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terça-feira, junho 10, 2014

Camões: o maior dos nossos poetas na Rússia.


O escritor Luís de Camões, a par de Fernando Pessoa, é um dos poetas lusófonos mais traduzidos para língua russa, podendo, neste campo, competir com outros nomes da poesia a nível mundial.
O maior homem das letras portuguesas começou a ser conhecido na sociedade russa em meados do séc. XVIII, numa altura em que se assistia precisamente à aproximação das cortes de Lisboa e de São Petersburgo.
O enciclopedista, poeta e escritor russo Mikhail Lomonossov vai buscar aos Lusíadas exemplos para ilustrar os géneros de versificação, bem como figuras de estilo literário na sua obra “Breve Compêndio de Retórica”, publicado em 1744.
O seu conhecimento da obra épica de Camões é de tal forma grande que levou Iúri Lotman, um dos pais da semiótica, a considerar que Lomonossov sabia português, tanto mais que, em alguns dos seus manuscritos, o fundador da primeira universidade da Rússia aponta para a consulta da “gramática portuguesa, léxico, Camões”.
É também visível a influência dos Lusíadas no poema épico de Lomonossov “Pedro, o Grande”, onde o poeta canta os feitos de um dos maiores czares russos.
O exemplo dos Lusíadas na composição de poemas épicos russos é seguido por outros homens das letras russas também no século XIX. Os estudiosos encontraram entre os papéis do poeta Vassili Jukovski notas sobre a leitura da obra de Camões antes de escrever o poema épico “Vladimir”.
Este poeta escreveu a tragédia “Camões”, sobre a morte do português, que era frequentemente representada nos teatros russos.
No século XIX, Alexandre Pushkin, o maior dos poetas russos, teve a ideia de escrever o poema épico “Ermak”, sobre o explorador russo que conquistou parte da Sibéria. Evgueni Baratinsk, outro poeta, escreve ao seu amigo Pushkin a propósito: “Dizem que, quando essa notícia chegar ao Parnaso, Camões ficará atónito. Que Deus te abençoe e te dê força para esse grande feito”.
No séc. XX, a obra épica de Camões continua a gozar de popularidade na Rússia. O poeta Valeri Briusov, quando escrevia o poema épico Atlândida (que ficou inacabado), deixou nas suas notas traduções de versos dos Lusíadas.
O autor da primeira tradução em russo dos “Lusíadas" morreu no cerco de Leninegrado, na II Guerra Mundial, antes de conseguir publicar o livro pelo que a obra maior de Camões só foi editada naquele país em 1988. 
Ao longo dos séculos, partes do livro foram traudzidos para russo, mas a primeira versão poética integral da mais importante obra épica da língua portuguesa acabou por ter uma história trágica. Iniciada nos anos 30 do século XX, o tradutor, Mikhail Travtchetov, chegou a entregar a tradução na tipografia, mas o projeto falhou devido à Segunda Guerra Mundial. 
Travtchetov morreu durante o cerco de Leninegrado, mas o manuscrito foi salvo e encontra-se na Biblioteca Nacional da Rússia. No entanto, a sua publicação não se realizou por falta de apoio das autoridades portuguesas, apesar de vários críticos reconhecerem a qualidade da sua tradução.
Os Lusíadas só foram integralmente publicados na Rússia em 1988, mas a obra épica de Camões foi bastante conhecida no país e chegou a ser parcialmente traduzida em prosa desde o século XVIII.
O terceiro canto dos Lusíadas, ou mais precisamente, a sua tradução em prosa a partir do francês para russo, foi publicada na Rússia em 1779, desconhecendo-se o seu autor.
Em 1788, Alexandre Dmitriev publica uma tradução completa dos Lusíadas, mas também em prosa, a partir do francês. Mais de cem anos depois, em 1897, o literato Alexandre Tchudinov publica outra tradução também em prosa, mas muito mais próxima do texto poético de Camões.
Nesse período, Vladimir Markov lança-se na tradução poética dos Lusíadas para russo, mas pouco mais de 15 páginas de texto foram publicadas em 1882.
E só em 1988, Olga Ovtcharenko publicou a sua tradução dos Lusíadas. A restante obra lírica de Camões está também totalmente traduzida para russo, mas esse trabalho só foi realizado na segunda metade do séc. XX, graças aos esforços de conhecidos tradutores do português como V. Levik, I.Tinianova e M.Talov.

quarta-feira, junho 08, 2011

Contributo para História de Portugal (Camões é exemplo de poeta épico na Rússia)

O escritor Luís de Camões, a par de Fernando Pessoa, é um dos poetas lusófonos mais traduzidos para língua russa, podendo, neste campo, competir com outros nomes da poesia a nível mundial.
O maior homem das letras portuguesas começou a ser conhecido na sociedade russa em meados do séc. XVIII, numa altura em que se assistia precisamente à aproximação das cortes de Lisboa e de São Petersburgo.
O enciclopedista, poeta e escritor russo Mikhail Lomonossov vai buscar aos Lusíadas exemplos para ilustrar os géneros de versificação, bem como figuras de estilo literário na sua obra “Breve Compêndio de Retórica”, publicado em 1744.
O seu conhecimento da obra épica de Camões é de tal forma grande que levou Iúri Lotman, um dos pais da semiótica, a considerar que Lomonossov sabia português, tanto mais que, em alguns dos seus manuscritos, o fundador da primeira universidade da Rússia aponta para a consulta da “gramática portuguesa, léxico, Camões”.
É também visível a influência dos Lusíadas no poema épico de Lomonossov “Pedro, o Grande”, onde o poeta canta os feitos de um dos maiores czares russos.
O exemplo dos Lusíadas na composição de poemas épicos russos é seguido por outros homens das letras russas também no século XIX. Os estudiosos encontraram entre os papéis do poeta Vassili Jukovski notas sobre a leitura da obra de Camões antes de escrever o poema épico “Vladimir”.
Este poeta escreveu a tragédia “Camões”, sobre a morte do português, que era frequentemente representada nos teatros russos.
No século XIX, Alexandre Pushkin, o maior dos poetas russos, teve a ideia de escrever o poema épico “Ermak”, sobre o explorador russo que conquistou parte da Sibéria. Evgueni Baratinsk, outro poeta, escreve ao seu amigo Pushkin a propósito: “Dizem que, quando essa notícia chegar ao Parnaso, Camões ficará atónito. Que Deus te abençoe e te dê força para esse grande feito”.
No séc. XX, a obra épica de Camões continua a gozar de popularidade na Rússia. O poeta Valeri Briusov, quando escrevia o poema épico Atlândida (que ficou inacabado), deixou nas suas notas traduções de versos dos Lusíadas.



quinta-feira, outubro 16, 2014

Um Camões mais russo



Luís de Camões, o maior dos poetas portugueses, e Mikhail Travtchetov, tradutor russo de Leninegrado/ São Petersburgo. O que une estas duas figuras de países tão distantes? O seu fim trágico e a publicação dos Lusíadas em russo.
A sala da Biblioteca de Línguas Estrangeiras de Moscovo foi pequena para receber tanta gente, principalmente jovens, que quis participar na cerimónia de lançamento da primeira tradução poética para russo dos Lusíadas.
Esta foi a primeira tradução integral do poema épico de Camões para russo, mas não foi a primeira edição dessa obra em russo por motivos trágicos. A primeira edição dos Lusíadas, traduzidos por Olga Ovtcherenko, foi publicada nos anos de 1980, enquanto que a tradução de Mikhail Travtchetov foi feita nos anos de 1920 e 1930, mas só chegou aos leitores na terça-feira.
Este grande atraso deveu-se ao facto de o tradutor ter entregue à editora Gossizdat o manuscrito em 1940 e o livro não ter sido publicado devido ao Bloqueio de Leninegrado. As tropas de Hitler cercaram a cidade que só não se rendeu graças ao heroísmo dos seus habitantes.
Mikhail Travtchetov teve possibilidade de abandonar a cidade antes do cerco se fechar, mas não o fez, tendo falecido em Leninegrado em Dezembro de 1941, não se sabendo se de fome ou em combate. O fim do poeta português, como é sabido, também foi trágico, porque morreu pobre e esquecido pelo povo que ele cantou.
Depois da Segunda Guerra Mundial (1941-1945), Sofia Dubrovskaia, irmã do tradutor russo, lutou durante 20 anos para que os Lusíadas fossem publicados, mas sem êxito.
Em 2011, quando fazia uma busca na Internet sobre Camões na Rússia, deparei com informações sobre Travtchetov e a sua tradução dos Lusíadas para russo. Alertados para este facto, o Instituto Camões, a Embaixada de Portugal na Rússia e o Centro de Língua e Cultura Portuguesa de Moscovo juntaram esforços e conseguiram esta proeza de publicar, com grande qualidade gráfica, a maior das obras literárias escritas em português.

A julgar pela forma como os excertos do poema recitados em português e russo foram recebidos pelo público, pode-se concluir que esta edição valeu a pena, tanto mais que foi prometido fazer chegar exemplares dos Lusíadas às bibliotecas de outras regiões e cidades da Rússia.

quinta-feira, abril 24, 2008

Festa da Língua Portuguesa em Moscovo

Deviam ser cerca de 70 alunos e professores de língua portuguesa de várias escolas superiores da capital russa que se reuniram no Instituto de Relações Internacionais de Moscovo para celebrar o dia da língua de Camões. Os estudantes deste instituto e da Universidade Estatal de Moscovo Lomonossov organizaram um espectáculo onde mostraram os seus êxitos e falhas no estudo da língua portuguesa.




Na véspera do 25 de Abril, a festa da língua de Camões começou com a invocação da Revolução dos Cravos e a canção Grandola, Vila Morena, interpretada por um grupo de alunos e alunas do primeiro ano do Instituto de Relações Internacionais.




Depois, em curtos skatches humorísticos, os futuros diplomatas e tradutores, que irão manter as relações diplomáticas, políticas e culturais entre a Rússia e os Países de Língua Portuguesa, satirizaram “As aventuras de um brasileiro em Portugal”, onde abordaram os desentendimentos linguísticos entre portugueses e brasileiros.
Numa discussão de café, alunas de português do Instituto de Relações Internacionais de Moscovo revelam as suas experiências da estadia em Portugal e discutem o boato da “transferência de Quaresma do F.C.do Porto para o Benfica”.



Nem os professores escaparam à sátira, sempre em língua lusa, dos seus próprios alunos. O professor João Mendonça, leitor do Instituto Camões na Rússia, foi um dos alvos do humor cáustico, mas saudável e correcto do ponto de vista linguístico. O aluno russo que o imitou foi fortemente aplaudido devido ao excelente trabalho na cópia de gestos, expressões.




Catarina Mikhalevitch, aluna do 4º ano de Relações Internacionais interpretou a “Banda” de Chico Buarque e “Não há estrelas no céu”, de Rui Veloso, revelando uma boa dicção e pronúncia, tanto na vertente brasileira como na portuguesa.



Um dos pontos altos do programa foi o skatche “Fonseca”, onde dois estudantes do 4º ano de Relações Internacionais contribuíram para a boa disposição da numerosa plateia, não ficando muito atrás do “Gato Fedorento”. Funcionários russos da Embaixada do Brasil em Moscovo também quiseram participar na festa com alegres canções tropicais, animando ainda mais a plateia.


Para terminar, alunos do primeiro ano de Língua Portuguesa da Universidade Estatal de Moscovo interpretaram a canção de Zeca Afonso “Somos filhos da madrugada”.
Porém, houve ainda uma surpresa. Zé Maria Boyoth, poeta e cantor angolano, é 3º secretário da Embaixada de Angola na capital russa e não se recusou a pegar na guitarra e a interpretar algumas das suas canções. Além de alunos e professores de português, na festa estiveram também presentes representantes diplomáticos de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique.



Actualmente, mais de duzentos alunos estudam a língua de Camões em vários institutos e universidades de Moscovo e São Petersburgo.

quarta-feira, junho 08, 2011

Contributo para História de Portugal ( Primeira tradução integral russa dos Lusíadas "morreu" no cerco de Leninegrado )

O autor da primeira tradução em russo dos “Lusíadas" morreu no cerco de Leninegrado, na II Guerra Mundial, antes de conseguir publicar o livro pelo que a obra maior de Camões só foi editada naquele país em 1988.
Ao longo dos séculos, partes do livro foram traudzidos para russo, mas a primeira versão poética integral da mais importante obra épica da língua portuguesa acabou por ter uma história trágica. Iniciada nos anos 30 do século XX, o tradutor, Mikhail Travtchetov, chegou a entregar a tradução na tipografia, mas o projeto falhou devido à Segunda Guerra Mundial.
Travtchetov morreu durante o cerco de Leninegrado, mas o manuscrito foi salvo e encontra-se na Biblioteca Nacional da Rússia. No entanto, a sua publicação não se realizou por falta de apoio das autoridades portuguesas, apesar de vários críticos reconhecerem a qualidade da sua tradução.
Os Lusíadas só foram integralmente publicados na Rússia em 1988, mas a obra épica de Camões foi bastante conhecida no país e chegou a ser parcialmente traduzida em prosa desde o século XVIII.
O terceiro canto dos Lusíadas, ou mais precisamente, a sua tradução em prosa a partir do francês para russo, foi publicada na Rússia em 1779, desconhecendo-se o seu autor.
Em 1788, Alexandre Dmitriev publica uma tradução completa dos Lusíadas, mas também em prosa, a partir do francês. Mais de cem anos depois, em 1897, o literato Alexandre Tchudinov publica outra tradução também em prosa, mas muito mais próxima do texto poético de Camões.
Nesse período, Vladimir Markov lança-se na tradução poética dos Lusíadas para russo, mas pouco mais de 15 páginas de texto foram publicadas em 1882.
E só em 1988, Olga Ovtcharenko publicou a sua tradução dos Lusíadas. A restante obra lírica de Camões está também totalmente traduzida para russo, mas esse trabalho só foi realizado na segunda metade do séc. XX, graças aos esforços de conhecidos tradutores do português como V. Levik, I.Tinianova e M.Talov.



quarta-feira, maio 28, 2008

Música coral portuguesa em São Petersburgo


O Coro de Câmara “Jovens Vozes de São Petersburgo” interpretou, na terça-feira, canções de autores portugueses dos séculos XVI-XX na Sala Pequena da Filarmónica de São Petersburgo, um dos maiores centros culturais da Rússia

Vinte e sete coralistas, dirigidos pelo maestro português João Tiago Santos, pretenderam transmitir aos ouvintes um amplo leque de obras da música coral, que abrange quatro séculos.

Na primeira parte, o coro interpretou Kyrie, de Manuel Cardoso (cerca de 1566-1650), Audivi vocem de caelo, de Duarte Lobo (cerca de 1565-1646), Laudate Pueri, de Lopes Morago (cerca de 1575 - depois de 1640), Regina caeli laetare, de João Rodrigues Esteves (1699-1755), e três cantigas e vilancetes do Cancioneiro Musical d’Elvas.

Na segunda parte do espectáculo, o centro das atenções virou-se para a música coral portuguesa do Século XX: Males de Amor, de Claudio Carneyro (1895-1963), Quatro Canções, de Joly Braga Santos (1924-1988), Das oliveiras frutos redondos, de Fernando Lopes Graça (1906-1994), Ó meu menino e Ó Senhora do Amparo!, de Eurico Carrapatoso (1962) e o tema popular português Tia Anica de Loulé.

O concerto, que teve casa cheia, foi organizado e patrocinado pelo Instituto Camões.

No início desta iniciativa, que coincidiu com o dia da fundação de São Petersburgo, João Mendonça João, leitor do Instituto Camões, quis sublinhar que se tratava de “uma prenda portuguesa para a cidade mandada edificar por Pedro, o Grande”.

“Além do mais, trata-se do primeiro concerto de música coral portuguesa na Rússia e esperamos que seja o reinício da presença musical lusa em São Petersburgo” - acrescentou.

Entre os séculos XVIII e XX, Portugal “exportou” para o Império Russo músicos e cantores de renome mundial. As salas de espectáculos de São Petersburgo ouviram obras de compositores lusos como Domingos Bomtempo e Marcos Portugal e intérpretes como Vianna da Mota. A cantora lírica Luísa Todi e a fadista Amália Rodrigues foram também aplaudidas na cidade.

Mais recentemente, em São Petersburgo actuaram os pianistas portugueses Maria João Pires e Filipe Pinto-Ribeiro.

Tratando-se do primeiro evento do género, o Instituto Camões optou por convidar os estudantes e professores de português das escolas superiores de São Petersburgo.

João Mendonça João disse à agência Lusa que cerca de 70 estudantes frequentam cursos de língua portuguesa na Universidade de São Petersburgo e no Instituto Pedagõgico Herzen.

“Claro que é sempre um risco apresentar pela primeira vez a cultura musical de um país pouco conhecido e longínquo. Mas, por outro, a novidade desperta a curiosidade dos ouvintes” - declarou à Lusa Mikhail Golikov, director artístico do Coro de Câmara “Vozes Jovens de São Petersburgo”.

O maestro João Tigao Santos reconheceu algumas dificuldades dos intérpretes russos:“como se tratou de um reportório absolutamente novo, tivemos algumas dificuldades com a língua, ou mais precisamente, com a fonética, estranha ao ouvido russo. Por isso, tivemos mesmo de ajustar o reportório”.

“O público teve mais sorte, porque recebeu a tradução para russo das canções por nós interpretadas. Esse trabalho foi realizado por alunas da Universidade Estatal de São Petersburgo” - acrescentou.

O maestro João Tiago Santos nasceu em Lisboa em 1977. Formado em direcção coral na Escola Superior de Música de Lisboa, encontra-se presentemente a realizar uma segunda licenciatura em direcção de orquestra no Conservatório de São Petersburgo.

Nesta cidade apresentou-se em concertos com as obras “Cinderela”, de António Spadaveccia, “Cosi fan tutte”, de Mozart, “Sheherazade”, de Rimski-Korsakov, “Romeu e Julieta” de Tchaikovski e “Nona Sinfonia”, de Shostakovitch.
P.S. Foi um espectáculo muito bonito, a bela sala de espectáculos estava cheia e o ambiente aí reinante foi fantástico.
Além disso, desta vez, a minha ida a São Petersburgo ficou também marcada por ter conhecido vários portugueses que vivem nessa cidade. Mais tarde, quando tiver tempo, escreverei sobre a Irmã Maria Teresa, que trabalha na Igreja de Santa Catarina, o pianista Luís Vasco e o cozinheiro Emídio Martinho. Tudo boa gente que, com os muitos amigos dos mais vários países do maestro João Tiago e do leitor João Mendonça João, criaram um momento único.
O maestro João Tiago tem um blogue Nevskiy Prospekt, que recomendo

segunda-feira, março 21, 2011

Bloqueio de Leninegrado impediu primeira edição em verso dos Lusíadas em língua russa


O bloqueio imposto pelas tropas alemãs à cidade soviética de Leninegrado, que começou em 1941 e se prolongou por 872 dias, impediu a publicação da primeira edição em verso dos Lusíadas, obra épica de Luís de Camões, em russo.

A tradução, realizada pelo filólogo russo Mikhail Travtchetov, estava praticamente acabada e pronta a ser editada pela “Lenizdat”, mas o cerco nazi não só impediu a sua publicação, como roubou a vida ao seu tradutor.

Mikhail Travtchetov nasceu São Petersburgo, em 1889, dedicando grande parte da sua vida ao ensino de Literatura nas escolas soviéticas e à tradução para russo de autores estrangeiros como Pierre Jean de Béranger, Lope de Vega, Calderon de la Barca, Lord Byron e Camões.

Em 1940, Travtchetov terminou a principal obra da sua vida, a tradução de português para russo dos Lusíadas de Camões. O redator dessa edição, professor Alexandre Smirnov, considerou-a “um acontecimento na literatura traduzida para russo”.

O texto da tradução foi entregue na tipografia na Primavera de 1941, mas a invasão da União Soviética pelas hordas hitlerianas adiou a sua publicação.

Andrei Rodosski, professor de língua e literatura portuguesas da Universidade de São Petersburgo (antiga Leninegrado), citando as palavras da irmã do tradutor, escreve que “o manuscrito que fora entregue à Editora Lenizdat desapareceu durante o bloqueio”.

Porém, conservaram-se os cadernos com os rascunhos da tradução, que atualmente fazem parte do espólio da Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo. Alguns dos fragmentos da tradução foram publicados na obra “Literatura Estrangeira. Época do Renascimento”, com edições em 1959 e 1976.

Não obstante ter sido publicada em russo uma tradução integral do poema épico camoniano em 1988, o professor Rodosski defende que a versão poética de Travtchetov não deve ser esquecida e merece ser impressa, pois possui grandes qualidades.

Depois de analisar as virtudes e defeitos da tradução de Travtchetov, Rodosski conclui: “as qualidades da tradução são bastante grandes e resta apenas lamentar que ela não tenha sido publicada até agora”.

É também de salientar que a Travtchetov traduziu outras obras do poeta português, nomeadamente os seus sonetos.

O destino do próprio tradutor russo foi tão dramático como o da sua obra. Tendo-se recusado a abandonar Leninegrado, tal como fizeram o grande compositor soviético Dmitri Chostakovitch e numerosos outros intelectuais, ficou livre do serviço militar por questões de saúde, mas inscreveu-se como bombeiro no Serviço de Defesa Anti-Aérea e Anti-Química da União Soviética.

Entre outras tarefas, os membros desse serviço deviam, nos telhados da cidade, vigiar a queda de bombas incendiárias lançadas pela aviação alemã a fim de as recolher rapidamente e impedir incêndios de edifícios. Em 1942, a revista norte-americana publica, na capa de um dos seus números, o retrato de Chostakovitch com o capacete de bombeiro.

Mikhail Travtchetov faleceu em Dezembro de 1941, quando regressava de um turno de vigilância noturna.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Faleceu pioneira do ensino da língua e literatura portuguesa na URSS

 
Elena Gueorguievna Golubeva, uma das pioneiras do ensino da língua portuguesa e da tradução de obras de português e galego para russo, faleceu hoje aos 81 anos na sua cidade natal, tendo lecionado na Universidade local até ao último dos seus dias.
Nascida em 1930, Elena Golubeva terminou Faculdade de Filologia da Universidade de Leninegrado, na especialidade de línguas portuguesa e galega. Ficou ligada para sempre a essa escola, uma das pioneiras no ensino da língua de Camões na União Soviética, onde lecionou Língua Portuguesa, Literatura dos Países Lusófonos e Teoria e Prática de Tradução.
Entre 1972 e 1995, dirigiu a Cadeira de Filologia Românica da Universidade Estatal de Leninegrado/São Petersburgo.
Golubeva participou na tradução de várias coletâneas de poesia portuguesa para russo, tendo vertido para a língua de Puschkin poetas lusos como Fernando Pessoa e Sofia de Mello Breyner. Além disso, traduziu “Sonetos” de Luís de Camões e “Poesia dos Trovadores. Antologia da Literatura Galega”.
No campo da prosa, Elena Golubeva traduziu escritores tão diversos como o brasileiro Machado de Assis, e os portugueses Alexandre Herculano, José Saramago, Rui Tavares e Gonçalo M. Tavares.
A professora é também autora de compêndios de língua portuguesa para alunos russos.
“Uma mulher muito humilde, discreta, mas de grande sabedoria. Quando eu dava aulas de conversação na Universidade de São Petersburgo, ela vinha ouvir-me para aperfeiçoar o seu português”, recorda João Mendonça, leitor do Instituto Camões em Moscovo, em declarações à Lusa.
“Desapareceu uma das personalidades que mais fez para divulgar o português na Rússia”, concluiu.
Elena Golubeva foi condecorada com a medalha soviética de “Veterano de Trabalho” e a medalha russa “Por ocasião do 300º aniversário de São Petersburgo”, mas não foi agraciada com qualquer ordem de Portugal ou do Brasil.

terça-feira, março 15, 2011

Novo compêndio de português para russos publicado na Rússia e Portugal



A Editora russa Filomatis acaba de lançar um manual “Português para Principiantes” que pretende colmatar algumas falhas no ensino da língua portuguesa na Rússia.
O manual, com uma tiragem de 3 000 exemplares, foi escrito por Galina Petrovna, professora de português no Instituto de Relações Internacionais de Moscovo (MGIMO), e João Mendonça João, leitor do Instituto Camões na Rússia.
“Trata-se de um manual elaborado em conformidade com os padrões europeus, tem um novo formato, mais atrativo, que contrasta com a austeridade dos manuais semelhantes anteriores publicados na Rússia”, declarou à Lusa João Mendonça João.
O leitor do Instituto Camões sublinha também que “o manual não contém textos ideológicos e políticos”, numa alusão ao fato de os manuais soviéticos de português estarem cheios de textos sobre “os êxitos da União Soviética” e “a luta do Partido Comunista Português pelos interesses dos trabalhadores”.
“Além disso -, continua João Mendonça João, - o manual é acompanhado de dois CD’s com diálogos e exercícios. Os diálogos foram gravados por portadores da língua”.
“Penso que se trata do primeiro manual elaborado na Rússia com o contributo de um nativo da língua”, concluiu.
O manual, que foi publicado com o apoio do Instituto Camões, da Fundação Gulbenkian e da empresa russa Rino Terra, irá custar cerca de 20 euros na Rússia.
Os autores disseram à Lusa que o manual também entrará no círculo livreiro português, desconhecendo-se a data do aparecimento nas livrarias.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Obras do compositores portugueses enchem Sala do Conservatório de Moscovo


O primeiro concerto de música coral portuguesa na capital russa, realizado no passado fim de semana, esgotou os bilhetes da Sala Rakhmaninov do Conservatório de Moscovo, um dos melhores palcos musicais de Moscovo.
O Coro de Câmara “Academia”, da Academia Russa de Música Gnessin, interpretou, sob a direcção do maestro português João Tiago Santos, obras de compositores portugueses do séc. XVI a séc. XX: Duarte Lobo, Lopes Morago, Rodrigues Esteves, Claudio Carneyro, Joly Braga Santos, Fernando Lopes Graça e Eurico Carrapatoso.
Após o concerto, o maestro João Tiago Santos não escondia a satisfação pela grande adesão do público russo à música coral portuguesa, pouco conhecida na Rússia.
"Como já tem acontecido em ocasiões anteriores, os músicos russos, num primeiro contacto, mostram uma certa desconfianca em relação ao nosso repertório. Mas ao longo dos ensaios, essa desconfianca foi-se transformando em empatia, e no concerto o coro interpretou a nossa música com grande entusiasmo. Acima de tudo, penso que conseguimos transmitir ao publico moscovita o espirito da nossa musica", declarou à Lusa, por telefone, o maestro português.
"O concerto insere-se na política que tem sido seguida pelo Instituto Camões de divulgação da cultura portuguesa. É bastante relevante o facto de o nosso repertório ser interpretado por músicos russos. Para grande satisfação nossa, verificou-se que os próprios músicos começaram a incluir algumas destas peças nos seus próprios programas”, acrescentou à Lusa João Mendonça João, leitor do Instituto Camões na Rússia.
“ Deste modo”- continua o organizador do evento - “alcança-se o objectivo ambicioso de ver a execução do nosso repertório alargada a outros coros. Para além do mais, a descoberta do património coral português suscitou tal curiosidade no seio dos músicos que se planeia ministrar um seminário de história da música portuguesa na Academia Russa de Musica Gnesin”.
João Tiago Santos é aluno finalista em Direcção de Orquestra no Conservatório de São Petersburgo, na classe do maestro Vassily Sinaisky. Participou em master-classes com Kurt Masur, Jorma Panula e Osvaldo Ferreira.
Apresenta-se em concertos em várias cidades da Rússia e do Brasil. Dirigiu a Orquestra Sinfónica Kapella de S. Petersburgo, Filçarmónica de Tomsk (Sibéria) e as orquestras sinfónicas dos festivais de Campos do Jordão e Curitiba.
Enquanto maestro de ópera, dirigiu, em São Petersburgo, “Cosi fan tutte” de Mozart e “Evgueni Oneguin de Tchaikovski.
João Santos é bolseiro do Instituto Camões.

terça-feira, abril 22, 2014

Afinal devo estar rico e não sabia...



Atenção: este senhor é um mentiroso


Publico da íntegra um comunicado hoje publicado pela Comissão de Trabalhadores da Agência Lusa, pois eu sou uma das pessoas alvos de calúnias do Sr. Miguel Poiares Maduro, ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional. Os comentários virão no fim:

“A Comissão de Trabalhadores da Agência Lusa lamenta e repudia as afirmações do ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, sobre a empresa e, em especial, sobre os jornalistas da rede externa que viram os contratos de trabalho precarizados. Na audição que decorreu hoje na Comissão Parlamentar de Ética, Cidadania e Comunicação da Assembleia da República – quando questionado sobre a precarização dos contratos de trabalho dos profissionais da rede externa da Lusa – o ministro Miguel Poiares Maduro acusou os jornalistas de ganharem muito e de produzirem pouco. Poiares Maduro disse que os contratos de trabalho (dos jornalistas da rede externa) “eram claramente elevados” e até superiores “aos ordenados dos deputados” da Assembleia da República e que apenas correspondiam com “três ou quatro peças” por mês. “De acordo com o Conselho de Administração os ordenados eram excessivos”, afirmou o ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional acrescentando que também foi informado pela administração da Lusa que a cobertura internacional “está assegurada”. A Comissão de Trabalhadores considera as afirmações do ministro da tutela irresponsáveis e ofensivas ao trabalho dos profissionais em questão demonstrando um total desconhecimento e absoluta insensibilidade sobre a cobertura permanente do noticiário internacional e que engloba igualmente o acompanhamento das dinâmicas das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Para a CT, a avaliação sobre os ordenados é insultuosa sendo ainda muito mais a acusação sobre o “envio de três ou quatro peças por mês” - que não corresponde à verdade – e que vinda do ministro responsável pela Lusa só pode constituir um ataque direto ao trabalho dos profissionais da Lusa, a única agência de notícias do país. Na prática, a política de austeridade aplicada à rede externa da Lusa afetou os postos da África do Sul, Paris, Londres, Moscovo, Caracas, Toronto, Brasil e Berlim. Alguns dos jornalistas viram-se na contingência de abandonar a empresa, outros viram o ordenado limitado sendo que a cobertura de acontecimentos internacionais está seriamente ameaçada para prejuízo do serviço público de notícias. Durante a audição, o ministro disse também que o Estado não reconhece a dívida à Lusa que está em contencioso nos tribunais e que continua a “conversar” com a empresa para resolver a situação. Apesar de se tratar de uma questão fundamental para a Lusa, Poiares Maduro desvalorizou como sempre o problema afirmando mesmo que a resolução do problema (contencioso jurídico) porque, afirmou, “o presidente do Conselho de Administração da Lusa diz que a empresa está equilibrada financeiramente”. A Comissão de Trabalhadores vai pedir reuniões com urgência ao ministro Miguel Poiares Maduro e ao presidente do Conselho de Administração da Lusa, Afonso Camões, por considerar que a situação da Lusa está longe do “equilíbrio” anunciado hoje em sede parlamentar e porque as explicações sobre da degradação da rede externa - que pressupõe o mesmo tipo de atitude contra outros setores da empresa – devem ser seriamente debatidas.
CT 22 de abril de 2014”

Desde já devo dizer que o que vou abaixo escrever apenas me diz respeito, pois desconheço os salários dos meus camaradas que trabalharam ou trabalham como correspondentes da Lusa no estrangeiro.
Sr. Miguel Poiares Maduro, V.E. e o Sr. Afonso Camões, presidente do Conselho de Administração da Lusa, que presumo lhe deve ter comunicado as minhas condições de trabalho na agência, são mentirosos e o Sr. Ministro cometeu um crime ao mentir e enganar os membros de uma Comissão Parlamentar.
É mentira grosseira e injuriosa declarar que o meu salário era “claramente elevado” e até superior “aos ordenados dos deputados” da Assembleia da República. Eu nunca recebi nem tanto, nem mais do que os 3. 189.48 euros, o salário mínimo mensal de um deputado português, e as despesas para realizar o meu trabalho ficavam muito aquém das ajudas de custo dos nossos representantes.
É ainda mais repugnante quando esses senhores afirmam que o salário correspondia a “três ou quatro peças” por mês, pois, no meu caso, a produtividade ficava acima da citada quantidade, mas por dia!!
Aceitei cortes para tentar ajudar a Agência Lusa a sobreviver e só saí quando me propuseram trabalhar à peça a preços degradantes.
Se eu estiver a mentir, a direcção da Lusa deverá ter dados para “refutar” as minhas afirmações, nomeadamente o número de peças assinado com a abreviatura JM.
Exmo. Senhor Afonso Camões, eu sei que a situação está difícil e ninguém quer perder os seus salários e empregos, mas há limites para tudo, por isso gostaria que viesse dizer publicamente que o senhor ministro mentiu, pelo menos em relação a mim.
E lanço um apelo a todos os deputados, incluindo os que representam a maioria governamental: vós fostes eleitos pelo povo, nomeadamente pelo meu voto, e não deveis permitir que vos mintam de forma descarada.



segunda-feira, maio 19, 2008

Chamem a polícia!

Durante a minha recente e breve passagem por Portugal, fui visitado por três amigos russos de Moscovo e apressei-me a mostrar-lhes a minha Pátria.
Como não podia deixar de ser, fui mostrar-lhes o Mosteiro dos Jerónimos e, junto do túmulo do nosso grande poeta Luís de Camões, falava-lhes da vida e obra do poeta, das traduções das suas obras, dos reflexos da sua obra na Rússia, ou seja, um daqueles lugares onde temos orgulho de ser portugueses. Nem todos os poetas portugueses viram as suas obras vertidas para russo, nem todos os poetas lusos tiveram o privilégio de serem citados e elogiados por russos de renome como Lomonossov, Jukovski, Puchkin, etc.
Mas, de súbito, à minha frente surgiu um homem que aparentava ser guia turístico e começou a "pregar-me um sermão" no latim moderno, ou seja, em inglês.
Os três russos ficaram estupefactos ao ouvirem o dito homem dizer que eu não tinha direito de estar com eles ali, ao lado do túmulo de Camões, nem no Mosteiro dos Jerónimos.
Quando ele terminou o discurso, virou a costas e foi ter com os seus turistas, mas, quando eu reatei o relato, voltou para trás e dirigiu-se uma vez mais a mim novamente em inglês.
Olhei para ele e perguntei-lhe se falava português. Quando me respondeu que sim, perguntei-lhe que me explicasse o que é que queria de mim. Ele respondeu-me: "Você não tem direito a estar aqui a falar com essas pessoas, porque não é guia turístico!"
Não obstante eu lhe ter dito que, daquela vez, eu não estava a servir de guia, mas que estava apenas a acompanhar os meus amigos, o guia voltou à carga e disse-me: "Vocês não podem ser mais de três".
Comecei-me a rir porque me lembrei do velho hábito russo de beber vodka a três, mas o homem é que não achou graça nenhuma à minha reacção.
"Vou chamar a GNR! Vou trazer aqui a GNR!" - disse homem com um ar claramente nervoso.
"Chame, eu vou ficar aqui à espera!" - respondi eu.
Os meus amigos russos perguntaram se não era melhor a gente se ir embora para não ter problemas, mas eu expliquei que não estava a cometer crime nenhum e que, provavelmente, o guia já tinha abandonado a ideia de ir chamar o agente da GNR. O que veio a acontecer.
Para que o leitor compreenda a "acção patriótica" do guia, tenho de fazer uma adenda a este texto. Efectivamente, em Portugal, só pessoas devidamente autorizadas é que podem fazer excursões com turistas e isso até teria sentido se o nosso país estivesse preparado para reagir atempadamente aos desafios do mundo moderno.
Na realidade, as escolas de turismo limitam-se a preparar guias com o conhecimento das línguas portuguesa, inglesa, espanhola, francesa, e pouco mais. Os novos mercados praticamente não são levados em conta.
Por exemplo, os russos visitam Portugal como destino turístico há pouco mais de dez anos. No ano passado, o Ministério da Economia registou quase 20 mil turistas russos, mas no nosso país há apenas seis (repito, seis!) guias que sabem falar língua russa. Tendo em conta a legislação rígida portuguesa face ao trabalho dos guias, a maioria desses turistas deveria ficar "a ver navios", isto porque os russos preferem que falem com eles na língua deles no estrangeiro, vendo nisso um motivo de orgulho. Além disso, há muitos russos que não falam outra língua.
Nesta situação, as pessoas que sabem russo e conhecem a História de Portugal vêem-se obrigadas a trabalhar "clandestinamente", o que é um profundo absurdo.
Lanço daqui um apelo directo ao Dr. Bernardo Trindade, Secretário de Estado do Turismo. O doutor Bernardo tem feito muito para fazer de Portugal um país de turismo para os russos. Na última exposição de turismo de Moscovo, o doutor esteve entre os que organizaram um pavilhão de que não podemos ter vergonha.
Porém, considero que é preciso resolver o problema dos guias para línguas exóticas como o chinês, russo, polaco, japonês, etc.
E aos guias portugueses de turismo apenas posso dizer. As pessoas que trabalham com turistas russos não são vossos concorrentes, porque falam uma língua que muito poucos de vocês falam. Seria mais importante que contribuissem para que as nossas escolas de turismo acompanhem o progresso. Isso seria bom para todos. Penso eu!...

terça-feira, janeiro 31, 2012

Que faz a CPLP no domínio da divulgação da língua portuguesa?

Nas últimas semanas, por várias razões, nomeadamente devido à realização de duas sessões do lançamento do meu livro "A Saga dos Portugueses na Rússia" em duas escolas de língua portuguesa de Moscovo, tive a oportunidade de constatar uma vez mais que continua a ser muito grande o interesse dos russos pela língua de Camões.
Não me pude queixar da falta de curiosos e interessados, bem pelo contrário, não esperava tanta gente. 
Esse interesse é ditado pelos mais diversos motivos: desde o simples facto de considerarem o português uma língua bonita até à intenção de ir trabalhar para Portugal ou para outro país de expressão portuguesa. 
São algumas centenas de alunos nas universidades e escolas  não só de Moscovo e São Petersburgo, mas também de Rostov no Don ou Piatigorsk, no Sul da Rússia. Ao certo, nunca ninguém se preocupou em calcular...
Esse número irá continuar a crescer visto que países como Angola, Brasil ou Moçambique estão em franco crescimento e, por diversas razões, tendem a aumentar as suas relações económicas, comerciais e políticas com a Rússia. O Brasil faz parte dos BRICS e Angola e Moçambique mantiveram estreitos laços de cooperação com Moscovo depois da proclamação da independência desses dois países africanos de expressão portuguesa.
Até agora, Portugal tem sido o país que maior apoio tem dado ao ensino do português na Rússia, mas sempre insuficiente, devido às limitações económicas do nosso país. Brasília deveria estar mais empenhada neste processo, porque os seus interesses são cada vez maiores na Rússia, mas os dirigentes brasileiros parece que ainda não tiveram tempo para olhar para este problema.
Quanto a Angola e Moçambique, a sua actividade neste campo, se existe, não é visível.
Tendo em conta a actual situação económica em Portugal, não se pode esperar que o Instituto Camões ou outras instituições lusas aumentem o seu apoio ao ensino do português na Rússia. Já seria bom se se mantivesse o nível de anos anteriores, o que não se regista.
Por isso, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa deveria dar início à união de esforços dos seus membros com vista a divulgar a nossa língua comum. 
Não sei se se realizam programas conjuntos noutras áreas do mundo, mas esta deveria ser uma das áreas importantes de cooperação.  
Caso avançasse essa política comum, não seria também de esquecer as numerosas pessoas que já falam português na Rússia e nas antigas repúblicas soviéticas. São dezenas de milhares de pessoas, algumas delas ocupam cargos importantes nas estruturas estatais, empresariais e políticas dos seus países, mas este filão não tem sido seriamente aproveitado pelos países lusófonos.
A julgar por Moscovo, e penso que noutras cidades e países a situação é a mesma, não se vêem iniciativas lançadas por vários países da CPLP ou por essa organização como um todo. E é pena, pois é daquelas áreas onde os frutos poderão ser reais com maior rapidez. Para isso é preciso plantar e tratar das plantas e não ficar à espera que as árvores de fruto cresçam sozinhas ou sejam plantadas e tratadas pelo vizinho.
 
 

sexta-feira, março 09, 2007

Rastos lusos em São Petersburgo


O nome e a actividade do iluminista português, António Ribeiro Sanches, estão estreitamente ligados à cidade de São Petersburgo, construída pelo czar Pedro I como “janela para a Europa”.

Daí este génio da época das luzes ter estado no centro das atenções da segunda etapa do ciclo de conferências dedicado às relações russo-português. A primeira parte decorreu em Moscovo e a segunda em São Petersburgo, na universidade local, com o apoio do Instituto Camões.

Tanto mais que, como sublinhou Pedro Calafate, professor da Universidade de Lisboa, os seus escritos continuam actuais.

“Gosto tanto da Rússia quanto lhe devo, e devo-lhe tudo o que possuo e tudo o que sou” – escrevia Ribeiro Sanches na obra Plano para a Educação de um Jovem Senhor.

Este amor e respeito pela Rússia levou o médico português a recomendar aos czares russos o respeito pela “propriedade dos bens”, bem como pela liberdade interior de querer ou não querer, amar, aborrecer, julgar ou não julgar, ver ou não ver, que são acções interiores que se passam dentro de nós”.

“A questão do primado – afirmou Pedro Calafate – afigurou-se essencial no seu combate pela reforma da sociedade russa, na qual a vontade do czar tendia a ser considerada como fonte única da lei”.

Segundo o professor português, Ribeiro Sanches dedica-se, na sua obra Sobre a Cultura e as Belas-Artes no Império da Rússia, a essa questão, “mostrando que uma monarquia pode ser governada de dois modos”. O primeiro por simples decretos, sem respeito pela propriedade e pela liberdade, atropelando o direito natural que é a base do direito histórico, oscilando ao sabor das circunstâncias e dos acidentes, colocando o conjunto da sociedade numa situação de imprevisibilidade e sem poder de antecipação dos actos e decisões.

Ribeiro Sanches é adepto do segundo modo: aquele que verdadeiramente propunha à sociedade e nobreza da Rússia, era o que se baseava em leis fixas, dispostas pelos tribunais, assegurando a liberdade e a propriedade dos bens a todos os indivíduos.

Nesta conferência, abordaram-se também a vida e a obra de famílias portuguesas ligadas à história de São Petersburgo, seguida de uma visita pela cidade-museu.

O Palácio de Menchikov, o primeiro grande edifício construído depois de Pedro I ter decidido edificar a nova capital russa nas margens do rio Neva. Aí, António Vieira, cristão-novo português organizou as primeiras “assembleias”, ou seja, festas para a nobreza russa.

A casa situada na Rua Moika, 12, onde, após ter sido ferido num duelo, faleceu o grande poeta russo Alexandre Puchkin, a 27 de Janeiro de 1837. Junto ao leito dele encontrava-se Juliana Strogonova, filha da Marquesa de Alorna, poetisa portuguesa.

A Praça do Senado, onde, a 14 de Dezembro de 1825, um grupo de oficiais russos organizou um levantamento armado contra o czar Nicolau I, inspirados, nomeadamente, nas revoluções liberais portuguesas. Do outro lado da barricada, estava João Velho, filho do primeiro consul de Portugal em São Petersburgo, José Velho. Tendo perdido um braço na contenda, João fez uma brilhante carreira militar e administrativa.

Hoje, a língua portuguesa continua viva nesta cidade do Báltico graças ao trabalho de João Mendonça, leitor do Instituto Camões, e professores da língua lusa como o poeta Andrei Rodosski, tradutor de obras de autores portugueses:Francisco Manuel de Melo, Almeida Garret, Alexandre Herculano, João de Deus, Mário de Sá-Carneiro,etc.

Professor Paulo Calafate e autor do blog na sala de conferências da Universidade de São Petersburgo



Praça do Senado. Estátua equestre de Pedro I


Palácio de Menchikov

Rua Moika, Nº 12

terça-feira, março 23, 2010

Português contínua a gozar de alguma procura na Rússia



A língua portuguesa continua a gozar de alguma procura nas escolas superiores russas, devendo-se ela, principalmente, ao incremento de relações entre a Rússia e países lusófonos como Angola e Brasil.
O português já não é tão popular entre os estudantes russos de hoje como era na era soviética, nos anos 70, 80 e 90 do séc. XX, quando a União Soviética passou a ter fortes interesses nas ex-colónias portuguesas: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde.
No entanto, nas universidades de Moscovo e São Petersburgo, mais de 300 alunos de vários cursos e anos tentam dominar a língua de Camões, Machado de Assis, Luandino Vieira e Mia Couto.
“A maioria dos estudantes de língua portuguesa esperam fazer carreira na diplomacia ou nas relações económicas, comerciais e outras entre a Rússia e principalmente o Brasil e Angola”, declarou à Lusa João Mendonça, leitor do Instituto Camões (IC) de Portugal na capital russa.
O IC tem um leitor a tempo inteiro em Moscovo e outro, em regime de part-time, o maestro João Tiago, em São Petersburgo. Além disso, o Brasil tem também um leitor na Universidade Estatal de Moscovo (Lomonossov).
Em Moscovo, o Instituto de Relações Internacionais é a escola superior russa com mais alunos: 131, sendo seguido pela Universidade de Línguas Estrangeiras: 70 e Universidade Estatal (Lomonossov): 30.
Em São Petersburgo, na Universidade Estatal há cerca de 50 alunos de português e na Universidade Pedagógica (Herzen): 30.
“O facto de o Instituto de Relações Internacionais estar em primeiro lugar deve-se, em parte, ao facto de, durante a crise económica, a carreira diplomática ter voltado a ganhar prestígio”, continua João Mendonça.
O trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia passou a gozar de menos prestígio depois da queda da União Soviética, em 1991, devido aos baixos salários dos diplomatas.
Além do ensino oficial, em Moscovo e São Petersburgo há escolas de português e os professores que dão aulas particulares também não se queixam de falta de trabalho”.
“Eu cobro mil rublos (cerca de 25 euros) por hora, mas há professores que levam mais caro”, declarou à Lusa um dos professores, sublinhando que os alunos são, fundamentalmente, homens de negócios ou pessoas que precisam de aprender rapidamente a língua para trabalharem em países lusófonos.
O aumento da popularidade da língua portuguesa na Rússia é travada pelo facto de as autoridades russas não lhe prestarem grande atenção. O Kremlin criou canais de televisão informativos em inglês, árabe e espanhol, mas não sente necessidade de melhorar a imagem do país nos países lusófonos.
Até há alguns anos atrás, a agência Ria-Novosti teve uma redação portuguesa, mas acabou por encerrá-la, restando apenas a rádio Voz da Rússia, antiga Rádio Moscovo, que transmite em ondas curtas, mas cujas audiências são desconhecidas.

quarta-feira, junho 04, 2008

Busca do "sentido da vida" e "ideia nacional" atrai leitores russos de Fernando Pessoa



Texto escrito por mim para a Agência Lusa a propósito do 120º aniversário de Fernando Pessoa

Uma rápida visita à internet russa mostra que o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) está longe de ser desconhecido entre os leitores russos.

Pelo contrário, traduzido por grandes poetas russos como Boris Pasternak, o autor do romance "Doutor Jivago", e Boris Slutski, Pessoa atrai os que andam à procura do "sentido da vida". Outros buscam na sua poesia a "ideia nacional".

"Os leitores russos não procuram a mesma coisa na poesia de Pessoa. Uns estudam na sua obra o fenómeno da heteronimia, que teve nele o expoente máximo e está ligado à tradição de Dostoievski" refere a professora Olga Ovtcharenko, em declarações à Lusa.

"Mas há outros - continua - que concentram as suas atenções na 'Mensagem', porque nela Pessoa estuda e revela a psicologia e ideia nacionais. Actualmente, na Rússia, assistimos a uma crise de identidade, de nacionalidade, daí o interesse pelo poeta português".

Segundo Olga Ovtcharenko, o escritor nacionalista russo Alexandre Prokhanov escreve muito sobre o Quinto Império, "mas as suas ideias sobre esse tema estão na obra de Fernando Pessoa".

Esta estudiosa da Literatura portuguesa reconhece que, primeiro, descobriu Camões e, depois, ao estudar a continuação da tradição camoniana na literatura lusa, chegou ao séc. XX e a Fernando Pessoa.

O seu interesse por Fernando Pessoa já se materializou na publicação de obras como "Fernando Pessoa e a tradição do ocultismo em Portugal", "Prosa oculta", "Concepção de Deus na obra de Fernando Pessoa" e "Problema do destino histórico de Portugal no ciclo poético de Fernando Pessoa".

Andrei Rodossky, professor de Língua e Literatura Portuguesas da Universidade de São Petersburgo, foi um dos que tentaram traduzir Fernando Pessoa para russo, mas desistiu.

"No início da minha actividade de tradutor, debrucei-me sobre 'Mar Português', mas essa tradução não foi publicada por ter um nível baixo e porque foram editadas traduções da obra de Pessoa de muito boa qualidade. Virei-me para Mário de Sá-Carneiro", disse.

Este professor é conhecido entre a comunidade lusófona na Rússia não só pela excelente tradução de obras de Mário de Sá-Carneiro, mas também de outros poetas portugueses modernos.

Rodossky atribui a existência de numerosas traduções da poesia de Fernando Pessoa para russo ao facto de "ele ser um lírico apurado, profundo, e de existirem traduções que dão uma imagem perfeita da sua riqueza poética".

"Obras como a 'Mensagem' são mais populares entre os russos que se interessam pela História de Portugal, enquanto que a maioria dos admiradores de Pessoa se interessa pela sua lírica, de um psicologismo profundo, que reflecte profundamente sentimentos e emoções", sublinha.

"Além disso - continua - a obra de Fernando Pessoa coincide temporariamente com o Século de Prata da poesia russa (primeiro terço do séc. XX). Este período era censurado pelo regime comunista e, quando cai, os russos estudam-no com intensidade, interessam-se pelo que se escrevia na Europa nessa altura e vão dar a Fernando Pessoa, um dos expoentes poéticos da época".

A obra poética de Fernando Pessoa foi numerosas vezes publicada na União Soviética e na Rússia.

Além das traduções de poemas dispersos por conhecidos poetas russos como Boris Pasternak e Boris Slutski (este ocupou-se da poesia do heterónimo Álvaro de Campos), é de salientar a publicação da colectânea "Lírica", com prefácio de Jacinto Prado Coelho, em 1978, "35 sonetos ingleses de Pessoa", traduzido por Valerii Pereleshin, bem como outras colectâneas em 1988 e 1989.

Pereleshin, pseudónimo de Valerii Salatko-Petryshche, foi um poeta que saiu da Rússia em 1917, depois da vitória da revolução comunista. Viveu na China até 1952 e depois no Brasil. É nesse país lusófono que este poeta traduz para russo parte da obra de Fernando Pessoa e alguns sonetos de Luís de Camões.

Mas a maior edição das obras poéticas de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Coelho Pacheco, Álvaro Campos) foi realizada em 1989 e nela participaram conhecidos tradutores russos de poesia portuguesa como E.Vitkovski, A.Guleskul, A.Kosse, B.Dubin, V.Reznitchenko e S. Aleksandrovski.

Em 1977, Olga Ovtcharenko publica a sua tradução da obra "Mensagem" e Boris Dubin edita em russo "Páginas Dispersas".

No ano seguinte, alguns poemas de Fernando Pessoa são publicados na colectânea "Estrofes do século -2", que reúne poemas dos maiores poetas do século XX.

Em 2006, o poeta português chega de novo aos leitores russos noutra colectânea: "Século da Tradução".

O interesse pela obra de Fernando Pessoa na Rússia aumenta consideravelmente nos últimos anos devido à publicação em língua russa dos romances "Os últimos três dias de Fernando Pessoa", de António Tabucchi, e "Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago.

"Foi o primeiro autor que li em português e gostei muito, porque não imaginava que numa língua cheia de "ches" se podia escrever poesia tão lírica e bela", declarou à Lusa Nikita Muraviov, estudante do primeiro ano de língua portuguesa do Instituto de Relações Internacionais de Moscovo.

"É o verdadeiro Pushkin português", qualificou. Alexandre Pushkin é considerado o maior de todos os poetas russos.

A poesia de Fernando Pessoa serve também para vender flores. Várias floristas russas citam o poeta português para promover a sua produção: "E o jardim tinha flores/De que não me sei lembrar... Flores de tantas cores... Penso e fico a chorar...".

Os versos de Pessoa "Se te queres matar, porque não te queres matar?" servem de mote a um estudo do Instituto de Psicoterapia e Psicologia Clínica da Rússia com vista a prevenir o suicídio: "Que dizer a um homem que está no telhado. Texto para impedir suicídios".

segunda-feira, abril 15, 2013

Centro de Língua e Cultura Portuguesas na Rússia comemorou aniversário em crescimento


O Centro de Língua e Cultura Portuguesas na Rússia assinalou, no domingo, o seu sétimo aniversário num ambiente de confiança no futuro, não obstante todas as dificuldades.
"Começámos apenas com seis alunos numa pequena sala em 2006 e hoje temos cerca de 150 alunos divididos em 17 grupos. Então não imaginava que houvesse tanta gente que quisesse aprender português", declarou à Lusa Stanislav Mikos, o luso que hoje dirige este centro.
O número de russos que querem aprender a língua de Camões e de Fernando Pessoa aumenta a olhos vistos: uns porque apostam no português na sua carreira profissional, outros porque possuem ou tencionam adquirir imobiliário e outros simplesmente porque gostam de Portugal.
"Fui a Portugal, apaixonei-me pelo país e o povo. Depois, quis aprender português para os compreender", resume uma das alunas.
O Centro de Estudo da Língua e Cultura Portuguesas na Rússia gostaria de dar resposta a todos os pedidos, mas as dificuldades são muitas.
"O maior dos problemas é conseguir arrendar instalações a preços compatíveis com a nossa atividade. Os preços das rendas em Moscovo são enormes", precisou Stanislav.
O diretor do centro agradeceu o apoio concedido pela Embaixada de Portugal na Rússia.
Porém, as autoridades de Lisboa ainda não despertaram para este grande interesse dos russos pela língua de Camões, sendo, por isso, inexistentes apoios ao nível institucional.
Mas, como mágoas não pagam dívidas, o aniversário do centro transformou-se numa alegre festa. Tanto mais que não faltou vinho português, oferecido pelo Portunion, grupo de empresas lusas que exportam para o mercado russo vinhos e produtos alimentares portugueses.
Foram também testados os conhecimentos dos alunos com perguntas sobre cultura e tradição portuguesas, tendo sido entregues todos os sete prémios preparados para o efeito.

domingo, fevereiro 15, 2009

Música portuguesa em São Petersburgo



A Orquestra Sinfónica Kapella de São Petersburgo, sob a direcção do jovem maestro português João Tiago Santos (na foto), interpretou, ontem à noite, obras de compositores lusos para uma sala quase cheia, com mais de 700 espectadores.
“É uma experiência única. Um público exigente quase enche uma sala de espectáculos de São Petersburgo num concerto onde são intrerpretadas obras de compositores de um país tão pouco conhecido como Portugal”, declarou por telefone à Lusa o maestro João Tiago Santos.
A orquestra interpretou “Modos de Expressão Ilimitada”, de Eurico Carrapatoso; “Abertura D.Inês de Castro”, de Viana da Motta, e “Sinfonia n.1 em ré menor, op. 08, “Aos heróis e másrtires da última guerra mundial””, de Joly Braga Santos.
“Foi um excelente concerto. A sala de espectáculos estava quase cheia, tinha mais de setecentas pessoas, o que é muito bom”, considerou João Mendonça, leitor do Instituto de Camões em Moscovo, que se deslocou a São Petersburgo especialmente para assistir ao concerto.
Depois de cantar durante oito anos no Coro da Gulbenkian e de ocupar o cargo de maestro-assistente da Orquestra do Algarve, o maestro João Tiago ingressou, em 2004, na Faculdade de Direcção de Orquestra do Conservatório de São Petersburgo.Dirigiu a Orquestra do Teatro de Ópera do Conservatório de São Petersburgo e a Orquestra Sinfónica de Tomsk, na Sibéria.
“No início, quando comecei a ensaiar as obras, os músicos da orquestra, que são mais de 80, olhavam com desconfiança, porque não tinham ideia do que iam tocar, mas foram gostando à medida que ensaiavamos”, acrescentou o maestro.
“Eles não estavam à espera que em Portugal se compusesse música clássica de tão alto valor. Foi uma surpresa muito agradável”, frisou João Tiago Santos.
“Todas as três composições foram recebidas muito bem pelo público, que não poupou aplausos”, acrescentou João Mendonça.
O concerto da Orquestra Sinfónica Kapella de São Petersburgo foi patrocionado pelo Instituto de Camões.
Nos próximos dias 21 e 22 de Fevereiro, em Moscovo, a soprano portuguesa Lara Martins interpretará a “Ária de Nicea” da Ópera Testoride Argonauta, de João de Sousa Carvalho, bem como obras de Anton Arensky e Franz Schubert.

sábado, setembro 07, 2013

ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA CADA VEZ MAIS POPULAR NA RÚSSIA

 A língua de Camões não pode competir na Rússia com o inglês, chinês ou espanhol, mas é cada vez maior o número de russos que estuda português e o crescimento não é maior devido à falta de infraestruturas e apoios.
A língua portuguesa é lecionada em várias universidades e escolas superiores de Moscovo e São Petersburgo, bem como de cidades como Kazan, Rostov no Don e Petegorsk.
Porém, o maior número de russos frequenta escolas e cursos privados em Moscovo que não têm as condições necessárias para responder à grande procura.
"Em relação às perspetivas, acho que o crescimento que temos tido até agora é para continuar. Acredito que haverá cada vez mais pessoas que vão querer aprender a língua de Camões", declarou à Lusa o português Stanislav Mikos, diretor da instituição social Centro Cultural Português na Rússia.
"Num futuro próximo, iremos sentir falta de professores preparados para ensinar português na Rússia. Vamos também ter problemas a nível de instalações porque, nas que temos, não cabem todos os interessados. Além disso, vamos tentar abrir centros noutras cidades", disse Mikos.
O arrendamento de salas em Moscovo é um dos mais caros do mundo, o que trava o aumento das escolas privadas existentes.
Quanto ao que leva os russos a estudar português, Mikos sublinha: "Portugal passa a ser um destino turístico cada vez mais apetecível para os russos. Graças ao turismo, o país torna-se conhecido não só em Moscovo e em S. Petersburgo, mas também na província. A razão para isso é simples: Portugal é espetacular, e isso é fácil de notar. Basta lá ir uma única vez".
"Depois acontece o mais importante: como o país é mesmo único, os russos visitam-no, apaixonam-se e já não imaginam a sua vida sem Portugal. Começam a voltar. Os que podem, compram casas, outros limitam-se a passar aí férias todos os anos. Há quem queira imigrar. No nosso fórum já há muitas pessoas que discutem a possibilidade de abrir um negócio em Portugal ou investir para conseguir autorização de residência e, posteriormente, a cidadania", acrescenta ele.
"Além disso, os russos já não precisam de visto para ir ao Brasil. Isto contribui para que o Brasil também fique mais conhecido. Bossa nova e capoeira estão na moda. Isso tudo cria uma espécie de sinergia, o que faz com que a nossa língua seja cada vez mais falada na Rússia", concluiu.
Ruslan Baskakov, diretor do Centro de Língua Portuguesa e de Culturas dos Países Lusófonos, quantifica as razões por detrás do estudo da língua portuguesa na Rússia: "Podemos dividir todos os alunos que estudam português ibérico em quatro grupos: 1) mulheres que têm relações com portugueses e planeiam criar famílias - 65 por cento; 2) pessoas que têm imobiliário em Portugal - 20 por cento; 3) turistas - 10 por cento e 4) os outros - 5%".
"Quanto ao aumento do número de estudantes, nota-se, mas não é tão forte. É de aproximadamente 20-30 por cento", considera o diretor dessa escola privada.
As autoridades e homens de negócios portugueses não souberam utilizar o facto de milhares de soviéticos terem estudado português nos anos de 1970 e de 1980 para entrarem no mercado dos países da antiga União Soviética. Talvez saibam aproveitar esta segunda oportunidade.