"Barbarismo, Padrinhos e Internet
Irkutsk foi palco, no passado dia 2 de Dezembro, de um acidente de viação com contornos sinistros, cujos desenvolvimentos podem bem ser um testemunho atroz do poder do compadrio político na sociedade russa.
Anna Shavenkova, 28 anos, filha da presidente da comissão eleitoral da região, e ela própria consultora política do partido Rússia Unida, terá perdido o controlo da viatura que conduzia, tendo esmagado no processo duas transeuntes, Yelena Pyatakova e a sua irmã Yulia. Yelena faleceu mais tarde no hospital, enquanto que a sua irmã escapou à morte com traumatismos graves e continua hospitalizada.
Uma câmara de um sistema de segurança próximo do local filmou o acontecimento. O respectivo vídeo, que foi rapidamente publicado no YouTube e exibido numa série de cadeias de televisão, é perturbador, mostrando o comportamento caloso da condutora na sequência do acidente. Com as duas vítimas inanimadas no passeio, Shavenkova parece preocupar-se mais com os danos no seu veículo e em fazer uns telefonemas, do que com a sorte das pessoas que acabou de atropelar. No entanto, o mais assombroso desta história é o facto de não ter sido inicialmente levantada qualquer acusação contra Shavenkova, tendo a polícia tratado a condutora como uma mera testemunha do acidente. De acordo com o site Babr.ru, nem sequer foi efectuado o habitual teste de alcoolemia.
Este poderia ter sido mais um caso de negligência criminosa abafado através de contactos políticos, em que os seus autores escapariam impunemente a qualquer acusação, ou tão só à simples investigação das circunstâncias dos seus actos. Contudo, o carácter explícito do vídeo colocado no YouTube desencadeou uma onda de protestos e acusações de interferência política no tratamento do acidente. Esta pressão pública, que incluiu uma vaga de posts no Twitter, levou a que a polícia abrisse finalmente um inquérito ao comportamento da condutora, na qual a mesma é finalmente considerada como suspeita de actos criminais. Quanto à forma como a polícia lidou inicialmente com o acidente, Viktor Grigorov, advogado da família das vítimas, afirmou: "é preocupante que o investigador tenha não só permitido acções ilegais ou simples inacção relativamente a este caso, como também a ocorrência de um grande número de erros graves, quer acidentais, quer intencionais."
Mesmo havendo inquérito, não é certo que o mesmo seja conduzido de forma transparente e que a autora seja condenada, especialmente num país onde a letra da lei é tradicionalmente ignorada ou distorcida para beneficiar a classe vassala do poder. Todavia, este é um caso que deveria dar que pensar a quem muitas vezes desdenha o poder da sociedade civil como contrapeso aos abusos da casta dirigente, apelidando-a de "capricho ocidental".
Seja como for, é certo que, se os media e a internet não se esquecerem rapidamente deste triste caso, as probabilidades de um desfecho justo para as vítimas serão infinitamente maiores. Esta é assim uma lição que deveria ser absorvida por todos os sectores da sociedade russa.
Segue abaixo o link para o vídeo da câmara de segurança. Não aconselhado a expectadores sensíveis.




