estão inclinados a subestimar as melhorias [nas relações com os EUA], mas também não as sobrestimam. Acima de tudo, a Rússia considera  que o "reajuste" promoveu concessões significativas para os Estados Unidos. Estes incluem o compromisso sobre a Líbia, a ajuda no Afeganistão e na pressão sobre o Irão. O "reajuste", tal como é visto pelo lado russo, é uma tentativa de normalização do diálogo e um instrumento através do qual ambos os lados se possam ouvir. Eis alguns pontos sobre este assunto.

Primeiro, temos de tomar a posição da Rússia sobre o Irão como um dado adquirido: A Federação Russa tem afirmado repetidamente que é contra o Irão adquirir uma arma nuclear. A Rússia apoia o uso de energia nuclear para fins civis, e é por isso que se envolveu nas conversações a seis com o Irão, para ajudar a concretizar a sua ambição para o uso de energia nuclear pacífica. A posição russa sobre o Irão é a mesma: que a acumulação por parte do Irão de armas nucleares vai contra a política russa na região. A liderança russa tem continuamente apoiado o Conselho de Segurança e votou uma resolução sobre o Irão a reforçar as sanções contra o regime de Ahmadinejad. A Rússia opõe-se a um apertar das sanções com base em precedentes: Numa proposta favorável aos Estados Unidos, não vetou as acções militares contra a Líbia, acções essas que, num efeito “bola de neve”, acabaram em mudança de regime, com consequências claras e guerra civil entre facções (além de perdas de contratos para a Rússia ). Quando se trata do Irão, a Rússia não quer correr o risco de ter um Estado instável nas suas fronteiras com todas as incertezas e da guerra civil em potencial de um novo regime implica. Onde está a garantia de que não teremos uma crise ainda pior junto às nossas fronteiras se se impuserem mais sanções? E segundo o entendimento de lado russo, ainda há espaço para a diplomacia; muitos especialistas dizem que o Irão ainda está longe de obter uma arma nuclear real.

Em segundo lugar, os esforços para retratar o “reajuste” como uma espécie de favor à Rússia e ao tratado START sobre armas nucleares como um presente pelos Estados Unidos estão equivocados. Os russos vêem estes como os esforços para normalizar as relações entre os dois países, as relações que quase se desintegraram sob a administração Bush. Se os Republicanos têm um problema com a pressão da Administração Obama para recomeçar o START, isso não é por causa do “reajuste” com a Rússia. O adversário mais proeminente do START no Congresso dos EUA, o senador Jon Kyl do Arizona, diz que sua oposição ao START deriva do seu desejo de forçar a Administração Obama a investir mais dinheiro na modernização do arsenal nuclear dos EUA, e não porque ele se opôs à melhoria das relações com a Rússia . Na diplomacia russo-americana, ambos os países têm seus interesses, e eles não podem convergir em cada questão. Por exemplo, a retirada de tropas dos EUA do Médio Oriente, provavelmente, promoverá graves tumultos no Afeganistão, Iraque e Paquistão, enquanto a ameaça iraniana de aquisição de armas nucleares permanece como pano de fundo. A cooperação russa, assim, será ainda mais crucial para os Estados Unidos. Os analistas da política americana devem aceitar que as boas relações são benéficas para ambos os lados e que os americanos não podem punir a Rússia pela sua falta de cooperação, uma vez que, com isso, Washington ficaria a perder.

Sobre os planos dos EUA para implantar elementos de defesa antimísseis na Europa, alguns comentaristas americanos verão uma concessão EUA para a com Rússia no cancelamento dos planos dos EUA para instalar elementos de uma estação de radar na República Checa e escudos anti-míssil na Polónia. Mas a actual administração não parou os planos. Ela ainda planeia implantar elementos antimísseis em embarcações na Espanha, na Roménia e na Turquia, em vez de em território polaco e checo. E a Turquia está mais perto da fronteira com a Rússia do que na República Checa. Analistas na Rússia continuam a acreditar que o escudo antimíssil norte-americano se destina a contrariar a dissuasão nuclear da Rússia. Até agora, a NATO recusou-se a apresentar à Rússia garantias escritas de que o escudo antimíssil norte-americano não ameaça Moscovo. Mesmo o primeiro-ministro Putin expressou grande preocupação sobre o assunto. Por isso tem havido pouco “reajuste” nest questão.

Sobre a situação após a guerra com a Geórgia, é de salientar que as regiões separatistas da Abkházia e da Ossétia do Sul colocaram os seus territórios sob proteção russa e nunca tiveram qualquer desejo de fazer parte da Geórgia. As regiões foram colocadas dentro das fronteiras georgianas nos termos da Constituição da URSS de Stalin, mas mesmo antes do colapso da União Soviética elas votaram pela sua independência face à Geórgia. Dois conssecutivos presidentes da Geórgia entraram em guerra com as duas regiões sem qualquer sucesso. O fim da guerra russo-georgiana (a terceiro envolvendo um presidente georgiano) e o acordo de paz firmado entre o presidente francês Nicolas Sarkozy e o presidente russo Dmitry Medvedev estabeleceram a retirada das tropas russas dos territórios antes que estes declarassem a independência (e esta fosse reconhecida pela Rússia). A sua independência recém-adquirida começou com os tratados entre a Rússia de um lado e da Abkházia e Ossétia do Sul, por outro lado, através dos quais se estabeleceu que a Rússia iria fornecer tropas para a proteção [daqueles territórios]. No entanto, seria um erro considerar a Abkházia e a Ossétia do Sul como protetorados russos totalmente dependentes. Ambas as regiões realizaram eleições competitivas, e os eleitos não são lacaios ungidos pelo Kremlin. As tropas russas estão estacionadas ali pelo mesmo tipo de acordo que legitima as presença de tropas da NATO no Kosovo. Seguindo o precedente de Kosovo, não há justificativa no argumento de que a Rússia está a ocupar território georgiano, principalmente depois de uma guerra que foi provocada por Tbilisi (como foi confirmado pelas comissões de investigação, quer da UE, quer da OSCE). Além disso, é desconcertante que alguns analistas Washington vejam na limitada presença militar de Moscovo no Sul do Cáucaso um perigo para a segurança global.Estas modestas forças de Moscovo dificilmente se pode comparar com a multitão de sofisticadas bases militares dos EUA que se multiplicaram em todo o globo.

Independentemente de quem vencer as eleições presidenciais dos dois países, ambos podem encontrar muitas áreas de cooperação, se realmente desejarem fazê-lo. Talvez após as eleições, o “reajuste” pode ser reposto.


Andranik Migranyan é o director do Instituto para a Democracia e Cooperação em Nova York. Ele também é professor do Instituto de Relações Internacionais de Moscovo, um ex-membro da Câmara Pública e um ex-membro do Conselho Presidencial da Rússia.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Moscovo ameaça renunciar ao desarmamento se Estados Unidos avançarem com sistema de defesa antimíssil

O Presidente russo, Dmitri Medvedev, declarou hoje que, em caso de desenvolvimento desfavorável para a Rússia da situação em torno do sistema de defesa antimíssil europeu, o seu país reserva o direito de não dar novos passos no campo do desarmamento e do controlo de armamentos.
Esta ameaça foi feita numa declaração especial feita a propósito da intenção dos Estados Unidos instalarem na Europa elementos do seu sistema de defesa antimíssil.
“Se for desfavorável o desenvolvimento da situação, a Rússia reserva para si o direito de renunciar a novos passos no campo do desarmamento e, por conseguinte, do controlo de armamentos”, precisou ele, numa mensagem transmitida pela televisão russa.
“Além disso, tendo em conta a ligação indestrutível entre os armamentos estratégicos ofensivos e defensivos, podem surgir razões para a saída do nosso país do Tratado START. Isso está previsto no próprio tratado”, acrescentou.
Firmado após longos anos de negociações, em finais de 2010, o START compromete Washington e Moscovo a reduzir de 2.200 para 1.550 o número dos seus mísseis nucleares estratégicos.
Medvedev anunciou que os mísseis balísticos russos serão equipados de forma a superarem o sistema de defesa antimíssil e que as Forças Armadas russas deverão, em caso de necessidade, tomar medidas para destruir os meios de informação e controlo da defesa antimíssil norte-americana.
“Se os meios enumerados não forem suficientes, a Rússia instalará no Ocidente e no Sul do país sistemas modernos ofensivos de armamentos que garantirão a destruição da componente europeia do sistema de defesa antimíssil. Um desses passos será a instalação de mísseis Iskander na região de Kalininegrado”, precisou.
No entanto, o dirigente russo frisou que o seu país continua aberto à continuação do diálogo com os Estados Unidos e a NATO, mas numa base de igualdade que proteja os interesses da Rússia.
“Não fecharemos a porta nem à continuação do diálogo com os Estados Unidos e a NATO sobre as questões do sistema de defesa antimíssil, nem à cooperação prática nesta esfera. Estamos prontos para isso”, declarou.
“A via para isso passa pela criação de uma base jurídica clara da nossa interação, base que garantirá os nossos interesses legítimos”, concluiu.
Alguns analistas russos atribuem esta retórica dura de Medvedev ao fato de se estar em campanha eleitoral na Rússia e o país se encontrar a pouco mais de uma semana de eleições legislativas, marcadas para 04 de dezembro.
Além disso, os dirigentes russos parecem considerar que os Estados Unidos não se encontram na melhor das situações económica e política para avançarem unilateralmente para a instalação do escudo antimíssil.

terça-feira, novembro 22, 2011

Sonda Phobos-Grunt praticamente perdida

Vitali Davidov, porta-voz  da Agência Espacial Russa, declarou hoje aos jornalistas que o mais provável é que a sonda Phobos-Grunt não realize a sua viagem ao satélite de Marte.
“É preciso ser realista: se não conseguimos estabelecer ligação com o aparelho durante tanto tempo, significa que praticamente não há hipóteses para realizar a expedição a Phobos agora”, afirmou ele aos jornalistas.
O funcionário da Roskosmos reconheceu também que a sonda não conseguirá sobreviver até à próxima “janela astronómica” para Marte, que se abrirá dentro de dois anos”.
A sonda Phobos-Grunt foi lançada para o Espaço no passado dia 9 de novembro, mas um dos motores falhou e não conseguiu apontar o aparelho para o voo até ao satélite de Marte.
Resta saber quando e onde irão cair os restos do aparelho.

Rússia invadiu Geórgia em 2008 para não permitir alargamento da NATO


O Presidente russo, Dmitri Medevev, considerou na, segunda-feira, que se a Rússia não tivesse tomado medidas decididas no Cáucaso em 2008, teria ocorrido um alargamento significativo das fronteiras da NATO.
“Se tivéssemos vacilado em 2008, hoje existiria outro quadro geopolítico e o mais provável é que já estivessem na Aliança Atlântica uma série de países que tentaram empurrar artificialmente para o seu seio”, declarou ele, citado pela agência Ria-Novosti, num encontro com militares russos aquartelados no Cáucaso.
Em Agosto de 2008, a Rússia, a pretexto de defender os seus cidadãos na Ossétia do Sul, envio tropas para essa região separatista da Geórgia e acabou por invadir o território desse Estado.
Em setembro, a Ossétia do Sul e a Abkházia, outra região separatista da Geórgia, proclamaram a independência com o apoio de Moscovo.
Medvedev assinalou que a Rússia está preocupada com o aparecimento junto das suas fronteiras de um bloco que “nos cria certos incómodos”.
“Nós, agora, desviamo-nos da concorrência direta, mas, não obstante, é preciso reconhecer que nós temos uma compreensão diferente da solução de toda uma série de tarefas que existem na esfera da segurança”, acrescentou.
Dmitri Rogozin, embaixador russo junto da NATO que participou no mesmo encontro, disse que a Aliança Atlântica enganou-se nos cálculos, porque não estava à espera de ações ativas da Rússia no Cáucaso, sem as quais a Ucrânia e a Geórgia teriam aderido à NATO. 
“Eles, na realidade, estavam à espera de uma resposta completamente diferente… e enganaram-se nos cálculos. Isto ficará na história, digam lá o que disserem”, reagiu Medvedev.
P.S. Se alguém tinha dúvidas sobre a política do Kremlin face à Geórgia em 2008, as palavras acima citadas do dirigente russo acabam com elas. Afinal, a componente humanitária da operação militar russa não passou de uma cortina para encobrir os verdadeiros objetivos de Moscovo, ou seja, travar o alargamento da NATO.
Claro que é provável que hoje, o Kremlin publique um comunicado a explicar que as palavras de Medvedev foram mal-entendidas, deturpadas, etc., etc., mas já saíram da boca dele.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Putin leva forte assobiadela


É a primeira vez que Vladimir Putin leva uma valente assobiadela do público. Aconteceu depois de um combate de luta "sem regras" em Moscovo. O primeiro aviso. E ele ainda quer ficar no poder mais 12 anos...
N.B. Pessoas que estiveram no recinto afirma que a valente assobiadela foi dirigida ao primeiro-ministro e não ao lutador derrotado.
Claro que é sempre mais fácil fechar os olhos perante a realidade. Como diz o povo português, depois não venha dizer que o café tinha formigas... 

Ator de teatro renuncia a título e prémios em sinal de protesto contra política de Vladimir Putin

O conhecido ator de teatro russo Alexei Devotchenko renunciou ao título de “Artista Emérito da Rússia” e a dois “Prémio de Estado da Rússia” em sinal de protesto contra a política do primeiro-ministro Vladimir Putin.
“Não quero ser duas vezes laureado do Prémio de Estado da Rússia, recebido das mãos de Vladimir Putin… Podem considerar que eu sou um louco que faço publicidade de mim próprio, mas…”, escreveu o ator no seu blog.
“Porque é que eu tive agora esta inspiração? Respondo de forma simples: estou completamente farto deste Estado- Monarquia. Da mentira dele, do corporativismo, da pilhagem legitimada, dos subornos e de outras maravilhas… E o principal consiste na impossibilidade de desempenhar papéis nos meus espetáculos sofridos e queridos”, explicou ele.
Numa entrevista ao jornal eletrónico Svobodnaia Pressa, Devotchenko declarou: “No momento que o nosso país atravessa, ter o título de artista emérito ou ser laureado do Prémio de Estado é estar próximo do poder, porque isso é dado pelo poder. Por isso, tem-se de, indiretamente, participar em todas as abominações cometidas pelo poder”.
“Significa apoiar indiretamente a condenação de Khodorkovski e Lebedev [ex-patrões da petrolífera Yukos condenados a pesadas penas de prisão] a estar de acordo com o assassinato de Politkovskaia [jornalista] e Stotovoitova [ativista dos direitos humanos].
Alexei Devotchenko, ator do conhecido Teatro Alexandriinskii de São Petersburgo, é militante da Frente Cívica Unida, organização da oposição russa, e, no ano passado, assinou um apelo da oposição: “Putin deve demitir-se!”.
Esta posição foi tomada a menos de quinze dias das eleições parlamentares, que terão lugar a 04 de dezembro.

sábado, novembro 19, 2011

Blog do leitor ( Será que sou um iluminati? )

Texto enviado pelo leitor Jest:

"Recentemente, o órgão oficial dos comunistas portugueses, o jornal “Avante!” surpreendeu tudo e todos com a revelação bombástica de um tal Jorge Messias: o mundo é dominado pelos illuminati, compostos pela maçonaria, Wall Street e Igreja Católica. O seu livro de cabeceira é a “obra” forjada pelos serviços secretos czaristas, “Protocolos dos Sábios do Sião” e eles estão entre nós. Mexem na economia, mandam na fé, opinam na imprensa, escrevem nos blogues... Dado que também mantenho um blogue, perguntei comigo mesmo, será que também sou um illuminati? Talvez até sem o saber? Decidi por isso analisar a minha vida, talvez assim poderei responder a essa questão nada fácil e muito pertinente.

Nasci em uma família soviética mediana. Pai e mãe, ambos ateístas; pai era membro da Juventude Comunista (Komsomol), mais tarde ele se filiou no partido. Primeira falha moral: ainda menino ele foi baptizado em segredo pela minha avo. Um padre da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) veio ao domicílio, onde completou a cerimonia sacra selada com um gole do vinho doce, naquela época os padres ortodoxos usavam o “Kagor”. O vinho traiu a avo, pois a criança segredou ao seu pai, o meu avo, que hoje eles tiveram a visita de um “tio”, que lhe tinha dado uma bebidinha gostosa. A avo confessou o “crime”, que podia custar a carreira militar ao avo. Um oficial do exército não podia permitir que seu filho fosse baptizado. Mas o caso ficou sem consequências, ninguém na vizinhança os denunciou às autoridades. Talvez eram rodeados pela boa gente, talvez os delatores eram desorientados pela primavera do Khrushev...

Filho de uma geração pós – II G.M., pai trocou a pistola pessoal do meu avo pela esferográfica do seu colega da turma que provinha de uma família mais abastada. Naquele tempo os meninos soviéticos iam para escola munidos das canetas de tinta permanente e um tinteiro “não despejável”. O avo de carácter estalinista, ficou, digamos, desapontado com a descoberta. Stalin já lá foi, mas o desaparecimento da arma pessoal poderia significar o tribunal militar. Nas vésperas da II G.M., o meu bisavô pagou com a própria vida por um “delito” infinitamente menor. Este caso também acabou em bem, o colega devolveu a arma, os pais de menino até convidaram o meu pai assistir a televisão na casa deles, sempre que o pai quiser. Os televisões eram muitíssimo raros e caros, orçamento familiar de um oficial do exército não dava para tudo.

No entanto, quanto eu nasci, o avo, já reformado do exército, era um dos maiores entusiastas do meu baptismo. Foi baptizado em uma igreja da IOR em funcionamento, numa cidade e numa república diferentes da residência habitual dos maus pais. Assim o sistema perdeu a chance de os incomodar por causa da sua “traição dos ideais dos construtores do comunismo”.

Que não deve andar muito longe, pois  Nikita Khrushev aponta o ano 1980 como o início desta época dourada: “Ainda a actual geração da gente soviética irá viver no comunismo”, — proclama ele. “Do cada um pelas capacidades, a cada um pelas necessidades”, explica as virtudes do comunismo o meu livro escolar. O bilhete do autocarro custa 5 copeque, do trólei – 4, do eléctrico – 3, um telefonema público dentro da cidade – 2, uma caixa de fósforo – 1 e pão no refeitório popular ou medicamentos sob a receita médica são gratuitos. No entanto, recordo a década de 1975 – 1985 como os verdadeiros anos de chumbo. Cinzentos, parecidos uns com outros. Nada acontecia, apenas mudavam os secretários gerais do PCUS, cada vez mais velhos e senis. E rumores, rumores, rumores... A morte do neo – estalinista Andropov é atribuída a sua filha, que dizem os conhecedores, disparou contra o pai por ele não lhe fazer uma vontade qualquer. O meu tio costuma escutar a rádio BBC em língua russa às claras e nós conta os romances radiofónicos abertamente anti-soviéticos, “sabem, ontem escutei uma história tão estúpida, tão ridícula”, começa ele. Lembro que era a história de uma senhora que em Moscovo se via em apuros para comprar um frango...

Em 1979 a URSS invade o Afeganistão, em 1980 o mundo boicota os jogos olímpicos em Moscovo (na TV mostram os desenhos animados “Mas a bruxa má é contra”, aparentemente para as crianças, mas com a piscadela de olho para os adultos, ursinho olímpico é perseguido pelos mauzões folclóricos); em 1981 o Marechal Jaruzelski decreta o estado de sítio na Polónia. Nenhum sinal do comunismo prometido.

No entanto, longe de mim questionar o status quo. Num dos meus aniversários, recebo de presente um calhamaço de 800 e tal páginas, chamado “Pioneiros — heróis”. Uma espécie de martirólogo dos jovens santos soviéticos que deram a sua vida pelo regime: desde o apóstolo Pavlik Morozov (mais tarde o seu nome se tornará o sinónimo da traição familiar ideologicamente correcta), que denunciou o próprio pai aos chekistas, até os meninos e meninas dos anos 1970 – 1980 que em vez de estudar, gastavam quase todo o ano escolar no trabalho agrícola semi-escravo na Ásia Central e no Cáucaso. Lembro que me agradava a ideia de se tornar um pioneiro – herói, salvar as pessoas através de uma façanha qualquer.

Desde o primeiro ano escolar, eu e toda a minha turma se tornaram “outubristas”, ou “netos de Lenine”, o primeiro degrau ideológico que um cidadão soviético fazia na longa caminhada para se tornar comunista. Os “outubristas” mais in, entravam na organização em clima de festa, por exemplo no museu do Lenine da cidade. A minha escola não era muito especial, por isso um belo dia nós colocaram as insígnias vermelhas de alumínio em forma da estrela pontiaguda, com a imagem do jovem Lenine no centro, quando ele ainda era conhecido pelo seu nome de baptismo – Vladimir Ulianov. A estrela custava entre 5 à 15 copeque, era vendida nas papelarias e representava um rombo chato nas minhas parcas economias. Os fechos das insígnias se partiam constantemente, principalmente durante as brincadeiras ou as lutas escolares. E a encarregada de educação obrigava comprar uma nova insígnia. As mães mais práticas afixavam a estrela na uniforme com a linha. Assim, ela nunca mais se perdia.

No terceiro ano escolar chegamos ao próximo passo da caminhada ideológica – tornamo-nos pioneiros. Entrávamos na organização em grupos, a turma até votou para eleger os primeiros a entrarem, os melhores nas notas, depois entraram os medianos, depois os assim – assim e os péssimos alunos entraram automaticamente já no ano seguinte. Eu deveria entrar no segundo grupo, mas chamado à depor, isso é, resolver um exercício de matemática, enrolei-me com o nervosismo (a professora informou que a resolução correcta seria o meu passaporte para o mundo dos escolhidos). Como consequência, entrei no terceiro grupo sem pedir a permissão de ninguém, simplesmente comprei na papelaria o lenço triangular de seda vermelha da má qualidade (“uma partícula da bandeira vermelha”) e apareci na cerimónia simples que teve lugar no parque público perto da minha casa. Ninguém perguntou nada, o lenço foi me apertado no pescoço por um membro do Komsomol (é o funcionamento de tal hierarquia “outubrista” – pioneiro – komsomolista – comunista). A professora estranhou, mas não ousou retirar o lenço, ninguém se metia de qualquer maneira com “a partícula da bandeira vermelha”.

Em termos práticos, os “outubristas” e os pioneiros se dedicavam à recolha de papel usado, que escola depois vendia às empresas especializadas. Considerava essa actividade pouco estimulante, pois nos filmes e livros os pioneiros recolhiam os metais que depois se transformavam em tanques ou comboios gloriosos. O papel usado não transmitia nenhuma glória semelhante.

Na quarta classe a turma me elegeu para o posto do “chefe do conselho do destacamento”. Votaram em mim, pois os restantes colegas não queriam fazer absolutamente nada, a apatia e o desinteresse total reinavam na sociedade soviética em todas as suas instituições. Pelo contrário, fiquei muito orgulhoso de mim mesmo, é a segunda vez que foi escolhido para alguma coisa (no campo de férias de Verão recebi o posto de “porta – bandeira”, nas manhas segurava a bandeira que encabeçava a entrada do nosso destacamento para a formação matinal). O estado soviético ainda “usava e abusava” da terminologia militar: destacamento de pioneiros, luta pela produtividade ou pelos planos quinquenais. Ao mesmo tempo, toda a gente roubava algo (se diz “levava”), a escola roubava o nosso dinheiro, o refeitório escolar roubava o nosso leite e pão, no vestuário escolar alguém roubou o meu chapéu tricotado chamado “galito” (grito de moda dos anos 1980, custava 25 rublos no mercado paralelo, fazia parte de uniforme das equipas de esqui), os nossos pais “levam” para casa os utensílios de escritório.

Na primeira reunião dos chefes dos conselhos dos destacamentos da escola, temos que enumerar por escrito (!) as promessas das nossas futuras acções: recolher X kg de papel, visitar os veteranos, fazer outras coisas igualmente úteis. Cheguei para essa reunião extremamente entusiasmado e disparei: “então, vamos prometer o que? Vamos votar como?” As meninas presentes olham-se entre si desconfiadas e me passaram as promessas já escritas do ano passado para as copiar. Não me recordo se as copiei, só sei que uma semana depois renunciei publicamente o meu posto. Passei a esquecer o meu lenço de pioneiro em casa, o estragava com o ferro (nunca aprendi o engomar como deve ser, nem fazer o nó correcto) até que o deixei de usar definitivamente; quando a responsável do Komsomol da escola me perguntou com ar ameaçador onde estava o meu lenço, respondi que tinha saído da organização por opção. Nunca formalizei essa saída oficialmente, hoje tenho pena que não teve a coragem de ir até o fim. Alguns colegas também deixam de usar o lenço, o chamam de “coleira de cão”, outros fazem nó como “pioneiros na RDA”, isso dá um toque de rebeldia, pois na organização são permitidos apenas rituais canónicos, tal como “delegou o grande Lenine”.

Como não entrei no Komsomol  já contei anteriormente. Aos 13-14 anos me considerava anticomunista, embora receava o termo e não me sentia totalmente confortável com ele. No meu íntimo gostava de me tornar um verdadeiro anticomunista (e não sabia como), mas também sentia o peso da palavra que receava a assumir. Nos últimos anos da escola deixei de usar o odiável fardamento castanho e vestia um casaco leve da malha capitalista. No casaco ostentava a insígnia que fiz eu próprio: o retrato do czar russo Nicolau II, em forma do ícone, canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa no Exterior.

Após a leitura do ensaio do Alexander Soljenitsin “Como nós reconstruiremos a Rússia”, onde ele defende a inexistência dos belarusos, kazaques e ucranianos, tirei o retrato do Nicolau II e o substitui pela frase: “Não há vida sem a metralhadora”. Lembro uma vez, a camponesa trintona (que o trabalho duríssimo no kolkhoze transformou em quarentona), cruzou comigo na paragem do transporte público, sugerindo tirar a insígnia. “Não cuide da sua imagem”, disse ela, querendo dizer “Não chama a atenção sobre si”... recordo disso, pois creio que a frase ilustra perfeitamente a trauma de várias gerações dos camponeses ucranianos, “reeducados” pelas diversas experiências comunistas. Não chamar nenhuma atenção sobre a sua pessoa, se esconder, encolher, se tornar invisível, insignificante, e ai talvez, o perigo passará, NKVD irá embora, os requisitores de alimentos não levarão o último pão e a família conseguirá sobreviver até a Primavera...

Não sei se tudo isso faz de mim um bom illuminati..."