
A Cimeira de Khabarovsk nada trouxe de concreto no incremento das relações entre Moscovo e Bruxelas, a não ser a promessa de continuação do diálogo, o que já não é pouco nos tempos actuais.
Voltaram a vir à tona as divergências no campo da energia. A UE insiste na necessidade da Rússia ratificar a Carta Energética, o Presidente Dmitri Medvedev responde "jamais!" e exige a elaboração de um novo documento. O problema já é antigo: a Europa quer ter acesso aos oleodutos e gasodutos russos, que continuam a ser monopólio de Estado, e Moscovo quer ter acesso ao mercado retalhista do gás no Velho Continente, bem como à aquisição de activos financeiros, o que é visto com desconfiança por Bruxelas.
A "guerra do gás" entre a Rússia e a Ucrânia esteve também no centro das atenções. Medvedev considera que a responsabilidade não é só do país fornecedor de combustível, mas também do país de trânsito e insinua que Kiev não tem dinheiro para comprar o gás necessário para encher os seus reservatórios, que, no próximo Inverno, irão fornecer a Europa. Trata-se de qualquer coisa como quatro mil milhões de dólares.
Por isso, o Kremlin afirma que, se a UE quer receber gás, tem de ajudar a Ucrânia a pagar a factura.
Iakov Urinson, antigo ministro da Economia da Rússia, chama a atenção para o facto de Moscovo estar a "puxar demasiadamente a corda" no diálogo com a UE, recordando que "no primeiro trimestre deste ano, os fornecimentos de gás russo à Europa diminuiram em 40%, mas que o consumo geral desceu apenas em 3-5%".
O Kremlin exige também a elaboração de um Tratado de Segurança Europeia que substitua o Acordo de Helsínquia de 1975, mas a UE, antes da cimeira, considerava que não vale a pena mexer nisso. Porém, durante a reunião de Khabarovski, Javier Solana aceitou pensar nessa possibilidade, sublinhando que o novo documento deverá conservar o "espírito de Helsínquia".
Trata-se de uma questão complexa, pois Moscovo pretende fixar no papel as novas realidades políticas e geográficas na Europa, que continuam a ser muito confusas. Irá defender o reconhecimento da independência da Abkházia e Ossétia do Sul em relação à Geórgia e talvez troque isso pelo reconhecimento do Kosovo. Mas isto é apenas uma suposição, pois, durante a cimeira, Geórgia e Kosovo foram dois pomos de discórdia.
O Kremlin também não olha com bons olhos para a "Parceria Oriental", organização que reúne alguns países do antigo "campo soviético" (Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia, Geórgia, Arménia e Azerbaijão) e que visa incrementar a cooperação com a UE, pois continua a achar que ninguém deve entrar na sua zona de influência, vendo nessa organização mais uma tentativa de isolar a Rússia.
As relações entre Moscovo e a UE degradaram-se seriamente em Agosto do ano passado, devido à guerra entre a Rússia e a Geórgia, e não conseguem voltar à normalidade.